OS TRS MOSQUETEIROS

Volume Terceiro


ALEXANDRE DUMAS


Coleco Livros de Bolso - 407


Publicaes Europa Amrica


Digitalizao e Arranjo


Agostinho Costa


Texto Digitalizado para ser lido
por Deficientes Visuais


Ttulo original: Ls Trois Mousquetaires


Traduo de Adelino dos Santos Rodrigues


Direitos reservados por Publicaes Europa-Amrica, Lda.


Apartado 8

2726 MEM MARTINS CODEX

PORTUGAL



      NDICE


      XLI - O cerco de La Rochelle ................... 11
      XLII - O vinho de Anjou ........................ 20
      XLIII - A Estalagem do Pombal Vermelho ......... 26
      XLIV - Da utilidade das chamins ............... 32
      XLV - Cena conjugal ............................ 38
      XLVI - O bastio Saint-Gervais ................. 43
      XLVII - O conselho dos mosqueteiros ............ 48
      XLVIII - Questo familiar ...................... 61
      XLIX - Fatalidade .............................. 71
      L - Conversa dum irmo com a sua irm .......... 77
      LI - Oficial ................................... 83
      LII - Primeiro dia de cativeiro ................ 91
      LIII - Segundo dia de cativeiro ................ 96
      LIV - Terceiro dia de cativeiro ............... 102
LV - Quarto dia de cativeiro .................. 108
LVI - Quinto dia de cativeiro ................. 114
LVII - Um meio de tragdia clssica ........... 125
LVIII - Evaso ................................ 129
LIX - O que se passou em Portsmouth a 23
                        de Agosto de 1628 .............. 136
      LX - Em Frana ................................ 144
      LXI - O Convento das Carmelitas de Bthune .... 148
      LXI1 - Duas variedades de demnios ............ 157
      LXIII - Uma gota de gua ...................... 162
      LXIV - O homem da capa vermelha ............... 172
      LXV - O julgamento ............................ 176
      LXVI - A execuo ............................. 182
      LXVII - Concluso ............................. 185
      Eplogo ....................................... 193



      CAPTULO XLI - O CERCO DE LA ROCHELLE


      O cerco de La Rochelle foi um dos grandes acontecimentos polticos do reinado de Lus XIII e uma das maiores empresas militares do cardeal.  portanto interessante 
e at necessrio que digamos algumas palavras a seu respeito; alis, vrios pormenores do cerco relacionaram-se de forma demasiado importante com a histria que 
nos propusemos contar para que os passemos em silncio.
Os objectivos polticos do cardeal, quando empreendeu o cerco, eram considerveis. Exponhamo-los primeiro e passemos depois aos fins particulares, que talvez no 
tenham sobre Sua Eminncia menos influncia do que os primeiros.
Das cidades importantes dadas por Henrique IV aos huguenotes como lugares de segurana j s restava La Rochelle. Tratava-se portanto de destruir o ltimo bastio 
do calvinismo, germe perigoso a que se vinham constantemente juntar fermentos de revolta civil ou de guerra estrangeira.
Espanhis, ingleses e italianos descontentes, aventureiros de todas as naes e soldados improvisados de todas as seitas acorriam  primeira chamada s fileiras 
dos protestantes e organizavam-se como uma vasta associao cujos ramos divergiam  vontade sobre todos os pontos da Europa.
La Rochelle, que adquirira nova importncia devido  runa das outras cidades calvinistas, era portanto o foco das dissenses e das ambies. Mas havia mais: o seu 
porto era a ltima porta aberta aos Ingleses no reino de Frana; e fechando-a  Inglaterra, nossa eterna inimiga, o cardeal conclua a obra de Joana d'Arc e do duque 
de Guise.
Por isso, Bossompierre, que era simultaneamente protestante e catlico, protestante por convico e catlico como comendador do Esprito Santo; Bassompierre, que 
era alemo de nascimento e francs de corao; Bossompierre, enfim, que tinha um comando especial no cerco de La Rochelle, dizia, carregando  frente de vrios outros 
fidalgos protestantes como ele:
- Vero, meus senhores, que seremos to estpidos que tomaremos La Rochelle!
E Bassompierre tinha razo: o canhoneio da ilha de R pressagiava-lhe as dragonadas das Cvemies:
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a tomada de La Rochelle era o prefcio da revogao do edicto de Nantes.
Mas, como dissemos, a par destes objectivos do ministro nivelador e simplificador, e que pertencem  Histria, o cronista  forado a reconhecer as pequenas intenes 
do homem apaixonado e do rival ciumento.
Richelieu, como todos sabem, apaixonara-se pela rainha; se nele esse amor tinha um simples objectivo poltico ou era muito naturalmente uma dessas profundas paixes 
como as que inspirou Ana de ustria queles que a rodeavam, no saberamos dizer; mas em todo o caso, viu-se, pelos acontecimentos anteriores desta histria, que 
Buckingham lhe levara a melhor e que em duas ou trs circunstncias, especialmente na das agulhetas, fora, graas  dedicao dos trs mosqueteiros e  coragem de 
d'Artagnam, cruelmente mistificado.
Tratava-se portanto para Richelieu, no s de desembaraar a Frana de um inimigo, mas tambm de se vingar de um rival; de resto, a vingana devia ser grande e dar 
brado, e em tudo digna de um homem que tinha na mo, por espada de combate, as foras militares de todo o reino.
Richelieu sabia que combatendo a Inglaterra combatia Buckingham, que triunfando da Inglaterra triunfava de Buckingham, enfim que humilhando a Inglaterra aos olhos 
da Europa humilhava Buckingham aos olhos da rainha.
Pela sua parte Buckingham, embora colocando  frente a honra da Inglaterra, era movido por interesses absolutamente semelhantes aos do cardeal; Buckingham tambm 
visava uma vingana particular: j que sob nenhum pretexto conseguira entrar em Frana como embaixador, queria l entrar como conquistador.
E disto resultava que o verdadeiro prmio da partida, que os dois mais poderosos reinos jogavam por vontade de dois homens apaixonados, era um simples olhar de Ana 
de ustria.
A primeira vantagem pertencera ao duque de Buckingham: chegado inopinadamente  vista da ilha de R com noventa navios e cerca de vinte mil homens, surpreendera 
o conde de Toiras, que comandava a ilha em nome do rei; depois de um combate sangrento, conseguira desembarcar.
Digamos de passagem que no combate morrera o baro de Chantal, que deixara rf uma filhinha de dezoito meses.
Essa menina foi mais tarde a Sr.a de Svign.
O conde de Toiras retirou-se para a Cidadela de Saint-Martin com a guarnio e colocou uma centena de homens num pequeno forte chamado Forte de La Pre.
Este acontecimento apressara as resolues do cardeal; e enquanto esperava que o rei e ele pudessem ir assumir o comando do cerco de La Rochelle, que estava decidido, 
fizera partir Monsieur para dirigir as primeiras operaes e encaminhar para o teatro da guerra todas as tropas de que pudera dispor.

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Era do destacamento enviado como guarda-avanada que fazia parte o nosso amigo d'Artagnan.
Como dissemos, o rei devia partir logo que terminasse a sesso do Parlamento; mas ao levantar-se da tribuna que lhe estava reservada, em 28 de Junho, sentira-se 
febril; nem por isso quisera deixar de partir, mas como o seu estado piorara fora obrigado a deter-se em Villeroi.
Ora, onde parava o rei paravam os mosqueteiros; e da resultava que d'Artagnan, que pertencia pura e simplesmente s Guardas, se encontrava separado, pelo menos 
momentaneamente, dos seus bons amigos Athos, Porthos e Aramis. Tal separao, que no passava para ele de uma contrariedade, sem dvida se transformaria em sria 
preocupao se pudesse adivinhar de que perigos desconhecidos se encontrava rodeado.
No entanto, no deixou de chegar sem incidente ao acampamento instalado diante de La Rochelle, por volta de 10 de Setembro de 1627.
Estava tudo na mesma: o duque de Buckingham e os seus ingleses, senhores da ilha de R, continuavam a cercar, mas sem xito, a Cidadela de Saint-Martin e o Forte 
de La Pre, e as hostilidades com La Rochelle tinham comeado havia dois ou trs dias, depois de concluda uma fortificao que o duque de Angoulme mandara construir 
perto da cidade.
Os guardas, sob o comando do Sr. dos Essarts, estavam alojados no Mnimos.
Mas, como sabemos, d'Artagnan, preocupado com a ambio de passar para os mosqueteiros, raramente fizera amizade com os seus camaradas; encontrava-se portanto isolado 
e entregue s suas prprias reflexes.
Reflexes que no eram risonhas: havia um ano que chegara a Paris e se metera nos negcios pblicos, e os seus negcios particulares no tinham avanado grande coisa, 
quer no amor, quer na fortuna.
No amor, a nica mulher que amara fora a Sr.a Bonacieux, e a Sr.a Bonacieux desaparecera e ainda no conseguira descobrir o que lhe acontecera.
Na fortuna, tornara-se, pobre de si, inimigo do cardeal, isto , de um homem diante de quem tremiam os maiores do reino, a comear pelo rei.
Aquele homem podia esmag-lo, e no entanto no o fizera: para um esprito to perspicaz como o de d'Artagnan, semelhante indulgncia era uma luz que lhe permitia 
descortinar um futuro melhor.
Depois, arranjara ainda outro inimigo menos temvel, pensava, mas que apesar disso sentia instintivamente no ser de desprezar; esse inimigo era Milady.
Em troca de tudo isso adquirira a proteco e a benevolncia da rainha, mas a benevolncia da rainha era, nos tempos que corriam, mais um motivo de perseguio; 
e a sua proteco, era sabido, protegia muito mal: testemunhas, Chalais e a Sr.a Bonacieux.
O que ganhara que se visse em tudo aquilo fora o diamante de cinco ou seis mil libras que trazia no dedo;

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e mesmo esse diamante, na hiptese de d'Artagnan, nos seus projectos ambiciosos, querer guard-lo para dispor um dia de um sinal de reconhecimento junto da rainha, 
no tinha entretanto, uma vez que se no podia desfazer dele, mais valor do que as pedras que pisava.
Dizemos do que as pedras que pisava porque d'Artagnan fazia estas reflexes passeando solitariamente por um bonito caminho que levava do acampamento  aldeia de 
Angoulins; ora estas reflexes tinham-no conduzido mais longe do que imaginava, e o dia comeava a morrer quando ao ltimo raio do Sol poente lhe pareceu ver brilhar 
atrs de uma sebe o cano de um mosquete.
D'Artagnan tinha olho vivo e reflexos rpidos; compreendeu que o mosquete no viera ali ter sozinho e quem o trouxera no se escondera atrs de uma sebe com intenes 
amistosas. Resolveu portanto passar de largo, quando do outro lado do caminho, atrs de um rochedo, divisou a extremidade de segundo mosquete.
Era evidentemente uma emboscada.
O jovem deitou uma olhadela ao primeiro mosquete e viu com certa inquietao que se baixava na sua direco; mas logo que viu o orifcio do cano imvel deitou-se 
de bruos no cho. Ao mesmo tempo o tiro partiu e ouviu o silvo de uma bala passar-lhe por cima da cabea.
No havia tempo a perder. D'Artagnan levantou-se de um salto e ao mesmo tempo a bala do outro mosquete faz voar as pedras do prprio stio do caminho onde o nosso 
amigo se deitara de bruos no cho.
D'Artagnan no era um desses homens inutilmente bravos que procuram uma morte ridcula para que no se diga que recuaram um passo; alis, ali no se tratava de coragem, 
pois d'Artagnan cara numa cilada.
"Se disparam terceiro tiro, sou um homem morto!", disse para consigo.
E dando imediatamente s de vila-diogo, fugiu na direco do acampamento com a velocidade da gente da sua terra, famosa pela sua agilidade; mas fosse qual fosse 
a rapidez da sua corrida, o primeiro que disparara tivera tempo de recarregar a arma e mandou-lhe segundo tiro, desta vez to bem apontado que a bala lhe atravessou 
o chapu e f-lo voar a dez passos do nosso homem.
Contudo, como d'Artagnan no tinha outro chapu, apanhou aquele sem deixar de correr, chegou esbaforido e muito plido ao seu alojamento, sentou-se sem dizer nada 
a ningum e ps-se a reflectir.
O acontecimento podia ter trs causas:
A primeira e a mais natural podia ser uma emboscada dos Rocheleses, que no se importassem de matar um dos guardas de Sua Majestade, no s porque seria um inimigo 
a menos, mas tambm porque esse inimigo podia ter uma bolsa bem recheada na algibeira.
D'Artagnan pegou no chapu, examinou o buraco da bala e abanou a cabea. A bala no era uma bala de mosquete, era uma bala de arcabuz; a certeza do tiro j lhe dera 
a ideia de ter sido disparado por uma arma especial:

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no fora portanto uma emboscada militar, porque a bala no era desse calibre.
Podia ser uma boa lembrana do Sr. Cardeal. Lembremo-nos de que no preciso momento em que, graas quele abenoado raio de sol, vira o cano da arma, estranhava a 
longanimidade de Sua Eminncia a seu respeito.
Mas d'Artagnan abanou a cabea. Quando se tratava de pessoas para as quais lhe bastava estender a mo, Sua Eminncia raramente recorria a semelhantes meios.
Podia ser uma vingana de Milady.
Isso era mais provvel.
Procurou inutilmente recordar-se das feies ou da indumentria dos assassinos; afastara-se deles to depressa que no tivera tempo de reparar em nada.
- Ah, meus pobres amigos! - murmurou d'Artagnan. - Onde estais? E que falta me fazeis!
D'Artagnan passou uma noite pssima. Acordou trs ou quatro vezes em sobressalto, imaginando que um homem se aproximava da sua cama para o apunhalar. No entanto, 
o dia nasceu sem que as trevas tivessem trazido qualquer incidente.
Mas d'Artagnan desconfiou que o que estava adiado no estava perdido.
Permaneceu todo o dia no seu alojamento, dando por desculpa a si prprio que o tempo estava mau.
Dois dias depois, s nove horas, tocou a reunir. O duque de Orlees visitava os postos. Os guardas correram s armas e d'Artagnan ocupou o seu lugar no meio dos 
seus camaradas.
Monsieur percorreu a frente de batalha; depois, todos os oficiais superiores se aproximaram dele para lhe fazer a corte, e o Sr. dos Essarts, o capito dos guardas, 
como os outros.
Passado um instante, pareceu a d'Artagnan que o Sr. dos Essarts lhe fazia sinal para se aproximar dele. Esperou novo gesto do seu superior, receando ter-se enganado, 
e como o gesto se repetisse saiu das fileiras e avanou para receber a ordem.
- Monsieur vai pedir homens de boa vontade para uma misso perigosa, mas que honrar quem a desempenhar, e fiz-vos sinal para que estivsseis pronto.
- Obrigado, meu capito! - respondeu d'Artagnan, que no desejava mais nada do que distinguir-se aos olhos do tenente-general.
Com efeito, os rocheleses tinham feito uma surtida durante a noite e haviam retomado um bastio de que o Exrcito Real se apoderara dois dias antes; tratava-se de 
proceder a um reconhecimento isolado para ver como o inimigo guardava o bastio.
Efectivamente, pouco depois Monsieur ergueu a voz e disse:
- Precisaria para esta misso de trs ou quatro voluntrios comandados por um homem de confiana!
- Quanto ao homem de confiana, tenho-o  mo, Monsenhor,

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- disse o Sr. des Essarts indicando d'Artagnan. - E quanto aos quatro ou cinco voluntrios s tem de dar a conhecer as suas intenes e os homens no lhe faltaro.
- Quatro homens de boa vontade para virem fazer-se matar comigo! - gritou d'Artagnan erguendo a espada.
Dois dos seus camaradas das Guardas acorreram imediatamente, aos quais se juntaram dois soldados, pelo que se considerou que o nmero era suficiente. D'Artagnan 
recusou portanto todos os outros, para no preterir os que tinham a prioridade.
Ignorava-se se depois da tomada do bastio os rocheleses o tinham evacuado ou haviam l deixado alguma guarnio; era preciso portanto examinar o local indicado 
de bastante perto para verificar o que de facto se passara.
D'Artagnan partiu com os seus quatro companheiros e entrou na trincheira; os dois guardas caminhavam a seu lado e os soldados vinham atrs.
Chegaram assim, a coberto dos revestimentos, at uma centena de passos do bastio! A, d'Artagnan virou-se e verificou que os dois soldados tinham desaparecido.
Julgou que tivessem ficado para trs com medo e continuou a avanar.
Na volta de uma contra-escarpa encontraram-se a cerca de sessenta passos do bastio.
No se via ningum, o bastio parecia abandonado. Os trs infantes isolados deliberam se deviam ir mais adiante, quando de sbito um cinto de fumo cingiu o gigante 
de pedra e uma dzia de balas vieram assobiar  volta de d'Artagnan e dos seus dois companheiros.
J sabiam o que queriam saber: o bastio estava guardado. Mais longa permanncia naquele stio perigoso seria portanto uma imprudncia intil; d'Artagnan e os dois 
guardas viraram as costas e comearam uma retirada que parecia uma fuga.
Quando chegaram  esquina da trincheira que ia servir-lhes de parapeito um dos guardas caiu: uma bala atravessara-lhe o peito. O outro, que estava so e salvo, continuou 
a correr para o acampamento.
D'Artagnan no quis abandonar assim o companheiro e inclinou-se para o levantar e ajudar a alcanar as linhas; mas nesse momento ouviram-se dois tiros de espingarda 
e uma bala desfez a cabea do guarda j ferido e a outra foi-se esmagar na rocha depois de passar a duas polegadas de d'Artagnan.
O jovem virou-se vivamente, pois aquele ataque no podia vir do bastio, que estava oculto pela esquina da trincheira. A ideia dos dois soldados que o tinham abandonado 
acudiu-lhe  memria e recordou-se dos seus assassinos da antevspera; resolveu portanto saber com quem estava metido e caiu sobre o corpo do seu camarada como se 
estivesse morto.

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Viu imediatamente duas cabeas erguerem-se acima de uma obra abandonada, situada a trinta passos dali: eram as dos nossos dois soldados. D'Artagnan no se enganara: 
aqueles dois homens tinham-no seguido para o assassinar, esperando que a sua morte fosse atribuda ao inimigo.
Mas como podia estar apenas ferido e denunciar os criminosos, aproximaram-se para o acabar. Felizmente, enganados pela astcia de d'Artagnan, esqueceram-se de recarregar 
as espingardas.
Quando chegaram a dois passos dele, d'Artagnan, que ao cair tivera o cuidado de no largar a espada, levantou-se de repente e de um salto chegou junto deles.
Os assassinos compreenderam que se fugissem para o lado do acampamento sem terem matado o seu homem este os acusaria; por isso, a sua primeira ideia foi passarem-se 
para o inimigo. Um deles pegou na espingarda pelo cano e serviu-se dela como uma clava; desferiu uma pancada terrvel contra d'Artagnan, que a evitou lanando-se 
de lado; mas com esse movimento abriu passagem ao bandido, que correu imediatamente para o bastio. Como os rocheleses que o guardavam ignoravam com que inteno 
o homem ia para eles, fizeram fogo e ele caiu atingido por uma bala que lhe quebrou o ombro.
Entretanto, d'Artagnan atirara-se ao segundo soldado e atacara-o com a espada; a luta no foi longa, pois o miservel s tinha para se defender o arcabuz descarregado. 
A espada de d'Artagnan deslizou pelo cano da arma tornada intil e foi atravessar a coxa do assassino, que caiu. D'Artagnan ps-lhe imediatamente a ponta do ferro 
na garganta.
- Oh, no me mateis! - gritou o bandido. - Misericrdia, misericrdia, meu oficial, e dir-vos-ei tudo!
- O teu segredo valer ao menos a pena de te poupar a vida? - perguntou o jovem, retendo o brao.
- Vale, se considerais que a existncia seja alguma coisa quando se tem vinte e dois anos como vs e que se pode conseguir tudo sendo belo e bravo como vs sois.
- Miservel! - exclamou d'Artagnan. - Vamos, fala depressa, quem te encarregou de me assassinar?
- Uma mulher que no conheo, mas a quem chamavam Milady.
- Mas se no conheces essa mulher como sabes o seu nome?
- O meu camarada conhecia-a e chamava-a assim; foi com ele que ela tratou e no comigo. Tem at na algibeira uma carta dessa pessoa que deve ter para vs grande 
importncia, segundo lhe ouvi dizer.
- Mas como entraste a meias nesta cilada?
- Ele props-me darmos ambos o golpe e eu aceitei.
- E quanto vos deu ela por essa bonita faanha?
- Cem luses.
- Apre! - exclamou o jovem, rindo. - At que enfim acha que valho alguma coisa: cem luses!  muito dinheiro para dois miserveis como vs. Por isso compreendo que 
tenhas aceitado, e poupo-te, mas com uma condio!

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- Qual? - perguntou o soldado, inquieto, vendo que ainda no acabara tudo.
- Vais buscar-me a carta que o teu camarada tem na algibeira.
- Mas isso  outra maneira de me matardes! - gritou o bandido. - Como quereis que v buscar a carta debaixo do fogo do bastio?
- No entanto, tens de te decidir a ir busc-la, ou juro-te que morrers s minhas mos!
- Misericrdia! Senhor, piedade, em nome dessa jovem dama que amais, que talvez julgueis morta, e que no o est! - gritou o bandido, pondo-se de joelhos e apoiando-se 
na mo, pois comeava a perder as foras juntamente com o sangue.
- E como sabes que existe uma mulher que eu amo e a quem julguei morta? - perguntou d'Artagnan.
- Pela carta que o meu camarada tem na algibeira.
- Ento, bem vs que preciso dessa carta - retorquiu d'Artagnan.
- Portanto, nada de demoras, nada de hesitaes, pois seja qual for a minha repugnncia em mergulhar segunda vez a minha espada no sangue de um miservel como tu, 
juro-te pela minha f de homem honesto...
E ao dizer estas palavras d'Artagnan fez um gesto to ameaador que o ferido se levantou.
- Parai! Parai! - gritou, recuperando coragem  fora de terror.
- Eu vou... eu vou!...
D'Artagnan pegou no arcabuz do soldado, f-lo passar para a sua frente e empurrou-o para o companheiro picando-lhe os rins com a ponta da espada.
Era confrangedor ver o desgraado, deixando no caminho que percorria um longo rasto de sangue, plido como a sua morte prxima, procurando arrastar-se sem ser visto 
at ao corpo do cmplice, que jazia a vinte passos dali!
Tinha o terror de tal forma pintado na cara coberta de suor frio que d'Artagnan teve compaixo dele; e olhando-o com desprezo disse-lhe:
- Est bem, vou mostrar-te a diferena que existe entre um homem de corao e um cobarde como tu; fica aqui que eu vou l.
E num passo gil e de olhar atento, observando os movimentos do inimigo e aproveitando todos os acidentes de terreno, d'Artagnan chegou ao segundo soldado.
Havia duas maneiras de conseguir o que pretendia: revist-lo ali mesmo, ou lev-lo, fazendo um escudo com o seu corpo, e revist-lo na trincheira.
D'Artagnan preferiu a segunda e carregou o assassino s costas no preciso momento em que o inimigo fazia fogo.
Um leve estremecimento, o rudo abafado de trs balas a perfurarem as carnes, um derradeiro grito, um frmito de agonia... provaram a d'Artagnan que aquele que o 
quisera assassinar acabava de lhe salvar a vida.

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D'Artagnan regressou  trincheira e deitou o cadver ao p do ferido, to plido como um morto.
Procedeu imediatamente ao inventrio: uma carteira de couro, uma bolsa onde se encontrava evidentemente parte do dinheiro que o bandido recebera, um copo e os respectivos 
dados constituam o esplio do morto.
Deixou o copo e os dados onde tinham cado, atirou a bolsa ao ferido e abriu avidamente a carteira.
No meio de alguns papis sem importncia, encontrou uma carta, aquela que fora buscar com risco da vida:


J que perdestes o rasto da mulher e que ela est agora em segurana nesse convento onde nunca deveis t-la deixado chegar, procurai ao menos no falhar o homem; 
seno sabeis que tenho a mo comprida e que pagareis caro os cem luses que vos dei.

Nenhuma assinatura. Contudo, era evidente que a carta provinha de Milady. Nesta conformidade, guardou-a como pea de acusao e, em segurana atrs da esquina da 
trincheira, ps-se a interrogar o ferido. Este confessou que se encarregara com o seu camarada, o mesmo que acabava de ser morto, de raptar uma mulher que devia 
sair de Paris pela barreira de La Villette, mas que tendo-se demorado a beber tinham chegado dez minutos depois da carruagem passar.
- Mas que fareis depois da mulher? - perguntou d'Artagnan, angustiado.
- Devamos lev-la para um palcio da Praa Royale - respondeu o ferido.
- Sim, sim... - murmurou d'Artagnan. -  isso mesmo: para casa da prpria Milady.
Ento o jovem compreendeu, tremendo, que terrvel sede de vingana impelia aquela mulher a perd-lo, assim como aqueles que o amavam, e como estava bem informada 
acerca do que se passava na corte, uma vez que descobrira tudo. Devia sem dvida tais informaes ao cardeal.
Mas no meio de tudo isto compreendeu tambm, com uma sensao de alegria bem real, que a rainha acabara por descobrir a priso onde a pobre Sr.a Bonacieux expiava 
a sua dedicao e a tirara dessa priso. Ento, a carta que recebera da jovem e a sua passagem pela estrada de Chaillot - passagem semelhante a uma apario - ficaram 
explicadas.
A partir da, como Athos predissera, era possvel reencontrar a Sr.a Bonacieux, e um convento no era inexpugnvel.
Esta ideia acabou de lhe encher o corao de clemncia. Virou-se para o ferido, que seguia com ansiedade todas as diversas expresses do seu rosto, e disse-lhe estendendo-lhe 
o brao:
- Vamos, no quero abandonar-te assim. Apoia-te em mim e regressemos ao acampamento.
- Pois sim - disse o ferido, que lhe custava a crer em tanta magnanimidade -, mas no  para me mandar enforcar?

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- Tens a minha palavra - redarguiu d'Artagnan. - Dou-te a vida pela segunda vez.
O ferido deixou-se cair de joelhos e beijou de novo os ps do seu salvador; mas d'Artagnan, que j no tinha nenhum motivo para permanecer to perto do inimigo, 
abreviou as demonstraes de reconhecimento.
O guarda que fugira  primeira descarga dos rocheleses, anunciara a morte dos seus quatro companheiros. Todos ficaram portanto muito admirados e satisfeitos no regimento 
quando viram aparecer o jovem so e salvo.
D'Artagnan atribuiu a espadeirada do companheiro a uma surtida que improvisara. Contou a morte do outro soldado e os perigos que tinham corrido. Conquistou assim 
um verdadeiro triunfo. Todo o Exrcito falou da expedio durante um dia e Monsieur dirigiu-lhe as suas felicitaes.
Alm disso, como toda a boa aco traz consigo a sua recompensa, a boa aco de d'Artagnan teve como resultado restituir-lhe a tranquilidade que perdera. Com efeito, 
d'Artagnan julgava poder estar tranquilo desde que dos seus inimigos um estava morto e o outro dedicava-se aos seus interesses.
Essa tranquilidade provava uma coisa: que d'Artagnan ainda no conhecia Milady.


      CAPTULO XLII - O VINHO DE ANJOU


      Depois das notcias quase desesperadas do rei, comeava a espalhar-se pelo acampamento a nova da sua convalescena; e como estava ansioso por chegar em pessoa 
ao cerco, dizia-se que assim que pudesse montar a cavalo se poria a caminho.
Entretanto, Monsieur, que sabia ir ser substitudo de um dia para o outro no seu comando, quer pelo duque de Angoulme, quer por Bassompierre ou por Schomberg, que 
disputavam um ao outro o comando, pouco fazia, perdia os dias em tacteamentos e no se atrevia a arriscar qualquer grande empresa para expulsar os Ingleses da ilha 
de R, onde continuavam a assediar a Cidadela de Saint-Martin e o Forte de La Pre enquanto pelo seu lado os Franceses assediavam La Rochelle.
Como dissemos, d'Artagnan andava mais tranquilo, como sempre acontece depois de um perigo passado e quando o perigo parece desvanecido; s uma coisa o preocupava: 
no ter quaisquer notcias dos amigos.

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Mas uma manh, em princpios do ms de Novembro, tudo lhe foi explicado por esta carta datada de Villeroi:


Sr. d'Artagnan:

Os Srs. Athos, Porthos e Aramis, depois de jogarem uma boa partida em minha casa, e de se terem divertido muito, fizeram tanto barulho que o preboste do castelo, 
homem muito rigoroso, os castigou com a pena de deteno por alguns dias; mas eu cumpri as ordens que me deram para vos mandar doze garrafas do meu vinho de Anjou, 
de que muito gostaram: querem que bebeis  sua sade e com o seu vinho favorito.
Assim fiz e sou, senhor, com grande respeito, vosso servidor muito humilde e obediente,

GoDEAU, Estalajadeiro dos Srs. Mosqueteiros.


- At que enfim! - exclamou d'Artagnan. - Pensam em mim nos seus prazeres como eu pensava neles no meu aborrecimento. Claro que beberei  sua sade e com todo o 
gosto; mas no beberei sozinho.
E d'Artagnan correu ao alojamento de dois guardas com os quais estabelecera mais amizade do que com os outros, a fim de os convidar a beberem consigo o delicioso 
vinhinho de Anjou que acabava de chegar de Villeroi. Um dos dois guardas estava convidado para essa mesma noite e o outro para o dia seguinte; a reunio ficou portanto 
fixada para dali a dois dias.
No regresso, d'Artagnan mandou as doze garrafas de vinho para a cantina dos guardas e recomendou que lhas guardassem com cuidado. Depois, no dia da solenidade, como 
o almoo estava marcado para o meio-dia, d'Artagnan mandou, s nove horas, Planchet preparar tudo.
Planchet, orgulhosssimo de ser elevado  dignidade de mordomo, pensou em preparar tudo como um homem inteligente. Para isso, agregou a si o criado de um dos convivas 
do amo, chamado Fourreau, e o falso soldado que quisera matar d'Artagnan e que, como no pertencia a nenhum corpo de tropas, entrara ao seu servio, ou antes ao 
de Planchet, desde que d'Artagnan lhe salvara a vida.
Chegada a hora do banquete, os dois convivas apresentaram-se, sentaram-se e as iguarias alinharam-se na mesa. Planchet servia de guardanapo no brao, Fourreau abria 
as garrafas e Brisemont, assim se chamava o convalescente, transvasava para as garrafas de mesa o vinho que parecia ter criado depsito devido aos baldes da viagem. 
A primeira garrafa estava um pouco turva para o fim; Brisemont deitou esse resto num copo e d'Artagnan autorizou-o a beb-lo, porque o pobre diabo no tinha ainda 
muitas foras.
Depois de comerem a sopa, os convivas iam levar o primeiro copo aos lbios quando de sbito o canho ribombou no Forte Lus e no Forte Novo; julgando tratar-se de 
algum ataque

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imprevisto, quer dos sitiados, quer dos Ingleses, os guardas saltaram imediatamente para as suas espadas. D'Artagnan, no menos lesto, fez como eles e todos os trs 
saram a correr a fim de se dirigirem para os seus postos.
Mas mal saram da cantina descobriram a causa de to grande barulho: os gritos de "Viva o rei!", "Viva o Sr. Cardeal!", ouviam-se por todos os lados e os tambores 
rufavam em todas as direces.
Com efeito, impaciente como dissemos, o rei acabava de percorrer duas etapas numa s e chegava naquele mesmo instante com toda a sua casa e um reforo de dez mil 
homens; os seus mosqueteiros precediam-no e seguiam-no. D'Artagnan, colocado em alas com a sua companhia, cumprimentou com um gesto expressivo os amigos, que lhe 
responderam com os olhos, e o Sr. de Trville, que o reconheceu imediatamente.
Terminada a cerimnia da recepo, os quatro amigos no tardaram a cair nos braos uns dos outros.
- Caramba, no podiam chegar em melhor altura, pois as carnes ainda no tiveram tempo de arrefecer! - exclamou d'Artagnan. - No  verdade, meus senhores? - acrescentou 
virando-se para os dois guardas, que apresentou aos amigos.
- Ah, ah, parece que nos banqueteamos! - exclamou Porthos.
- Espero que no haja mulheres no vosso almoo - observou Aramis.
- E h vinho potvel na vossa baiuca? - perguntou Athos.
- Mas por Deus, h o vosso, caro amigo - respondeu d'Artagnan.
- O nosso vinho? - disse Athos, atnito.
- Sim, aquele que me mandastes.
- Ns mandmo-vos vinho?
- Mas bem sabeis, esse vinhinho das encostas de Anjou...
- Sim, bem sei de que vinho falais.
- O vinho que preferis.
- Sem dvida, quando no tenho nem champanhe nem chambertin.
- Pronto,  falta de champanhe e de chambertin, contentar-vos-eis com este.
- Mandmos portanto vir vinho de Anjou, apesar de sermos peritos na matria? - observou Porthos.
- No, refiro-me ao vinho que me mandaram da vossa parte.
- Da nossa parte? - repetiram os trs mosqueteiros.
- Fostes vs, Aramis, que mandastes o vinho? - perguntou Athos.
- No, e vs, Porthos?
- No, e vs, Athos? -No.
- Se no fostes vs, foi o vosso estalajadeiro - disse d'Artagnan.
- O nosso estalajadeiro?
- Sim, o vosso estalajadeiro, Godeau, o estalajadeiro dos mosqueteiros.

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- Irra! Que importa donde venha e para onde v? - atalhou Porthos. - Provemo-lo, e se for bom bebamo-lo.
- No, no bebemos vinho de origem desconhecida - redarguiu Athos.
- Tendes razo, Athos - concordou d'Artagnan. - Nenhum de vs encarregou o estalajadeiro Godeau de me mandar vinho?
- No! Mas mesmo assim ele mandou-vo-lo da nossa parte?
- Aqui est a carta! - disse d'Artagnan. E apresentou o bilhete aos camaradas.
- No  a sua letra! - exclamou Athos. - Conheo-a, pois fui eu que, antes de partir, paguei as contas da comunidade.
- A carta  falsa: no fomos castigados - acrescentou Porthos.
- D'Artagnan, como pudestes acreditar que tivssemos armado zaragata? - perguntou Aramis em tom de censura.
D'Artagnan empalideceu e um tremor convulsivo sacudiu-lhe os membros.
- Assustas-me - declarou Athos, que s o tratava por tu nas grandes ocasies. - Que aconteceu?
- Corramos, corramos, meus amigos! - gritou d'Artagnan. - Acaba de me atravessar o esprito uma horrvel suspeita! Seria mais uma vingana dessa mulher?
Dessa vez foi Athos quem empalideceu.
D'Artagnan correu para a cantina e os trs mosqueteiros e os dois guardas seguiram-no.
A primeira coisa em que d'Artagnan reparou ao entrar na sala de jantar foi em Brisemont, deitado no cho e rebolando-se no meio de atrozes convulses.
Planchet e Fourreau, plidos como mortos, tentavam socorr-lo; mas era evidente que qualquer socorro seria intil: todas as feies do moribundo estavam crispadas 
pela agonia.
- Ah! - gritou ao ver d'Artagnan. - Ah,  horrvel, fingis perdoar-me e envenenais-me!
- Eu? Eu, desgraado? Eu! - protestou d'Artagnan. - Que dizes tu?
- Digo que fostes vs que me deste o vinho, digo que fostes vs que me dissestes para o beber, digo que quisestes vingar-vos de mim, digo que  horrvel!
- No digas isso, Brisemont, no digas isso - protestou d'Artagnan. - Juro-te, garanto-te...
- Oh, mas Deus existe! Ele vos castigar! Meu Deus, que ele sofra um dia o que eu sofro!
- Juro-te sobre o Evangelho - gritou d'Artagnan, precipitando-se para o moribundo -, juro-te que ignorava que o vinho estivesse envenenado e que ia beb-lo como 
tu.
- No acredito! - redarguiu o soldado.
E expirou no meio de redobradas torturas.
- Horrvel! Horrvel! - murmurava Athos, enquanto Porthos partia as garrafas e Aramis dava ordens um pouco tardias para que se fosse buscar um padre.

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- Oh, meus amigos, acabais de me salvar a vida mais uma vez, no s a mim, mas tambm a estes senhores! - declarou d'Artagnan.
- Meus senhores - continuou dirigindo-se aos guardas -, peo-vos que guardeis silncio acerca de toda esta aventura; pode haver grandes personagens metidas no que 
vistes e o mal de tudo recairia sobre ns.
- Ah, senhor - balbuciava Planchet, mais morto do que vivo -, ah, senhor, escapei de boa!
- Que dizes, velhaco, ias beber do meu vinho? - barafustou d'Artagnan.
- Ia beber um copinho  sade do rei, senhor, se Fourreau no me tivesse dito que me chamavam.
- Por sorte! - exclamou Fourreau, cujos dentes batiam de terror. - Queria afast-lo para beber sozinho!
- Meus senhores - disse d'Artagnan dirigindo-se aos guardas-, como compreendeis, semelhante banquete s poderia ser muito triste depois do que acaba de acontecer; 
assim, recebei todas as minhas desculpas e adiemos a festa para outro dia, peo-vos.
Os dois guardas aceitaram cortesmente as desculpas de d'Artagnan e, compreendendo que os quatro amigos desejavam ficar ss, retiraram-se.
Quando o jovem guarda e os trs mosqueteiros ficaram sem testemunhas, entreolharam-se com um ar que queria dizer que cada um compreendia a gravidade da situao.
- Primeiro, saiamos daqui - sugeriu Athos. - No h pior companhia do que um morto, morto de morte violenta.
- Planchet, recomendo-te o cadver desse pobre diabo - disse d'Artagnan. - Que seja enterrado em terra sagrada. Cometera um crime,  verdade, mas arrependera-se 
dele.
E os quatro amigos saram da sala, deixando a Planchet e a Fourreau o cuidado de prestarem as homenagens fnebres a Brisemont.
O estalajadeiro deu-lhes outra sala onde lhes serviu ovos quentes e gua, que o prprio Athos foi buscar  fonte. Em poucas palavras, Porthos e Aramis foram postos 
ao corrente da situao.
- E  isto! - exclamou d'Artagnan dirigindo-se a Athos. - Como vedes, caro amigo,  uma guerra de morte.
Athos abanou a cabea.
- Sim, sim, bem vejo - concordou. - Mas acreditais que seja ela?
- Tenho a certeza.
- Pois confesso-vos que ainda duvido.
- E a flor-de-lis no ombro?

- Alguma inglesa que cometeu algum crime em Frana e que a tero marcado por isso.
- Athos,  a vossa mulher, garanto-vos - insistia d'Artagnan. - Lembrais-vos de como os dois sinais se assemelhavam?

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- Pois eu quase juraria que a outra estava morta; enforquei-a com tanto cuidado...
Foi a vez de d'Artagnan abanar a cabea.
- Mas, enfim, que fazer? - perguntou.
- A verdade  que no podemos ficar assim com uma espada eternamente suspensa sobre a cabea - respondeu Athos. -  preciso sair desta situao.
- Mas como?
- Escutai: procurai encontrar-vos com ela e ter uma explicao. Dizei-lhe: a paz ou a guerra! A minha palavra de gentil-homem de nunca dizer nada de vs, de nunca 
fazer nada contra vs; do vosso lado, juramento solene de ficardes neutra a meu respeito. De contrrio, vou procurar o chanceler, vou procurar o rei, denuncio-vos 
como marcada, levo-vos a julgamento e se vos absolverem... mato-vos, palavra de gentil-homem, em qualquer canto, como mataria um co raivoso.
- Esse meio no me desagrada - reconheceu d'Artagnan. - Mas como encontr-la?
- O tempo, caro amigo, o tempo traz a oportunidade, e a oportunidade  a grande parada do homem: quanto mais se aposta, mais se ganha, quando se sabe esperar.
- Pois sim, mas esperar rodeado de assassinos e envenenadores...
- Ora! - exclamou Athos. - Deus que nos guardou at agora tambm nos guardar daqui em diante.
- Sim, ns; mas ns somos homens e no fim de contas o nosso dever  arriscar a vida. Mas ela? - acrescentou a meia voz.
- Ela, quem? - perguntou Athos.
- Constance.
- A Sr.a Bonacieux! Tendes razo, pobre amigo, esquecia-me de que estais apaixonado - confessou Athos.
- Mas ento - interveio Aramis - no soubestes pela carta que encontrastes na algibeira do miservel morto que ela est num convento? Est-se muito bem num convento, 
e assim que o cerco de La Rochelle terminar prometo-vos que pela minha parte...
- Est bem, est bem - atalhou Athos. - Seja, meu caro Aramis! Bem sabemos que os vossos desejos tendem para a religio.
- Sou mosqueteiro apenas provisoriamente - declarou humildemente Aramis.
- Parece que no recebe notcias da amante h muito tempo - disse Athos, baixinho. - Mas no ligueis importncia, j sabemos o que isso .
- Parece-me que haveria um meio muito simples - insinuou Porthos.
- Qual? - perguntou d'Artagnan.
- Ela est num convento, no  o que dizeis? - prosseguiu Porthos. -Est.
- Ento, assim que o cerco terminar, raptamo-la do convento.
- Mas ainda falta saber em que convento est.

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- Exacto - concordou Porthos.
- Mas, se me no engano, no fostes vs, caro d'Artagnan que di sestes que a rainha escolheu esse convento para ela? - perguntou Athos.
- Sim, pelo menos  o que julgo.
- Nesse caso, Porthos ajudar-nos- l dentro.
- Como? quereis fazer o favor de me dizer?
- Por intermdio da vossa marquesa, da vossa duquesa, da vossa princesa, que deve ter o brao comprido.
- Caluda! - pediu Porthos, pondo um dedo nos lbios. - Creio que  cardinalista e portanto no deve saber de nada.
- Visto isso, eu me encarrego de saber notcias - prometeu Aramis.
- Vs?! - exclamaram os trs amigos. - E como?
- Por intermdio do capelo da rainha, com quem estou muito relacionado... - respondeu Aramis, corando.
E depois desta promessa, os quatro amigos, que tinham acabado a sua modesta refeio, separaram-se depois de combinarem voltar a encontrar-se nessa mesma noite. 
D'Artagnan regressou aos Mnimos e os trs mosqueteiros voltaram para o quartel do rei, onde tinham de tratar do seu alojamento.


      CAPTULO XLIII - A ESTALAGEM DO POMBAL VERMELHO


      Assim que chegou ao acampamento, o rei, que estava to ansioso por se encontrar diante do inimigo, e que, com melhor direito do que o cardeal, compartilhava 
o seu rancor contra Buckingham, quis tomar todas as disposies, primeiro para expulsar os Ingleses da ilha de R e depois para abreviar o cerco de La Rochelle. 
Mas mal-grado seu foi retardado pelas dissenses que rebentaram entre os Srs. de Bassompierre e Schomberg contra o duque de Angoulme.
Os Srs. de Bassompierre e de Schomberg eram marchais de Frana e reclamavam o seu direito de comandar o Exrcito sob as ordens do rei; mas o cardeal, que receava 
que Bassompierre, huguenote no fundo do corao, atacasse fracamente os Ingleses e os Rocheleses, seus irmos em religio, insistia pelo contrrio no duque de Angoulme, 
que o rei, por sua instigao, nomeara tenente-general. Resultado: sob pena de ver os Srs. de Bassompierre e Schomberg desertarem do Exrcito, o rei viu-se obrigado 
a dar a cada um o seu comando pessoal. Bassompierre tomou posies ao norte da cidade, desde La Leu at Dompierre; o duque de Angoulme a leste, desde Dompierre 
at Prigny, e o Sr. de Schomberg ao sul, desde Prigny at Angoulins.
Monsieur estava instalado em Dompierre.

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O rei instalava-se ora em Etr, ora em La Jarrie. Finalmente, o cardeal encontrava-se instalado nas dunas, na Ponte de La Pierre, numa casa simples, sem nenhuma 
proteco.
Deste modo, Monsieur vigiava Bassompierre; o rei, o duque de Angoulme. e o cardeal, o Sr. de Schomberg.
Uma vez esta organizao estabelecida, ocuparam-se de expulsar os Ingleses da ilha.
A conjuntura era favorvel: os Ingleses, que necessitam antes de mais nada de bons vveres para serem bons soldados, como s comiam carne salgada e ruins biscoitos, 
tinham muitos doentes no seu campo; alm disso, o mar, agitadssimo naquela poca do ano em todas as costas do Atlntico, afundava todos os dias algum naviozinho; 
e a praia, desde a ponta do Aiguillon at  trincheira, ficava literalmente, todas as mars, coberta de destroos de lanches, de roberges e de faluchos; logo, mesmo 
que as tropas reais permanecessem no seu campo, era evidente que mais dia menos dia Buckingham, que s se mantinha na ilha de R por teimosia, seria obrigado a levantar 
o cerco.
Mas como o Sr. de Toiras informasse de que tudo se preparava no campo inimigo para novo assalto, o rei achou que se devia acabar com aquilo e deu as ordens necessrias 
para um ataque decisivo.
Como a nossa inteno no  escrever um dirio do cerco, mas pelo contrrio relatar dele apenas os acontecimentos relacionados com a histria que narramos, limitamo-nos 
a dizer em duas palavras que a empresa foi bem sucedida, com grande espanto do rei e maior glria do Sr. Cardeal. Os Ingleses, repelidos passo a passo, batidos em 
todos os recontros, esmagados na passagem da ilha de Loix, foram obrigados a reembarcar, deixando no campo de batalha dois mil homens, entre os quais cinco coronis, 
trs tenentes-coronis, duzentos e cinquenta capites e vinte gentis-homens de qualidade, quatro canhes e sessenta bandeiras, que foram levadas para Paris por Claude 
de Saint-Simon e suspensas com grande pompa das abbadas de Notre-Dame.
Cantaram-se Te Deum no campo, e de l espalharam-se por toda a Frana.
O cardeal ficou portanto em condies de prosseguir com o cerco sem ter, pelo menos momentaneamente, nada a temer da parte dos Ingleses.
Mas como acabamos de dizer, o repouso era apenas momentneo. Um enviado do duque de Buckingham, chamado Montaigu, fora capturado e adquirira-se a prova de uma liga 
entre o Imprio, a Espanha, a Inglaterra e a Lorena.
Essa liga era dirigida contra a Frana.
Alm disso, no alojamento de Buckingham, que fora obrigado a abandonar mais precipitadamente do que imaginara, tinham-se encontrado documentos que confirmavam tal 
liga e que, ao que afirma o Sr. Cardeal nas suas Memrias comprometiam muito a Sr.a de Chevreuse e portanto a rainha.

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Toda a responsabilidade pesava sobre o cardeal, pois no se  ministro absoluto sem se ser responsvel; por isso, todos os recursos do seu vasto gnio estavam em 
actividade noite e dia, ocupados a escutar o menor rudo que se elevasse de algum dos grandes reinos da Europa.
O cardeal conhecia a actividade e sobretudo o dio de Buckingham. Se a liga que ameaava a Frana triunfasse, toda a sua influncia estaria perdida: a poltica espanhola 
e a poltica austraca tinham os seus representantes no Gabinete do Luvre, onde s contavam partidrios, ele, Richelieu, o ministro francs, o ministro nacional 
por excelncia, es taria perdido. O rei, que lhe obedecia em tudo como uma criana, odiava-o como uma criana odeia o seu mestre, e abandon-lo-ia s vinganas reunidas 
de Monsieur e da rainha. Estaria perdido, e talvez a Frana com ele. Era preciso evitar tudo isso.
Viram-se assim os correios, cada vez mais numerosos, sucederem-se noite e dia na casinha da Ponte de La Pierre, onde o cardeal estabelecera a sua residncia.
Eram frades que usavam to mal o hbito que facilmente se reconhecia pertencerem  Igreja militante; mulheres um pouco constrangidas nos seus fatos de pajens e cujos 
largos cales no conseguiam dissimular as formas arredondadas; finalmente, camponeses de mos enegrecidas, mas de perna fina e que cheiravam a homem de qualidade 
a uma lgua de distncia.
Havia ainda outras visitas menos agradveis, pois duas ou trs vezes ocorrera o boato de que o cardeal estivera prestes a ser assassinado.!
 certo que os inimigos de Sua Eminncia diziam ser ele prprio que punha em campo os assassinos desajeitados, a fim de ter, se necessrio, o direito de empregar 
represlias; mas no se deve acreditar nem no que dizem os ministros, nem no que dizem os seus inimigos.
O que alis no impedia o cardeal, a quem os seus encarniados detractores nunca contestaram a bravura pessoal, de fazer numerosas cavalgadas nocturnas, ora para 
se ir entender com o rei, ora para ir conferenciar com algum mensageiro que no queria que entrasse em sua casa.
Pela sua parte os mosqueteiros, que no tinham grande coisa que fazer no cerco, no estavam equipados rigorosamente e levavam vida alegre. Isso era tanto mais fcil, 
sobretudo aos nossos trs companheiros, quanto  certo que sendo amigos do Sr. de Trville obtinham facilmente dele autorizao para recolher mais tarde e ficar 
fora depois do encerramento do campo com dispensas particulares.
Ora, uma noite em que d'Artagnan estava de servio nas trincheiras e no os pudera acompanhar, Athos, Porthos e Aramis, montados nos seus cavalos de batalha e envoltos 
em capas de guerra, com a mo nas coronhas das pistolas, regressavam os trs de uma cantina que Athos descobrira dois dias antes na estrada de La Jarrie e que se 
chamava o Pombal Vermelho, seguindo o caminho que levava ao acampamento, precavidos, como dissemos, com receio de alguma emboscada, quando julgaram ouvir, a cerca 
de um quarto de lgua da aldeia de Boisnar, o tropel de uma cavalgada que vinha na sua direco; imediatamente todos trs pararam, encostados uns aos outros, e esperaram 
no meio da estrada.

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Pouco depois, e como a Lua sasse precisamente de uma nuvem, viram aparecer numa curva do caminho dois cavaleiros que, ao v-los, pararam por seu turno, parecendo 
deliberar se deveriam continuar o seu caminho ou voltar para trs. Esta hesitao despertou algumas suspeitas aos trs amigos, pelo que Athos deu alguns passos em 
frente e gritou na sua voz firme:
- Quem vem l?
- Quem vem l perguntamos ns - respondeu um dos dois cavaleiros.
- Isso no  resposta! - redarguiu Athos. - Quem vem l? Respondei ou carregamos.
- Vede o que ides fazer, senhores - disse ento uma voz vibrante, que parecia habituada a comandar.
- Deve ser algum oficial superior que anda na sua ronda nocturna
- disse Athos. - Que quereis fazer, senhores?
- Quem sois? - insistiu a mesma voz no mesmo tom de comando.
- Respondei ou a vossa desobedincia acarretar-vos- algum dissabor.
- Mosqueteiros do rei - respondeu Athos, cada vez mais convencido de que quem os interrogava tinha esse direito.
- De que companhia?
- Companhia de Trville.
- Avanai em ordem e vinde dar-me conta do que fazeis aqui a esta hora.
Os trs companheiros avanaram de orelha um pouco murcha, pois todos trs estavam convencidos de que se encontravam perante algum mais forte do que eles; por fim, 
deixaram a Athos o cuidado de falar.
Um dos dois cavaleiros, aquele que tomara a palavra em segundo lugar, estava a dez passos  frente do companheiro; Athos fez sinal a Porthos e Aramis para ficarem 
tambm para trs e avanou sozinho.
- Perdo, meu oficial, mas ignorvamos com quem estvamos a falar, e como vedes fazamos boa guarda - disse Athos.
- O vosso nome? - perguntou o oficial, que cobria parte do rosto com a capa.
- E vs, senhor? - redarguiu Athos, que comeava a revoltar-se contra aquele interrogatrio. - Dai-nos, peo-vos, a prova de que tendes o direito de me interrogar.
- O vosso nome? - perguntou pela segunda vez o cavaleiro, deixando cair a capa de maneira a ficar com a cara descoberta.
- O Sr. Cardeal! - exclamou o mosqueteiro, estupefacto.
- O vosso nome? - pediu pela terceira vez Sua Eminncia.
- Athos - respondeu o mosqueteiro.
O cardeal fez um sinal ao escudeiro, que se aproximou.
- Estes trs mosqueteiros acompanhar-nos-o - disse em voz baixa. - No quero que se saiba que sa do acampamento, e acompanhando-nos teremos a certeza de que no 
o diro a ningum.

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- Somos gentis-homens, Monsenhor - redarguiu Athos. - Pedi-nos portanto a nossa palavra e no vos preocupeis com mais nada. Graas a Deus, sabemos guardar um segredo.
O cardeal cravou os olhos penetrantes no seu atrevido interlocutor.
- Tendes bom ouvido, Sr. Athos - observou. - Mas agora escutai isto: no  por desconfiana que vos peo que me sigais,  para minha segurana. Sem dvida os vossos 
dois companheiros so os Srs. Porthos e Aramis?
- Pois so, Eminncia - respondeu Athos, enquanto os dois mosqueteiros, que tinham ficado para trs se aproximavam de chapu na mo.
- Conheo-vos, senhores, conheo-vos - disse o cardeal. - Sei que no sois inteiramente meus amigos, o que me desgosta, mas tambm sei que sois bravos e leais gentis-homens 
e que se pode confiar em vs, Sr. Athos, dai-me portanto a honra de me acompanhardes, vs e os VOssos dois amigos, e terei uma escolta de causar inveja a Sua Majestade 
se o encontrarmos.
Os trs mosqueteiros inclinaram-se at ao pescoo dos cavalos.
- Bom, pela minha honra, Vossa Eminncia tem razo em levar-nos consigo - disse Athos. - Deparmos na estrada com caras horrveis e at tivemos com quatro dessas 
caras uma disputa no Pombal Vermelho.
- Uma disputa, e porqu, senhores? - perguntou o cardeal. - No gosto de disputas, como sabeis!
-  precisamente por isso que tenho a honra de prevenir Vossa Eminncia do que acaba de acontecer; porque poderia sab-lo por ou tros em vez de por ns e, baseado 
num relatrio falso, considerar-nos culpados.
- E quais foram os resultados dessa disputa? - perguntou o cardeal, franzindo o sobrolho.
- O meu amigo Aramis, aqui presente, recebeu uma pequena espadeirada no brao, mas isso no o impedir, como Vossa Eminncia poder ver, de subir ao assalto amanh, 
se Vossa Eminncia ordenar a escalada.
- Mas vs no sois homens para deixar que vos dem espadeiradas assim, sem mais nem menos - observou o cardeal. - Vamos, sede francos, senhores, com certeza vos 
desforrastes com algumas; confessai, bem sabeis que tenho o direito de dar a absolvio.
- Eu, Monsenhor, nem sequer empunhei a espada - declarou Athos. - Peguei pelo meio do corpo no que me calhou e atirei-o pela janela; parece que quando caiu - acrescentou 
Athos com alguma hesitao -, partiu uma perna.
- Oh! - exclamou o cardeal. - E vs, Sr. Portos?
- Eu, Monsenhor, sabendo que o duelo  proibido, peguei num banco e descarreguei num daqueles bandidos uma pancada que creio lhe partiu o ombro.
- Muito bem - disse o cardeal. - E vs, Sr. Aramis?
- Eu, Monsenhor, como sou de temperamento muito pacato e como,

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alis, o que Monsenhor talvez no saiba, estou prestes a tomar ordens, quis separar os meus camaradas, mas um dos miserveis deu-me traioeiramente uma espadeirada 
que me atravessou o brao esquerdo. Ento, perdi a pacincia, desembainhei por minha vez a espada e quando ele voltou  carga creio ter sentido que ao lanar-se 
sobre mim ele prprio se trespassou de lado a lado. S o vi cair, mas parece-me que o levaram com os seus dois companheiros.
- Diabo, senhores, trs homens fora de combate por uma disputa de taberna,  caso para dizer que lhes chegaram bem! - comentou o cardeal. - E a que propsito foi 
a disputa?
- Os miserveis estavam brios - respondeu Athos - e como sabiam que  noite chegara uma mulher  estalagem, queriam arrombar-lhe a porta.
- Arrombar-lhe a porta! - exclamou o cardeal. - E para qu?
- Para a violarem, sem dvida - respondeu Athos. - J tive a honra de dizer a Vossa Eminncia que os miserveis estavam brios.
- E a mulher era nova e bonita? - perguntou o cardeal, com certa inquietao.
- No a vimos, Monsenhor - respondeu Athos.
- No a vistes... Muito bem - prosseguiu vivamente o cardeal. - Fizestes bem em defender a honra de uma mulher, e como   Estalagem do Pombal Vermelho que eu prprio 
vou, saberei se me dissestes a verdade.
- Monsenhor - redarguiu orgulhosamente Athos -, somos gentis-homens e para salvar a cabea no mentiramos.
- Por isso no duvido do que me dizeis, Sr. Athos, no duvido um s instante. Mas - acrescentou para mudar de assunto -, essa dama estava sozinha?
- A dama tinha um cavalheiro fechado com ela - respondeu Athos. - Mas como, apesar do barulho, o tal cavalheiro no apareceu,  de presumir que seja um cobarde.
- No julgueis temerariamente, diz o Evangelho - replicou o cardeal.
Athos inclinou-se.
- E agora, senhores - continuou Sua Eminncia -, j sei o que queria saber; segui-me.
Os trs mosqueteiros passaram para trs do cardeal, que envolveu de novo a cara na capa e ps o cavalo em andamento, mantendo-se oito a dez passos  frente dos seus 
quatro companheiros.
Em breve chegaram  estalagem, silenciosa e solitria; sem dvida o estalajadeiro sabia que ilustre visitante esperava e, por conseguinte, mandara embora os importunos.
A dez passos da porta, o cardeal fez um sinal ao seu escudeiro e aos trs mosqueteiros que parassem; um cavalo selado estava preso ao postigo, o cardeal bateu trs 
pancadas de uma maneira especial.

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Um homem embrulhado numa capa saiu imediatamente e trocou umas rpidas palavras com o cardeal; depois montou a cavalo e partiu na direco de Surgres, que era a 
mesma de Paris.
- Avanai, senhores - disse o cardeal. - Vs dissestes-me a verdade, meus gentis-homens - disse ele, dirigindo-se aos trs mosqueteiros -, no ser por minha causa 
que o nosso encontro desta noite deixar de ser vantajoso para vs; entretanto, segui-me.
O cardeal apeou-se, os trs mosqueteiros fizeram o mesmo; o cardeal lanou as rdeas do cavalo para as mos do seu escudeiro, os trs mosqueteiros prenderam as rdeas 
dos respectivos cavalos nos postigos.
O dono da estalagem estava  porta; para ele, o cardeal no passava de um oficial que vinha visitar uma dama.
- Tendes alguma sala no piso trreo onde estes senhores me possam esperar ao p duma bela lareira? - disse o cardeal.
O estalajadeiro abriu a porta de uma grande sala, em que justamente um fogo ruim acabava de ser substitudo por uma grande e excelente lareira.
- Tenho esta sala - respondeu ele.
- Est bem - disse o cardeal. - Entrai, senhores, e tende a bondade de esperar por mim; no demorarei mais de meia hora.
E, enquanto os trs mosqueteiros entraram na sala do piso trreo, o cardeal, sem pedir mais amplas informaes, subiu a escada como quem no precisa que lhe indiquem 
o caminho.


      CAPTULO XLIV - DA UTILIDADE DAS CHAMINS


      Era evidente que, sem saberem e movidos unicamente pelo seu carcter cavalheiresco e aventureiro, os nossos trs amigos acabavam de prestar um servio a algum 
que o cardeal honrava com a sua proteco particular.
Afinal quem era esse algum? Foi a pergunta que os trs mosqueteiros comearam por fazer; depois, vendo que nenhuma das respostas que a sua inteligncia lhes podia 
fornecer era satisfatria, Porthos chamou o dono da estalagem e pediu-lhe uns dados.
Porthos e Aramis sentaram-se a uma mesa e puseram-se a jogar. Athos passeou, reflectindo.
Reflectindo e pensando, Athos passava e tornava a passar diante da chamin do fogo, meio partida, cuja extremidade oposta dava para o quarto de cima, e, cada vez 
que passava e tornava a passar, ouvia um murmrio de palavras que acabou por prender a sua ateno. Athos aproximou-se e distinguiu algumas palavras que lhe pareceram 
merecer um interesse to grande que fez sinal aos seus companheiros que se calassem, ficando por sua vez curvado e atento,  altura do orifcio inferior.

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- Escutai, Milady - dizia o cardeal -, o caso  importante; sentai-vos ali e conversemos.
- Milady! - murmurou Athos.
- Escuto Vossa Eminncia com a maior ateno - respondeu uma voz de mulher que fez estremecer o mosqueteiro.
- Um pequeno navio com tripulao inglesa, cujo capito  dos meus, espera-vos na foz do Charente, no forte de La Pointe; far-se- ao largo amanh de manh.
- Devo ento dirigir-me para l esta noite?
- Agora mesmo, quer dizer, quando tiverdes recebido as minhas instrues. Dois homens que encontrareis  porta quando sairdes servir-vos-o de escolta; deixar-me-eis 
sair primeiro; em seguida, meia hora depois de mim, saireis por vossa vez.
- Sim, Monsenhor. Agora voltemos  misso de que me quereis encarregar; e, como pretendo continuar a merecer a confiana de Vossa Eminncia, dignai-vos exp-la em 
termos claros e precisos, para que eu no cometa nenhum erro.
Houve um instante de profundo silncio entre os dois interlocutores; era evidente que o cardeal media antecipadamente os termos em que ia falar, e que Milady concentrava 
todas as suas faculdades intelectuais para compreender as coisas que ele ia dizer e para as gravar na memria quando fossem ditas.
Athos aproveitou este momento para dizer aos seus dois companheiros que fechassem a porta e para lhes fazer sinal que viessem escutar com ele.
Os dois mosqueteiros, que apreciavam o seu conforto, trouxeram uma cadeira para cada um deles, e uma cadeira para Athos. Ento, os trs sentaram-se, aproximando 
as cabeas e prestando ouvidos.
- Ides partir para Londres - continuou o cardeal. - Quando chegardes a Londres, ireis ter com Buckingham.
- Observe Vossa Eminncia - disse Milady - que, desde o caso das agulhetas de diamantes, pelo qual o duque suspeitou sempre de mim, Sua Graa desconfia de mim.
- Portanto, desta vez - disse o cardeal - j no se trata de captar a sua confiana, mas de se apresentar franca e lealmente perante ele como negociadora.
- Franca e lealmente - repetiu Milady com uma indizvel expresso de duplicidade.
- Sim, franca e lealmente - tornou o cardeal no mesmo tom -; toda esta negociao deve ser feita a descoberto.
- Seguirei  letra as instrues de Sua Eminncia, e aguardo que mas d.
- Ireis ter com Buckingham da minha parte, e dir-lhe-eis que eu sei de todos os seus preparativos, mas que no me preocupo muito, pois, ao primeiro movimento que 
ele arriscar, perco a rainha.

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- E ele acreditar que Vossa Eminncia tem possibilidades de cumprir a ameaa que lhe faz?
- Sim, pois eu tenho provas.
-  preciso que eu possa apresentar essas provas  sua apreciao. ;
- Sem dvida, e dir-lhe-eis que eu publico o relatrio de Bois-Robert e do marqus de Beautru sobre a entrevista que o duque teve com a rainha em casa da Sr.a Condestvel, 
na noite em que esta deu um baile de mscaras; dir-lhe-eis, para que no duvide de nada, que ele compareceu com o traje do Gro Mongol que devia ser usado pelo Cavaleiro 
de Guise, e que ele lhe comprou por trs mil pistolas.
- Muito bem, Monsenhor.
- Conheo todos os pormenores da sua entrada no Luvre e da sua sada durante a noite em que se introduziu no palcio vestido de adivinho italiano; dir-lhe-eis para 
que no duvide da autenticidade das minhas informaes, que tinha sob a capa um amplo vestido branco semeado de lgrimas negras, de caveiras e de ossos cruzados, 
pois, em caso de surpresa, devia fazer-se passar pelo fantasma da Dama Branca que, como todos sabem, volta ao Louvre sempre que est para realizar-se um grande acontecimento.
-  tudo, Monsenhor?
- Dizei-lhe que tambm sei todos os pormenores da aventura de Amiens, que mandarei fazer com eles um pequeno romance bem espirituoso, com um plano do jardim e os 
retratos dos principais actores dessa cena nocturna.
- Dir-lhe-ei isso.
- Dizei-lhe ainda que eu tenho Montaigu na mo, que Montaigu est na Bastilha, que no se surpreendeu nenhuma carta na posse dele,  certo, mas que a tortura pode 
faz-lo dizer o que sabe, e at... o que no sabe.
- Perfeitamente.
- Enfim, acrescentai que Sua Graa, na precipitao com que abandonou a ilha de R, esqueceu nos seus aposentos uma certa carta da Sr.a de Chevreuse que compromete 
singularmente a rainha, provando no s que Sua Majestade pode amar os inimigos do rei mas tambm que conspira com os da Frana. Fixastes tudo o que vos disse, no 
 verdade?
- Vossa Eminncia que o diga: o baile da Sr.a Condestvel; a noite do Louvre; a noite de Amiens; a priso de Montaigu; a carta da Sr.a de Chevreuse.
-  isso - disse o cardeal -,  isso: tendes muito boa memria, Milady.
- Mas - tornou aquela a quem o cardeal acabava de dirigir este elogio -, se, apesar de todas estas razes, o duque no se render e continuar a ameaar a Frana?
- O duque est loucamente enamorado, ou melhor est tolamente enamorado - prosseguiu Richelieu com profunda amargura -; como os antigos paladinos, empreendeu esta 
guerra unicamente para obter um olhar da sua amada. Se souber que esta guerra pode

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custar a honra e talvez a liberdade da dama dos seus pensamentos, como ele diz, garanto-vos que pensar duas vezes.
- E contudo - disse Milady com uma persistncia que provava que queria tudo bem claro na misso de que ia ser encarregada -, contudo se ele persistir?
- Se ele persistir... - disse o cardeal. - Isso no  provvel.
-  possvel - disse Milady.
- Se ele persistir... - Sua Eminncia fez uma pausa e continuou: - Se persistir, pois bem!, depositarei as minhas esperanas num desses acontecimentos que modificam 
a face dos Estados.
- Se Sua Eminncia quisesse citar-me na histria um desses acontecimentos - disse Milady -, talvez eu partilhasse a sua confiana no futuro.
- Pois bem, aqui tendes! - disse Richelieu. Por exemplo, quando em 1610, por uma causa muito semelhante  que move o duque, o rei Henrique IV, de gloriosa memria, 
ia invadir a Flandres e ao mesmo tempo a Itlia para atacar a ustria simultaneamente dos dois lados, ora bem!, no houve um acontecimento que salvou a ustria? 
Por que no teria o rei de Frana a mesma sorte que o imperador?
- Vossa Eminncia refere-se  facada da Rua de la Ferronnerie?
- Justamente - disse o cardeal.
- Vossa Eminncia no receia que o suplcio de Ravaillac assuste os que tivessem por um instante a ideia de imit-lo?
- Em todos os tempos e em todos os pases, sobretudo se estes pases estiverem divididos por questes religiosas, haver fanticos desejosos de se tornarem mrtires. 
E vede, justamente ocorre-me neste momento que os puritanos esto furiosos com o duque de Buckingham e que os seus pregadores o designam como o Anticristo.
- E ento? - perguntou Milady.
- Ento - continuou o cardeal com ar indiferente -, de momento, bastaria, por exemplo, encontrar uma mulher, bela, jovem, hbil, que tivesse de vingar-se pessoalmente 
do duque.  possvel encontrar essa mulher: o duque  um homem de aventuras galantes e, se despertou muitos amores com as suas promessas de constncia eterna, tambm 
deve ter despertado muitos dios com as suas eternas infidelidades.
- Sem dvida - disse friamente Milady -,  possvel encontrar essa mulher.
- Ento! Uma mulher como essa, que meteria a faca de Jacques Clment ou de Ravaillac nas mos dum fantico, salvaria a Frana.
- Sim, mas seria cmplice dum assassinato.
- Alguma vez se conhecero os cmplices de Ravaillac ou de Jacques Clment?
- No, pois talvez estivessem muito alto para que se ousasse ir busc-los onde estavam: no se incendiaria o Palcio da Justia por causa de toda a gente, Monsenhor.
- Pensais ento que o incndio do Palcio da Justia no foi obra do acaso? - perguntou Richelieu no tom que adoptaria para fazer uma pergunta sem nenhuma importncia.

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- Eu, Monsenhor - respondeu Milady -, no penso nada, cito um facto e  tudo; apenas digo que, se me chamasse Menina de Montpensier ou rainha de Medeis, tomaria 
menos precaues do que tomo, chamando-me muito simplesmente Lady Clarick.
-  justo - disse Richelieu -, e ento o que desejareis?
- Desejaria uma ordem que ratificasse antecipadamente tudo o que me parecer que devo fazer para o bem da Frana.
- Mas, primeiro, seria preciso encontrar a mulher que eu disse, e que teria de vingar-se do duque.
- J foi encontrada - disse Milady.
- Depois, seria preciso encontrar esse miservel fantico que servir de instrumento  justia de Deus.
- Havemos de encontr-lo.
- Pois bem! - disse o duque. - Ento ser altura de reclamar a ordem que h pouco pedeis.
- Vossa Eminncia tem razo - disse Milady -, e eu fiz mal em ver na misso com que me honra uma coisa diferente daquilo que  na realidade, ou seja, anunciar a 
Sua Graa, da parte de Sua Eminncia, que vs conheceis os diferentes disfarces graas aos quais ele conseguiu aproximar-se da rainha durante a festa oferecida pela 
Sr.a Condestvel; que tendes as provas da entrevista concedida no Louvre pela rainha a certo astrlogo italiano que no  seno o duque de Buckingham; que encomendastes 
um pequeno romance, dos mais espirituosos, sobre a aventura de Amiens, com o plano do jardim onde se passou essa aventura e retratos dos actores que nela figuraram; 
que Montaigu est na Bastilha, e que a tortura pode faz-lo dizer coisas de que se recorda e at coisas de que se teria esquecido; enfim, que possus uma certa carta 
da Sr.a de Chevreuse, encontrada nos aposentos de Sua Graa, que compromete singularmente no s quem a escreveu mas tambm aquela em nome da qual foi escrita. Depois, 
se ele persistir apesar de tudo isto, como a minha misso se limita ao que acabo de dizer, s me restar pedir a Deus que faa um milagre para salvar a Frana.  
isto mesmo, no , Monsenhor, e no tenho outra coisa a fazer?
-  isso mesmo - respondeu secamente o cardeal.
- E agora - disse Milady sem dar mostras de perceber a mudana de tom do duque -, agora que recebi as instrues de Vossa Eminncia a propsito dos seus inimigos, 
Monsenhor permite-me dizer-lhe duas palavras a propsito dos meus?
- Pois tendes inimigos? - perguntou Richelieu.
- Sim, Monsenhor; inimigos contra os quais me deveis todo o vosso apoio, pois fi-los ao servio de Vossa Eminncia.
- E quais so? - replicou o duque.
- Primeiro, uma pequena intrigante de nome Bonacieux.
- Est na priso de Mantes.
- Estava, quereis dizer - retorquiu Milady -, mas a rainha surpreendeu uma ordem do rei, graas  qual a mandou transportar para um convento.

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- Para um convento? - disse o duque.
- Sim, para um convento.
- E para qual?
- Ignoro, o segredo foi bem guardado.
- Eu hei-de saber!
- E Vossa Eminncia dir-me- em que convento se encontra essa mulher?
- No vejo inconvenincia nisso - disse o cardeal.
- Muito bem; agora tenho outro inimigo muito mais temvel para mim do que essa pequena Sr.a Bonacieux.
- E qual?
- O seu amante.
- Como se chama?
- Oh! Vossa Eminncia conhece-o muito bem - exclamou Milady arrebatada pela clera -,  o nosso gnio mau;  aquele que numa rixa com os guardas de Vossa Eminncia, 
decidiu a vitria a favor dos mosqueteiros do rei;  aquele que espetou trs vezes a espada em Wardes, o vosso emissrio, e que fez fracassar o caso das agulhetas; 
 aquele, enfim, que, sabendo que fora eu que raptara a Sr.a Bonacieux, jurou a minha morte.
- Ah! Ah! - disse o cardeal. - J sei de quem falais.
- Falo desse miservel d'Artagnan.
-  um valente - disse o cardeal.
- E  justamente por ser um valente que se torna mais temvel.
- Seria necessrio - disse o duque - ter uma prova dos seus contactos com Buckingham.
- Uma prova! - exclamou Milady. - Eu arranjarei dez.
- Pois bem, ento  a coisa mais simples do mundo. Arranjai-me essa prova e eu envio-o para a Bastilha.
- Muito bem, Monsenhor! E depois?
- Quando se est na Bastilha no h e depois - disse o cardeal com voz surda. - Ah! Palavra - continuou -, se me fosse to fcil livrar-me do meu inimigo como me 
 fcil livrar-me dos vossos, e se fosse contra gente como essa que me pedsseis a impunidade!...
- Monsenhor - retorquiu Milady -, troca por troca, vida por vida, homem por homem; dai-me esse e eu dou-vos o outro.
- No sei o que quereis dizer - respondeu o cardeal -, nem quero saber, mas desejo ser-vos agradvel e no vejo nenhum inconveniente em dar-vos o que me pedis relativamente 
a uma criatura to insignificante; tanto mais que, como me dizeis, esse pequeno d'Artagnan  um libertino, um duelista, um traidor.
- Um infame, Monsenhor, um infame!
- Dai-me pois papel, uma pena e tinta - disse o cardeal.
- Aqui tendes, Monsenhor.

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Fez-se um instante de silncio que provava que o cardeal estava ocupado a procurar os termos em que devia ser escrito o bilhete, ou mesmo escrev-lo. Athos, que 
no perdera uma palavra da conversa, deu a mo a cada um dos seus companheiros e conduziu-os ao outro canto da sala.
- Ento - disse Porthos -, que queres e por que no nos deixas escutar o fim da conversa?
- Chiu! - disse Athos, falando em voz baixa. - J ouvimos tudo o que tnhamos de ouvir; de resto, no vos impeo de escutar o resto, mas eu tenho de sair.
- Tens de sair! - disse Porthos. - E se o cardeal te mandar chamar, que responderemos?
- No espereis que me mande chamar, dizei-lhe primeiro que eu parti como batedor porque certas palavras do nosso estalajadeiro me deram razes para pensar que o 
caminho no era seguro; primeiro direi duas palavras ao escudeiro do cardeal; o resto  comigo, no vos preocupeis.
- Sede prudente, Athos! - disse Aramis.
- Ficai tranquilo - respondeu Athos -, bem sabeis que tenho sangue-frio.
Porthos e Aramis voltaram para o seu lugar junto da chamin.
Quanto a Athos, saiu sem nenhum mistrio, foi buscar o cavalo preso com o dos seus amigos nos torniquetes dos postigos, com quatro palavras convenceu o escudeiro 
da necessidade de uma guarda avanada para o regresso, examinou com afectao a escorva das pistolas, ps a espada entre os dentes e seguiu, sozinho, a estrada que 
conduzia ao acampamento.


      CAPTULO XLV - CENA CONJUGAL


      Como Athos previra, o cardeal no tardou a descer; abriu a porta da sala onde os trs mosqueteiros tinham entrado, e encontrou Porthos jogando encarniadamente 
os dados com Aramis. Num relance, vasculhou todos os cantos da sala, e viu que lhe faltava um dos seus homens.
- Que aconteceu ao Sr. Athos? - perguntou.
- Monsenhor - respondeu Porthos -, ele saiu como batedor por causa de uns dizeres do nosso estalajadeiro, que o fizeram crer que a estrada no era segura.
- E vs que fizestes, Sr. Porthos?
- Ganhei cinco pistolas a Aramis.
- E agora, podeis voltar comigo?
- Estamos s ordens de Vossa Eminncia.

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- Ento, a cavalo, meus senhores, pois faz-se tarde.
O escudeiro estava  porta, e segurava as rdeas do cavalo do cardeal. Um pouco mais longe, um grupo de dois homens e trs cavalos aparecia na sombra; estes dois 
homens eram os que deviam conduzir Milady ao forte de La Pointe, e vigiar o seu embarque.
O escudeiro confirmou ao cardeal o que os dois mosqueteiros j lhe haviam dito a propsito de Athos. O cardeal fez um gesto de aprovao, e ps-se a caminho, rodeando-se 
no regresso das mesmas precaues que tomara  partida.
Deixemo-lo seguir o caminho do campo, protegido pelo escudeiro e pelos dois mosqueteiros, e voltemos a Athos.
Durante uma centena de passos, Athos seguira com o mesmo galope; mas, uma vez fora de vista, lanara o cavalo para a direita, fizera um desvio, e voltara uns vinte 
passos atrs, no talude, para espreitar a passagem do pequeno grupo; tendo reconhecido os chapus debruados dos seus companheiros e a franja dourada da capa do Sr. 
Cardeal, esperou que os cavaleiros dobrassem a curva da estrada e, quando os perdeu de vista, voltou a galopar  estalagem, cuja porta lhe foi aberta sem dificuldade.
O estalajadeiro reconheceu-o.
- O meu oficial - disse Athos - esqueceu-se de fazer uma recomendao importante  dama do primeiro andar e enviou-me para reparar o seu esquecimento.
- Subi - disse o estalajadeiro -, ela ainda est no quarto.
Athos aproveitou a permisso, subiu a escada com o passo mais ligeiro que tinha, chegou ao patamar e, atravs da porta entreaberta, viu Milady, prendendo as fitas 
do chapu.
Entrou no quarto e fechou a porta.
Ao rudo que ele fez correndo o ferrolho, Milady virou-se para trs.
Athos estava de p diante da porta, embrulhado na sua capa, com o chapu cado sobre os olhos.
Ao ver esta figura muda e queda como uma esttua, Milady teve medo.
- Quem sois e que quereis? - exclamou.
-  mesmo ela! - murmurou Athos.
E, deixando cair a capa e reerguendo o chapu de feltro, avanou para Milady.
- Reconheceis-me, minha senhora?
Milady deu um passo em frente, depois recuou como se tivesse visto uma serpente.
- Vamos - disse Athos -, est bem, vejo que me reconheceis.
- O conde de La Fere! - murmurou Milady empalidecendo e recuando at que a parede a impediu de ir mais longe.
- Sim, Milady - respondeu Athos -, o conde de La Fere em pessoa, que vem expressamente do outro mundo para ter o prazer de vos ver. Sentai-vos, pois, e conversemos, 
como diz Monsenhor o cardeal.

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Milady, dominada por um terror inexprimvel, sentou-se sem proferir uma palavra.
- Sois ento um demnio enviado  terra? - disse Athos. - O vosso poder  grande, bem sei; mas vs tambm sabeis que, com a ajuda de Deus, os homens venceram muitas 
vezes os demnios mais terrveis. J vos atravessastes no meu caminho, eu julgava que vos tinha vencido, minha senhora; mas, ou eu me enganava ou o inferno vos ressuscitou, 
i
Ao ouvir estas palavras que lhe traziam lembranas pavorosas, Milady baixou a cabea com um gemido surdo.
- Sim, o inferno vos ressuscitou - continuou Athos -, o inferno vos fez rica, o inferno vos deu outro nome, o inferno quase vos deu outro rosto; mas no apagou nem 
as mculas da vossa alma nem a baixeza do vosso corpo.
Milady ergueu-se como que impelida por uma mola e os seus olhos lanaram chispas. Athos ficou sentado.
- Julgveis-me morto, no  verdade, como eu vos julgava morta? E o nome Athos escondera o conde de La Fere, como o nome milady Clarick escondera Anne de Breuil! 
No era assim que vos chamveis quando o vosso honrado irmo nos casou? A nossa situao  realmente estranha - prosseguiu Athos a rir -, at agora um e outro apenas 
vivemos porque nos julgvamos mortos, e porque uma lembrana incomoda menos que uma criatura, embora, por vezes, seja uma coisa que devora!
- Mas, enfim - disse Milady com voz surda -, que vos traz at mim? E que quereis de mim?
- Quero dizer-vos que, embora permanecendo invisvel para os vossos olhos, eu no vos perdi de vista!
- Sabeis o que fiz?
- Posso contar-vos dia aps dia as vossas aces, desde a vossa entrada ao servio do cardeal at esta noite.
Um sorriso de incredulidade passou pelos lbios plidos de Milady.
- Escutai: fostes vs que cortastes as duas agulhetas de diamantes do ombro do duque de Buckingham; fostes vs que mandastes raptar a Sr.a Bonacieux; fostes vs 
que, enamorada de De Wardes e julgando passar a noite com ele, abristes a vossa porta ao Sr. d'Artagnan; fostes vs que, pensando que De Wardes vos enganara, quisestes 
mandar o seu rival mat-lo; fostes vs que, quando o seu rival descobriu o vosso infame segredo, quisestes mandar mat-lo por sua vez, enviando dois assassinos em 
sua perseguio; fostes vs que, vendo que as balas haviam falhado o seu alvo, enviastes vinho envenenado com uma carta falsa, para fazer crer  vtima que esse 
vinho fora mandado pelos seus amigos; fostes vs, enfim, que viestes aqui, a este quarto, sentada nesta cadeira onde eu estou, assumir com o cardeal de Richelieu 
o compromisso de mandar assassinar o duque de Buckingham, em troca da promessa que ele vos fez de vos deixar assassinar d'Artagnan.
Milady estava lvida.
- Mas ento vs sois Sat? - disse ela.
- Talvez - disse Athos -; mas, em todo o caso, escutai bem o seguinte: Assassinai ou mandai assassinar o duque de Buckingham, pouco me importa! No o conheo: de 
resto,  um ingls; mas no toqueis num cabelo de d'Artagnan, que  um amigo fiel que eu estimo e defendo, ou, eu vos juro por meu pai, o crime que cometerdes ser 
o ltimo.
- O Sr. d'Artagnan ofendeu-me cruelmente - disse Milady com voz surda -, o Sr. d'Artagnan morrer.
- Na verdade,  possvel que vos ofendam, minha senhora? - disse Athos a rir. - Ele ofendeu-vos e morrer?
- Morrer - replicou Milady -, primeiro ela, depois ele.
Athos teve como que uma vertigem: a vista daquela criatura, que nada tinha duma mulher, trouxe-lhe lembranas terrveis; pensou que, um dia, numa situao menos 
perigosa do que aquela em que se encontrava, j havia querido sacrific-la  sua honra; o seu desejo de assassnio voltou-lhe, escaldante, e invadiu-o como uma febre 
ardente: ergueu-se por sua vez, levou a mo ao cinto, tirou uma pistola e engatilhou-a.
Milady, plida como um cadver, quis gritar, mas a sua lngua gelada s pde proferir um som rouco que nada tinha da palavra humana e que parecia o arquejar dum 
bicho selvagem; colada  escura tapearia, ela surgia, com os cabelos espalhados, como a imagem pavorosa do terror.
Athos levantou lentamente a pistola, estendeu o brao de maneira que a arma quase tocasse a fronte de Milady, depois, com uma voz ainda mais terrvel porquanto tinha 
a calma suprema duma inflexvel resoluo:
- Minha senhora - disse ele -, ides entregar-me neste mesmo instante o papel que o cardeal vos assinou, ou, pela minha alma, fao-vos saltar os miolos.
Com outro homem, Milady poderia conservar algumas dvidas, mas conhecia Athos; todavia, permaneceu imvel.
- Tendes um segundo para vos decidirdes - disse ele.
Pela contraco do seu rosto, Milady viu que o tiro ia ser disparado; levou vivamente a mo ao peito, tirou um papel e estendeu-o a Athos.
- Aqui tendes - disse ela -, e maldito sejais.
Athos pegou no papel, tornou a meter a pistola no cinto, aproximou-se do candeeiro para se certificar de que era mesmo aquele e leu:


Foi por minha ordem e para bem do Estado que o portador da presente fez o que fez. 5 de Dezembro de 1627

RICHELIEU


- E agora - disse Athos, pegando na capa e pondo o chapu na cabea -, agora que te arranquei os dentes, vbora, morde se puderes.
E saiu do quarto sem olhar para trs.
 porta, encontrou os dois homens e o cavalo que seguravam.
- Meus senhores - disse ele -, como sabeis, a ordem de Monsenhor  conduzir esta mulher, sem perda de tempo, ao forte de La Pointe e s a largar quando estiver a 
bordo.

40 - 41


Como estas palavras concordavam efectivamente com a ordem que haviam recebido, eles inclinaram a cabea em sinal de assentimento.
Quanto a Athos, saltou para a sela e partiu a galope; porm, em vez de ir pela estrada, seguiu atravs dos campos esporeando vigorosamente o cavalo e parando de 
vez em quando para escutar.
Numa destas paragens, ouviu na estrada o passo de vrios cavalos. No duvidou de que fosse o cardeal e a sua escolta. Imediatamente tornou a avanar, esfregou o 
cavalo com urze e folhas de rvores, e foi atravessar-se na estrada a cerca de duzentos passos do acampamento.
- Quem vem l? - gritou ele de longe quando avistou os cavaleiros.
- Creio que  o nosso bravo mosqueteiro - disse o cardeal.
- Sim, Monsenhor - respondeu Athos -, ele mesmo.
- Sr. Athos - disse o cardeal -, recebei os meus agradecimentos pela boa guarda que me fizestes; meus senhores, eis-nos chegados: entrai pela porta  esquerda, a 
senha  Rei e R.
Dizendo estas palavras, o cardeal saudou com a cabea os trs amigos, e virou  direita, seguido pelo seu escudeiro, pois, nessa noite, ele prprio pernoitava no 
acampamento.
- Pois bem! - disseram em unssono Porthos e Aramis quando o cardeal ficou fora do alcance da voz. - Pois bem, ele assinou o papel que ela lhe pedia.
- J sei - disse tranquilamente Athos -, pois aqui o tenho.
E os trs amigos no trocaram mais nenhuma palavra at ao quartel, excepto para darem a senha s sentinelas.
Contudo, mandaram Mousqueton dizer a Planchet que o seu amo, quando fosse rendido na trincheira, devia comparecer no mesmo instante nos aposentos dos mosqueteiros.


Por outro lado, como Athos previra, Milady, encontrando  porta os homens que a esperavam, no ps dificuldade em os seguir; bem tivera, por um instante, vontade 
de se fazer conduzir  presena do cardeal e de lhe contar tudo, mas uma revelao da sua parte provocaria uma revelao da parte de Athos: ela diria que Athos a 
tinha enforcado, mas Athos diria que ela estava marcada; pensou que mais valia ficar calada, partir discretamente, cumprir com a sua habilidade usual a difcil misso 
de que se encarregara, depois, cumpridas todas as coisas de modo a satisfazer o cardeal, vir reclamar-lhe a sua vingana.
Por conseguinte, depois de ter viajado toda a noite, s sete horas da manh estava no forte de La Pointe, s oito tinha embarcado e s nove, o navio que, com as 
insgnias do cardeal, era suposto partir para Bayonne, levantava ncora e rumava para a Inglaterra.

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      CAPTULO XLVI - O BASTIO SAINT-GERVAIS

      Ao chegar junto dos seus trs amigos, d'Artagnan encontrou-os reunidos no mesmo quarto: Athos reflectia, Porthos frisava o bigode. Aramis rezava as suas oraes 
por um encantador livrinho de Horas encadernado em veludo azul.
- Apre, meus senhores! - disse ele. - Espero que o que tendes para me dizer valha a pena, seno previno-vos de que no vos perdoarei por me terdes feito c vir, 
em vez de me deixardes descansar aps uma noite passada a tomar e a desmantelar um bastio. Ah! Que pena que no estivsseis l, meus senhores! Aquilo esteve quente!
- Estvamos noutro stio, onde tambm no estava frio! - respondeu Porthos, retorcendo o bigode de uma forma que lhe era peculiar.
- Chiu! - disse Athos.
- Oh! Oh! - exclamou d'Artagnan, compreendendo o ligeiro franzir de sobrolho do mosqueteiro. - Parece que aqui h novidade.
- Aramis - disse Athos -, anteontem foste almoar  estalagem do Parpaillot, creio eu.
- Sim.
- E que tal?
- Comi bastante mal, anteontem era dia de jejum, e eles s tinham carne.
- O qu? - disse Athos. - Num porto de mar no tm peixe?
- Dizem - continuou Aramis, voltando  sua piedosa leitura - que o dique que o Sr. Cardeal mandou construir o afasta para o mar alto.
- Mas no era isso que vos perguntava. Aramis - tornou Athos -, perguntava-vos se estivestes  vontade e se ningum vos incomodou.
- Parece-me que no tivemos muitos importunos. Sim, de facto, quanto quilo que quereis dizer, Athos, estaremos bem no Parpaillot.
- Ento vamos ao Parpaillot - disse Athos -, pois aqui as paredes so como folhas de papel.
D'Artagnan, que estava habituado s maneiras do seu amigo e que imediatamente reconhecia numa palavra, num gesto, num sinal da parte dele, que as circunstncias 
eram graves, deu o brao a Athos e saiu com ele sem dizer nada; Porthos seguiu-os, conversando com Aramis.
No caminho encontraram Grimaud, Athos fez-lhe sinal para que o seguisse; Grimaud, como de costume, obedeceu em silncio; o pobre rapaz quase acabara por no saber 
falar.
Chegaram  taberna do Parpaillot: eram sete horas da manh, o dia comeava a raiar; os trs amigos mandaram vir o almoo, e entraram numa sala onde, como o estalajadeiro 
dizia, no deViam ser incomodados.
Infelizmente a hora era mal escolhida para um concilibulo; acabava de tocar a alvorada, cada um sacudia o sono da noite,

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e, para afastar o ar hmido da manh, vinha beber uma pinga na taberna: drages, suos, guardas, mosqueteiros, cavalaria ligeira sucediam-se com uma rapidez que 
devia ser muito boa para o estalajadeiro, mas que no convinha nada aos quatro amigos. Assim, estes respondiam com muito mau humor aos cumprimentos, aos brindes 
e aos gracejos dos seus companheiros.
- Vamos! - disse Athos. - Ainda vamos provocar alguma querela e neste momento, isto no nos convm. D'Artagnan, contai-me a vossa noite que depois vos contaremos 
a nossa.
- Com efeito - disse um soldado da cavalaria ligeira que se bamboleava com um copo de aguardente na mo, saboreando-o lentamente -, sim, com efeito, estveis na 
trincheira esta noite, senhor guarda, e parece que tivestes contas a ajustar com os rocheleses.
D'Artagnan olhou para Athos, para saber se devia responder quele intruso que se metia na conversa.
- Ento - disse Athos -, no ests a ouvir o Sr. de Busigny que te fez a honra de te dirigir a palavra? Conta o que se passou esta noite, j que estes senhores o 
desejam saber.
- No tomastes um bastio? - perguntou um suo que tomava rum por uma caneca de cerveja.
- Sim senhor - respondeu d'Artagnan, inclinando-se -, tivemos essa honra e at, como deveis ter ouvido, introduzimos num dos ngulos um barril de plvora que, ao 
rebentar, abriu uma linda brecha; sem contar que, como o bastio j no era novo, todo o resto do edifcio ficou bastante abalado.
- E que bastio foi? - perguntou um drago que trazia espetado no sabre um ganso para assar.
- O bastio Saint-Gervais - respondeu d'Artagnan -, por trs do qual os rocheleses inquietavam os nossos trabalhadores.
- E a coisa esteve acesa?
- Esteve, esteve; perdemos cinco homens, e os rocheleses uns oito ou dez.
- Cos diabos! - exclamou o suo que, apesar da admirvel coleco de pragas que a lngua alem possui, se habituara a praguejar em francs.
- Mas  provvel - disse o soldado de cavalaria ligeira - que eles mandem esta manh alguns pioneiros para reconstrurem o bastio.
- Sim,  possvel - disse d'Artagnan.
- Meus senhores - disse Athos -, uma aposta!
- Ah! Sim! Uma aposta! - disse o suo.
- Qual? - perguntou o soldado de cavalaria ligeira.
- Esperai - disse o drago, pousando o sabre como um espeto sbre os dois grandes ces de ferro da chamin -, j vou. Malvado estalajadeiro! Uma pingadeira imediatamente 
para eu no perder uma gota de gordura desta preciosa ave.
- Ele tem razo - disse o suo -, a gordura de ganso  muito boa com compotas.

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- Pronto! - disse o drago. - Agora vamos  aposta! Somos todos ouvidos, Sr. Athos!
- Sim, a aposta! - disse o soldado de cavalaria ligeira.
- Ora bem! Sr. de Busigny, aposto convosco - disse Athos - que os meus trs companheiros, senhores Porthos, Aramis, d'Artagnan e eu vamos almoar no bastio Saint-Gervais 
e que nos aguentamos l dentro uma hora, faa o inimigo o que fizer para nos desalojar.
Porthos e Aramis entreolharam-se; comeavam a compreender.
- Mas - disse d'Artagnan, debruando-se sobre o ouvido de Athos -, vais fazer que nos matem sem misericrdia.
- Bem mais mortos ficaremos - respondeu Athos - se no formos.
- Ah! Palavra! Meus sjnhores - disse Porthos reclinando-se na cadeira e frisando o bigode -, eis uma bela aposta, espero eu.
- Ento aceito - disse o Sr. de Busigny -; agora  preciso fixar o preo.
- Mas vs sois quatro, meus senhores - disse Athos -, e ns somos quatro; um jantar  discrio para oito. De acordo?
- Perfeitamente - respondeu o de Busigny.
- De acordo - disse o suo.
O quarto auditor que, durante toda a conversa, desempenhara um papel mudo, fez um sinal com a cabea para mostrar que concordava com a proposta.
- O almoo dos senhores est pronto - disse o estalajadeiro.
- Pois ento trazei-o - disse Athos.
O estalajadeiro obedeceu. Athos chamou Grimaud, mostrou-lhe um grande cesto que estava a um canto e fez o gesto de embrulhar nuns guardanapos as carnes que tinham 
sido trazidas.
- Mas onde ides comer o meu almoo? - disse o estalajadeiro.
- Que vos importa - disse Athos - desde que vos paguem? E atirou majestosamente duas pistolas para cima da mesa.
- Devo dar-vos o troco, meu oficial? - disse o estalajadeiro.
- No; junta s duas garrafas de vinho de Champagne, e a diferena fica para os guardanapos.
O estalajadeiro no fazia um negcio to bom como a princpio julgara, mas compensou a coisa servindo  socapa aos quatro convivas duas garrafas de Anjou em vez 
das duas garrafas de vinho de Champagne.
- Senhor de Busigny - disse Athos -, quereis acertar o vosso relgio pelo meu, ou permitir-me que acerte o meu pelo vosso?
- Perfeitamente, senhor! - disse o soldado de cavalaria ligeira, tirando do bolso um belo relgio rodeado de diamantes. - Sete horas e meia - disse ele.
- Sete horas e trinta e cinco minutos - disse Athos -; ficamos a saber que eu avano cinco minutos, senhor.
E, saudando os assistentes atnitos, os quatro jovens dirigiram-se para o bastio Saint-Gervais, seguidos por Grimaud, que levava o cesto, sem saber onde ia mas 
que,

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tendo-se habituado com Athos  obedincia passiva, nem sequer pensava em perguntar.
Enquanto estavam dentro do recinto do acampamento, os quatro amigos no trocaram uma palavra; alis, eram seguidos por uns curiosos que, conhecendo a aposta feita, 
queriam saber como  que eles se iam arranjar.
Mas, logo que transpuseram a linha de circunvalao e que se acharam ao ar livre, d'Artagnan, que ignorava completamente do que se tratava, achou que era altura 
de pedir uma explicao.
- E agora, meu caro Athos - disse ele -, tende a bondade de me dizer onde vamos.
-  como vedes - disse Athos -, vamos para o bastio.
- E que vamos l fazer?
- Bem sabeis, vamos almoar.
- E por que no almomos no Parpaillot?
- Porque temos coisas muito importantes para dizer uns aos outros e era impossvel conversar cinco minutos naquela estalagem com aqueles importunos todos que entram, 
saem, cumprimentam, acostam; aqui, ao menos - continuou Athos, apontando para o bastio -, no nos viro importunar.
- Parece-me - disse d'Artagnan com aquela prudncia que na sua pessoa se aliava to bem e to naturalmente a uma excessiva bravura -, parece-me que podamos ter 
encontrado algum lugar afastado nas dunas,  beira-mar.
- Onde nos veriam conferenciar os quatro juntos, de modo que ao fim dum quarto de hora o cardeal seria prevenido pelos seus espies de que tnhamos reunido conselho.
- Sim - disse Aramis -, Athos tem razo: Animodvertuntur in dem senis.
- Um deserto no seria mau - disse Porthos -, mas no se podendo encontrar nenhum.
- No h deserto em que um pssaro no possa passar por cima da cabea, em que um peixe no possa saltar fora d'gua, em que um coelho no possa sair da sua toca, 
e eu acho que pssaro, peixe, coelho, tudo se fez espio do cardeal. Portanto mais vale prosseguir a nossa empresa, diante da qual j no podemos, alis, recuar 
sem passarmos por uma vergonha; fizemos uma aposta, uma aposta que no podia ser prevista e cuja verdadeira causa eu desafio seja quem for a adivinhar: para a ganhar, 
vamos aguentar-nos uma hora no bastio. Ou seremos atacados ou no seremos. Se no formos, teremos tempo para conversar e ningum nos ouvir, pois eu garanto que 
as paredes deste bastio no tm ouvidos; se formos, conversaremos na mesma, e alm disso, defendemo-nos, cobrir-nos-emos de glria. Bem vedes que s h vantagens.
- Sim - disse d'Artagnan -, mas apanharemos indubitavelmente uma bala.

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- Eh! Meu caro - disse Athos -, bem sabeis que as balas mais temveis no so as do inimigo.
- Mas parece-me que para semelhante expedio devamos ao menos levar os nossos mosquetes.
- Sois um ingnuo, amigo Porthos; por que nos havamos de sobrecarregar com um fardo intil?
- Um bom mosquete de calibre, doze cartuchos e um polvorinho diante do inimigo no me parecem inteis.
- Oh! - disse Athos. - No ouvistes o que disse d'Artagnan?
- Que disse d'Artagnan? - perguntou Porthos.
- D'Artagnan disse que no ataque desta noite houve uns oito ou dez franceses mortos e outros tantos rocheleses.
- E depois?
- No tiveram tempo de os despojar, no ? Pois, de momento, tinham uma coisa mais urgente a fazer.
- E ento?
- Ento, vamos encontrar os seus mosquetes, os seus polvorinhos e os seus cartuchos, e, em vez de quatro mosquetes e de doze balas, teremos umas quinze espingardas 
e uma centena de tiros a disparar.
-  Athos - disse Aramis. - s realmente um grande homem! Porthos inclinou a cabea em sinal de adeso.
Apenas d'Artagnan no parecia convencido.
Sem dvida Grimaud partilhava as dvidas do jovem, pois, vendo que continuavam a caminhar para o bastio, coisa de que at ento duvidara, puxou uma ponta da casaca 
do seu amo.
- Onde vamos? - perguntou por gestos. Athos mostrou-lhe o bastio.
Grimaud poisou o cesto no cho e sentou-se, abanando a cabea.
Athos tirou uma pistola do cinto, verificou se estava bem escorvada, engatilhou-a e aproximou o cano da orelha de Grimaud.
Grimaud ps-se de p como uma mola.
Ento Athos fez-lhe sinal que pegasse no cesto e que caminhasse  frente.
Grimaud obedeceu.
Tudo o que o pobre moo ganhara com esta pantomina de um instante fora passar da retaguarda para a vanguarda.
Ao chegar ao bastio, os quatro amigos viraram-se para trs.
Mais de trezentos soldados de todas as armas estavam aglomerados  porta do acampamento, e num grupo separado podia-se distinguir o Sr. de Busigny, o drago, o suo 
e o quarto apostador.
Athos tirou o chapu, p-lo na ponta da espada e agitou-o no ar.
Todos os espectadores responderam  sua saudao, acompanhando esta cortesia com um grande hurra que chegou at eles.
Depois disto, os quatro desapareceram no bastio, onde Grimaud j os havia precedido.

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      CAPTULO XLVII - O CONSELHO DOS MOSQUETEIROS


      Como Athos previra, o bastio estava ocupado unicamente por uma dzia de mortos, tanto franceses como rocheleses.
- Meus senhores - disse Athos, que assumira o comando da expedio -, enquanto Grimaud vai pr a mesa, comecemos por recolher as espingardas e os cartuchos; podemos 
alis conversar enquanto executamos esta tarefa. Estes senhores - acrescentou, designando os mortos -, no nos escutam.
- Mas sempre os podamos atirar para o fosso - disse Porthos -, depois de termos verificado que no tm nada nos bolsos.
- Sim - disse Aramis -, isso  com Grimaud.
- Ah, bom - disse d'Artagnan. - Ento Grimaud que os reviste e que os atire das muralhas.
- Nem pensar nisso - disse Athos -, podem ser-nos teis.
- Estes mortos podem ser-nos teis? - disse Porthos. - Ora essa! Endoideceis, caro amigo.
- No julgueis temerariamente, dizem o Evangelho e o Sr. Cardeal - respondeu Athos. - Quantas espingardas, meus senhores?
- Doze - respondeu Aramis.
- Quantos tiros a disparar?
- Uma centena.
-  quanto nos basta; carreguemos as armas.
Os quatro mosqueteiros meteram mos  obra. Quando acabavam de carregar a ltima espingarda, Grimaud fez sinal de que o almoo estava servido.
Athos respondeu, sempre por gestos, que estava bem, e indicou a Grimaud uma espcie de guarita onde este compreendeu que devia pr-se de sentinela. Contudo, para 
suavizar o aborrecimento da faco, Athos permitiu-lhe que levasse um po, duas costeletas e uma garrafa de vinho.
- E agora para a mesa - disse Athos.
Os quatro amigos sentaram-se no cho, de pernas cruzadas como os turcos ou como os alfaiates.
- Ah! Agora - disse d'Artagnan - que j no tens medo de que te oiam, espero que nos contes o teu segredo, Athos.
- Espero proporcionar-vos ao mesmo tempo prazer e glria, meus senhores - disse Athos. - Fiz-vos dar um passeio encantador; eis um almoo dos mais suculentos, e 
cinco pessoas alm, como podeis ver atravs das seteiras, que nos tomam por uns doidos ou por uns heris, duas classes de imbecis muito parecidas.
- E o segredo? - perguntou d'Artagnan.
- O segredo - disse Athos -  que vi Milady ontem  noite.

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D'Artagnan levava o copo aos lbios mas, ao ouvir este nome a mo tremeu-lhe tanto que o pousou no cho para no derramar o contedo.
- Viste a tua mu...
- Chiu! - interveio Athos. - Esqueceis, meu caro, que estes senhores no foram iniciados como vs nos segredos das minhas questes domsticas; vi Milady.
- E onde? - perguntou d'Artagnan.
- Mais ou menos a duas lguas daqui, na estalagem do Colombier-Rouge.
- Nesse caso, estou perdido - disse d'Artagnan.
- No, ainda no totalmente - disse Athos -, pois a estas horas ela deve ter deixado as costas da Frana.
D'Artagnan respirou fundo.
- Mas afinal - perguntou Porthos -, quem  essa Milady?
- Uma mulher encantadora - disse Athos, saboreando um copo de vinho espumante. - O canalha do estalajadeiro! - exclamou ele. - Deu-vos vinho de Anjou por vinho de 
Champagne, e julga que nos deixamos enganar! Sim - continuou -, uma mulher encantadora que teve algumas condescendncias com o nosso amigo d'Artagnan, que lhe fez 
no sei que maldade da qual ela tentou vingar-se h um ms, querendo mandar mat-lo a golpes de mosquete, h oito dias tentando envenen-lo, e ontem pedindo a sua 
cabea ao cardeal.
- O qu? Pedindo a minha cabea ao cardeal? - exclamou d'Artagnan, plido de terror.
- L isso - disse Porthos -  verdade como o Evangelho; eu prprio o ouvi.
- Eu tambm - disse Aramis.
- Ento - disse d'Artagnan, deixando cair o brao com desnimo -,  intil continuar a lutar; o melhor  dar um tiro na cabea e acabar com tudo!
- Isso  o ltimo disparate a fazer - disse Athos -, visto que  o nico para o qual no h remdio.
- Mas eu nunca escaparei - disse d'Artagnan -, com inimigos como esses. Primeiro o meu desconhecido de Meung; depois De Wardes, a quem dei trs golpes de espada; 
depois Milady, cujo segredo eu surpreendi; enfim, o cardeal, cuja vingana fiz fracassar.
- Pois bem! - disse Athos. - So apenas quatro e ns somos quatro, um contra um. Coa breca! Se acreditamos nos sinais que nos faz Grimaud, vamos ter de nos ver com 
muito mais gente. Que h, Grimaud? Considerando a gravidade da circunstncia, permito-vos que faleis, meu amigo, mas sede lacnico, peo-vos. Que vedes?
- Um grupo.
- De quantas pessoas?
- De vinte homens.
- Que homens?
- Dezasseis pees, quatro soldados.
- A quantos passos esto?

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- A quinhentos passos.
- Bom, ainda temos tempo de acabar esta ave e de beber um copo de vinho  tua sade, d'Artagnan!
-  tua sade! - repetiram Porthos e Aramis.
- Pois muito bem,  minha sade! Embora no me parea que os vossos votos me sirvam de muito.
- Ora! - disse Athos. - Deus  grande, como dizem os sectrios de Maom, e o futuro est nas suas mos.
Depois, emborcando o contedo do seu copo, que pousou junto de si, Athos levantou-se indolentemente, pegou na primeira espingarda e aproximou-se duma seteira.
Porthos, Aramis e d'Artagnan fizeram o mesmo. Quanto a Grimaud, recebeu ordem de pr-se atrs dos quatro amigos a fim de recarregar as armas.
Passado um instante viram aparecer o grupo; seguia uma espcie de cotovelo da trincheira que estabelecia uma comunicao entre o bastio e a cidade.
- Palavra! - disse Athos. - Vale bem a pena incomodar-nos por causa de uns vinte engraados armados de picaretas, de enxadas e de ps! Bastava que Grimaud lhes tivesse 
feito sinal para se irem embora,; e estou convencido de que nos teriam deixado em paz.
- Duvido - observou d'Artagnan -, pois avanam com bastante determinao deste lado. Alis, vm com os trabalhadores quatro soldados e um brigadeiro, armados de 
mosquetes.
-  porque no nos viram - retorquiu Athos.
- Palavra de honra! - disse Aramis. - Confesso que sinto repugnncia de atirar sobre esses pobres diabos burgueses.
- Mau sacerdote - respondeu Porthos -, que tem pena dos hereges!
- Na verdade - disse Athos -, Aramis tem razo. Vou preveni-los.
- Que diabo fazeis? - exclamou d'Artagnan. - Ides fazer-vos matar, meu caro.
Mas Athos no ligou ao aviso e, subindo para a fenda, com a espingarda numa das mos e o chapu na outra, gritou:
- Meus senhores - disse ele, dirigindo-se aos soldados e aos trabalhadores que, espantados com a sua apario, estacavam a cerca de cinquenta passos do bastio, 
e saudando-os cortesmente -, meus senhores, ns estamos, alguns amigos e eu, a almoar neste bastio. Ora, vs sabeis que no h nada to desagradvel como ser incomodado 
durante o almoo; portanto, pedimo-vos, se tendes absolutamente que fazer aqui, que espereis que terminemos a nossa refeio ou que passeis mais tarde, a menos que 
tenhais o salutar desejo de largar o partido da rebelio e de vir beber connosco  sade do rei de Frana.
- Toma cautela, Athos! - exclamou d'Artagnan. - No vs que apontam para ti?
- Sim, sim - disse Athos -, mas so uns burgueses que atiram muito mal, e que esto bem livres de me atingir.

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Com efeito, no mesmo instante, quatro balas de espingarda foram disparadas, e as balas vieram cravar-se  volta de Athos, mas nenhuma o atingiu.
Quatro tiros de espingarda responderam-lhes quase ao mesmo tempo, mas eram melhor dirigidos que os dos agressores; trs soldados caram mortos, e um dos trabalhadores 
ficou ferido.
- Grimaud, outro mosquete! - disse Athos, sempre na fenda. Grimaud obedeceu imediatamente. Por seu lado, os trs amigos
tinham carregado as suas armas; uma segunda descarga seguiu a primeira: o brigadeiro e dois pioneiros caram mortos e o resto do grupo desatou a fugir.
- Vamos, meus senhores, uma surtida - disse Athos.
E os quatro amigos, lanando-se fora do forte, chegaram ao campo de batalha, recolheram os quatro mosquetes dos soldados e a meia lana do brigadeiro; e, convencidos 
de que os fugitivos s iam parar na cidade, retomaram o caminho do bastio, trazendo os trofus da sua vitria.
- Recarregai as armas, Grimaud - disse Athos -, e ns, meus senhores, recomecemos o nosso almoo e continuemos a nossa conversa. Onde amos ns?
- Eu lembro-me - disse d'Artagnan, que se preocupava bastante com o itinerrio que Milady devia seguir.
- Vai para Inglaterra - respondeu Athos.
- E com que finalidade?
- Com a finalidade de assassinar ou mandar assassinar Buckingham.
D'Artagnan soltou uma exclamao de surpresa e de indignao.
- Mas isso  infame! - exclamou.
- Oh! Quanto a isso - disse Athos -, peo-vos que acrediteis que me inquieto muito pouco. Agora que acabastes, Grimaud - continuou Athos -, pegai na meia-lana do 
nosso brigadeiro, amarrai-lhe um guardanapo e espetai-a no alto do nosso bastio, a fim de que esses rebeldes rocheleses vejam que somos bravos e leais soldados 
do rei.
Grimaud obedeceu sem responder. Passado um instante, a bandeira branca flutuava por cima da cabea dos quatro amigos; uma trovoada de aplausos saudou o seu aparecimento; 
metade do acampamento estava nas barreiras.
- O qu? - replicou d'Artagnan. - Inquietas-te muito pouco com o facto de que ela mate ou mande matar Buckingham? Mas o duque  nosso amigo.
- O duque  ingls, o duque combate contra ns; ela que faa o que quiser com o duque que eu me importo tanto com isso como com uma garrafa vazia.
E Athos atirou a quinze passos a garrafa que segurava e que acabava de verter at  ltima gota no seu copo.
- Um instante - disse d'Artagnan -, eu no abandono Buckingham assim; ele tinha-nos dado uns cavalos muito bons.

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- E sobretudo umas ricas selas - acrescentou Porthos, que, nesse preciso momento, trazia na capa o galo da sua.
- Alm disso - observou Aramis -, Deus quer a converso e no a morte do pecador.
- men - disse Athos -, e se isso vos agrada, voltaremos a falar neste assunto mais tarde; mas o que, de momento, mais me preocupava, e estou certo de que tu compreenders, 
d'Artagnan, era tirar a essa mulher uma espcie de assinatura em branco que ela extorquira ao cardeal, e graas  qual devia impunemente livrar-se de ti e talvez 
de ns.
- E essa assinatura em branco - disse d'Artagnan -, essa assinatura em branco ficou nas suas mos?
- No, passou para as minhas; no direi que foi sem dificuldade, por exemplo, pois estaria a mentir.
- Meu caro Athos - disse d'Artagnan -, j no tm conta as vezes que me salvastes a vida.
- Ento era para irdes ter com ela que nos deixastes? - perguntou Aramis.
- Justamente.
- E tens essa carta do cardeal? - disse d'Artagnan.
- Aqui est - disse Athos.
E tirou o precioso papel do bolso da casaca.
D'Artagnan desdobrou-o com mo cujo tremor nem sequer tentava dissimular e leu:


Foi por minha ordem e para bem do Estado que o portador da presente fez o que fez. 5 de Dezembro de 1627.

RICHELIEU.


- Com efeito - disse Aramis -,  uma absolvio dentro das regras.
- H que rasgar esse papel - exclamou d'Artagnan, que parecia ler a sua sentena de morte.
- Nada disso - disse Athos -, h que conserv-lo preciosamente, e eu no daria este papel mesmo que o cobrissem de moedas de ouro.
- E que vai ela fazer agora? - perguntou o mancebo.
- Mas - disse negligentemente Athos -, vai provavelmente escrever ao cardeal, comunicando-lhe que o maldito dum mosqueteiro chamado Athos lhe arrancou o seu salvo-conduto; 
dar-lhe- na mesma carta o conselho de se desembaraar, ao mesmo tempo que dele, dos seus dois amigos Porthos e Aramis; o cardeal h-de recordar-se de que so os 
mesmos homens que encontra sempre no seu caminho; ento, um belo dia, manda prender d'Artagnan e, para que ele no se aborrea sozinho, manda-nos fazer-lhe companhia 
na Bastilha.
- Ora essa! - disse Porthos. - Isso parece-me uma triste brincadeira, meu caro.

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- No estou a brincar - respondeu Athos.
- Sabeis - disse Porthos - que torcer o pescoo a essa maldita Milady seria um pecado menor do que torcer o pescoo aos pobres diabos dos huguenotes, que jamais 
cometeram outros crimes alm de cantarem em francs os salmos que ns cantamos em latim?
- Que diz o abade? - perguntou calmamente Athos.
- Digo que sou da mesma opinio que Porthos - respondeu Aramis.
- Ento e eu! - exclamou d'Artagnan.
- Felizmente que ela est longe - observou Porthos -, pois confesso que muito me incomodaria se estivesse aqui.
- Incomoda-me tanto em Inglaterra como em Frana - disse Athos.
- A mim incomoda-me em toda a parte - continuou d'Artagnan.
- Mas j que a tnheis na mo - disse Porthos -, por que no a afogastes, estrangulastes, enforcastes? S os mortos no regressam.
- Acreditais nisso, Porthos? - respondeu o mosqueteiro com um sorriso sombrio que s d'Artagnan compreendeu.
- Tenho uma ideia - disse d'Artagnan.
- Vejamos - disseram os mosqueteiros.
- s armas! - gritou Grimaud.
Os jovens levantaram-se apressadamente e correram s espingardas.
Desta vez avanava um pequeno grupo composto de vinte ou vinte e cinco homens; mas j no eram trabalhadores, eram soldados da guarnio.
- E se voltssemos ao acampamento? - disse Porthos. - Parece-me que a partida no  igual.
-  impossvel, por trs razes - respondeu Athos. - Primeiro: no acabmos de almoar; segundo, ainda temos coisas importantes a dizer uns aos outros; terceiro: 
ainda faltam dez minutos para a hora combinada.
- Vejamos - disse Aramis -, mesmo assim ainda temos de traar um plano de batalha.
-  muito simples - respondeu Athos -; assim que o inimigo estiver ao alcance do mosquete, abrimos fogo; se continuar a avanar, tornamos a fazer fogo, fazemos fogo 
enquanto tivermos espingardas carregadas; se o que restar do grupo ainda nos quiser assaltar, deixamos os sitiantes descer ao fosso, e ento empurramos-lhes para 
cima este troo da parede que j s se aguenta por um milagre de equilbrio.
- Bravo! - exclamou Porthos. - Decididamente, Athos, tnheis nascido para serdes general, e o cardeal, que se julga um grande homem de guerra,  muito insignificante 
ao p de vs.
- Meus senhores - disse Athos -, peo-vos que no faais repeties escusadas; que cada um de vs vise bem o seu homem.
- Eu j tenho o meu - disse d'Artagnan.
- E eu o meu - disse Porthos.
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- E eu idem - disse Aramis.
- Ento, fogo! - disse Athos.
Os quatro tiros de espingarda produziram uma nica detonao, e quatro homens caram.
Imediatamente rufou o tambor e o pequeno grupo avanou a passo de arremetida.
Ento os tiros sucederam-se sem regularidade, mas sempre disparados com a mesma preciso. Contudo, como se conhecessem a fraqueza numrica dos amigos, os rocheleses 
continuavam a avanar a passo de corrida.
Com os outros trs tiros caram dois homens; todavia a marcha dos que continuavam de p no abrandava.
Ao chegarem ao bastio, os inimigos ainda eram doze ou quinze, uma ltima descarga os acolheu, mas no os fez parar; saltaram para o fosso e preparavam-se para escalar 
a brecha.
- Vamos, meus amigos - disse Athos -, acabemos com eles duma vez.  muralha!  muralha!
E os quatro amigos, secundados por Grimaud, puseram-se a empurrar com a coronha das espingardas um enorme troo da parede, que se inclinou como se o vento o empurrasse, 
e que, desprendendo-se da base, ! caiu com um estrondo horrvel no fosso; depois ouviu-se um grande grito, uma nuvem de p subiu at ao cu, e foi tudo.
- T-los-amos esmagado desde o primeiro at ao ltimo? - pergun tou Athos.
- Coa breca! Parece-me que sim - disse d'Artagnan.
- No - disse Porthos -, l vo dois ou trs a fugir todos estropiados.
Com efeito, trs ou quatro desgraados, cobertos de lama e de sangue, fugiam pelo caminho escavado e alcanavam a cidade; era tudo o que restava do pequeno grupo.
Athos olhou para o relgio.
- Meus senhores - disse ele -, h uma hora que estamos aqui, e agora a aposta est ganha; mas devemos ser bons jogadores, de resto d'Artagnan no nos disse a sua 
ideia.
- A minha ideia? - disse d'Artagnan.
- Sim, dizeis que tnheis uma ideia - replicou Athos.
- Ah! J sei - respondeu d'Artagnan -, passo-me para a Inglaterra pela segunda vez, vou ter com o Sr. de Buckingham e aviso-o do conluio tramado contra a sua vida.
- No fareis tal coisa, d'Artagnan - disse friamente Athos.
- E por que no? No o fiz j uma vez?
- Sim, mas nessa poca no estvamos em guerra; nessa poca, o Sr. de Buckingham era um aliado e no um inimigo: o que quereis fazer seria considerado uma traio.
D'Artagnan compreendeu a fora deste raciocnio e calou-se.
- Mas - disse Porthos -, parece-me que eu por minha vez tenho uma ideia.

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- Silncio para a ideia do Sr. Porthos! - disse Aramis.
- Peo uma folga ao Sr. de Trville, sob um pretexto qualquer que vs achareis, eu c no sou muito bom nisso. Milady no me conhece, aproximo-me dela sem que me 
receie e, quando a encontrar, estrangulo-a.
- Muito bem! - disse Athos. - No estou muito longe de adoptar a ideia de Porthos.
- Ora essa! - disse Aramis. - Matar uma mulher! No, esperai, eu tenho a verdadeira ideia.
- Vejamos a vossa ideia, Aramis! - pediu Athos, que tinha uma grande deferncia pelo jovem mosqueteiro.
- H que prevenir a rainha.
- Ah! Sim, coa breca! - exclamaram em unssono Porthos e d'Artagnan. - Acho que  a melhor maneira.
- Prevenir a rainha! - disse Athos. - E como? Acaso temos relaes na corte? Acaso podemos enviar algum a Paris sem que isso se saiba no acampamento? Daqui a Paris 
so cento e quarenta lguas; ainda a nossa carta no teria chegado a Angers, j ns estaramos na cadeia.
- Quanto a entregar com segurana uma carta a Sua Majestade - props Aramis, corando -, eu encarrego-me disso; conheo em Tours uma pessoa hbil...
Aramis parou ao ver Athos sorrir.
- Ento? No adoptais esta maneira, Athos? - disse d'Artagnan.
- No a rejeito inteiramente - disse Athos -, queria apenas observar a Aramis que ele no pode abandonar o acampamento; que outra pessoa alm de ns no  segura; 
que duas horas depois de o mensageiro ter partido, todos os capuchinhos, todos os alguazis, todos os barretes negros do cardeal sabero a vossa carta de cor, e que 
vos prendero a vs e  vossa hbil pessoa.
- Sem contar - objectou Porthos - que a rainha salvar o Sr. de Buckingham mas no nos salvar a ns.
- Meus senhores - disse d'Artagnan -, o que Porthos objecta faz muito sentido.
- Ah! Ah! Ento o que se passa na cidade? - disse Athos.
- Tocam a rebate.
Os quatro amigos escutaram, e o rufar do tambor chegou efectivamente at eles.
- Vereis que nos vo enviar um regimento inteiro - disse Athos.
- No contais resistir contra um regimento inteiro, pois no? - disse Portos.
- Por que no? - disse o mosqueteiro. - Sinto-me em forma; resistiria diante de um exrcito, se ao menos tivssemos tido a precauo de trazer mais uma dzia de 
garrafas.
- Palavra que o tambor se aproxima - disse d'Artagnan.
- Deixai-o aproximar-se - disse Athos -, daqui at  cidade  um quarto de hora de caminho, e por conseguinte da cidade at aqui.  mais do que precisamos para traarmos 
o nosso plano;

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se nos formos embora daqui, nunca mais encontramos um lugar to conveniente, vede, justamente, meus senhores, eis que me surge a verdadeira ideia.
- Ento dizei.
- Permiti que eu d a Grimaud algumas ordens indispensveis. Athos fez sinal ao criado para se aproximar.
- Grimaud - disse Athos, designando os mortos que jaziam no bastio -, ides pegar nesses senhores, encost-los  muralha e pr-lhe o chapu na cabea e a espingarda 
na mo.
-  grande homem! - exclamou d'Artagnan. - Estou a compreender-te.
- Estais a compreender? - disse Porthos.
- E tu, compreendes, Grimaud? - perguntou Aramis. Grimaud fez sinal que sim.
- No  preciso mais nada - disse Athos -, voltemos  minha ideia.
- Mas eu queria compreender - observou Porthos.
-  intil.
- Sim, sim, a ideia de Athos - disseram ao mesmo tempo d'Artagnan e Aramis.
- Essa Milady, essa mulher, essa criatura, esse demnio, tem cunhado, segundo me dissestes, creio eu, d'Artagnan.
- Sim, conheo-o at muito bem, e at creio que no simpatiza muito com a cunhada.
- Isso no faz mal - respondeu Athos -, se a detestasse ainda era melhor.
- Nesse caso estamos servidos.
- Contudo - disse Porthos -, eu queria compreender o que fez Grimaud.
- Silncio, Porthos! - disse Aramis.
- Como se chama o tal cunhado?
- Lorde de Winter.
- Onde est ele agora?
- Voltou a Londres aos primeiros rumores da guerra.
- Ora bem!  precisamente o homem que nos falta - disse Athos -,  esse que nos convm prevenir; mandar-lhe-emos dizer que a cunhada se prepara para assassinar algum 
e pedir-lhe-emos que no a perca de vista. Deve haver em Londres, espero eu, um estabelecimento do gnero das Madelonnettes ou das Moas Arrependidas; ele manda 
l meter a cunhada e ns ficamos sossegados.
- Sim - disse d'Artagnan -, at que ela saia de l.
- Ah! Que diabo! - replicou Athos. - Vs pedis de mais, d'Artagnan; dei-vos o que tinha e previno-vos de que esvaziei o saco.
- Eu acho que  o melhor - disse Aramis -, preveniremos simultaneamente a rainha e lorde de Winter.
- Sim, mas por intermdio de quem mandaremos a carta para Tours e a carta para Londres?

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- Eu respondo por Bazin - disse Aramis.
- E eu por Planchet - continuou d'Artagnan.
- Com efeito - disse Porthos -, se ns no nos podemos ausentar do acampamento, os nossos lacaios podem.
- Sem dvida - disse Aramis -, e hoje mesmo escreveremos as cartas, damos-lhes dinheiro e eles partem.
- Damos-lhes dinheiro? - tornou Athos. - Ento vs tendes dinheiro?
Os quatro amigos entreolharam-se e uma nuvem passou pelas frontes que se tinham desanuviado por um instante.
- Alerta! - gritou d'Artagnan. - Vejo uns pontos negros e uns pontos vermelhos que se agitam alm; que dizeis vs dum regimento, Athos?  um verdadeiro exrcito.
- Sim, palavra - disse Athos -, l esto eles. Vedes os manhosos que vinham sem tambores nem cornetas? Ah! Ah! J acabastes, Grimaud?
Grimaud fez que sim, e mostrou uma dzia de mortos que tinha colocado nas atitudes mais pitorescas: uns apresentando armas, outros como se as apontassem, os outros 
de espada na mo.
- Bravo! - exclamou Athos. - Isso faz honras  tua imaginao.
-  a mesma coisa - disse Porthos -, mas eu queria compreender.
- Primeiro vamos fugir - interrompeu d'Artagnan -, depois compreendes.
- Um instante, meus senhores, um instante! Demos tempo a Grimaud para tirar a mesa.
- Ah! - disse Aramis. - Os pontos negros e os pontos vermelhos crescem a olhos vistos e eu sou da mesma opinio que d'Artagnan; acho que no temos tempo a perder 
para alcanarmos o nosso acampamento.
- Ca breca! - disse Athos. - J no tenho nada contra a retirada: apostmos por uma hora e ficmos hora e meia; no h nada a dizer; partamos, meus senhores, partamos.
Grimaud j se tinha antecipado com o cesto e os sobejos. Os quatro amigos saram atrs deles uns dez passos.
- Eh! - exclamou Athos. - Que diabo fazemos ns, meus senhores?
- Esquecestes alguma coisa? - perguntou Aramis.
- E a bandeira, Ca breca! No se deve deixar uma bandeira nas mos do inimigo, mesmo quando no passa dum guardanapo.
E Athos correu ao bastio, subiu  plataforma e retirou a bandeira; porm, como os rocheleses tinham chegado ao alcance dos mosquetes, fizeram um fogo terrvel sobre 
este homem que, como que por gosto, ia expor-se aos tiros.
Mas parecia que Athos tinha um sortilgio agarrado  sua pessoa, as balas passaram a assobiar em volta dele, mas nenhuma o atingiu.
Athos agitou o seu estandarte, virando as costas  gente da cidade e saudando a gente do acampamento. Dos dois lados se ouviram altos gritos; dum lado gritos de 
clera, do outro gritos de entusiasmo.

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Uma segunda descarda seguiu a primeira, e trs balas, esburacando-o, fizeram realmente do guardanapo uma bandeira. Ouviram-se clamores de todo o acampamento, que 
gritava:
- Descei! Descei!
Athos desceu; os seus camaradas, que o esperavam ansiosamente, viram-no aparecer cheios de alegria.
- Vamos, Athos, vamos - disse d'Artagnan -, apressemo-nos, agora que encontrmos tudo, excepto o dinheiro, seria uma estupidez deixarmo-nos matar.
Mas Athos continuava a andar majestosamente, apesar das observaes que lhe faziam os seus companheiros, os quais, vendo que estas eram inteis, regularam o passo 
pelo seu.
Grimaud e o seu cesto tinham tomado a dianteira e estavam j fora do alcance.
Passado um instante ouviu-se o rudo dum tiroteio furioso.
- Que  aquilo? - perguntou Porthos. - Sobre o que  que atiram? No ouo assobiar as balas e no vejo ningum.
- Atiram sobre os nossos mortos - respondeu Athos.
- Mas os nossos mortos no respondero.
- Justamente; ento eles vo crer numa emboscada, vo deliberar e enviaro um parlamentar e, quando se aperceberem da brincadeira, ns estaremos fora do alcance 
das balas.  por isso que no vale a pena apanhar uma pleuresia apressando-nos.
- Oh! Compreendo - exclamou Porthos, encantado.
- Ainda bem! - disse Athos, encolhendo os ombros.
Por seu lado, os franceses, vendo regressar os quatro amigos a psso, davam gritos de entusiasmo.
Por fim ouviu-se novo tiroteio, e desta vez as balas vieram cravar-se nas pedras em volta dos quatro amigos e assobiar lugubremente aos seus ouvidos. Os rocheleses 
acabavam finalmente de se apoderar do bastio.
- So mesmo uns desajeitados - disse Athos. - Quantos matmos? Doze?
- Ou quinze.
- Quantos esmagmos?
- Oito ou dez.
- E em troca de tudo isso nem um arranho? Ora esta! Que tendes vs na mo, d'Artagnan? Parece-me sangue.
- No  nada - disse d'Artagnan.
- Uma bala perdida?
- Nem isso.
- Ento o que ?
Como dissemos, Athos amava d'Artagnan como um filho, e este carcter sombrio e inflexvel tinha por vezes com o mancebo solicitudes de pai.
- Um arranho - respondeu d'Artagnan -, entalei os dedos numas pedras, a da parede e a do meu anel, e arranhei a pele.

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-  is o que se arranja quando se tem diamantes, meu senhor - disse desdenhosamente Athos.
- Ora essa! - exclamou Porthos. - H um diamante, com efeito, ento por que diabo, se h um diamante, nos queixamos de no termos dinheiro?
-  verdade! - disse Aramis.
- Em boa hora, Porthos; desta vez eis uma ideia.
- Sem dvida - disse Porthos, inchado com o elogio de Athos -, se h um diamante, vamos vend-lo.
- Mas - disse d'Artagnan - este diamante  da rainha.
- Mais uma razo - continuou Athos -, a rainha salva o Sr. de Buckingham, seu amante, nada mais justo; a rainha salva-nos a ns, seus amigos, nada mais moral: vendamos 
o diamante. Que pensa o Sr. Abade? No peo a opinio de Porthos, que j a emitiu.
- Mas eu penso - disse Aramis, corando - que, como o seu anel no provm duma amante e por conseguinte no  uma prova de amor, d'Artagnan pode vend-lo.
- Meu caro, falais como a teologia em pessoa. Portanto, a vossa opinio ...
- Vender o diamante - respondeu Aramis.
- Muito bem - disse alegremente d'Artagnan -, vendamos o diamante e no falemos mais nisso.
O tiroteio continuou, mas os amigos estavam fora do alcance e os rocheleses j s atiravam por descargo de conscincia.
- Apre - disse Athos - no foi sem tempo que Porthos teve essa ideia; eis-nos no acampamento. Portanto, meus senhores, nem mais uma palavra sobre este assunto. Observam-nos, 
vm ao nosso encontro, vamos ser levados em triunfo.
Com efeito, como dissemos, todo o acampamento estava emocionado; mais de duas mil pessoas tinham assistido, como a um espectculo,  feliz proeza dos quatro amigos, 
proeza cujo verdadeiro motivo estavam bem longe de adivinhar. S se ouvia o grito: Vivam os guardas! Vivam os mosqueteiros! O Sr. de Busigny fora o primeiro a vir 
apertar a mo de Athos e a reconhecer que tinha perdido a aposta. O drago e o suo tinham-no seguido, todos os camaradas tinham seguido o drago e o suo. Eram 
felicitaes, apertos de mo, abraos que nunca mais acabavam, gargalhadas inextinguveis relativas aos rocheleses; enfim, um tumulto to grande que o Sr. Cardeal 
julgou haver um motim e enviou La Houdinire, o seu capito das guardas, informar-se do que se passava.
Contaram o caso ao mensageiro com todo o entusiasmo.
- Ento? - perguntou o cardeal ao ver La Houdinire.
- Ento, Monsenhor - disse este - foram trs mosqueteiros e um guarda que fizeram a aposta com o Sr. de Busigny de irem almoar no bastio Saint-Gervais, e que, 
enquanto almoavam, resistiram ali duas horas contra o inimigo, e mataram no sei quantos rocheleses.
- Informastes-vos do nome desses trs mosqueteiros?

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- Sim, Monsenhor.
- Como se chamam?
- So os senhores Athos, Porthos e Aramis.
- Outra vez os meus trs valentes! - murmurou o cardeal. - E o guarda?
- Sr. d'Artagnan.
- Outra vez o meu engraado! Decididamente tenho de ter esses quatro homens na mo.


Na mesma noite o cardeal falou ao Sr. de Trville da faanha daquela manh, que era o assunto das conversas de todo o acampamento. O Sr. de Trville, que tinha ouvido 
contar a aventura aos prprios heris da mesma, contou-a com todos os pormenores a Sua Eminncia, sem esquecer o episdio do guardanapo.
- Muito bem, Sr. de Trville - disse o cardeal -, mandai-me entregar esse guardanapo, se fazeis o favor. Mandarei bordar trs flores de lis de ouro, e farei dele 
o estandarte da vossa companhia.
- Monsenhor - disse o Sr. de Trville -, ser uma injustia para os guardas: o Sr. d'Artagnan no  dos meus, mas do Sr. des Essarts.
- Pois bem! Ficai com ele - disse o cardeal. - No  justo que, se esses quatro bravos militares se estimam tanto, no sirvam na mesma companhia.
Na mesma noite, o Sr. de Trville anunciou esta boa notcia aos trs mosqueteiros e a d'Artagnan, convidando os quatro para almoar no dia seguinte.
D'Artagnan no cabia em si de contente. Como se sabe, o sonho da sua vida era ser mosqueteiro.
Os trs amigos estavam muito contentes.
- Apre! - disse d'Artagnan a Athos. - Tiveste uma ideia triunfal, e, como disseste, cobrimo-nos de glria e pudemos travar uma conversa da mais alta importncia.
- Que agora poderemos recomear sem que ningum desconfie; pois, com a graa de Deus, passaremos doravante por cardinalistas.
Na mesma noite d'Artagnan foi apresentar as suas homenagens ao Sr. des Essarts e participar-lhe a promoo que obtivera.
O Sr. des Essarts, que estimava muito d'Artagnan, ofereceu-lhe ento os seus prstimos: aquela mudana de corpo acarretava despesas de equipamento.
D'Artagnan recusou mas, achando propcia a ocasio, pediu-lhe que mandasse avaliar o diamante, que lhe entregou, e com o qual desejava realizar dinheiro.
No dia seguinte, s oito da manh, o criado do Sr. Des Essarts, entrou no quarto de d'Artagnan e entregou-lhe um saco de ouro contendo sete mil libras.
Era o preo do diamante da rainha.

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      XLVIII - QUESTO FAMILIAR


      Athos encontrara a expresso: questo familiar. Uma questo familiar no era submetida  investigao do cardeal; uma questo familiar no concernia ningum; 
uma pessoa podia ocupar-se duma questo familiar diante de toda a gente.
Assim, Athos encontrara a expresso: uma questo familiar. Aramis encontrara a ideia: o lacaio.
Porthos encontrara a maneira: o diamante.
S d'Artagnan no encontrara nada, ele que era geralmente o mais inventivo dos quatro; mas h que dizer tambm que o simples nome de Milady o paralisava.
Ah! Sim, estamos enganados: encontrara um comprador para o diamante.
O almoo com o Sr. de Trville foi de uma alegria encantadora. D'Artagnan j tinha o seu uniforme; como era praticamente da mesma altura que Aramis e como Aramis, 
generosamente bem pago, como vos deveis lembrar, pelo livreiro que lhe comprara o seu poema, fizera tudo a dobrar, cedera ao seu amigo um equipamento completo.
D'Artagnan estaria no auge da felicidade se no tivesse visto despontar Milady como uma nuvem carregada no horizonte.
Depois do almoo combinaram reunir-se  noite nos aposentos de Athos, e ali acabarem de resolver a questo.
D'Artagnan passou o dia a exibir o seu fato de mosqueteiro em todas as ruas do acampamento.
 noite,  hora combinada, os quatro amigos reuniram-se; s faltava decidir trs coisas:
O que iam escrever ao irmo de Milady.
O que iam escrever  tal pessoa hbil de Tours.
E quem seriam os lacaios que levariam as cartas.
Cada qual oferecia o seu: Athos falava da discrio de Grimaud, que s falava quando o amo lhe desselava os lbios; Porthos gabava a fora de Mousqueton, que era 
capaz de sovar quatro homens de compleio normal; Aramis, confiante na habilidade de Bazin, fazia um elogio pomposo do seu candidato; enfim, d'Artagnan tinha a 
maior f na bravura de Planchet, e lembrava a maneira como este se comportara no espinhoso caso de Boulogne.
Estas quatro virtudes disputaram por muito tempo o prmio, e deram lugar a magnficos discursos, que no reproduziremos, para no nos alongarmos.
- Infelizmente - disse Athos -, seria preciso que o nosso enviado possusse as quatro qualidades reunidas.
- Mas onde encontrar semelhante lacaio?
- Impossvel! - disse Athos. - Eu bem sei: mandai Grimaud.

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- Mandai Mousqueton.
- Mandai Bazin.
- Mandai Planchet; Planchet  bravo e habilidoso: j so duas das quatro qualidades.
- Meus senhores - disse Aramis -, o principal no  saber quais dos nossos quatro lacaios  o mais discreto, o mais forte, o mais hbil ou o mais bravo; o principal 
 saber qual deles gosta mais de dinheiro.
- Aramis tem toda a razo - observou Athos -, h que especular sobre os defeitos das pessoas e no sobre as suas qualidades: Sr. Abade, sois um grande moralista!
- Sem dvida - replicou Aramis -, pois precisamos de ser bem servidos no s para alcanarmos xito, mas tambm para no fracassarmos; em caso de fracasso, est 
em risco a cabea, no para os lacaios...
- Mais baixo, Aramis! - disse Athos.
- Tendes razo, no para os lacaios - retomou Aramis - mas para o amo, e at para os amos! Os nossos criados so suficientemente dedicados para arriscarem a vida 
por ns? No.
- Palavra - disse d'Artagnan - eu quase responderia por Planchet.
- Pois bem, meu caro amigo, acrescentai  sua natural dedicao uma boa quantia que lhe proporcione um certo bem-estar, e ento, em vez de responderdes uma vez por 
ele, respondei duas.
- Eh! Meu Deus! Mesmo assim sereis enganados - disse Athos, que era optimista quando se tratava das coisas e pessimista quando se tratava dos homens. - Prometero 
tudo para receberem o dinheiro e, a caminho, o medo impedi-los- de agir. Uma vez apanhados, apertam-nos e eles, apertados, confessam. Que diabo! No somos nenhumas 
crianas! Para ir a Inglaterra - Athos baixou a voz -  preciso atravessar a Frana inteira, semeada de espies e de criaturas do cardeal;  preciso um passe para 
embarcar;  preciso saber ingls para perguntar o caminho em Londres. Quereis saber? Eu vejo a coisa muito difciL.
- Mas nada disso - disse d'Artagnan, muito interessado em que a coisa se realizasse -, eu vejo-a fcil, pelo contrrio. No  preciso dizer, que diabo!, que se escrevermos 
contando a lorde de Winter coisas incrveis, horrores sobre o cardeal...
- Mais baixo! - disse Athos.
- Intrigas e segredos de Estado - continuou d'Artagnan, conformando-se com a recomendao -, no  preciso dizer que seremos todos supliciados; mas, por Deus, no 
esqueais, como vs mesmo dissestes, Athos, que lhe escrevemos por uma questo de famlia; que lhe escreveremos apenas para que impossibilite Milady, logo que esta 
chegar a Londres, de nos prejudicar, Portanto, vou escrever-lhe uma carta mais ou menos nestes termos:
- Vamos - disse Aramis, assumindo antecipadamente uma expresso de crtico.
- "Senhor e caro amigo..."

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- Ah, sim! Caro amigo, a um ingls - interrompeu Athos -, comeais bem! Bravo d'Artagnan! S com essa palavra sereis esquartejado em vez de serdes supliciado.
- Pois bem! Ento direi apenas Senhor.
- Podeis at dizer Milorde - replicou Athos, muito agarrado s convenincias.
- "Milorde, recordais-vos do pequeno cercado das cabras no Luxemburgo?"
- Bom! Agora o Luxemburgo! Parece uma aluso  rainha me! Muito engenhoso - disse Athos.
- Pois bem, ento pomos simplesmente: "Milorde, recordais-vos de certo pequeno cercado em que vos salvaram a vida?"
- Meu caro d'Artagnan - disse Athos -, nunca passareis de um mau redactor: "Onde vos salvaram a vida!" Ora essa! Isso no  digno. No se lembram esses favores a 
um homem galante. Lembrar um favor  fazer uma ofensa.
- Ah, meu caro! - disse d'Artagnan. - Sois insuportvel, e se  preciso escrever sob a vossa censura, palavra que desisto.
- E fazeis bem. Manejai o mosquete e a espada, meu caro, fazeis galantemente esses dois exerccios; mas passai a pena ao Sr. Abade, isso  com ele.
- Ah, sim! De facto - disse Porthos. - Passai a pena a Aramis, que escreve teses em latim.
- Pois bem, seja! - disse d'Artagnan. - Redigi-nos essa nota, Aramis; mas, pelo santo Padre!, sede conciso, pois previno-vos de que vou depenar-vos por minha vez.
-  o que desejo - disse Aramis com essa ingnua confiana que todo o poeta tem em si mesmo -, mas deveis pr-me ao corrente: ouvi dizer aqui que essa tal cunhada 
era uma malvada, e at tive a prova disso escutando a sua conversa com o cardeal.
- Mais baixo, Ca breca! - disse Athos.
- Mas - continuou Aramis -, os pormenores escapam-me.
- E a mim tambm - disse Porthos.
D'Artagnan e Athos entreolharam-se algum tempo em silncio. Por fim, Athos, depois de se ter recolhido e tornando-se mais plido do que de costume, fez um sinal 
de adeso, e d'Artagnan compreendeu que podia falar.
- Pois bem, eis o que  preciso dizer - continuou d'Artagnan: - "Milorde, a vossa cunhada  uma celerada que vos quis mandar matar para receber a vossa herana. 
Mas no podia casar-se com o vosso irmo, pois j era casada em Frana e tinha sido..."
D'Artagnan parou como se procurasse a palavra, olhando para Athos.
- Renegada pelo marido - disse Athos.
- Porque tinha sido marcada - continuou d'Artagnan.
- Ora! - exclamou Porthos. - Impossvel! Quis mandar matar o cunhado?

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- Sim.
- Era casada? - perguntou Aramis.
- Sim.
- E o marido apercebeu-se de que ela tinha uma flor-de-lis no ombro? - exclamou Athos.
- Sim.
Estes trs sins tinham sido pronunciados por Athos, cada um numa entoao mais sombria.
- E quem viu essa flor-de-ls? - perguntou Aramis.
- D'Artagnan e eu, ou melhor, para observar a ordem cronolgica, eu e d'Artagnan - respondeu Athos.
- E o marido dessa horrvel criatura ainda  vivo? - disse Aramis.
- Ainda  vivo.
- Tendes a certeza?
- Tenho.
Houve um instante de frio silncio durante o qual cada um se sentiu impressionado segundo a sua natureza.
- Desta vez - recomeou Athos, interrompendo o silncio -, d'artagnan deu-nos um excelente programa, e  isso que se deve escrever primeiro.
- Diabo! Tendes razo, Athos - recomeou Aramis -, e a redaco  espinhosa. O prprio Sr. Chanceler ficaria embaraado se tivesse de redigir uma epstola dessas, 
e contudo, o Sr. Chanceler redige bem um auto. No importa! Calai-vos que escrevo.
Aramis, com efeito, pegou na pena, reflectiu alguns instantes, ps-se a escrever oito ou dez linhas com uma encantadora letrinha de mulher, depois, com voz doce 
e lenta, como se cada palavra fosse escrupulosamente pesada, leu o seguinte:


Milorde.

A pessoa que vos escreve estas linhas teve a honra de cruzar a espada convosco num pequeno cercado da Rua de VEnfer. Como depois disso vos dignastes vrias vezes 
declarar-vos amigo dessa pessoa, ela deve reconhecer essa amizade com um bom aviso. Por duas vezes estivestes para ser vtima duma parente chegada que julgveis 
vossa herdeira por ignorardes que, antes de contrair matrimnio em Inglaterra, ela j era casada em Frana. Mas, da terceira vez, que  esta, podeis sucumbir-lhe. 
A vossa parente partiu de La Rochelle para Inglaterra durante a noite. Vigiai a sua chegada pois tem grandes e terrveis projectos. Se quereis absolutamente saber 
do que ela  capaz, lede o seu passado no seu ombro esquerdo.

- Muito bem! Uma maravilha - disse Athos -, e tendes uma pena de secretrio de Estado, meu caro Aramis. Lorde de Winter passar a ter cuidado, se receber o aviso; 
e, ainda que este casse nas mos de Sua Eminncia em pessoa, no ficaramos comprometidos. Mas como o criado que partir nos poder fazer

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crer que foi a Londres e parar em Chtelleraud, demos-lhe com a carta apenas metade da quantia, prometendo-lhe a outra metade em troca da resposta. Tendes o diamante? 
- continuou Athos.
- Tenho melhor que isso, tenho a quantia.
E d'Artagnan atirou o saco para cima da mesa; ao som do ouro, Aramis ergueu os olhos, Porthos estremeceu; quanto a Athos, ficou impassvel.
- Quanto dinheiro tem esse saquinho? - perguntou ele.
- Sete mil libras em luses de doze francos.
- Sete mil libras! - exclamou Porthos. - Esse diamantezinho de nada valia sete mil libras?
- Parece - disse Athos -, pois esto aqui; no presumo que o nosso amigo d'Artagnan tenha posto dinheiro seu.
- Mas, meus senhores, em tudo isso - disse d'Artagnan - ns no pensmos na rainha. Cuidemos um pouco da sade do seu caro Buckingham.  o mnimo que lhe devemos.
-  justo - disse Athos -, mas isso  com Aramis.
- Muito bem - respondeu este, corando -, que devo fazer?
- Mas - replicou Athos -  muito simples: redigir uma segunda carta para a vossa hbil pessoa que mora em Tours.
Aramis voltou a pegar na pena, ps-se de novo a reflectir e escreveu as seguintes linhas, que submeteu imediatamente  aprovao dos seus amigos:


Minha cara prima...

- Ah! - disse Athos. - Essa hbil pessoa  vossa parente!
-  minha prima germana - disse Aramis.
- Est bem, pronto! Aramis continuou:


Minha cara prima, Sua Eminncia o Cardeal, que Deus conserva para a felicidade da Frana e a confuso dos inimigos do reino, est prestes a acabar com os rebeldes 
herticos de La Rochelle:  provvel que o socorro da frota inglesa no chegue sequer  vista da praa; ouso at dizer que o Sr. de Buckingham ser impedido de partir 
por algum grande acontecimento. Sua Eminncia  o mais ilustre poltico dos tempos passados, do tempo presente e provavelmente dos tempos vindouros. Apagaria o Sol 
se o Sol o incomodasse. Dai estas boas notcias  vossa irm, minha cara prima. Sonhei que esse maldito ingls estava morto. No me lembro se foi pelo ferro ou pelo 
veneno, apenas tenho a certeza de que sonhei que estava morto e, como sabeis, os meus sonhos nunca me enganam. Podeis, pois, estar certa de que me vereis regressar 
em breve.

- Perfeitamente! - exclamou Athos. - Sois o rei dos poetas; meu caro Aramis, vs falais como o Apocalipse e sois verdadeiro como o Evangelho. Agora s vos resta 
pr o endereo nessa carta.

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- Isso  muito fcil - disse Aramis.
Dobrou galantemente a carta, pegou nela e escreveu:


Para a Menina Marie Michon, roupeira em Tours.


Os trs amigos entreolharam-se a rir: tinham sido apanhados.
- Agora - disse Aramis - compreendereis, meus senhores, que s Bazin pode levar esta carta a Tours; a minha prima s conhece Bazin e tem confiana nele: qualquer 
outro faria fracassar a empresa. Alis, Bazin  ambicioso e sbio; Bazin leu a histria, meus senhores, e sabe que Sixto Quinto foi papa depois de ter guardado porcos; 
ora bem, como ele conta entrar para o servio da Igreja ao mesmo tempo que eu, no perde a esperana de vir a ser papa ou pelo menos cardeal: COM preendeis que um 
homem que tem essas ambies no se deixar apanhar ou, se for apanhado, sofrer o martrio mas no falar.
- Bom, bom - disse d'Artagnan -, passo-vos Bazin de boa vontade, mas passai-me Planchet: um dia Milady p-lo na rua  paulada; ora Planchet tem boa memria, e, garanto-vos 
que, se considerar a possibilidade duma vingana, preferir deixar-se moer de pancada a desistir. Se os vossos assuntos de Tours so convosco, Aramis, os de Londres 
so comigo. Peo, pois, que escolhais Planchet, que alis j foi comigo a Londres e sabe dizer correctamente: London, sir, if you please e my mas ter lord d'Artagnan; 
e ficai tranquilos, pois ele far o caminho de ida e volta.
- Nesse caso - disse Athos -,  preciso que Planchet receba setecentas libras para ir e setecentas libras para vir, e Bazin trezentas libras para ir e trezentas 
libras para vir; isto reduzir a quantia a cinco mil libras; ficamos com mil libras para as gastarmos onde nos parecer necessrio e deixaremos um fundo de mil libras, 
que o abade guardar para os casos extraordinrios ou as necessidades comuns. Convm-vos?
- Meu caro Athos - disse Aramis -, vs falais como Nestor, que, como todos sabem, era o mais sbio dos gregos.
- Pois bem! Fica assente - recomeou Athos -, Planchet e Bazin partiro; vendo bem, no me importo de conservar Grimaud: est acostumado s minhas maneiras e eu 
no quero perd-lo; o dia de ontem j o deve ter abalado e essa viagem seria o seu fim.
Mandaram chamar Planchet, e deram-lhe instrues; j fora prevenido por d'Artagnan que,  primeira, lhe anunciara a glria, depois o dinheiro e em seguida o perigo.
- Levarei a carta no forro da minha casaca - disse Planchet -, e se me apanharem, engulo-a.
- Mas nesse caso no poders fazer o recado - disse d'Artagnan.
- Dar-me-eis uma cpia esta noite que eu saberei de cor amanh.
D'Artagnan olhou para os amigos como quem diz:
"Ento? Que vos tinha prometido?"
- Agora - continuou ele, dirigindo-se a Planchet -, tens oito dias, para chegares junto a lorde de Winter, tens mais oito dias para voltares aqui, so dezasseis 
dias ao todo; se, no dcimo sexto dia a contar da tua
partida, s oito da noite, no tiveres chegado, no recebes o dinheiro, ainda que sejam oito e cinco.
- Ento, senhor - disse Planchet -, comprai-me um relgio.
- Toma este - disse Athos, dando-lhe o seu com despreocupada generosidade -, e s bom rapaz. Lembra-te de que, se falares, se conversares, se perderes tempo a passear, 
fazes cortar o pescoo ao teu amo, que tem tanta confiana na tua fidelidade que nos respondeu por ti. Mas lembra-te tambm de que, se por tua causa acontecer algum 
mal a d'Artagnan, eu encontrar-te-ei onde quer que estejas e ser para te abrir a barriga.
- Oh! Meu senhor! - disse Planchet, humilhado com a suspeita e sobretudo apavorado com o ar calmo do mosqueteiro.
- E eu - disse Porthos, revirando os olhos -, lembra-te de que te esfolo vivo.
- Ah! Meu senhor!
- E eu - continuou Aramis com a sua voz doce e melodiosa -, lembra-te de que te asso a fogo lento como um selvagem.
- Ah! Meu senhor!
E Planchet ps-se a chorar; no ousaramos dizer se foi de terror, por causa das ameaas que lhe faziam, ou de ternura por ver os quatro amigos to estreitamente 
unidos.
D'Artagnan pegou-lhe na mo e abraou-o.
- Ests a ver, Planchet - disse-lhe ele -, estes senhores dizem-te tudo isto por causa da ternura que sentem por mim, mas no fundo estimam-te.
- Ah, meu senhor! - disse Planchet. - Ou serei bem sucedido ou me cortaro em quatro partes, mas podeis estar certo de que, ainda que me cortem em quatro partes, 
nenhuma delas falar.
Decidiu-se que Planchet partiria no dia seguinte s oito da manh, para que, como ele dissera, pudesse decorar a carta durante a noite. Ganhou precisamente doze 
horas com este arranjo; devia estar de volta no dcimo sexto dia s oito da noite.
De manh, no momento em que ia montar a cavalo, d'Artagnan, que l no fundo tinha um fraco pelo duque, chamou Planchet  parte.
- Escuta - disse-lhe -, quando entregares a carta a lorde de Winter e quando este a tiver lido, dizes-lhe ainda: "Velai por Sua Graa Lorde Buckingham, pois querem-no 
assassinar." Mas, Planchet, v tu que isto  to grave e to importante que nem quis confessar aos meus amigos que te confiaria este segredo e que, nem por uma comisso 
de capito, quereria escrev-lo.
- Ficai sossegado, senhor - disse Planchet -, vereis se se pode ou no contar comigo.
E, montado num excelente cavalo, que devia largar a vinte lguas para tomar a posta, Planchet partiu a galope, com o corao um pouco apertado com a tripla promessa 
que os trs mosqueteiros lhe tinham feito, mas de resto nas melhores disposies do mundo.

66 - 67


Bazin partiu no dia seguinte de manh para Tours, e teve oito dias para fazer o seu recado.
Como se compreende, durante estas duas ausncias, os quatro amigos tinham mais que nunca os olhos  espreita, o nariz ao vento e os ouvidos  escuta. Passavam os 
dias a tentar surpreender o que se dizia, a espreitar as atitudes do cardeal e a farejar os correios que chegavam. Mais de uma vez os assaltou um tremor invencvel, 
quando os chamaram para algum servio inesperado. Alis, tinham de ter cuidado por uma questo de segurana pessoal. Milady era um fantasma que quando aparecia uma 
vez s pessoas, no as deixava dormir sossegadas.


Na manh do oitavo dia Bazin, sempre fresco e sorridente como era seu hbito, entrou na taberna de Parpaillot quando os quatro amigos almoavam, dizendo, segundo 
o combinado:
- Sr. Aramis, eis a resposta da vossa prima.
Os quatro amigos trocaram um olhar de alegria: estava cumprida metade da tarefa, embora fosse a mais curta e a mais fcil.
Corando sem querer, Aramis pegou na carta, escrita com uma letra grosseira e sem ortografia.
- Meu Deus! - exclamou ele a rir. - Decididamente perco as esperanas, a pobre Michon nunca escrever como o Sr. Voiture.
- Que  que isso quer dizer, a pobre Michon? - perguntou o suo que conversava com os quatro amigos quando a carta chegou.
- Oh, meu Deus! Quase nada - disse Aramis -, uma pequena roupeira encantadora de quem eu gostei muito e a quem pedi umas linhas escritas pelo seu punho como recordao.
- Apre! - disse o suo. - Se  to senhora como a sua letra, tenDes muita sorte, camarada!
Aramis leu a carta e passou-a a Athos.
- Vede o que ela me escreve, Athos - disse ele.
Athos passou os olhos pela epstola e, para fazer desvanecer todas as suspeitas que podiam ter surgido, leu em voz alta:


"Meu primo, minha irm e eu adivinhamos muito bem os sonhos, e temos at muito medo deles; mas eu espero que se possa dizer do vosso: todo o sonho  mentira. Adeus! 
Sade e dai-nos notcias de vez em quando.

Marie MICHON.



- E a que sonho se refere? - perguntou o drago, que se aproximara durante a leitura.
- Sim, de que sonho? - disse o suo.
- Eh, apre! - disse Aramis. -  muito simples, a um sonho que eu tive e que lhe contei.
- Ah, sim, por Deus! Contar um sonho  bem simples, mas eu nunca sonho.

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- Tendes muita sorte - disse Athos levantando-se -, e eu bem gostaria de poder dizer o mesmo.
- Nunca! - disse o suo, encantado por um homem como Athos lhe invejar alguma coisa. - Nunca! Nunca!
D'Artagnan, vendo que Athos se levantava, fez o mesmo, deu-lhe o brao e saiu.
Porthos e Aramis ficaram para enfrentarem as graolas do drago e do suo.
Quanto a Bazin, foi deitar-se em cima de um feixe de palha, e, como tinha mais imaginao que o suo, sonhou que o Sr. Aramis, feito papa, o faria cardeal.
Mas, como dissemos, com o seu feliz regresso, Bazin apenas aliviara em parte a inquietao dos quatro amigos. Os dias de espera custam a passar, e sobretudo d'Artagnan 
teria apostado que os dias tinham agora quarenta e oito horas. Esquecia as demoras da navegao, exagerava o poder de Milady. Atribua a esta mulher, que lhe surgia 
semelhante a um demnio, auxiliares sobrenaturais como ela; imaginava, ao menor rudo, que o vinham prender, e que traziam Planchet para o confrontar com ele e com 
os seus amigos. Mais ainda: a sua confiana no digno picardiano, outrora to grande, diminua de dia para dia. Esta inquietao era to grande que contagiava Porthos 
e Aramis. S Athos permanecia impassvel, como se nenhum perigo se agitasse  sua volta, e ele respirasse a sua atmosfera de todos os dias.
No dcimo sexto dia sobretudo estes sinais de agitao eram to visveis em d'Artagnan e nos seus dois amigos que no podiam estar quietos e erravam como sombras 
no caminho em que Planchet devia voltar.
- De facto - dizia-lhes Athos -, no sois homens, sois umas crianas, para que uma mulher vos meta tanto medo! E afinal de que se trata? De sermos presos! Muito 
bem! Mas ho-de tirar-nos da priso: no tiraram a Sr.a Bonacieux? De sermos decapitados? Mas todos os dias nas trincheiras nos expomos a pior do que isso, pois 
uma bala pode partir-nos uma perna, e tenho a certeza de que um cirurgio nos faz sofrer mais ao cortar-nos a coxa do que um carrasco ao cortar-nos a cabea. Ficai, 
pois, sossegados: daqui a duas, a quatro, a seis horas, o mais tardar, Planchet estar aqui: prometeu que estaria, e eu tenho muita f nas promessas de Planchet, 
que me parece muito bom rapaz.
- E se ele no chegar? - disse d'Artagnan.
- Pois bem, se no chegar,  porque se atrasou, e pronto. Pode ter cado do cavalo, pode ter feito uma cabriola por cima da ponte, pode ter corrido to depressa 
que tenha tido uma fluxo pulmonar. Eh! Meus senhores! Examinemos os acontecimentos. A vida  um rosrio de pequenas misrias que o filsofo desafia a rir. Sede 
filsofos como eu, meus senhores, sentai-vos  mesa e bebamos; o futuro nunca parece to cor-de-rosa como quando  visto atravs dum copo de chambertin.
- Muito bem - respondeu d'Artagnan -, mas estou cansado de temer, quando bebo, que o vinho tenha sado das caves de Milady.

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- Sois muito exigente - disse Athos -, uma mulher to bela!
- Uma mulher de marca! - disse Porthos com o seu forte riso. Athos estremeceu, passou a mo pela testa para limpar o suor, levantou-se por sua vez com um movimento 
nervoso que no pde reprimir.
Contudo, o dia passou-se e a noite veio lentamente, mas acabou por vir; as tabernas encheram-se de fregueses; Athos, que tinha arrecadado a sua parte do diamante, 
j no saa do Parpaillot. Tinha encontrado no Sr. de Busigny, que, de resto, lhes oferecera um magnfico jantar, um parceiro digno dele. Jogavam, pois, um com o 
outro, como de costume, quando deram as sete horas: ouviram-se passar as patrulhas que iam reforar os postos; s sete e meia tocou a recolher.
- Estamos perdidos - disse d'Artagnan ao ouvido de Athos.
- Quereis dizer que perdemos - disse tranquilamente Athos, tirando quatro pistolas do bolso e lanando-as sobre a mesa. - Vamos, meus senhores - continuou. Toca 
a recolher, vamo-nos deitar.
E Athos saiu do Parpaillot, seguido de d'Artagnan. Aramis vinha atrs, dando o brao a Porthos. Aramis mastigava uns versos, e Porthos, de vez em quando, arrancava 
uns plos do bigode, em sinal de desespero.
Mas eis que, subitamente, no escuro, se desenha uma sombra cuja forma  familiar a d'Artagnan, e que uma voz bem conhecida lhe diz:
- Senhor, trago-vos a vossa capa pois a noite est fresca.
- Planchet! - exclamou d'Artagnan, doido de alegria.
- Planchet! - repetiram Porthos e Aramis.
- Muito bem! Sim, Planchet - disse Athos -, que tem isso de espantoso? Ele tinha prometido estar de volta s oito horas e esto a dar as oito horas. Bravo, Planchet! 
Sois um rapaz de palavra e, se alguma vez largardes o vosso amo, tendes um lugar ao meu servio.
- Oh! No, nunca - disse Planchet -, nunca deixarei o Sr. d'Artagnan.
Ao mesmo tempo d'Artagnan sentiu que Planchet lhe introduzia um bilhete na mo.
D'Artagnan tinha vontade de abraar Planchet no regresso como o abraara  partida, mas receou que esta prova de efuso dada ao seu lacaio no meio da rua parecesse 
extraordinria a quem por ali passasse e conteve-se.
- J tenho o bilhete - disse ele a Athos e aos seus amigos.
- Est bem - disse Athos -, vamos l-lo nos nossos aposentos.
O bilhete escaldava na mo de d'Artagnan, que queria acelerar
o passo. Mas Athos pegou-lhe no brao, enfiou-o no seu, e o jovem teve de acertar o passo pelo do seu amigo.
Por fim entraram na tenda, acenderam um candeeiro, e enquanto Planchet ficava  porta para que os quatro amigos no fossem surpreendidos, d'Artagnan, com mo trmula, 
quebrou o selo e abriu a to esperada carta.

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Esta continha meia linha, escrita com letra bem britnica e com uma conciso bem espartana:

"Thank you, be easy."


O que queria dizer:


"Obrigado, ficai descansado."


Athos tirou a carta das mos de d'Artagnan, aproximou-a do candeeiro, ateou-lhe fogo e no a largou enquanto no se reduziu a cinzas.
Depois, chamando Planchet:
- Agora, meu rapaz - disse-lhe -, podes reclamar as tuas setecentas libras, mas no arriscavas grande coisa com um bilhete como aquele.
- Nem por isso inventei muitas maneiras de o esconder - disse Planchet.
- Ora bem - disse d'Artagnan -, conta l isso.
- Apre! Isso  coisa para levar muito tempo, meu senhor.
- Tens razo, Planchet - disse Athos -, alis, j tocou a recolher e ns daramos nas vistas se ficssemos com a luz acesa at mais tarde que os outros.
- Bom - disse d'Artagnan -, vamo-nos deitar. Dorme bem, Planchet!
- Irra, meu senhor! Ser a primeira vez desde h dezasseis dias.
- E eu tambm! - disse d'Artagnan.
- E eu tambm! - repetiu Porthos.
- E eu tambm! - repetiu Aramis.
- Muito bem! Quereis que vos confesse a verdade? Eu tambm! - disse Athos.


      XLIX - FATALIDADE


      Contudo, Milady, cega de raiva, rugindo na coberta do navio como uma leoa ao ser embarcada, sentira-se tentada a atirar-se ao mar para voltar  costa, pois 
no conseguia admitir a ideia de que fora insultada por d'Artagnan, ameaada por Athos e que deixava a Frana sem se vingar deles. Em breve esta ideia tornara-se 
to insuportvel que, com o risco do que lhe poderia acontecer de terrvel a si mesma, ela suplicara ao capito que a levasse  costa; mas o capito, cheio de pressa 
de escapar da sua falsa posio entre os cruzadores franceses e ingleses, como o morcego entre os ratos e os pssaros, tinha toda a urgncia de chegar a Inglaterra 
e recusou-se obstinadamente a obedecer quilo que considerava um capricho feminino, prometendo  sua passageira, que lhe fora alis muito recomendada pelo cardeal, 
que a desembarcaria, se o mar e os franceses o permitissem, num dos portos da Bretanha,

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quer em Lorient quer em Brest, mas entretanto o vento era contrrio, o mar estava mau, o navio andava  bolina. Nove dias depois de sarem do Charente, Milady, muito 
plida com os seus desgostos e a sua raiva, s via aparecerem as costas azuladas do Finisterra.
Calculou que, para atravessar aquele canto da Frana e chegar junto do cardeal, precisava de pelo menos trs dias; mais um dia para o desembarque e eram quatro; 
juntando estes quatro dias aos outros nove, eram treze dias perdidos, treze dias durante os quais se podiam passar tantos acontecimentos importantes em Londres. 
Pensou que certamente o cardeal ficaria furioso com o seu regresso e que, por conseguinte, se inclinaria mais a escutar as queixas que lhe fariam contra ela do que 
as acusaes que ela faria contra os outros. Portanto deixou passar Lorient e Brest sem insistir com o capito que, por seu lado, tambm no lhe chamou a ateno. 
Milady prosseguiu, pois, o seu caminho e, no mesmo dia em que Planchet embarcava em Portsmouth para a Frana, a mensageira de Sua Eminncia entrava, triunfante, 
no porto.
Toda a cidade estava agitada por um movimento extraordinrio: quatro grandes navios recentemente construdos acabavam de ser lanados ao mar; de p no molhe, coberto 
de ouro, cintilante, como habitualmente, de diamantes e de pedrarias, com o chapu de feltro ornado duma pluma branca que lhe tombava sobre o ombro, via-se Buckingham, 
rodeado por um estado-maior quase to brilhante como ele. i
Era um desses belos e raros dias de Inverno em que a Inglaterra se lembra de que o sol existe. O astro plido, mas contudo ainda esplndido, punha-se no horizonte, 
purpurejando o cu e o mar com faixas de fogo e lanando sobre as torres e as casas velhas da cidade um derradeiro raio de ouro que fazia brilhar as vidraas como 
o reflexo dum incndio.
Milady, respirando aquele ar do Oceano mais vivo e mais balsmico com a proximidade da terra, contemplando todo o poder daqueles preparativos que estava encarregada 
de destruir, todo o poder daquela armada que devia combater sozinha - ela, uma mulher - com uns sacos de ouro, comparou-se mentalmente a Judite, a terrvel judia, 
quando esta penetrou no acampamento dos assrios e viu a enorme massa de carros, de cavalos, de homens e de armas que um gesto da sua mo podia dissipar como uma 
nuvem de fumo.
Entraram na baa; mas, quando se preparavam para lanar a ncora, um pequeno cter formidavelmente armado aproximou-se do navio mercante, apresentando-se como guarda 
costeiro, e lanou o seu bote ao mar, o qual se dirigiu para a escada. Neste bote vinham um oficial, um contramestre e oito remadores; s o oficial subiu a bordo, 
onde foi recebido com toda a deferncia que o uniforme inspira.
O oficial conversou alguns instantes com o patrono, deu-lhe a ler um papel de que era portador e, por ordem do capito do navio mercante, toda a tripulao do mesmo, 
marinheiros e passageiros, foi chamada  coberta.
Feita esta espcie de apelo, o oficial indagou em voz alta quais haviam sido o ponto de partida do brigue, a sua rota,

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as suas paragens, e, a todas as perguntas, o capito respondeu sem hesitao nem dificuldade. Ento o oficial comeou a passar revista a todas as pessoas, uma a 
uma, e, detendo-se em Milady, considerou-a com grande cuidado, mas no lhe dirigiu uma nica palavra.
Depois voltou junto do capito, disse-lhe mais algumas palavras, e, como se dali em diante o navio lhe devesse obedecer, comandou uma manobra, que a tripulao imediatamente 
executou. Ento o navio tornou a rumar, sempre escoltado pelo pequeno cter, que vogava encostado a ele, ameaando-lhe o flanco com a boca dos seus seis canhes, 
enquanto a barca seguia no sulco do navio, como um pontinho ao p da enorme massa.
Durante o exame que o oficial fizera de Milady, esta, naturalmente, devorara-o com os olhos. Mas, embora esta mulher de olhos de chamas estivesse muito habituada 
a ler no corao daqueles cujos segredos precisava de adivinhar, desta vez encontrou um rosto de uma tal impassibilidade que a sua investigao no conduziu a nenhuma 
descoberta. O oficial que parara diante dela e que a estudara silenciosamente e com tanto cuidado podia ter vinte e cinco ou vinte e seis anos, tinha um rosto branco 
com os olhos azuis-claros um pouco encovados; a sua boca, fina e bem desenhada, permanecia imvel nas suas linhas correctas; o seu queixo, vigorosamente acusado, 
denotava essa fora de vontade que, no tipo vulgar britnico geralmente no passa de obstinao; uma testa pequena, como convm aos poetas, aos entusisticos e aos 
soldados, era levemente sombreada por uma cabeleira curta e rala que, como a barba que lhe cobria a parte inferior do rosto, era de uma bela cor castanho-escura.
Quando entraram no porto j era noite. A bruma tornava a escurido ainda mais espessa e formava em torno dos fanais e das lanternas do molhe um crculo semelhante 
ao que envolve a lua quando o tempo ameaava chuva. O ar que se respirava era triste, hmido e frio.
Milady, essa mulher to forte, sentia-se a tremer.
O oficial mandou que lhe indicassem a bagagem de Milady e que a levassem para o bote; e, realizada esta operao, convidou-a a descer por sua vez, estendendo-lhe 
a mo.
Milady olhou para este homem e hesitou.
- Quem sois, senhor - perguntou ela -, vs que tendes a bondade de vos ocupardes de mim de maneira to especial?
- Deveis ver, minha senhora, pelo meu uniforme; sou oficial da marinha inglesa - respondeu o rapaz.
- Mas, enfim, ser costume os oficiais da marinha inglesa porem-se s ordens dos seus compatriotas quando estes abordam um porto da Gr-Bretanha e levarem a galantaria 
ao ponto de os conduzirem a terra?
- Sim, Milady,  costume, no por galantaria mas por prudncia, em tempo de guerra os estrangeiros serem conduzidos a uma estalagem designada, a fim de que enquanto 
no se tiverem todas as informaes sobre eles fiquem sob a vigilncia do governo.

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Estas palavras foram pronunciadas com a mais exacta cortesia e com a mais perfeita calma. Porm no tiveram o dom de convencer Milady.
- Mas eu no sou estrangeira, senhor - disse ela com a pronncia mais pura que jamais se ouviu de Portsmouth a Manchster -, chamo-me Lady Clarick e essa medida...
- Essa medida  geral, Milady, e seria intil tentardes subtrar-vos.
- Nesse caso, sigo-vos, senhor.
E, aceitando a mo do oficial, comeou a descer a escada em baixo da qual a esperava o bote. O oficial seguiu-a; na popa estava estendida uma grande capa, o oficial 
disse-lhe que se sentasse em cima da capa e sentou-se ao seu lado.
- Remai - disse ele aos marinheiros.
Os oito remos caram na gua com um nico som, com uma nica pancada, e o bote pareceu voar  tona d'gua. Passado cinco minutos estavam em terra. O oficial saltou 
para o cais e ofereceu a mo a Milady. Um carro esperava.
- Este carro  para ns? - perguntou Milady.
- Sim, minha senhora - respondeu o oficial.
- Ento a estalagem fica longe?
- Do outro lado da cidade.
- Vamos - disse Milady. E, resoluta, entrou no carro.
O oficial verificou se prendiam bem as malas na bagageira e, terminada esta operao, sentou-se ao lado de Milady e fechou a portinhola.
Imediatamente, sem que fosse dada alguma ordem e sem que fosse preciso indicar-lhe o caminho, o cocheiro partiu a galope e embrenhou -se nas ruas da cidade.
Uma recepo to estranha devia dar muito que pensar a Milady; assim, vendo que o jovem oficial no parecia nada disposto a entabular conversa, encostou-se a um 
canto do carro e passou em revista, uma a uma, todas as suposies que lhe ocorriam.
Contudo, passado um quarto de hora, admirada por o percurso ser to longo, debruou-se da portinhola para ver onde a levavam. J no se viam casas; as rvores apareciam 
nas trevas como grandes fantasmas negros correndo uns atrs dos outros.
Milady arrepiou-se.
- Mas j no estamos na cidade, senhor - disse ela. O jovem oficial guardou silncio.
- No irei mais longe se no me disserdes onde me conduzis; previno-vos, senhor!
Esta ameaa no obteve nenhuma resposta.
- Oh! Isto  de mais! - exclamou Milady. - Socorro! Socorro! Nenhuma voz lhe respondeu, o carro continuou a andar rapidamente; o oficial parecia uma esttua.
Milady fitou o oficial com uma dessas expresses terrveis tpicas do seu rosto e que raramente falhavam o seu efeito;

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a clera fazia-lhe brilhar os olhos na penumbra.
O jovem permaneceu insensvel.
Milady quis abrir a portinhola e atirar-se.
- Tomai cautela, minha senhora - disse friamente o mancebo -, pois, se saltardes, matar-vos-ei.
Milady tornou a sentar-se, furiosa; o oficial debruou-se, fitou-a por sua vez e pareceu surpreendido por ver aquele rosto, antes to belo, alterado pela raiva e 
tornado quase medonho. A astuciosa criatura compreendeu que se perdia deixando ver a sua alma daquela maneira; serenou o rosto e gemeu:
- Por amor de Deus, senhor! Dizei-me se  a vs, ao vosso governo, ou a um inimigo que devo atribuir esta violncia que me fazem!
- No vos fazem nenhuma violncia, minha senhora, e o que vos acontece  o resultado duma medida bem simples que somos obrigados a tomar com todos os que desembarcam 
em Inglaterra.
- Ento no me conheceis, senhor?
-  a primeira vez que tenho a honra de vos ver.
- E por vossa honra, no tendes nenhum motivo para me odiardes?
- Nenhum, juro-vos.
Havia tanta serenidade, sangue-frio e at doura na voz do mancebo que Milady sossegou.
Por fim, aps uma hora de marcha aproximadamente, o carro parou diante dum porto de ferro no fim dum caminho que conduzia a um castelo de forma severa, macio e 
isolado. Ento, quando o carro rolava sobre areia fina, Milady ouviu um vasto mugido que reconheceu como o som do mar quebrando-se numa costa escarpada.
- Em todo o caso - disse Milady, olhando em redor e pregando os olhos no jovem oficial, com o mais gracioso sorriso - sou prisioneira; mas tenho a certeza de que 
no ser por muito tempo - acrescentou -; garantem-mo a minha conscincia e a vossa cortesia, senhor.
Por mais lisonjeiro que fosse o cumprimento, o oficial no respondeu, mas, tirando do cinto um assobio de prata semelhante ao que usam os contramestres nos vasos 
de guerra, assobiou trs vezes, em trs sons diferentes; ento apareceram vrios homens que desatrelaram os cavalos esbaforidos e levaram o carro para um alpendre.
Depois o oficial, sempre com a mesma cortesia calma, convidou a sua prisioneira a entrar na casa. Esta, sempre com o mesmo rosto sorridente, deu-lhe o brao e entrou 
com ele por uma porta baixa e em arco que, atravs duma abbada apenas iluminada ao fundo, conduzia a uma escadaria de pedra que subia em caracol; depois pararam 
diante duma porta macia que, depois de introduzida na fechadura uma chave que o jovem trazia, rolou pesadamente nos gonzos e deu passagem a um quarto destinado 
a Milady.
Com um olhar, a prisioneira abraou o aposento nos mnimos pormenores.
Era um quarto cujo mobilirio era ao mesmo tempo prprio para uma priso e bastante severo para um aposento de homem livre:

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todavia, as grades nas janelas e os ferrolhos do lado de fora da porta decidiam a questo a favor da priso.
Por um instante toda a fora de alma desta criatura, que contudo se temperara nas fontes mais vigorosas, abandonou-a; caiu numa poltrona, cruzando os braos, baixando 
a cabea e esperando a cada instante ver surgir um juiz para a interrogar.
Mas ningum entrou, salvo dois ou trs soldados da marinha que trouxeram as malas, as puseram a um canto e se retiraram sem dizer nada.
O oficial presidia a todos estes pormenores com a mesma calma que Milady vira constantemente, no pronunciando uma palavra e fazendo-se obedecer com um gesto ou 
com um assobio.
Dir-se-ia que, entre aquele homem e os seus subordinados, a lngua falada no existia ou tornava-se intil.
Por fim, Milady no aguentou e rompeu o silncio:
- Por amor de Deus, senhor! - exclamou. - Que quer tudo isto dizer? Esclarecei as minhas dvidas; eu tenho coragem para todo o perigo que prevejo, e para toda a 
desgraa que compreendo. Onde estou e que fao aqui? Se sou livre, porqu estas grades e estas portas? Se sou prisioneira, que crime cometi?
- Estais no aposento que vos foi destinado, minha senhora, recebi ordens para vos ir buscar no mar e para vos conduzir a este castelo; i creio que cumpri essa ordem 
com toda a rigidez dum soldado, mas tambem com toda a cortesia dum gentil-homem. Aqui termina, pelo menos por agora, a misso que eu devia cumprir junto de vs; 
o resto  com outra pessoa.
- E quem  essa pessoa? - perguntou Milady. - No podeis dizer-me o seu nome?...
Neste momento ouviu-se nas escadas um grande alarido de esporas; algumas vozes passaram e extinguiram-se, e o som dum passo isolado aproximou-se da porta.
- Eis aqui essa pessoa, minha senhora - disse o oficial, abrindo passagem e pondo-se em atitude de respeito e de submisso.
Ao mesmo tempo a porta abriu-se, e um homem apareceu no limiar. Estava descoberto, trazia a espada ao lado e amachucava um leno entre os dedos.
Milady julgou reconhecer esta sombra na sombra; apoiou a mo no brao da poltrona, e avanou a cabea como que para ir ao encontro duma certeza.
Ento o estranho avanou lentamente; e,  medida que avanava entrando no crculo de luz projectada pelo candeeiro, Milady recuou involuntariamente.
Depois, quando j no teve dvidas:
- O qu? O meu irmo! - exclamou no auge da estupefaco. - Sois vs?

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- Sim, bela dama! - respondeu lorde de Winter, fazendo uma saudao meio corts, meio irnica. - Eu mesmo.
- Mas ento, este castelo?
-  meu.
- Este quarto?
-  vosso.
- Ento sou vossa prisioneira?
- Praticamente.
- Mas isso  um abuso de fora!
- No exagereis; sentemo-nos e conversemos tranquilamente, como convm entre um irmo e uma irm.
Depois, virando-se para a porta e vendo que o jovem oficial aguardava as suas ltimas ordens:
- Est bem - disse ele -, agradeo-vos; agora, deixai-nos, Sr. Felton.


      L - CONVERSA DUM IRMO COM A SUA IRM


      Enquanto lorde de Winter fechava a porta, empurrava um postigo e aproximava uma cadeira da poltrona da cunhada, Milady, sonhadora, mergulhou o olhar nas profundezas 
da possibilidade e descobriu toda a trama que no podia sequer ter entrevisto enquanto ignorava em que mos tinha cado. Conhecia o cunhado como um bom gentil-homem, 
caador franco, jogador intrpido, empreendedor com as mulheres, mas de uma fora inferior  sua para a intriga. Como teria descoberto a sua chegada? Como a tinha 
mandado apanhar? Por que a retinha?
Athos dissera-lhe algumas palavras que provavam que a conversa que ela tivera com o cardeal cara em ouvidos alheios, mas no podia admitir que tivessem podido abrir 
uma contramina to pronta e to ousada.
Receou mais que as suas precedentes operaes em Inglaterra houvessem sido descobertas. Buckingham podia ter adivinhado que fora ela que cortara as duas agulhetas, 
e vingar-se daquela pequena traio; mas Buckingham era incapaz de algum excesso contra uma mulher, sobretudo se supunha que agira por um sentimento de cime.
Esta suposio pareceu-lhe a mais provvel; achou que queriam vingar-se do passado e no ir ao encontro do futuro. Porm, e em todo o caso, congratulou-se por ter 
cado nas mos do cunhado, ao qual contava levar a melhor, em vez de ter cado nas mos dum inimigo directo e inteligente.
- Sim, conversemos, meu irmo - disse ela com uma espcie de prazer, decidida como estava a tirar da conversa, apesar de toda a dissimulao que lorde de Winter 
pudesse usar,

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os esclarecimentos de que precisava para determinar a atitude a tomar.
- Ento decidiste-vos a voltar a Inglaterra - disse lorde de Winter -, apesar da resoluo que tantas vezes me haveis manifestado em Paris de nunca mais pisardes 
o territrio da Gr-Bretanha?
Milady respondeu  pergunta com outra pergunta.
- Antes de mais - disse ela - dizei-me como me mandastes espiar to severamente que fostes prevenido no s da minha chegada mas tambm do dia, da hora e do porto 
em que eu chegava.
Lorde de Winter adoptou a mesma tctica que Milady, pensando que, se a sua cunhada a empregava, devia ser a tctica certa.
- Mas dizei-me vs mesma, minha cara irm - tornou ele -, que vindes fazer a Inglaterra?
- Mas venho ver-vos - respondeu Milady sem saber que com esta resposta agravava as suspeitas que a carta de d'Artagnan fizera nascer no esprito do cunhado, e querendo 
apenas captar a benevolncia do seu auditor com uma mentira.
- Ah! Ver-me? - disse dissimuladamente lorde de Winter.
- Sem dvida, ver-vos. Que tem isso de espantoso?
- E, vindo a Inglaterra, no tendes outra finalidade alm de me verdes?
- No.
- Ento foi s por minha causa que vos destes ao trabalho de atravessar a Mancha?
- S por vossa causa.
- Apre! Que ternura, minha irm!
- Mas no sou a vossa parente mais prxima? - perguntou Milady com a mais comovente ingenuidade.
- E at a minha nica herdeira, no ? - disse por sua vez lorde de Winter, pregando os olhos nos de Milady.
Por maior que fosse o poder que tivesse sobre si prpria, Milady no pde deixar de estremecer e como, ao pronunciar as ltimas palavras que dissera, lorde de Winter 
pousara a mo no brao da irm, este estremecimento no lhe escapou.
Com efeito, o golpe era directo e profundo. A primeira ideia que ocorreu a Milady foi que tinha sido trada por Ketty, e que esta contara ao baro a averso interesseira 
que ela manifestara imprudentemente diante da sua aia; lembrou-se tambm da sada furiosa e imprudente que tivera contra d'Artagnan quando este salvara a vida do 
seu cunhado.
- No compreendo, Milorde - disse ela para ganhar tempo e fazer falar o seu adversrio. - Que quereis dizer? E h algum sentido oculto sob as vossas palavras?
- Oh, no, meu Deus! - disse lorde de Winter com aparente bonomia. - Vs desejais ver-me e vindes a Inglaterra. Eu tomo conhecimento desse desejo, ou melhor, adivinho 
que o sentis, e a fim de vos poupar todos os incmodos duma chegada nocturna a um porto, todas as fadigas dum desembarque,

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envio um dos meus oficiais ao vosso encontro; ponho um carro s vossas ordens, o qual vos traz aqui a este castelo, de que sou governador, onde venho todos os dias, 
em que, para o nosso duplo desejo de nos vermos seja satisfeito, vos mando preparar um quarto. Que h em tudo o que digo de mais espantoso do que naquilo que me 
dissestes?
- No, o que me parece espantoso foi terdes sido prevenido da minha chegada.
- Contudo isso  o mais simples, minha cara irm: no vistes que o capito do vosso pequeno navio tinha, ao entrar na baa, enviado  frente e a fim de obter a sua 
entrada no porto, um pequeno bote portador do seu livro de bordo e do seu registo da tripulao? Eu sou comandante do porto, trouxeram-me esse livro e reconheci 
o vosso nome. O meu corao ditou-me aquilo que a vossa boca me acaba de confiar, ou seja, com que finalidade vos expnheis aos perigos dum mar to perigoso ou pelo 
menos to fatigante neste momento, e enviei o meu cter ao vosso encontro. O resto j sabeis.
Milady compreendia que lorde de Winter mentia e ficou ainda mais assustada.
- Meu irmo - continuou ela -, no foi milorde Buckingham que vi no molhe,  noite, quando cheguei?
- Ele mesmo. Ah! Compreendo que vos tenha impressionado - retorquiu lorde de Winter -, vindes dum pas em que se deve falar muito nele, e sei que os seus armamentos 
contra a Frana preocupam muito o vosso amigo cardeal.
- O meu amigo cardeal! - exclamou Milady, vendo que, tanto nesse ponto como em qualquer outro, lorde de Winter parecia saber de tudo.
- No  vosso amigo? - continuou negligentemente o baro. - Ah, perdo! Julgava. Mas voltaremos a falar de milorde-duque mais tarde, no nos afastemos do tom sentimental 
que a conversa tinha tomado. Vs dizeis que vnheis para me ver?
- Sim.
- Muito bem! Respondi-vos que sereis servida conforme os vossos desejos e que nos veramos todos os dias.
- Devo ento permanecer eternamente aqui? - perguntou Milady assustada.
- Acaso vos sentis mal instalada, minha irm? Pedi o que vos falta que me apressarei a mandar-vo-lo.
- Mas no tenho nem as minhas aias nem os meus criados...
- Tereis tudo isso, minha senhora; dizei-me de que modo o vosso primeiro marido montara a vossa casa. Embora eu seja apenas o vosso cunhado, montar-vos-ei uma igual.
- O meu primeiro marido! - exclamou Milady, fitando lorde de Winter com um olhar alucinado.
- Sim, o vosso marido francs; no falo do meu irmo.

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De resto, como ainda  vivo, eu poderia escrever-lhe e ele mandar-me-ia informaes a esse respeito.
Um suor frio perlou a fronte de Milady.
- Troais de mim - disse ela com voz surda.
- Parece-vos? - perguntou o baro, levantando-se e dando um psso atrs.
- Ou melhor, insultais-me - continuou ela, fincando as mos crispadas nos braos da poltrona e firmando-se nos pulsos para se levantar.
- Insultar-vos, eu! - disse lorde de Winter com desprezo. - Na verdade, minha senhora, achais que isso  possvel?
- Na verdade, senhor - disse Milady -, estais embriagado ou louco. Sa e enviai-me uma mulher.
- As mulheres so muito indiscretas, minha irm? No poderei eu servir-vos de aia? Desse modo os nossos segredos ficariam em famlia.
- Insolente! - exclamou Milady e, como que impelida por uma mola, atirou-se ao baro, que a esperou com impassibilidade, mas com a mo na da espada.
- Eh! Eh! - disse ele. - J sei que tendes o hbito de assassinar as pessoas, mas eu defender-me-ei, previno-vos, ainda que seja contra vs.
- Oh! Tendes razo - disse Milady. - E pareceis-me suficientemente cobarde para levantar a mo contra uma mulher.
- Talvez sim; alis, teria uma desculpa: a minha mo no seria a primeira mo de homem que teria pousado em vs, imagino.
E o baro apontou com um gesto lento e acusador o ombro esquerdo de Milady, quase tocando-o com o dedo.
Milady soltou um rugido surdo, e recuou at ao canto do quarto,  como uma pantera que quer encurralar-se para ganhar impulso.
- Oh! Rugi tanto quanto quiserdes! - exclamou lorde de Winter -, mas no tenteis morder, pois previno-vos de que isso vos prejudicaria: aqui no h procuradores 
que resolvem as sucesses por antecipao, no h nenhum cavaleiro errante que me venha provocar uma querela por causa de uma bela dama que tenho prisioneira; mas 
tenho juzes que podero dispor duma mulher bastante desavergonhada para se introduzir, bgama, no leito de lorde de Winter, meu irmo mais velho, e previno-vos 
de que esses juzes vos enviaro a um carrasco que vos far os dois ombros iguais.
Os olhos de Milady lanavam tais chispas que, embora fosse homem e estivesse armado diante duma mulher desarmada, ele sentiu o frio deslizar at ao fundo da sua 
alma; mas nem por isso deixou de continuar com uma fria crescente:
- Sim, compreendo, depois de terdes herdado de meu irmo, gostareis de herdar de mim; mas sabei desde j que me podeis matar ou mandar matar, j tomei as minhas 
precaues e nem um penny daquilo que possuo passar para as vossas mos. No sois j suficientemente rica, vs que possuis quase um milho, e no podeis caminhar 
na vossa caminhada fatal,

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se no fizsseis o mal seno pelo prazer infinito e supremo de fazer o mal? Oh! Digo-vos que, se a memria de meu irmo no fosse sagrada para mim, ireis apodrecer 
num crcere do Estado ou saciar em Tyburn a curiosidade dos marinheiros; eu calar-me-ei, mas vs, suportai tranquilamente o vosso cativeiro; daqui a quinze ou vinte 
dias parto para La Rochelle com a armada mas, na vspera da minha partida, um navio vir buscar-vos, um navio que eu verei partir e que vos conduzir s colnias 
do Sul; e, podeis ficar descansada pois mandarei convosco um companheiro que vos meter uma bala na cabea  primeira tentativa que fizerdes para voltar a Inglaterra 
ou ao continente.
Milady escutava com uma ateno que lhe ditava os olhos inflamados.
- Sim, mas por enquanto - continuou lorde de Winter -, ficareis neste castelo: as muralhas so espessas, as portas so fortes, as grades so slidas; alis, a vossa 
janela  a pique sobre o mar; os homens da minha tripulao, que me so dedicados para a vida e para a morte, montam guarda em volta deste aposento e vigiam todas 
as passagens que conduzem ao ptio; depois, se chegsseis ao ptio, ainda tnheis de atravessar trs portes. As ordens so precisas: um passo, um gesto, uma palavra 
que simule evaso, e fazem fogo sobre vs; se vos matarem, a justia inglesa fica-me a dever o favor, espero eu, de lhe ter poupado esse trabalho. Ah! Pareceis mais 
calma, mais segura: Quinze dias. vinte dias, dizeis vs, ora!, daqui at l, tenho um esprito inventivo e h-de ocorrer-me alguma ideia; tenho um esprito infernal, 
hei-de encontrar alguma vtima. Daqui a quinze dias, dizeis vs, estarei fora daqui. Ah, ah! Tentai!
Vendo que lhe adivinhavam os pensamentos, Milady cravou as unhas na carne para dominar todo o movimento susceptvel de dar  sua fisionomia algum significado, alm 
da angstia.
Lorde de Winter continuou:
- O oficial que comanda aqui sozinho na minha ausncia, que j vistes e portanto j conheceis, sabe, como vedes, observar uma ordem, pois eu bem vos conheo e sei 
que no viestes de Portsmouth at aqui sem terdes tentado faz-lo falar. Que dizeis? Uma esttua de mrmore teria sido mais impassvel e mais muda? J experimentastes 
o poder da vossa seduo com muitos homens e, infelizmente, fostes sempre bem sucedida; mas tentai com esse, co a breca!, se conseguirdes faz-lo vergar, declaro-vos 
o demnio em pessoa.
Dirigiu-se para a porta e abriu-a bruscamente.
- Chamai o Sr. Felton - disse ele. - Esperai mais um instante, vou recomendar-vos a esse homem.
Estabeleceu-se entre estes dois personagens um estranho silncio, durante o qual se ouviu o som dum passo lento e regular que se aproximava; em breve, na sombra 
do corredor, viu-se desenhar uma forma hu mana e o jovem tenente com o qual j travmos conhecimento parou no limiar, aguardando as ordens do baro.

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- Entrai, meu caro John - disse lorde de Winter -, entrai e fechai a porta.
O jovem oficial entrou.
- Agora - disse o baro -, olhai para esta mulher:  jovem,  bela, tem todas as sedues da terra. Ora bem! Ela  um monstro que, aos vinte e cinco anos, se tornou 
culpada de tantos crimes quantos os que podeis ler num ano nos arquivos dos nossos tribunais; a sua voz abona em seu favor, a sua beleza serve de engodo s vtimas, 
o seu prprio corpo paga aquilo que ela prometeu, justia lhe seja feita; tentar seduzir-vos; at talvez tente matar-vos. Eu tirei-vos da misria, Felton, fiz-vos 
tenente, salvei-vos a vida uma vez, sabeis em que ocasio; sou para vs no s um protector mas tambm um amigo, no s um benfeitor mas tambm um pai; esta mulher 
voltou a Inglaterra a fim de conspirar contra a minha vida; tenho esta serpente nas minhas mos; pois bem, mando-vos chamar e digo-vos: Amigo Felton, John, meu filho, 
defende-me e sobretudo defende-te contra esta mulher; jura pela tua salvao que a conservars para o castigo que ela mereceu. John, Felton, eu confio na tua palavra; 
John Felton, eu confio na tua lealdade.
- Milorde - disse o jovem oficial, carregando o seu olhar puro de todo o dio que pde encontrar no corao -, milorde, juro-vos que se far como desejais.
Milady recebeu este olhar como vtima designada: era impossvell ver uma expresso mais submissa e mais doce que a que reinava no seu belo rosto. O prprio lorde 
de Winter mal reconheceu a leoa que momentos antes se preparava para combater.
- Jamais sair deste quarto, ouvis, John? - continuou o baro. - No se corresponder com ningum, s falar convosco, se acaso quiserdes dar-lhe a honra de lhe 
dirigir a palavra.
- Basta, milorde, j jurei.
- E agora, minha senhora, tratai de fazer as pazes com Deus, pois sois julgada pelos homens.
Milady deixou cair a cabea como se se sentisse esmagada por este juzo. Lorde de Winter saiu, fazendo um gesto a Felton, que saiu atrs dele e fechou a porta.
Passado um instante ouvia-se no corredor o passo pesado dum soldado da marinha de sentinela, com o machado  cinta e o mosquete na mo.
Milady permaneceu uns minutos na mesma posio, pois pensou que talvez a examinassem atravs da fechadura; depois, lentamente, ergueu a cabea, que ganhara uma expresso 
formidvel de ameaa e de desafio, correu a escutar  porta, olhou pela janela e, voltando a enterrar-se numa vasta poltrona, ficou a pensar.

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      LI - OFICIAL


      Contudo, o cardeal esperava notcias de Inglaterra, mas no chegavam nenhumas, a no ser desagradveis e ameaadoras.
La Rochelle foi atacada, o xito parecia certo, graas s precaues tomadas e, sobretudo, graas ao dique que j no deixava penetrar nenhum barco na cidade sitiada; 
contudo, o bloqueio ainda podia durar muito tempo, e isso era uma grande afronta para as armas do rei e um grande incmodo para o Sr. Cardeal, que j no tinha que 
indispor Lus XIII com Ana de ustria,  certo, pois a coisa estava feita, mas sim que reconciliar o Sr. de Bassompierre, que estava indisposto com o duque de Angoulme.
Quanto ao rei, que comeara o cerco, deixava ao cardeal o encargo de o terminar.
A cidade, apesar da incrvel perseverana do alcaide, tentara uma espcie de amotinao para se render; o alcaide mandara enforcar os amotinados. Esta execuo acalmou 
os mais teimosos, que ento se decidiram a deixar-se morrer de fome. Esta morte sempre lhes parecia mais lenta e menos segura que morrerem estrangulados.
Por seu lado, de tempos a tempos, os sitiantes capturavam os mensageiros que os rocheleses enviavam a Buckingham ou os espies que Buckingham enviava aos rocheleses. 
Em ambos os casos o processo era rpido. O Sr. Cardeal dizia apenas a palavra: Enforcado! Convidavam o rei a vir assistir ao enforcamento. O rei vinha languidamente, 
escolhia um bom lugar para poder ver todos os pormenores da operao; aquilo sempre o distraa um pouco e dava-lhe pacincia para suportar o cerco, mas no o impedia 
de se aborrecer muito, de estar sempre a falar em voltar a Paris, de modo que, se acaso faltassem os mensageiros e os espies, Sua Eminncia, apesar de toda a sua 
imaginao, ficaria muito embaraada.
Contudo, o tempo passava e os rocheleses no se rendiam; o ltimo espio que tinham capturado era portador duma carta. Esta dizia a Buckingham que a cidade estava 
nas ltimas mas, em vez de acrescentar: "Se o vosso socorro no chegar dentro de quinze dias, rendemo-nos", acrescentava muito simplesmente: "Se o vosso socorro 
no chegar dentro de quinze dias, estaremos todos mortos de fome quando chegar". Assim, os rocheleses s tinham esperanas em Buckingham; Buckingham era o seu Messias. 
Era evidente que, se um dia tivessem a certeza de que j no podiam contar com Buckingham, a sua coragem desvanecer-se-ia com a esperana.
O cardeal esperava, pois, com grande impacincia notcias de Inglaterra que deviam anunciar que Buckingham no viria.
A questo de tomar a cidade  fora, muitas vezes debatida no conselho do rei, fora sempre posta de parte;

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primeiro La Rochelle parecia inexpugnvel, depois o cardeal, por mais que tivesse dito, sabia muito bem que o horror do sangue derramado nessa confrontao em que 
franceses deviam combater contra franceses era um movimento retrgrado de sessenta anos imprimido  poltica, e o cardeal era naquela poca aquilo a que hoje se 
chama um homem de progresso. Com efeito, o saque de La Rochelle, o assassinato de trs ou quatro mil huguenotes que se tivessem deixado matar seria muito semelhante, 
em 1628, ao massacre de So Bartolomeu em 1572; e depois, acima de tudo, esse meio extremo, que no repugnava ao rei, bom catlico, encalhava sempre neste argumento 
dos generais sitiantes: La Rochelle  inexpugnvel, excepto pela fome.
O cardeal no podia afastar do esprito o receio que a sua terrvel emissria lhe causava, pois tambm ele compreendera as estranhas propores daquela mulher, ora 
serpente ora leo. Trara-o? Estava morta? Em todo o caso, conhecia-a o suficiente para saber que, agindo por ele ou contra ele, amiga ou inimiga, ela no permaneceria 
imvel seno por grandes impedimentos. E isso era o que ele no podia saber.
De resto, contava, e com razo, com Milady: adivinhara no passado desta mulher coisas terrveis que s o seu manto vermelho podia cobrir, e sentia que, por uma causa 
ou por outra, esta mulher lhe pertencia, s nele podendo encontrar um apoio superior ao perigo que a ameaava.
Resolveu, portanto, fazer a guerra sozinho e apenas esperar todo o acontecimento externo como se espera uma hiptese feliz. Continuou a mandar construir o famoso 
dique que devia causar a fome a La Rochelle; entretanto, lanava os olhos quela pobre cidade, que encerrava tanta misria profunda e tantas virtudes hericas, e, 
recordando as palavras de Lus XI, seu precursor poltico como ele mesmo era o precursor de Robespierre, murmurou esta mxima do comparsa de Tristo: "Dividir para 
reinar."
Henrique IV, sitiando Paris, atirava das muralhas po e vveres; O cardeal mandou atirar bilhetinhos em que mostrava aos rocheleses como a atitude dos seus chefes 
era injusta, egosta e brbara; estes chefes tinham trigo em abundncia, e no o partilhavam; adoptavam a mxima, pois eles tambm tinham mximas, de que pouco importava 
que morressem as mulheres, as crianas e os velhos, desde que os homens que deviam defender as suas muralhas continuassem fortes e saudveis. At ali, quer por dedicao 
quer por impotncia para reagir contra ela, esta mxima, embora no sendo adoptada na generalidade, havia contudo passado da teoria  prtica; mas os bilhetes vieram 
p-la ainda mais em causa. Estes bilhetes lembravam aos homens que aquelas crianas, aquelas mulheres e aqueles velhos que eles deixavam morrer eram os seus filhos, 
as suas esposas e os seus pais; que seria mais justo que cada um ficasse reduzido  misria comum, a fim de que uma posio comum fizesse tomar resolues unnimes.
Estes bilhetes produziram todo o efeito que aquele que os escrevera podia esperar, pois determinavam um grande nmero de habitantes a abrir negociaes particulares 
com o exrcito rgio.

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Mas no momento em que o cardeal j via frutificar o seu expediente e se congratulava por o ter posto em prtica, um habitante de La Rochelle, que conseguira atravessar 
as linhas do rei, sabe Deus como, to grande era a vigilncia de Bassompierre, de Schomberg e do duque de Angoulme, que por sua vez eram vigiados pelo cardeal, 
um habitante de La Rochelle, dizamos, entrou na cidade, vindo de Portsmouth e dizendo que vira uma frota magnfica pronta para navegar dali a menos de oito dias. 
Alm disso, Buckingham anunciava ao presidente que finalmente ia ser declarada a grande liga contra a Frana e que o reino ia ser invadido simultaneamente pelas 
armadas inglesas, imperiais e espanholas. Esta carta foi lida publicamente em todas as praas, afixaram-se cpias nas esquinas, e os mesmos que tinham comeado a 
travar negociaes interromperam-nas, resolvidos a esperar este socorro to pomposamente anunciado.
Esta circunstncia inesperada devolveu a Richelieu as suas primitivas inquietaes, e forou-o a virar de novo os olhos para o outro lado do mar.
Entretanto, isento das inquietaes do seu nico e verdadeiro chefe, o exrcito real divertia-se; os vveres no faltavam no acampamento, nem to-pouco o dinheiro; 
todos os corpos rivalizavam em audcia e boa disposio. Apanhar espies e mandar enforc-los, fazer expedies arrojadas no dique ou no mar, imaginar loucuras, 
execut-las friamente, tal era o passatempo que fazia o exrcito achar curtos aqueles dias to longos, no s para os rocheleses, rodos de fome e de ansiedade, 
mas tambm para o cardeal, que os bloqueava to vivamente.
Por vezes, quando o cardeal, sempre cavalgando como o ltimo guarda do exrcito, passeava o seu olhar pensativo pelas obras, to lentas para os seus desejos, que 
construam por sua ordem os engenheiros que mandava vir de todos os cantos do reino de Frana, se encontrava algum mosqueteiro da companhia de Trville, aproximava-se 
dele, olhava-o de maneira singular e, no reconhecendo nele um dos nossos quatro companheiros, desviava o seu olhar profundo e o seu vasto pensamento.
Um dia em que, rodo de um tdio mortal, sem esperana nas negociaes com a cidade, sem notcias de Inglaterra, o cardeal sara s por sair, acompanhado apenas 
de Cahusac e de La Houdinire, percorrendo os areais e confundindo a imensido dos seus sonhos com a imensido do oceano, chegou a passo a uma colina do alto da 
qual avistou por trs duma sebe, deitados na areia e apanhando  passagem um desses raios de sol to raros naquela poca do ano, sete homens rodeados de garrafas 
vazias. Quatro eram mosqueteiros que se preparavam para escutar a leitura duma carta que um deles acabava de receber. Esta carta era to importante que fizera abandonar 
em cima dum tambor as cartas de jogar e os dados.
Os outros trs tratavam de abrir um enorme garrafo de vinho de Collioure; eram os lacaios daqueles senhores.
O cardeal, como dissemos, estava de humor sombrio e,

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quando estava com esse esprito, no havia nada que aumentasse tanto a sua indisposio como a alegria dos outros. Tinha, alis, uma preocupao estranha: achava 
sempre que a causa da sua tristeza excitava a alegria dos estranhos. Fazendo sinal a La Houdinire e a Cahusac para pararem, apeou-se do cavalo e aproximou-se dos 
folgazes suspeitos, esperando que, graas  areia que abafaria os seus passos e  sebe que ocultaria o seu avano poderia ouvir algumas palavras daquela conversa 
que lhe parecia to interessante; apenas a dez passos da sebe reconheceu o palavreado gasco de D'Artagnan e, como j sabia que aqueles homens eram mosqueteiros, 
no duvidou de que os outros fossem os chamados inseparveis, ou seja, Athos, Porthos e Aramis.
Bem se v que o seu desejo de ouvir a conversa cresceu com esta descoberta; os seus olhos ganharam uma expresso estranha e, com um passo de gato bravo, o cardeal 
avanou para a sebe, mas ainda no tinha podido captar mais do que umas slabas vagas e sem nenhum sentido positivo quando um grito sonoro e breve o fez estremecer 
e chamou a ateno dos trs mosqueteiros.
- Oficial! - gritou Grimaud.
- Creio que falais, seu engraado - disse Athos, soerguendo-se num cotovelo e fascinando Grimaud com o seu olhar chamejante.
Portanto Grimaud no acrescentou uma palavra, contentando-se em estender o dedo indicador na direco da sebe denunciando com este gesto o cardeal e a sua escolta.
Com um salto os quatro mosqueteiros puseram-se em p e cumprimentaram respeitosamente.
O cardeal estava furioso.
- Parece que os senhores mosqueteiros se fazem guardar! - disse ele. - Ser que o Ingls vem por terra, ou ser que os mosqueteiros se consideram oficiais superiores?
- Monsenhor - respondeu Athos, pois no meio do susto geral s ele conservava a calma e o sangue-frio de grande senhor que nunca o abandonavam -, Monsenhor, os mosqueteiros, 
quando no esto de servio ou quando o seu servio terminou, bebem e jogam os dados, e so oficiais muito superiores para os seus lacaios.
- Lacaios! - resmungou o cardeal. - Lacaios que tm ordem de avisar os seus amos quando algum passa no so lacaios, so sentinelas.
- Sua Eminncia, contudo, v perfeitamente que, se no tivssemos tomado essa precauo, estaramos expostos a deix-lo passar sem lhe apresentarmos os nossos respeitos 
nem lhe oferecermos os nossos agradecimentos pelo favor que nos fez de nos reunir. D'Artagnan - continuou Athos -, vs que h pouco pedeis esta ocasio de exprimir 
a vossa gratido a Monsenhor, aqui a tendes. Aproveitai.
Estas palavras foram pronunciadas com a fleuma imperturbvel que distinguia Athos nas horas de perigo, e com a excessiva polidez que fazia dele em certos momentos 
um rei mais majestoso que os prprios reis.

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D'Artagnan aproximou-se e balbuciou algumas palavras de gratido que em breve expiraram sob o olhar carregado do cardeal.
- No importa, meus senhores - continuou o cardeal, sem parecer ter-se desviado da sua primitiva inteno por causa do incidente que Athos provocara. - No importa, 
meus senhores, no me agrada que uns simples soldados, por terem a vantagem de servir num corpo privilegiado, se arvorem assim em grandes senhores, e a disciplina 
 igual para todos.
Athos deixou o cardeal concluir perfeitamente a sua frase e, inclinando-se em sinal de assentimento, disse por sua vez:
- Espero, Monsenhor, que de modo algum tenhamos esquecido a disciplina. No estamos em servio e pensmos que, no estando de servio, podamos dispor do nosso tempo 
como nos apetecesse. Se temos a felicidade de Sua Eminncia ter alguma ordem particular a transmitir-nos, estamos prontos a obedecer-lhe. Monsenhor bem v - continuou 
Athos, franzindo o sobrolho pois esta espcie de interrogatrio comeava a impacient-lo -, que para estarmos prontos para o menor alerta, samos com as nossas armas.
E mostrou ao cardeal os quatro mosquetes agrupados junto do tambor, em cima do qual estavam as cartas e os dados.
- Creia, Vossa Eminncia - acrescentou Athos -, que teramos ido ao seu encontro se pudssemos supor que era ela que vinha ter connosco em to pequena companhia.
O cardeal mordiscava os bigodes e um pouco os lbios.
- Sabeis o que pareceis, sempre juntos como estais, armados e guardados pelos vossos lacaios? - disse o cardeal. - Pareceis quatro conspiradores.
- Oh! Quanto a isso, Monsenhor,  verdade - disse Athos -, e ns conspiramos, como Vossa Eminncia pde ver na outra manh, mas contra os rocheleses.
- Eh! Senhores polticos - continuou o cardeal franzindo por sua vez o sobrolho -, talvez se encontrasse nos vossos crebros o segredo de muitas coisas que se ignoram, 
se se pudesse ler neles como vs leis nessa carta que escondestes quando me vistes chegar.
Athos corou, e deu um passo na direco de Sua Eminncia.
- Dir-se-ia que suspeitais realmente de ns, Monsenhor, e que somos submetidos a um verdadeiro interrogatrio; se assim , que Vossa Eminncia se digne explicar-se 
e ao menos saberemos do que se trata.
- E se fosse um interrogatrio? - respondeu o cardeal. - Outros j foram submetidos a interrogatrio, Sr. Athos, e responderam.
- Por isso, Monsenhor, eu disse a Vossa Eminncia que era s perguntar e que estvamos prontos para responder.
- Que carta era essa que eis ler, Sr. Aramis, e que vs escondestes?
- Era a carta duma mulher, Monsenhor.
- Oh! Compreendo - disse o cardeal -, h que ser discreto com esse gnero de cartas;, contudo,  possvel mostr-las a um confessor e, como sabeis, eu fui ordenado.

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- Monsenhor - disse Athos com uma calma ainda mais terrvel porquanto arriscava a cabea ao dar esta resposta -, a carta  duma mulher, mas no est assinada nem 
Marion de Lorme nem M.me d'Aiguillon.
O cardeal ps-se plido como um morto, um brilho feroz brotou dos seus olhos; virou-se como que para dar uma ordem a Cahusac e a La Houdinire. Athos viu o movimento; 
deu um passo para os trs mosquetes, nos quais os trs amigos tinham os olhos postos como quem no est disposto a deixar-se prender. O cardeal era o terceiro; os 
mosqueteiros, contando com os lacaios, eram sete; achou que a partida seria desigual, que Athos e os seus companheiros conspiravam realmente e, com uma daquelas 
reviravoltas que tinha sempre  sua disposio,, toda a sua clera se fundiu num sorriso.
- Vamos, vamos! - disse ele. - Vs sois uns valentes, orgulhosos  luz do dia e fiis na escurido; no h nenhum mal em guardar-me a mim quando se guardam to bem 
os outros; meus senhores, eu no esqueci a noite em que me servistes de escolta para ir ao Colombier-Rouge; se houvesse algum perigo na estrada que vou seguir, pedir-vos-ia 
que me acompanhsseis, mas, como no h, ficai onde estais, acabai as vossas garrafas, a vossa partida e a vossa carta. Adeus, meus senhores.
E, montando no cavalo que Cahusac trouxera, saudou-os e afastou-se.
Os quatro jovens, de p e imveis, seguiram-no com os olhos sem dizer uma palavra, at que ele desapareceu.
Depois entreolharam-se.
Todos tinham um ar consternado, pois, apesar da despedida amigvel de Sua Eminncia, compreendiam que o cardeal partia furioso.
Apenas Athos sorria com um ar de poder e desdm. Quando o cardeal ficou fora do alcance da voz e da vista:
- Esse Grimaud gritou muito tarde! - disse Porthos, desejoso de descarregar o seu mau humor em algum.
Grimaud ia responder para se desculpar. Athos ergueu o dedo e Grimaud calou-se.
- Tereis entregado a carta, Aramis? - disse d'Artagnan.
- Eu estava decidido - disse Aramis com a sua voz mais aflautada -, se ele tivesse exigido que lhe entregssemos a carta, apresentava-lha com uma das mos e com 
a outra enfiava-lhe a espada no corpo.
- Era o que eu esperava - disse Athos -, por isso me lancei entre vs e ele. Na verdade esse homem  muito imprudente falando assim a outros homens; dir-se-ia que 
nunca lidou seno com mulheres e crianas.
- Meu caro Athos - disse d'Artagnan -, eu admiro-vos. Contudo, afinal, ns estvamos errados.
- Como! Errados? - respondeu Athos. - Ento a quem pertence o ar que respiramos? A quem pertence este oceano sobre o qual se estendem os nossos olhos? A quem pertence 
a areia em que estvamos deitados? A quem pertence a carta da vossa amante?
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Ao cardeal? Palavra de honra, esse homem imagina que o mundo lhe pertence; vs estveis ali, balbuciante, estupefacto, aniquilado; dir-se-ia que a Bastilha se erguia 
perante vs e que a gigantesca Medusa vos transformava em pedra. Estar apaixonado acaso  conspirar? Estais apaixonado por uma mulher que o cardeal mandou encarcerar, 
quereis tir-la das mos do cardeal;  uma partida que vs jogais com Sua Eminncia: essa carta  o vosso jogo; por que mostrareis o jogo ao vosso adversrio? Isso 
no se faz. Ele que o adivinhe quando puder! Ns adivinhamos o dele!
- De facto - disse d'Artagnan -, o que dizeis tem muito sentido,
Athos.
- Nesse caso, que no se fale mais no que acaba de passar-se, e que Aramis recomece a carta da prima no ponto em que o Sr. Cardeal a interrompeu.
Aramis tirou a carta do bolso, os trs amigos aproximaram-se dele, e os trs lacaios de novo se agruparam  volta do garrafo.
- S tnheis lido uma ou duas linhas - disse d'Artagnan. - Recomeai a carta a partir do princpio.
- De acordo - disse Aramis.


Meu caro primo, creio que me decidirei a partir para Stenay, onde minha irm fez entrar a nossa criadinha no convento das Carmelitas; a pobre moa resignou-se, sabe 
que no pode viver noutro stio sem que a salvao da sua alma esteja em perigo. Contudo, se os negcios da nossa famlia se resolverem como desejamos, creio que 
ela correr o risco de se perder e que voltar para junto daqueles de quem tem saudades, tanto mais que sabe que continuam a pensar nela. Entretanto, no se sente 
muito infeliz: tudo o que deseja  uma carta do seu pretendente. Sei que esse gnero de mercadorias dificilmente passam pelas grades; mas, afinal, como j vos dei 
provas, meu caro primo, eu no sou muito inbil e encarregar-me-ei do vosso recado. Minha irm agradece-vos a vossa boa e eterna lembrana. Teve um instante de grande 
inquietao; mas enfim, agora est um pouco mais tranquila, pois mandou para l o seu enviado a fim de que no se passe nada de imprevisto.
Adeus, meu caro primo, dai-nos notcias sempre que puderdes, ou seja, sempre que achardes que podeis faz-lo com segurana. Um abrao.


MARIE MICHON


- Oh! Quanto vos devo, Aramis! - exclamou d'Artagnan. - Cara Constance! Finalmente tenho notcias suas. Est viva, est em segurana num convento, est em Stenay! 
Onde fica Stenay, Athos?
- Mas a poucas lguas das fronteiras; uma vez levantado o cerco, poderemos dar uma vista de olhos por esses lados.

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- E  de esperar que isso no tarde - disse Porthos -, pois esta manh enforcaram um espio que declarou que os rocheleses j estavam reduzidos ao couro dos sapatos. 
Suponho que depois de comerem o couro comem a sola, no vejo o que lhes restar, a menos que se comam uns aos outros.
- Pobres tolos! - disse Athos, esvaziando um copo de excelente vinho de Bordeaux que, no tendo naquela poca a reputao que tem actualmente, nem por isso a merecia 
menos. - Pobres tolos! Como se a religio catlica no fosse a mais vantajosa e a mais agradvel das religies!  a mesma coisa - prosseguiu, depois de ter dado 
um estalo com a lngua -,  boa gente. Mas que diabo fazeis, Aramis? - continuou Athos. - Meteis a carta no bolso?
- Sim - disse d'Artagnan -, Athos tem razo, temos de queim-la, E mesmo assim, quem sabe se o Sr. Cardeal no tem um segredo para interrogar as cinzas...
- Deve ter algum - disse Athos.
- Mas que quereis fazer com essa carta? - perguntou Porthos.
- Vinde c, Grimaud - disse Athos. Grimaud levantou-se e obedeceu.
- Para vos castigar por terdes falado sem autorizao, meu amigo, ides comer este pedao de papel; depois, para vos recompensar do servio que nos fizestes, bebereis 
um copo deste vinho. Primeiro a carta, mastigai com energia.
Grimaud sorriu e, com os olhos postos no copo que Athos acabava de encher at aos bordos, mastigou o papel e engoliu-o.
- Bravo, mestre Grimaud! - disse Athos. - E agora tomai isto; bom, dispenso-vos de agradecer.
Grimaud engoliu silenciosamente o copo de vinho de Bordeaux, mas, enquanto a doce operao durou, os seus olhos erguidos para o cu falavam uma linguagem que, por 
ser muda, no era menos expressiva.
- E agora - disse Athos -, a menos que o Sr. Cardeal tenha a engenhosa ideia de mandar abrir a barriga a Grimaud, creio que podemos ficar mais ou menos sossegados.


Entretanto, Sua Eminncia continuava o seu passeio melanclico, murmurando por entre os bigodes:
- Decididamente, tenho de apanhar aqueles quatro.


      LII - PRIMEIRO DIA DE CATIVEIRO


      Voltemos a Milady, que um olhar lanado s costas da Frana nos fizera perder de vista um instante.
Encontr-la-emos na posio desesperada em que a deixmos, cavando um abismo de reflexes sombrias, sombrio inferno  porta do qual quase deixou a esperana, pois 
pela primeira vez, ela duvida, pela primeira vez tem medo.
Em duas ocasies a sua sorte faltou-lhe, em duas ocasies viu-se descoberta e trada, e nessas duas ocasies foi contra o gnio fatal certamente enviado pelo Senhor 
para a combater que ela fracassou: d'Artagnan venceu-a, a ela, invisvel poder do mal.
Ele iludiu-a no seu amor, humilhou-a no seu orgulho, enganou-a na sua ambio, e agora eis que a perde na sua fortuna, que a atinge na sua liberdade, que a ameaa 
at na sua vida. Mais ainda, levantou uma ponta da sua mscara, gide com que ela se cobre e que a tornara to forte.
D'Artagnan desviou de Buckingham, que ela odeia, como odeia tudo o que amou, a tempestade com que o ameaava Richelieu na pessoa da rainha. D'Artagnan fez-se passar 
por De Wardes, para o qual ela tinha uma dessas fantasias de leoa, indomveis como as que tm as mulheres desse carcter. D'Artagnan conhece o terrvel segredo que 
ela jurou que ningum conheceria sem morrer. Enfim, no momento em que ela acaba de obter uma assinatura em branco com a qual vai vingar-se do seu inimigo, a assinatura 
em branco -lhe arrancada das mos e  d'Artagnan que a tem prisioneira, que a vai enviar para alguma imunda Botany-Bay, para algum Tyburn infame do oceano ndico.
Pois certamente que tudo isso provm de d'Artagnan; de quem proviriam tantos oprbrios acumulados sobre a sua cabea, seno dele? S ele pde transmitir a lorde 
de Winter todos aqueles horrveis segredos, que descobriu um a seguir ao outro por uma espcie de fatalidade. Ele conhece o seu cunhado, deve ter-lhe escrito.
Quanto dio ela destila! Ali, imvel, e com os olhos ardentes e fixos no seu aposento deserto, como o estrpido dos seus rugidos surdos, que por veses lhe escapam 
com a respirao do fundo do peito, acompanham bem o rudo da ondulao que sobe, rosna, muge e vem quebrar-se, como um desespero eterno e impotente, contra os rochedos 
sobre os quais se ergue este castelo sombrio e orgulhoso! Como,  luz dos relmpagos que a sua clera tempestuosa lhe faz brilhar no esprito, ela concebe contra 
a Sr.a Bonacieux, contra Buckingham, e sobretudo contra d'Artagnan, magnficos projectos de vingana, perdidos nas lonjuras do futuro!
Sim, mas para se vingar  preciso ser livre e, para ser livre quando se est preso,  preciso abrir um buraco numa parede,

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desprender as grades, furar um soalho; e tudo isso so coisas que um homem paciente e forte pode fazer, mas perante as quais devem fracassar as irritaes febris 
duma mulher. De resto para fazer tudo isso,  preciso ter tempo, meses, anos, e ela... ela tem dez ou doze dias, foi o que lhe disse lorde de Winter, o seu fraterno 
e terrvel carcereiro.
Contudo, se fosse um homem, tentaria tudo isso e talvez conseguisse. Por que se enganou o cu, pondo esta alma viril neste corpo frgil e delicado!
Assim, os primeiros momentos de cativeiro foram terrveis; algumas convulses de raiva que no pde vencer pagaram esta dvida da fraqueza feminina  natureza. Mas 
a pouco e pouco superou os mpetos da sua clera insensata, os frmitos nervosos que agitaram o seu corpo desapareceram, e agora enroscou-se como uma serpente fatigada 
que repousa.
- V, v; era louca arrebatando-me assim - disse ela, mergulhando no espelho, que reflete nos seus olhos o seu olhar escaldante, atravs do qual parece interrogar-se 
a si mesma. - Violncia no; a violncia  uma prova de fraqueza. Primeiro, nunca consegui nada dessa maneira; talvez, se usasse a minha fora contra as mulheres, 
tivesse a sorte de as achar ainda mais fracas do que eu, e por conseguinte de as vencer; mas  contra os homens que luto, e eu no passo de uma mulher para eles. 
Lutemos como mulher, a minha fora reside na minha fraqueza.
Ento, como que para mostrar a si mesma as modificaes que podia impor  sua fisionomia to expressiva e mvel, f-la tomar simultaneamente todas as expresses, 
desde a clera que lhe crispava os traos at ao mais doce, afectuoso e sedutor sorriso. Depois as suas sbias mos deram aos cabelos as ondulaes que achou que 
podiam aumentar os encantos do seu rosto. Por fim murmurou, satisfeita com a sua pessoa:
- V, nada est perdido. Continuo a ser bela.
Eram aproximadamente oito horas da noite. Milady viu uma cama; pensou que o repouso de umas horas lhe refrescaria no s a cabea e as ideias mas tambm a tez. Contudo, 
antes de se deitar, teve uma ideia melhor. Ouvira falar no jantar. J estava h uma hora naquele quarto, no podiam tardar a trazer-lhe a sua refeio. A prisioneira 
no quis perder tempo, e resolveu fazer logo nessa noite uma tentativa para sondar o terreno, estudar o carcter das pessoas a quem havia sido confiada a sua guarda.
Uma luz apareceu sob a porta; essa luz anunciava o regresso dos seus carcereiros. Milady, que se tinha levantado, atirou-se vivamente para a poltrona, com a cabea 
para trs, os seus belos cabelos soltos e espalhados, o colo seminu sob as rendas amarrotadas, uma das mos no peito e a outra cada.
Abriram os ferrolhos, a porta rangeu nos gonzos, ecoaram passos no quarto, que se aproximaram.
- Pousai em cima dessa mesa - disse uma voz que a prisioneira reconheceu como a de Felton.

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A ordem foi executada.
- Ides trazer umas tochas e mandar render a sentinela - continuou
Felton.
Esta dupla ordem que o jovem tenente deu aos mesmos indivduos provou a Milady que os seus servidores eram os mesmos homens que os seus guardas, ou seja, eram soldados.
Alis, as ordens de Felton eram executadas com uma rapidez silenciosa que dava uma ideia do estado florescente em que ele mantinha a
disciplina.
Por fim, Felton, que ainda no tinha encontrado o olhar de Milady,
voltou-se para ela.
- Ah, Ah! - disse ele. - Est a dormir. Bom, quando acordar,
janta.
E deu uns passos para sair.
- Mas, meu tenente - disse um soldado menos estico que o seu chefe e que se tinha aproximado de Milady -, esta mulher no est a
dormir.
- O qu? No est a dormir? - disse Felton. - Ento que est a
fazer?
- Desmaiou; tem o rosto muito plido e, por mais que eu escute, no
lhe ouo a respirao.
- Tendes razo - disse Felton, depois de ter observado Milady do lugar em que estava e sem dar um passo na direco dela -, ide prevenir lorde de Winter de que a 
sua prisioneira est desmaiada pois eu no sei o que fazer, dado que o caso no foi previsto.
O soldado saiu para obedecer s ordens do seu oficial; Felton sentou-se num cadeiro que encontrou por acaso junto da porta e esperou sem dizer uma palavra, sem 
fazer um gesto. Milady possua a grande arte, to estudada pelas mulheres, de ver atravs das suas longas pestanas sem parecer abrir as plpebras: viu Felton de 
costas, continuou a fit-lo durante cerca de dez minutos e, durante estes dez minutos, o impassvel guarda no se virou uma nica vez.
Ento, ela pensou que lorde de Winter ia vir e dar, com a sua presena, nova fora ao carcereiro: a primeira tentativa estava perdida, ela decidiu-se como uma mulher 
que conta com os seus recursos e, por conseguinte, ergueu a cabea, abriu os olhos e suspirou suavemente. Ao ouvir este suspiro, Felton virou-se finalmente.
- Ah! Eis-vos acordada, minha senhora! - disse ele. - Nesse caso, j no tenho nada que fazer aqui. Se precisardes dalguma coisa, chamareis.
- Oh! Meu Deus, meu Deus! Que mal me senti! - murmurou Milady com aquela voz harmoniosa que, como a das antigas feiticeiras, cativava todos os que ela queria perder.
E, erguendo-se da poltrona, ps-se numa posio ainda mais graciosa e abandonada do que tinha quando estava estendida. Felton levantou-se.
- Sereis servida trs vezes por dia, minha senhora - disse ele.

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- De manh s nove horas, durante o dia  uma hora, e  noite, s oito horas. Se no vos convm, podeis indicar as vossas horas em substituio das que vos proponho, 
e nesse ponto conformar-nos-emos com os vossos desejos.
- Ento vou ficar sozinha neste grande e triste quarto? - perguntou Milady.
- Uma mulher das redondezas foi prevenida, amanh estar no castelo e vir sempre que desejardes a sua presena.
- Agradeo-vos, senhor - disse humildemente a prisioneira.
Felton fez uma ligeira saudao e dirigiu-se para a porta. No momento em que ia transpor o limiar, lorde de Winter apareceu no corredor, seguido do soldado que lhe 
fora dar a notcia do desmaio de Milady. Trazia na mo um frasco de sais.
- Ento, que foi? E que se passa aqui? - disse com voz irnica vendo a sua prisioneira de p e Felton prestes a sair. - Ento a morta j ressuscitou? Apre, Felton, 
meu filho, no viste que te tomavam por um novato e que te representavam o primeiro acto duma comdia de que certamente teremos o prazer de seguir todos os desenvolvimentos?
- Pensei nisso, Milorde - disse Felton -, mas enfim, como afinal a prisioneira  uma mulher, quis ter a considerao que qualquer homem bem-nascido deve a uma mulher, 
se no por ela ao menos por si mesmo.
Milady estremeceu. Estas palavras de Felton eram como gelo para as suas veias.
- Ento - retomou De Winter a rir -, estes belos cabelos sabiamente espalhados, esta pele branca e este olhar lnguido ainda no te seduziram, corao de pedra?
- No, Milorde - respondeu o impassvel rapaz -, e podeis crer que para me corromper  preciso mais do que manobras e garridices de mulher.
- Nesse caso, meu bravo tenente, deixemos Milady procurar outra coisa e vamos jantar. Ah! Fica descansado, ela tem uma imaginao fecunda, e o segundo acto da comdia 
no tardar a seguir o primeiro.
E, dizendo estas palavras, lorde de Winter enfiou o brao no de Felton e levou-o a rir.
- Oh! Eu hei-de encontrar o que precisas - murmurou Milady entredentes. - Fica descansado, pobre monge falhado, pobre soldado convertido que talhaste o uniforme 
num hbito.
- A propsito - retomou De Winter, parando no limiar da porta -, este fracasso no deve tirar-vos o apetite, Milady. Provai este frango e este peixe que eu no mandei 
envenenar, palavra de honra. Dou-me muito bem com o meu cozinheiro e, como no deve herdar de mim, tenho toda a confiana nele. Fazei como eu fao. Adeus, cara irm! 
At ao vosso prximo desmaio.
Era tudo o que Milady podia suportar: as suas mos crisparam-se na poltrona, os seus dentes rangeram surdamente, os seus olhos seguiram o movimento da porta que 
se fechava atrs de lorde de Winter e de Felton; e, quando se viu sozinha, teve uma nova crise de desespero;

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lanou os olhos sobre a mesa, viu brilhar uma faca, correu e pegou nela; mas o seu desapontamento foi cruel: a lmina estava embotada e era de prata flexvel.
Ouviu-se uma gargalhada atrs da porta mal fechada, e a porta abriu-se novamente.
- Ah! Ah! - exclamou lorde de Winter. - Ah, ah, ah! Ests a ver, meu bravo Felton? Ests a ver o que te tinha dito? Esta faca era para ti; meu filho, ela matava-te; 
ests a ver?  uma das suas manias, desembaraar-se assim, duma forma ou doutra, das pessoas que a incomodam. Se eu te tivesse dado ouvidos, a faca seria pontiaguda 
e de ao, ento adeus Felton, ela degolava-te, e depois toda a gente. Ests a ver, Felton, como ela sabe segurar a faca?
Com efeito, Milady ainda segurava a arma ofensiva na mo crispada, mas estas ltimas palavras, este supremo insulto descontraram-lhe as mos, as foras e at a 
vontade.
A faca caiu no cho.
- Tendes razo, Milorde - disse Felton num tom de profundo pesar que ecoou at ao fundo do corao de Milady -, tendes razo. Eu  que estava errado.
E os dois saram de novo.
Mas desta vez Milady prestou mais ateno do que da primeira vez e ouviu os seus passos afastarem-se e extinguirem-se no fundo do corredor.
- Estou perdida - murmurou -, eis-me em poder de pessoas sobre as quais tenho menos poder que sobre esttuas de bronze ou de granito; conhecem-me de cor e esto 
couraados contra todas as minhas armas.
"Contudo  impossvel que isto termine como eles decidiram."
Com efeito, como esta ltima reflexo indicava, este retorno instintivo  esperana, nesta alma profunda o temor e os sentimentos fracos no sobrenadaram por muito 
tempo. Milady sentou-se  mesa, comeu de vrios pratos, bebeu um pouco de vinho de Espanha e sentiu voltar-lhe toda a sua resoluo.
Antes de se deitar j tinha comentado, analisado, virado sob todas as suas faces, examinado sob todos os pontos, as palavras, os passos, os gestos, os sinais e at 
o silncio dos seus carcereiros, e deste estudo profundo, hbil e sbio resultara que Felton era o mais vulnervel dos seus dois perseguidores.
Uma palavra, sobretudo, vinha constantemente ao esprito da prisioneira:
- Se eu te tivesse dado ouvidos - dissera lorde de Winter a Felton. Portanto Felton falara a seu favor, pois lorde de Winter no quisera
dar ouvidos a Felton.
- Fraca ou forte - repetia Milady -, este homem tem pois uma luzinha de piedade na alma; desta luz eu farei um incndio que o h-de devorar.
"Quanto ao outro, conhece-me, tem medo de mim e sabe o que pode esperar se eu escapar das suas mos, portanto no vale a

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pena tentar alguma coisa com ele. Mas Felton  outra coisa;  um jovem ingnuo, puro e que parece virtuoso; a esse, h maneira de o perder.
E Milady deitou-se e adormeceu com um sorriso nos lbios; quem a visse a dormir diria que era uma mocinha a sonhar com a coroa de flores que usaria na prxima festa.


      LIII - SEGUNDO DIA DE CATIVEIRO


      Milady sonhava que finalmente tinha apanhado d'Artagnan, que assistia ao seu suplcio, e era a vista do seu sangue odioso, derramado sob o machado do carrasco, 
que lhe desenhava este encantador sorriso nos lbios.
Dormia como dorme um prisioneiro embalado pela sua primeira esperana.
No dia seguinte, quando entraram no quarto, ainda estava deitada. Felton estava no corredor: trazia a mulher de que lhe falara na vspera e que acabava de chegar; 
esta entrou e aproximou-se da cama de Milady para lhe oferecer os seus prstimos.
Habitualmente Milady estava plida; portanto, a sua tez podia iludir quem a visse pela primeira vez.
- Tenho febre - disse ela -, no dormi um instante toda a noite,', que foi to longa, estou muito mal: sereis vs mais humana do que ontem foram comigo? De resto, 
s peo permisso para ficar deitada.
- Quereis que chame um mdico? - perguntou a mulher. Felton escutava este dilogo sem dizer uma palavra.
Milady pensava que quanto mais gente a rodeasse, mais gente teria de encher de compaixo e mais aumentaria a vigilncia de lorde de Winter; de resto, o mdico poderia 
declarar que a doena era fingida e Milady, depois de ter perdido a primeira partida, no queria perder a segunda.
- Ir buscar um mdico - disse ela -, para qu? Ontem estes senhores declararam que o meu mal era uma comdia, e hoje seria certamente a mesma coisa pois, desde ontem 
 noite, tiveram tempo de prevenir o doutor.
- Ento - disse Felton impacientando-se -, dizei vs mesma, minha senhora, que tratamento quereis seguir.
- Eh! E eu sei? Meu Deus! Sinto que estou doente,  tudo, pouco me importa que me dem o que quiserem.
- Ide buscar lorde de Winter - disse Felton, cansado destas eternas lamrias.
- Oh! No, no! - exclamou Milady. - No, senhor, no o chameis, conjuro-vos, eu estou bem, no preciso de nada, no o chameis.
Ps uma veemncia to prodigiosa, uma eloquncia to empolgante nesta exclamao que Felton, empolgado, deu alguns passos no quarto.
- Est emocionado - pensou Milady.
- Contudo, minha senhora - disse Felton -, se estais realmente enferma, mandaremos chamar um mdico e, se nos enganais, pois bem!, pior para vs, mas ao menos, por 
nosso lado, no teremos de nos censurar.
Milady no respondeu mas, reclinando a cabea na almofada, desatou a chorar e a soluar.
Felton contemplou-a um instante com a sua habitual impassibilidade; depois, vendo que a crise ameaava prolongar-se, saiu; a mulher seguiu-o. Lorde de Winter no 
apareceu.
- Creio que comeo a perceber - murmurou Milady com uma alegria selvtica, enterrando-se nos lenis para esconder este mpeto de satisfao interior a quem pudesse 
espreit-la.
Passaram-se duas horas.
- J  altura de parar com o mal-estar - disse ela -, levantemo-nos e obtenhamos algum xito a partir de hoje; s tenho dez dias, e esta noite tero passado dois.
Ao entrar de manh no quarto de Milady tinham-lhe trazido o pequeno-almoo; ora ela pensava que no tardariam a vir tirar a mesa e que nesse momento veria Felton.
Milady no se enganava. Felton reapareceu e, sem verificar se Milady tocara ou no na refeio, fez um sinal para que tirassem a mesa, que geralmente traziam j 
posta.
Felton ficou para o fim, tinha um livro na mo.
Milady, estendida numa poltrona junto da chamin, bela, plida e resignada, parecia uma virgem santa aguardando o martrio.
Felton aproximou-se dela e disse:
- Lorde de Winter, que  catlico como vs, minha senhora, pensou que a privao dos ritos e das cerimnias da vossa religio vos pode ser penosa: consente-vos, 
pois, ler todos os dias o ordinrio da vossa missa, e aqui tendes um livro que contm o ritual.
Notando o ar com que Felton pousou o livro na mesinha junto de Milady, o tom com que pronunciou as palavras a vossa missa, o sorriso desdenhoso com que as acompanhou, 
Milady levantou a cabea e olhou mais atentamente o oficial.
Ento, no penteado severo, no trajo de uma simplicidade exagerada, na fronte polida como mrmore, mas dura e impenetrvel como o mesmo, ela reconheceu um desses 
sombrios puritanos que muitas vezes encontrara tanto na corte do rei Jaime como na do rei de Frana onde, mal-grado a recordao de So Bartolomeu, vinham por vezes 
procurar refgio.
Teve pois uma dessas inspiraes sbitas como s as pessoas de gnio recebem nas grandes crises, nos momentos supremos que devem decidir a sua fortuna ou a sua vida.

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As palavras a vossa missa e um simples olhar lanado a Felton, tinham-lhe, com efeito, revelado toda a importncia da resposta que ia dar.
Mas com a rapidez da inteligncia que lhe era peculiar, esta resposta j formulada, brotou-lhe dos lbios:
- Eu! - disse ela com um tom de desdm em unssono com o que notara na voz do jovem oficial. - Eu, senhor, a minha missa! Lorde de Winter, o catlico corrupto, sabe 
muito bem que eu no perteno  sua religio, e isso  uma armadilha que ele me quer armar!
- E a que religio pertenceis, minha senhora? - perguntou Felton com um espanto que, apesar do seu domnio, no pde ocultar inteiramente.
- Hei-de diz-lo - exclamou Milady com falsa exaltao -, no dia em que tiver sofrido o bastante pela minha f!
O olhar de Felton revelou a Milady toda a extenso do espao que ela acabava de abrir com esta simples palavra.
Contudo o jovem oficial permaneceu mudo e imvel, s o seu olhar havia falado.
- Estou nas mos dos meus inimigos - continuou ela no tom entusistico que sabia familiar aos puritanos. - Pois bem, que o meu Deus me salve ou que eu perea pelo 
meu Deus! Eis a resposta que eu vos peo para transmitirdes a lorde de Winter. E quanto a esse livro - acrescentou mostrando o ritual com o dedo, mas sem lhe tocar 
como se isso a maculasse -, podeis lev-lo para vos servirdes dele, pois deveis ser duplamente cmplice de lorde de Winter, cmplice na sua perseguio, cmplice 
na sua heresia.
Felton nada respondeu, pegou no livro com o mesmo sentimento de repugnncia que j tinha manifestado, e retirou-se pensativo. Lorde de Winter veio por volta das 
cinco da tarde; durante todo o dia Milady tivera tempo de traar o seu plano de aco; recebeu-o como quem j recuperou todas as suas vantagens.
- Parece - disse o baro, sentando-se numa poltrona diante de Milady e estendendo despreocupadamente os ps para a lareira -, parece que fizemos uma pequena apostasia!
- Que quereis dizer, senhor?
- Quero dizer que, desde a ltima vez que nos vimos, mudmos de religio; acaso tereis tido um terceiro marido protestante?
- Explicai-vos, Milorde - respondeu a prisioneira com majestade-, pois declaro-vos que ouo as vossas palavras e no as compreendo.
- Ento  porque no tendes nenhuma religio. Antes isso - respondeu lorde de Winter sarcasticamente.
-  certo que est mais de acordo com os vossos princpios - replicou friamente Milady.
- Oh! Confesso-vos que me  perfeitamente indiferente.

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- Oh! Ainda que no confesssseis essa indiferena religiosa, Milorde, a vossa devassido e os vossos crimes fariam f.
- O qu? Falais de devassido, Sr.a Messalina, falais de crimes, lady Macbeth? Ou ouvi mal ou, por Deus, sois muito imprudente.
- Falais assim porque sabeis que nos escutam, senhor - respondeu friamente Milady -, e porque quereis pr os vossos carcereiros e os vossos carrascos contra mim.
- Os meus carcereiros! Os meus carrascos! Ora, minha senhora, adoptais um tom potico, e esta noite a comdia de ontem d em tragdia. De resto, daqui a oito dias 
estareis onde deveis estar e a minha tarefa estar cumprida.
- Tarefa infame! Tarefa mpia! - replicou Milady com a exaltao da vtima que provoca o seu juiz.
- Palavra de honra - disse De Winter, erguendo-se -, creio que esta mulher enlouquece. V, v, acalmai-vos, senhora puritana ou mando-vos para as masmorras. Apre! 
 o meu vinho de Espanha que vos sobe  cabea, no ? Mas ficai descansada, essa bebedeira no  perigosa e no ter consequncias.
E lorde de Winter retirou-se praguejando, o que naquela poca era um hbito cavalheiresco.
Felton estava, de facto, atrs da porta e no perdera uma palavra de
toda a cena.
Milady tinha adivinhado.
- Sim, vai! Vai - disse ela ao cunhado. - As consequncias aproximam-se, pelo contrrio, mas tu no as vers, imbecil, seno quando j no as puderes evitar.
Restabeleceu-se o silncio, passaram-se duas horas; trouxeram o jantar e encontraram Milady ocupada a recitar as suas oraes em voz alta, oraes que aprendera 
com um velho criado do segundo marido, puritano dos mais austeros. Parecia em xtase e nem sequer deu mostras de prestar ateno ao que se passava  sua volta. Felton 
fez sinal que no a incomodassem e, quando tudo ficou pronto, saiu sem rudo com os seus soldados.
Milady sabia que a podiam espiar, portanto continuou as suas oraes at ao fim, e pareceu-lhe que o soldado que estava de sentinela  porta j no caminhava com 
o mesmo passo e parecia escutar.
Por enquanto era o que ela queria, levantou-se, sentou-se  mesa, comeu pouco e s bebeu gua.
Uma hora depois vieram tirar a mesa, mas Milady notou que, desta vez, Felton no acompanhava os seus soldados.
Portanto, receava v-la muitas vezes.
Ela virou-se para a parede a fim de sorrir, pois havia neste sorriso uma tal expresso de triunfo que este sorriso a denunciaria.
Deixou passar mais meia hora e como nesse momento tudo estava em silncio no velho castelo, como s se ouvia o eterno murmrio das ondas, a imensa respirao do 
oceano, da sua voz pura, harmoniosa e vibrante, ela comeou a primeira estrofe

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deste salmo que nessa poca era muito apreciado pelos puritanos:


Seigneur, si tu nous abandonnes,
C'est pour voir si nous sommes forts,
Mais ensuite c'est toi qui donnes
De ta celeste main la plame  nos efforts.(1)


Estes versos no eram excelentes, nem de longe; mas, como se sabe, os protestantes no se preocupavam muito com a poesia.
Enquanto cantava, Milady escutava: o soldado de guarda  porta tinha parado como se se tivesse transformado em pedra. Milady pde, portanto, apreciar o efeito que 
tinha produzido.
Ento continuou o seu canto com um fervor e um sentimento inexprimveis; pareceu-lhe que os sons se estendiam ao longe sob as abbadas e iam adoar o corao dos 
seus carcereiros como um sortilgio. Contudo, parece que o soldado de sentinela, certamente um catlico zeloso, sacudiu o encanto, pois disse atravs da porta:
- Calai-vos, minha senhora, a vossa cano  triste como um De Profundis e se, alm do prazer de estar de guarda aqui, tenho de ouvir tais coisas, no aguento.
- Silncio! - disse ento uma voz mais grave que Milady reconheceu como a voz de Felton. - Que tendes a ver com isso, seu engraado? Acaso vos ordenaram que impedsseis 
esta mulher de cantar? No. Disseram-vos que a guardsseis, que atirsseis sobre ela se tentasse fugir. Guardai-a; se fugir, matai-a; mas no modifiqueis as ordens.
Uma expresso de alegria indizvel iluminou o rosto de Milady, mas essa expresso foi fugaz como o reflexo dum relmpago e, parecendo que no ouvira o dilogo de 
que no perdera uma palavra, continuou, dando  sua voz todo o encanto, toda a amplitude, toda a seduo que o demnio nela depositara:



Pour tant de pleurs et de misre,
Pour mon exil et pour mes fers,
J'ai ma jeunesse, ma prire,
Et Dieu, qui comptera les maux que j'ai soufferts!(2)


*1. Senhor, se nos abandonas,/ para veres se somos fortes,/Mas depois s tu que ds/Com a tua celeste mo a palma dos nossos esforos. (N. da T.)
2 Para tantas lgrimas e misria,/Para o meu exlio e para os meus ferros,/Tenho a minha juventude, a minha prece,/E Deus, que contar os males que sofri. (N. da 
T.)

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Esta voz, de uma amplitude inaudita e de uma paixo sublime, dava  poesia rude e inculta destes salmos uma magia e uma expresso que os puritanos mais exaltados 
raramente encontravam nos cnticos dos seus irmos, e que eram forados a enfeitar com todos os recursos da sua imaginao: Felton julgou ouvir cantar o anjo que 
consolava os trs hebreus na fornalha.
Milady continuou:


Mais le jour de la dlivrance
Viendra pour nous, Dieu juste e fort;
Et s'il trompe notre esperance,
Il nous reste toujours le martyre et la mort.(1)


Esta estrofe, na qual a terrvel feiticeira se esforou por pr toda a sua alma, acabou de lanar a desordem no corao do jovem oficial; este abriu bruscamente 
a porta e Milady viu-o aparecer, plido como sempre, mas com os olhos ardentes e quase alucinados.
- Por que cantais assim - disse ele -, e com essa voz?
- Perdo, senhor - disse Milady com doura -, esquecia que os meus cnticos no so prprios para esta casa. Certamente ofendi as vossas crenas; mas foi sem querer, 
eu vos juro. Perdoai-me, pois, um erro que talvez seja grande, mas que  certamente involuntrio.
Milady era to bela neste momento, o xtase religioso em que parecia mergulhada dava uma tal expresso  sua fisionomia, que Felton, ofuscado, julgou ver o anjo 
que h pouco julgava apenas ouvir.
- Sim, sim - respondeu ele -, sim: vs perturbais, agitais as pessoas que habitam este castelo.
E o pobre louco nem sequer se apercebia da incoerncia dos seus discursos, enquanto Milady lhe mergulhava os seus olhos de lince nas profundezas do corao.
- Calar-me-ei - disse Milady, baixando os olhos e com toda a doura que pde dar  voz, com toda a resignao que pde impor  sua atitude.
- No, no, minha senhora - disse Felton -, cantai apenas mais baixo, sobretudo  noite.
E, ao dizer estas palavras, sentindo que no podia conservar por muito tempo a severidade que devia ter com a prisioneira, saiu apressadamente do quarto.
- Fizestes bem, tenente - disse o soldado --, esses cnticos abalam a alma. No entanto a gente acaba por habituar-se: a voz  to bela!


*1. Afs o dia da libertao/Vir para ns, Deus justo e forte;/E se ele enganar a nossa esperana,/Resta-nos sempre o martrio e a morte. (N. da T.)

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      LIV - TERCEIRO DIA DE CATIVEIRO


      Felton tinha vindo, mas ainda faltava dar um passo: era preciso ret-lo, ou melhor, era preciso que ele ficasse por sua vontade, e Milady ainda no via claramente 
como chegar a esse resultado.
Era preciso ainda mais: era preciso faz-lo falar, a fim de lhe falar tambm, pois Milady bem sabia que a sua maior seduo era a voz, que percorria to habilmente 
toda a gama dos tons, desde a palavra humana at  linguagem celeste.
E contudo, apesar de toda esta seduo, Milady podia fracassar, pois Felton estava prevenido contra o mnimo acaso. A partir da, vigiou todas as suas aces, todas 
as suas palavras, at ao mais simples relance dos seus olhos, at ao seu gesto, at  sua respirao, que podia ser interpretada como um suspiro. Enfim, estudou 
tudo, como um hbil comediante a quem acabam de conceder um novo papel que no est habituado a desempenhar.
Em relao a lorde de Winter, o seu comportamento era mais fcil; deste modo, j o havia decidido desde a vspera. Permanecer muda e digna na sua presena, de vez 
em quando irrit-lo com um desdm fingido, com uma palavra despreziva, lev-lo a ameaas e violncias que contrastassem com a sua resignao, tal era o seu projecto. 
Felton veria, talvez no dissesse nada, mas veria.
De manh, Felton veio como de costume, mas Milady deixou-o presidir a todos os preparativos do almoo sem lhe dirigir a palavra. No momento em que ele ia retirar-se, 
teve um lampejo de esperana, pois julgou que era ele que ia falar, mas os seus lbios mexeram-se sem produzirem nenhum som e, fazendo um esforo, fechou no corao 
as palavras que iam escapar-se dos seus lbios, e saiu. Cerca do meio-dia lorde de Winter entrou.
Era um bonito dia de Inverno, e um raio do plido sol de Inglaterra que ilumina mas no aquece passava atravs das grades da priso. Milady olhava pela janela e 
fingiu que no ouviu abrir a porta.
- Ah! Ah! - disse lorde de Winter. - Depois da comdia, depois da tragdia, temos a melancolia.
A prisioneira no respondeu.
- Sim, sim - continuou lorde de Winter -, eu compreendo. Quereis estar em liberdade nessa costa; quereis num bom navio, sulcar as ondas desse mar verde como uma 
esmeralda; quereis, quer na terra quer no oceano, armar-me uma dessas emboscadazinhas que sabeis tramar. Pacincia, pacincia! Daqui a quatro dias a costa ser-vos- 
permitida, o mar ser-vos- aberto, mais aberto do que querereis, pois daqui a quatro dias a Inglaterra ficar livre de vs.

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Milady juntou as mos e, erguendo os seus lindos olhos para o cu:
- Senhor! Senhor! - disse ela com uma anglica suavidade de gesto e de entoao. - Perdoai a este homem, como eu mesma lhe perdoo.
- Sim, reza, maldita - exclamou o baro -, a tua prece  generosa, pois juro-te que ests em poder dum homem que no perdoar.
E saiu.
No momento em que saa, um olhar penetrante atravessou a porta entreaberta e ela viu Felton, que se desviava rapidamente para no se deixar ver.
Ento ajoelhou-se e ps-se a rezar.
- Meu Deus! Meu Deus! - disse ela. - Vs sabeis a santa causa por que eu sofro, dai-me fora para sofrer.
A porta abriu-se suavemente; a bela suplicante fez que no ouviu e continuou com a voz embargada pelas lgrimas:
- Deus vingador! Deus de bondade! Deixareis vs realizarem-se os horrveis projectos deste homem?
S ento fingiu ouvir o som dos passos de Felton e, erguendo-se rpida como o pensamento, corou como se tivesse vergonha de ser surpreendida de joelhos.
- No gosto de incomodar os que rezam, minha senhora - disse gravemente Felton -, no vos incomodeis por minha causa, peo-vos.
- Como sabeis que eu rezava? Senhor. - disse Milady com a voz sufocada pelos soluos. - Estais enganado, senhor, eu no rezava.
- Pensais, minha senhora - respondeu Felton com a mesma voz grave, embora num tom mais doce -, que eu me julgo no direito de impedir uma criatura de se prostrar 
diante do seu Criador? A Deus no prouvera! De resto, arrepender-se fica bem aos culpados; aos ps de Deus, um culpado  sagrado para mim, seja qual for o crime 
que tenha
cometido.
- Eu, culpada! - disse Milady com um sorriso que desarmaria o anjo do Juzo Final. - Culpada! Meu Deus, tu o sabes! Dizei que sou condenada, senhor. Mas vs sabeis, 
Deus, que ama os mrtires, consente por vezes que se condenem os inocentes.
- Se sois condenada, se sois uma mrtir - respondeu Felton -, mais uma razo para orardes, e eu mesmo vos ajudarei com as minhas oraes.
- Oh! Vs sois um justo - exclamou Milady, lanando-se aos seus ps. - Eu no aguento muito tempo, pois receio que me faltem as foras no momento de lutar e de confessar 
a minha f; escutai, pois, a splica duma mulher desesperada. Enganam-vos, senhor, mas a questo no  essa, s vos peo um favor e, se mo concederdes, hei-de bendizer-vos 
neste mundo e no outro.
- Falai com o Senhor, minha senhora - disse Felton. - Felizmente eu no estou encarregado nem de perdoar nem de punir, e foi a quem est acima de mim que Deus entregou 
essa responsabilidade.
- A vs, s a vs. Escutai-me, em vez de contribuirdes para a minha perdio, em vez de contribuirdes para a minha ignomnia.

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- Se merecestes essa vergonha, minha senhora, se incorrestes nessa ignomnia, tendes de suport-la, oferecendo-a a Deus.
- Que dizeis? Oh! Vs no me compreendeis! Quando falo de ignomnia julgais que falo dalgum castigo, da priso ou da morte! Tomara! Que me importam a mim a morte 
ou a priso?
- Sou eu que j no vos compreendo, minha senhora.
- Ou que fazeis que j no me compreendeis, senhor - respondeu a prisioneira com um sorriso de dvida.
- No, minha senhora, pela honra dum soldado, pela f dum cristo!
- Como! Ignorais os desgnios de lorde de Winter a meu respeito?
- Ignoro.
- Impossvel. Vs, o seu confidente!
- Eu nunca minto, minha senhora.
- Oh! Contudo ele pouco se dissimula para que no os adivinhem.
- No procuro adivinhar nada, minha senhora; espero que me confiem e,  parte o que me disse diante de vs, lorde de Winter no me confiou nada.
- Mas - exclamou Milady com um incrvel tom de veracidade -, ento no sois o seu cmplice, ento no sabeis que ele me destina a uma vergonha cujo horror todos 
os castigos da terra no podem igualar?
- Estais enganada, minha senhora - disse Felton corando -, lorde de Winter no  capaz de semelhante crime.
"Bom", disse Milady para consigo, "ele chama-lhe crime sem saber o que !"
Depois, em voz alta:
- O amigo do infame  capaz de tudo.
- A quem chamais infame? - perguntou Felton.
- Ento existem em Inglaterra dois homens aos quais esse nome possa convir?
- Falais de George Villers? - disse Felton com o olhar inflamado.
- A quem os pagos, os gentios e os infiis chamam duque de Buckingham - respondeu Milady -; no pensava que houvesse um ingls em toda a Inglaterra que precisasse 
duma explicao to longa para reconhecer aquele a que me refiro!
- A mo do Senhor estende-se sobre ele - disse Felton -, e ele no escapar ao castigo que merece.
Felton limitava-se a exprimir a respeito do duque o sentimento de execrao que todos os ingleses tinham votado quele a que os prprios catlicos chamavam o exactor, 
o concussionrio, o devasso, e que os puritanos designavam simplesmente por Sat.
- Oh, meu Deus! Meu Deus! - exclamou Milady. - Quando vos suplico que envieis a esse homem o castigo que lhe  devido, bem sabeis que no  a minha prpria vingana 
que desejo, mas a libertao dum povo inteiro que imploro.
- Ento conheceis esse homem? - perguntou Felton. "Finalmente interroga-me", disse Milady para consigo, toda satisfeita por ter alcanado to depressa um resultado 
to grande.

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- Oh! Se conheo! Oh, sim! Para minha desgraa, para minha eterna desgraa.
E Milady torceu os braos como se tivesse chegado ao paroxismo da dor. Felton sentiu talvez intimamente que as suas foras o abandonavam, e fez alguns passos em 
direco  porta; a prisioneira, que no o perdia de vista, correu atrs dele e deteve-o.
- Senhor! - exclamou ela. - Sede bom, sede clemente, escutai a minha splica: a faca que a fatal prudncia do baro me tirou, porque sabe como eu a utilizaria; oh! 
Escutai-me at ao fim! Devolvei-me essa faca apenas por um minuto, por favor, por piedade! Abrao-vos os joelhos; vede, fechareis a porta, no  a vs que quero 
mal; Deus! Querer-vos mal, a vs, o nico ser justo, bom e compadecido que encontrei! A vs, talvez o meu salvador! Um minuto, a faca s um minuto e entrego-vo-la 
pela abertura da porta; s um minuto, Felton, e salvareis a minha honra!
- Matar-vos! - exclamou Felton aterrado, esquecendo-se de retirar as mos das mos da prisioneira. - Matar-vos!
- Eu j disse, senhor - murmurou Milady, baixando a voz e deixando-se cair sem foras no cho -, j disse o meu segredo! Ele sabe tudo! Meu Deus, estou perdida!
Felton permanecia de p, imvel e indeciso.
"Ainda duvida", pensou Milady, "no fui suficientemente autntica. Ouviu-se caminhar no corredor; Milady reconheceu o passo de lorde de Winter. Felton tambm o reconheceu 
e avanou para a porta. Milady correu.
- Oh! Nem uma palavra - disse com voz concentrada -, nem uma palavra a esse homem do que vos disse, ou estou perdida, e sois vs...
Depois, como os passos se aproximavam, calou-se com medo de que lhe ouvissem a voz, tapando a boca de Felton com um gesto de infinito terror. Felton repeliu docemente 
Milady, que foi cair num canap.
Lorde de Winter passou diante da porta sem parar, e ouviu-se o som dos seus passos que se afastavam.
Felton, plido como a morte, ficou alguns segundos  escuta, depois, quando o rudo se extinguiu completamente, respirou fundo como se sasse dum sonho e lanou-se 
para fora do quarto.
- Ah! - disse Milady, escutando por sua vez o som dos passos de Felton que se afastavam na direco oposta aos de lorde de Winter. - Finalmente ests nas minhas 
mos!
Depois a sua fronte carregou-se.
- Se ele falar ao baro - disse ela -, estou perdida, pois o baro, que sabe muito bem que eu no me matarei, pe-me uma faca nas mos na sua presena e ele ver 
que este grande desespero no passava dum
jogo.
E foi pr-se diante do espelho para se mirar; nunca fora to bela. - Oh, sim! - disse, sorrindo. - Mas ele no lhe falar.  noite, lorde de Winter acompanhou o 
jantar.

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- Senhor - disse-lhe Milady -, a vossa presena  um acessrio obrigatrio do meu cativeiro e no podereis poupar-me mais esta tortura que as vossas visitas me 
causam?
- Como, cara irm? - disse de Winter. - No me anunciastes sentimentalmente, com essa linda boca hoje to cruel para mim, que vnheis a Inglaterra s para me ver 
 vossa vontade, prazer cuja privao, dizeis, vos custava tanto que arriscastes tudo por causa dele: enjoo, tempestade, cativeiro! Pois bem! Aqui me tendes, podeis 
ficar satisfeita. De resto, desta vez a minha visita tem um motivo.
Milady estremeceu, julgou que Felton tinha falado; nunca na vida talvez esta mulher, que tinha sentido tantas emoes fortes e opostas, sentira o corao bater com 
tanta violncia.
Estava sentada; lorde de Winter puxou uma cadeira e sentou-se a seu lado, depois, tirando do bolso um papel que desdobrou lentamente:
- Aqui est - disse ele -, queria mostrar-vos esta espcie de passaporte que eu mesmo redijo e que doravante vos servir de nmero de ordem na vida que consinto 
deixar-vos.
Depois, tirando os olhos de Milady e pondo-os no papel, leu:
- Ordem de conduzir a... O nome est em branco - interrompeu De Winter; - se tendes alguma preferncia, indicar-me-eis; e desde que seja a mil lguas de Londres, 
o vosso pedido ser satisfeito. Portanto recomeo: Ordem de conduzir a... a chamada Charlotte Backson, marcada pela justia do reino de Frana, mas libertada aps 
castigo; permanecer nesta residncia sem nunca se afastar mais de trs lguas. Em caso de tentativa de evaso, ser-lhe- aplicada a pena de morte. Receber cinco 
xelins por dia para o alojamento e a alimentao.
- Essa ordem no me concerne - respondeu friamente Milady -, pois  em nome doutra pessoa.
- Um nome! Acaso tendes algum?
- Tenho o nome de vosso irmo.
- Enganais-vos, meu irmo no passa do vosso segundo marido, e o primeiro ainda  vivo. Dizei-me o seu nome para que o ponha no lugar do nome de Charlotte Backson. 
No?... No quereis?... Guardais o silncio? Muito bem! Sereis inscrita com o nome de Charlotte Backson.
Milady ficou calada; desta vez no era por fingimento, mas por terror: julgou que a ordem estava prestes a ser executada; pensou que lorde de Winter antecipara a 
sua partida; julgou que estava condenada a partir na mesma noite. Por um momento tudo se esvaneceu no seu esprito, quando de repente se apercebeu de que a ordem 
no estava assinada.
Esta descoberta causou-lhe uma alegria to grande que no conseguiu dissimul-la.
- Sim, sim - disse lorde de Winter, que percebeu o que se passava com ela -, sim, procurais a assinatura e pensais: nem tudo est perdido pois esta carta no est 
assinada; mostram-ma apenas para me assustarem,  tudo. Estais enganada, amanh esta ordem ser enviada a lorde Buckingham,

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depois de amanh voltar assinada pelo seu punho e marcada com o seu selo, e vinte e quatro horas depois garanto-vos que comear a ser posta em execuo. Adeus, 
minha senhora,  tudo o que tinha a dizer-vos.
- E eu responder-vos-ei, senhor, que esse abuso do poder, que esse exlio sob um nome suposto so uma infmia.
- Prefereis ser enforcada sob o vosso verdadeiro nome, Milady? Vs sabeis, as leis inglesas so inexorveis para os abusos feitos ao casamento; explicai-vos francamente: 
embora o meu nome, ou melhor, o nome do meu irmo esteja envolvido, arriscarei o escndalo dum processo pblico para ter a certeza de me livrar de vs.
Milady no respondeu mas ps-se plida como um cadver.
- Oh! Vejo que preferis a peregrinao. Muito bem, minha senhora, e h um velho provrbio que diz que as viagens formam a juventude. Apre! No fazeis mal, e a vida 
 boa.  por isso que no quero que ma roubeis. Falta, pois, resolver a questo dos cinco xelins; mostro-me um pouco parcimonioso, no ?  que no pretendo que 
corrompais os vossos guardas. Alis, sempre vos restaro os vossos encantos para os seduzir. Usai-os se o vosso fracasso com Felton no vos fez perder o gosto pelas 
tentativas desse gnero.
"Felton no falou", disse Milady para consigo, "portanto nada est perdido."
- E agora, minha senhora, at  vista. Amanh virei anunciar-vos a partida do meu mensageiro.
Lorde de Winter ergueu-se, cumprimentou ironicamente Milady e
saiu.
Milady respirou fundo: ainda tinha quatro dias  sua frente; quatro dias chegar-lhe-iam para acabar de seduzir Felton.
Ento ocorreu-lhe uma ideia terrvel,  que talvez lorde de Winter enviasse o prprio Felton para levar a ordem a Buckingham; deste modo Felton escapava-lhe e, para 
que a prisioneira conseguisse o que queria, era necessria a magia duma seduo contnua.
Contudo, como dissemos, uma coisa a tranquilizou: Felton no tinha falado.
No quis parecer emocionada com as ameaas de lorde de Winter; sentou-se  mesa e comeu.
Depois, como fizera na vspera, ajoelhou-se e repetiu as suas oraes em voz alta. Como na vspera, o soldado parou de andar e estacou para a ouvir.
Em breve ouviu passos mais ligeiros que os da sentinela, vindos do fundo do corredor e parando  sua porta.
-  ele - disse ela.
E comeou o mesmo cntico religioso que na vspera exaltara to violentamente Felton.
Mas, embora a sua voz doce, plena e sonora vibrasse mais harmoniosa e mais dilacerante que nunca, a porta permaneceu fechada. Milady, com um dos olhares furtivos 
que lanava pela abertura, julgou ver atravs das grades os olhos ardentes


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do jovem; mas, quer fosse uma realidade ou uma viso, desta vez ele teve foras para no entrar. Contudo, instantes depois de terminar o seu cntico religioso, Milady 
julgou ouvir um profundo suspiro; depois os mesmos passos que ouvira aproximarem-se afastaram-se lentamente e como que a contragosto.


      LV - QUARTO DIA DE CATIVEIRO


      No dia seguinte, quando Felton entrou nos aposentos de Milady, encontrou-a levantada em cima duma poltrona, tendo nas mos uma corda tecida com uns lenos 
de cambraia rasgados em tiras entranadas umas nas outras e presas nas pontas; ao rudo que Felton produziu abrindo a porta, Milady saltou com ligeireza da poltrona 
e tentou esconder nas costas a corda improvisada que tinha na mo.
O jovem estava mais plido que de costume, e os seus olhos vermelhos de insnia indicavam que havia passado uma noite febril.
Contudo, a sua fronte revelava uma severidade mais austera que nunca.
Avanou lentamente para Milady, que se havia sentado e, pegando numa ponta da trana mortfera que ela deixara passar por descuido ou talvez de propsito:
- Que  isto, minha senhora? - perguntou friamente.
- No  nada - disse Milady, sorrindo com aquela expresso dolorosa que to bem sabia dar ao seu sorriso -, o tdio  o inimigo mortal dos prisioneiros, eu aborrecia-me 
e entretive-me a entranar esta corda.
Felton dirigiu os olhos para o ponto da parede do quarto diante do qual encontrara Milady em cima da poltrona em que agora estava sentada, e por cima da cabea dela 
viu um grampo dourado, cravado na parede, e que servia para pendurar tanto roupas como armas.
Estremeceu, e a prisioneira viu este estremecimento, pois embora tivesse os olhos baixos, nada lhe escapava.
- E que fazeis em cima dessa poltrona? - perguntou ele.
- Que vos importa? - respondeu Milady.
- Mas - replicou Felton -, desejo saber.
- No me interrogueis - disse a prisioneira -; vs sabeis que ns, verdadeiros cristos, estamos proibidos de mentir.
- Pois bem! - disse Felton. - Vou dizer-vos o que fazeis, ou melhor, o que eis fazer; eis concluir a obra fatal que alimentais no vosso esprito. Pensai, minha 
senhora, se o nosso Deus probe a mentira, proibe ainda mais severamente o suicdio.

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- Quando Deus v uma das suas criaturas perseguida injustamente, colocada entre o suicdio e a desonra, podeis crer, senhor - respondeu Milady num tom de profunda 
convico -, Deus perdoa-lhe o suicdio pois, nesse caso, o suicdio  o martrio.
- Dizeis de mais ou de menos; falai, minha senhora, explicai-vos por amor de Deus.
- Contar-vos as minhas desgraas para lhes chamardes mentiras; dizer-vos os meus projectos para irdes denunci-los ao meu perseguidor; no, senhor; de resto, que 
vos importa a vida ou a morte duma pobre condenada? S respondeis pelo meu corpo, no ? E desde que apresenteis um cadver, que este seja reconhecido como o meu, 
no vos perguntaro mais nada, e talvez at tenhais uma dupla recompensa.
- Eu, minha senhora, eu! - exclamou Felton, - Supor que alguma vez aceitaria o preo da vossa vida; oh! No pensais no que dizeis.
- Deixai-me, Felton, deixai-me - disse Milady, exaltando-se. - Todo o soldado deve ser ambicioso, no ? Vs sois tenente, pois bem! Seguireis o meu cortejo com 
a patente de capito.
- Mas que vos fiz eu - disse Felton abalado - para que me atireis com semelhante responsabilidade perante os homens e perante Deus? Daqui a alguns dias estareis 
longe daqui, minha senhora, a vossa vida j no estar sob a minha guarda e - acrescentou com um suspiro -, ento fareis o que quiserdes.
- Ento - exclamou Milady como se no pudesse resistir a uma santa indignao -, vs, um homem piedoso, vs a quem chamam um justo, s quereis uma coisa: no ser 
inculpado, inquietado por causa da minha morte!
- Devo zelar pela vossa vida, minha senhora, e zelarei.
- Mas compreendeis a misso que cumpris? J cruel se eu fosse culpada, que nome lhe dareis, que nome lhe dar o Senhor se eu for inocente?
- Sou um soldado, minha senhora, e cumpro as ordens que recebi.
- Credes que, no dia do Juzo Final, Deus separar os carrascos cegos dos juizes inquos? No quereis que eu mate o meu corpo e fazeis-vos agente daquele que quer 
matar a minha alma!
- Mas repito-vos - continuou Felton abalado -, nenhum perigo vos ameaa, e eu respondo por lorde de Winter como por mim.
- Louco! - exclamou Milady. - Pobre louco, que ousa responder por outro homem quando os mais sbios, quando os maiores segundo Deus hesitam em responder por eles 
mesmos, e que se pe do lado do mais forte e do mais feliz para oprimir a mais fraca e a mais infeliz!
- Impossvel, minha senhora, impossvel - murmurou Felton que sentia no fundo do corao a verdade deste argumento -, prisioneira, no ser atravs de mim que ireis 
recuperar a liberdade; viva, no ser diante de mim que ireis perder a vida.
- Sim - exclamou Milady -, mas perderei o que me  muito mais caro que a vida, perderei a honra, Felton; e sois vs, vs, que eu farei responsvel perante Deus e 
perante os homens pela minha vergonha e a minha infmia!

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Desta vez, Felton, por muito impassvel que fosse ou que parecesse ser, no conseguiu resistir  influncia secreta que j se apossara dele: ver aquela mulher to 
bela, branca como a mais cndida viso, v-la ora desolada ora ameaadora, sofrer o ascendente da dor e ao mesmo tempo da beleza, era demais para um visionrio, 
era de mais para um crebro minado pelos sonhos ardentes da f exttica, era de mais para um corao rodo pelo amor do Cu que queima e ao mesmo tempo pelo dio 
dos homens que devora.
Milady viu a perturbao, sentia intuitivamente a chama das paixes opostas que ardiam com o sangue nas veias do jovem fantico; e, como um general hbil que, vendo 
o inimigo prestes a recuar, marcha sobre ele com um grito de vitria, ergueu-se, bela como uma sacerdotisa antiga, inspirada como uma virgem crist, e, com o brao 
estendido, o colo descoberto, os cabelos soltos, segurando com uma das mos o vestido pudicamente puxado sobre o peito, o olhar iluminado por esse fogo que j causara 
a desordem nos sentidos do puritano, caminhou na direco dele, exclamando com um ar veemente, com a sua voz to doce e  qual dava, nessa ocasio, uma entoao 
terrvel:


Libre a Baal s victime,
Jette aux lions le martyr:
Dieu te fera repentir!...
e crie  lui de l'abme(1)


Felton parou ao ouvir esta estranha invectiva e ficou como que petrificado.
- Quem sois vs, quem sois vs? - exclamou ele, juntando as mos. - Sois uma enviada de Deus, sois um ministro dos Infernos, sois anjo ou demnio, chamais-vos loa 
ou Astarte?
- No me reconheceste, Felton? No sou nem um anjo nem um demnio, sou uma filha da terra, sou uma irm da tua crena,  tudo.
- Sim! sim! - disse Felton. - Eu ainda duvidava, mas agora acredito.
- Acreditais e, contudo, s cmplice desse filho de Belial a quem chamam lorde de Winter! Acreditais e, contudo, deixais-me nas mos dos meus inimigos, do inimigo 
da Inglaterra, do inimigo de Deus? Acreditais e, contudo, entregais-me quele que enche e macula o mundo com as suas heresias e a sua devassido, a esse infame Sardanapalo 
a quem os cegos chamam duque de Buckingham e os crentes o Anti-Cristo.
- Eu entregar-vos a Buckingham, eu! Que dizeis?
- Eles tm olhos - exclamou Milady - e no vero; tm ouvidos e no ouviro.


*1. Entrega a Baal a sua vtima,/Atira aos lees o mrtir/Deus te far arrepender!.../Por ele eu grito do abismo. (N. da T.)

110


- Sim, sim - disse Felton, passando as mos pela testa banhada de suor como para arrancar a ltima dvida -; sim, reconheo a voz que me fala em sonhos; sim, reconheo 
os traos do anjo que me aparece todas as noites, gritando  minha alma que no consegue dormir: "Fere, salva a Inglaterra, salva-te, pois morrers sem ter desarmado 
a Deus!" Falai, falai! - exclamou Felton. - Agora posso compreender-vos.
Um lampejo de alegria terrvel, mas rpido como o pensamento, brotou dos olhos de Milady.
Por muito fugidio que fosse este lampejo homicida, Felton viu-o e estremeceu como se este lampejo houvesse iluminado os abismos do corao daquela mulher.
Felton lembrou-se subitamente das advertncias de lorde de Winter, das sedues de Milady, das suas primeiras tentativas  chegada; recuou um passo e baixou a cabea, 
mas sem parar de fit-la como se, fascinado por esta estranha criatura, os seus olhos no conseguissem desprender-se dos olhos dela.
Milady no era pessoa para se enganar quanto ao sentido desta hesitao. Sob as suas emoes aparentes, o seu sangue-frio glacial no a abandonava. Antes que Felton 
lhe respondesse e que fosse forada a recomear aquela conversa to difcil de manter no mesmo tom de exaltao, deixou cair as mos e, como se a fraqueza da mulher 
vencesse o entusiasmo da inspirada:
- Mas no - disse ela -, no me cabe a mim ser a Judite que libertar Betlia de Holofernes. O gldio do Eterno  demasiado pesado para o meu brao. Deixai-me, pois, 
fugir da desonra pela morte, deixai-me refugiar-me no martrio. No vos peo nem a liberdade, como um culpado faria, nem a vingana, como faria uma pag. Deixai-me 
morrer, mais nada. Suplico-vos, imploro-vos de joelhos: deixai-me morrer e o meu derradeiro suspiro ser uma bno para o meu salvador.
Ao ouvir esta voz doce e suplicante, ao ver este olhar tmido e abatido, Felton aproximou-se. Pouco a pouco a feiticeira revestira-se daqueles enfeites mgicos que 
ia buscar e que largava conforme queria, ou seja, a beleza, a doura, as lgrimas e sobretudo o irresistvel atractivo da volpia mstica, a mais devoradora das 
volpias.
- Infelizmente - disse Felton -, s posso fazer uma coisa, lamentar-vos se me provardes que sois uma vtima! Mas lorde de Winter tem cruis razes contra vs. Sois 
crist, sois minha irm na religio; sinto-me arrastado para vs, eu que s amei o meu benfeitor, eu que s encontrei na vida traidores e mpios. Mas vs, minha 
senhora, vs que na realidade sois to bela, vs que aparentemente sois to pura, cometestes iniquidades para que lorde de Winter assim vos persiga?
- Eles tm olhos - repetiu Milady num tom de indizvel dor -, e no vero, tm ouvidos e no ouviro.
- Mas ento - exclamou o jovem oficial - falai, falai!
- Confiar-vos a minha vergonha! - exclamou Milady, corando de pudor, pois muitas vezes o crime dum  a vergonha do outro. - Confiar-vos a minha vergonha, a vs um 
homem, eu uma mulher!

111


Oh! - continuou ela, tapando pudicamente com a mo os seus belos olhos. - ah! Nunca, nunca poderei!
- A mim, a um irmo! - exclamou Felton.
Milady fitou-o longamente com uma expresso que o jovem oficial tomou por dvida e que, contudo, no passava de observao e sobretudo de vontade de fascinar.
Por sua vez suplicante, Felton juntou as mos.
- Pois bem - disse Milady -, confio no meu irmo, ousarei! Neste momento ouviu-se o passo de lorde de Winter; mas desta vez o terrvel cunhado de Milady no se contentou 
como fizera na vspera, em passar diante da porta e afastar-se, parou, trocou duas palavras com a sentinela, depois a porta abriu-se e ele apareceu.
Enquanto trocavam estas duas palavras, Felton recuara vivamente e, quando lorde de Winter entrou, estava a alguns passos da prisioneira.
O baro entrou lentamente e dirigiu o seu olhar perscrutador da prisioneira para o jovem oficial:
- H muito tempo que estais aqui, John - disse ele -; ser que essa mulher vos contou os seus crimes? Nesse caso, compreendo a demora da conversa.
Felton estremeceu e Milady sentiu que estava perdida se no fosse em socorro do puritano embaraado.
- Ah! Receais que a vossa prisioneira vos escape! - disse ela. - Pois bem, perguntai ao vosso digno carcereiro que favor eu lhe pedia neste mesmo instante.
- Pedeis um favor? - disse o baro, desconfiado.
- Sim, Milorde - respondeu o jovem confuso.
- E que favor era esse? - perguntou lorde de Winter.
- Uma faca que me devolver pela abertura da porta, um minuto depois de a ter recebido - respondeu Felton.
- Ento est aqui uma pessoa escondida que essa graciosa pessoa queira degolar? - perguntou lorde de Winter com a sua voz irnica e desprezvel.
- Estou eu - respondeu Milady.
- Dei-vos a escolher entre a Amrica e Tyburn - prosseguiu lorde de Winter -, escolhei Tyburn. A corda ainda  mais segura que a faca, podeis crer.
Felton empalideceu e deu um passo em frente, pensando que, no momento em que entrara, Milady tinha uma corda.
- Tendes razo - disse esta -, eu no tinha pensado nisso. - Depois acrescentou com voz surda: Hei-de pensar outra vez.
Felton sentiu um arrepio percorrer-lhe os ossos; provavelmente , lorde de Winter percebeu este movimento.
- Desconfia, John - disse ele -, John, meu amigo, eu confiei em ti, tem cuidado! Eu preveni-te! De resto, tem coragem, meu filho, daqui a trs dias estaremos livres 
desta criatura, e l onde a envio, no prejudicar ningum.

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- Estais a ouvir! - exclamou bem alto Milady de modo que o baro julgou que ela se dirigia aos cus e Felton compreendeu que se dirigia a
ele.
Felton baixou a cabea e divagou:
O baro deu o brao ao oficial, virando a cabea de modo a no perder Milady de vista at sair.
- Vamos, vamos - disse a prisioneira quando a porta se fechou -, ainda no avancei tanto como julgava. Winter transformou a sua habitual estupidez numa prudncia 
desconhecida; o que  o desejo de vingana e como este desejo forma o homem! Quanto a Felton, hesita. Ah! No  um homem como esse maldito d'Artagnan. Um puritano 
s adora as virgens, e adora-as juntando as mos. Um mosqueteiro ama as mulheres, e ama-as juntando os braos.
Todavia Milady esperou com impacincia pois suspeitava que o dia no terminaria sem que tornasse a ver Felton. Por fim, uma hora depois da cena que acabmos de contar, 
percebeu que falavam baixo  porta, depois a porta abriu-se e ela reconheceu Felton.
O jovem avanou rapidamente no quarto, deixando a porta aberta e fazendo sinal a Milady para se calar; tinha uma expresso transtornada.
- Que quereis de mim? - perguntou ela.
- Escutai - respondeu Felton em voz baixa -, acabo de afastar a sentinela para poder ficar aqui sem que saibam que vim, para vos falar sem que possam ouvir o que 
vos digo. O baro acaba de me contar uma histria horrvel.
Milady arvorou o seu sorriso de vtima resignada e abanou a cabea.
- Ou sois um demnio - continuou Felton - ou o baro, o meu benfeitor, meu pai,  um monstro. Conheo-vos h quatro dias, a ele amo-o h dez anos; posso, portanto, 
hesitar entre os dois. No vos assusteis com o que vos digo, preciso de ser convencido. Esta noite, depois da meia-noite, virei ver-vos e convencer-me-eis.
- No, Felton, no, meu irmo - disse ela -, o sacrifcio  grande de mais e sinto que vos custa. No, eu estou perdida, no vos percais comigo. A minha morte ser 
muito mais eloquente que a minha vida, e o silncio do cadver convencer-vos- muito melhor que as palavras da
prisioneira.
- Calai-vos, minha senhora - exclamou Felton -, e no me faleis assim; eu vim para que me prometsseis pela vossa honra, para que me jursseis pelo que tendes de 
mais sagrado, que no atentareis contra a vossa vida.
- No quero prometer - disse Milady -, pois no h ningum que mais respeite um juramento e, se prometer, terei de cumprir.
- Pois bem - disse Felton -, comprometei-vos apenas at ao momento em que me voltareis a ver. Se, quando me voltardes a ver, ainda persistirdes, pois bem, ento 
sereis livre e eu prprio vos darei a arma que me pedistes.
- Muito bem - disse Milady -, por vs eu esperarei.

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- Jurai.
- Juro pelo nosso Deus. Estais satisfeito?
- Bom - disse Felton -, at logo  noite!
E precipitou-se fora do quarto, fechou a porta e esperou l fora com a meia lana do soldado na mo como se montasse guarda no lugar dele.
Quando o soldado voltou, Felton devolveu-lhe a arma.
Ento, atravs da abertura da porta de que se tinha aproximado, Milady viu o rapaz persignar-se com um fervor delirante e ir pelo corredor num transporte de alegria.
Quanto a ela, voltou para o seu lugar com um sorriso de desprezo selvtico nos lbios e repetiu, blasfemando, o nome terrvel de Deus, pelo qual jurara sem nunca 
o ter procurado conhecer.
- Meu Deus! - disse ela. - Fantico tresloucado! Meu Deus! Sou eu, eu e aquele que me ajudar a vingar-me.


      LVI - QUINTO DIA DE CATIVEIRO


      Contudo, Milady tinha chegado a um semitriunfo e o xito obtido redobrava as suas foras.
No era difcil vencer, como fizera at ento, homens prontos a deixar-se seduzir, e que a educao galante da corte depressa arrastava para a armadilha; Milady 
era bastante bela para no encontrar resistncia da parte da carne, e era bastante hbil para vencer todos os obstculos do esprito.
Mas, desta vez, tinha de lutar contra uma natureza selvagem, concentrada, insensvel  fora da austeridade; a religio e a penitncia haviam feito de Felton um 
homem inacessvel s sedues banais. Alimentava na sua cabea exaltada planos to vastos, projectos to tumultuosos que no ficava lugar nenhum para amor, de capricho 
ou de matria, esse sentimento que se nutre de lazer e que cresce com a corrupo. Milady tinha, pois, aberto uma brecha, com a sua falsa virtude, na opinio dum 
homem horrivelmente prevenido contra ela, e, com a sua beleza, no corao e nos sentidos dum homem casto e puro. Enfim dera a plena medida dos seus meios, que at 
ento ela prpria desconhecia, atravs dessa experincia realizada com o sujeito mais rebelde que a natureza e a religio poderiam submeter ao seu estudo.
Contudo, muitas vezes durante o dia perdera a esperana na sorte e em si mesma; no invocava Deus, j sabemos, mas tinha f no gnio do mal, essa imensa soberania 
que reina em todos os pormenores da vida humana e  qual, como na fbula rabe, um bago de rom basta para construir um mundo perdido.

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Milady, bem preparada para receber Felton, pde preparar as suas baterias para o dia seguinte. Sabia que s lhe restavam dois dias, que uma vez a ordem assinada 
por Buckingham (e Buckingham assin-la-ia facilmente tanto mais que essa ordem indicava um nome falso e que no reconheceria a mulher em questo), uma vez a ordem 
assinada, dizamos, o baro mand-la-ia embarcar imediatamente, e ela tambm sabia que as mulheres condenadas  deportao se servem de armas muito menos poderosas 
nas suas sedues que as mulheres pretensamente virtuosas a quem o sol do mundo ilumina a beleza, a quem a voz da moda gaba o esprito e que um reflexo de aristocracia 
doura com as suas luzes encantadas. Ser uma mulher condenada quase miservel e infamante no impede de ser bela, mas impede de voltar a ser poderosa. Como todas 
as pessoas de mrito verdadeiro, Milady conhecia o meio que convinha  sua natureza, aos seus meios. A pobreza causava-lhe repugnncia, a abjeco tirava-lhe dois 
teros da sua grandeza. Milady s era rainha entre as rainhas; a sua dominao precisava do prazer do orgulho satisfeito. Para ela, comandar os seres inferiores 
era mais uma humilhao do que um prazer.
Certamente que voltaria do seu exlio, no duvidava disso nem por um instante, mas quanto tempo poderia durar esse exlio? Para uma natureza activa e ambiciosa como 
a de Milady, os dias no ocupados a subir so dias nefastos; imagine-se uma palavra para designar os dias empregues a descer! Perder um ano, dois anos, trs dias, 
quer dizer, uma eternidade; voltar quando d'Artagnan tivesse, ele e os seus amigos, recebido a recompensa pelos servios que ele e os seus amigos tinham prestado, 
eram ideias devoradoras que uma mulher como Milady no podia suportar. De resto, a tempestade que rosnava dentro dela redobrava a sua fora e faria rebentar os muros 
da priso, se o seu corpo pudesse ganhar por um instante as propores do seu esprito.
Depois, o que ainda a espicaava no meio de tudo isso era a lembrana do cardeal. Que pensaria, que diria do seu silncio o cardeal, desconfiado, inquieto, o cardeal 
no s o seu nico apoio, o seu nico protector no presente, mas tambm o principal instrumento da sua fortuna e da sua vingana futura? Ela conhecia-o, sabia que, 
quando regressasse aps uma viagem intil, bem poderia falar da priso, bem podia exaltar os sofrimentos passados, o cardeal responderia com a calma irnica do cptico 
poderoso pela fora e ao mesmo tempo pelo gnio: "No vos deveis ter deixado apanhar!"
Ento Milady chamava a si toda a sua energia, murmurando no fundo do seu pensamento o nome de Felton, a nica claridade que chegava at ela no fundo do inferno em 
que tinha cado; e, como uma serpente que enrola e desenrola os seus anis para mostrar a si mesma a sua fora, envolvia antecipadamente Felton nas mil pregas da 
sua inventiva
imaginao.
Contudo, o tempo passava, as horas umas atrs das outras pareciam despertar o sino ao passar e cada badalada de bronze ecoava no corao da prisioneira.

115


s nove horas, lorde de Winter fez a sua habitual visita, olhou pela janela e pelas grades, sondou o soalho e as paredes, examinou a lareira e as portas sem que, 
durante esta longa e minuciosa visita, nem ele nem Milady pronunciassem uma nica palavra. Certamente que ambos compreendiam que a situao se tornara demasiado 
grave para perderem tempo com palavras inteis e com arrebatamentos sem efeito.
- V, v - disse o baro ao deix-la -, ainda no ser esta noite que fugireis!
s dez horas, Felton veio trazer uma sentinela; Milady reconheceu-lhe o passo. Adivinhava-o agora como uma amante adivinha o do eleito do seu corao e, contudo, 
Milady desprezava e detestava aquele fraco fantico.
No era a hora combinada, Felton no entrou.
Duas horas depois, ao soar a meia-noite, a sentinela foi rendida.
Desta vez era a hora; portanto, a partir deste momento, Milady esperou com impacincia.
A nova sentinela comeou a passear no corredor.
Passados dez minutos veio Felton.
Milady prestou ouvidos.
- Escuta - disse o jovem  sentinela -, no te afastes desta porta sob nenhum pretexto, pois sabes que a noite passada Milorde puniu um soldado por ter largado o 
seu posto um instante, e contudo fui eu que, durante essa curta ausncia, guardei no lugar dele.
- Sim, eu sei - disse o soldado.
- Recomendo-te, pois, a mais exacta vigilncia. Eu - acrescentou - vou entrar para examinar pela segunda vez o quarto dessa mulher, que receio tenha projectos sinistros 
contra si mesma e que recebi ordem de vigiar.
- Bom - murmurou Milady -, o austero puritano mente! Quanto ao soldado, contentou-se em sorrir.
- Irra! Meu tenente - disse ele -, que sorte serdes encarregado dessas tarefas, sobretudo se Milorde vos autorizou a espreitar at dentro da cama.
Felton corou, em qualquer outra circunstncia teria censurado o soldado que se permitia semelhante gracejo, mas a sua conscincia murmurava muito alto para que a 
sua boca ousasse falar.
- Se eu chamar - disse ele -, vem. E tambm, se vier algum, chama-me.
- Sim, meu tenente - disse o soldado.
Felton entrou no quarto de Milady. Milady levantou-se.
- Estais aqui? - disse ela.
- Tinha-vos prometido vir - disse Felton -, e vim.
- Prometestes-me outra coisa.
- O qu? Meu Deus! - disse o jovem que apesar do seu domnio sentia os joelhos a tremer e o suor a perlar-lhe a testa.
- Prometestes trazer-me uma faca, e deixar-ma depois da nossa conversa.

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- No faleis nisso, minha senhora - disse Felton -, no h situao, por mais terrvel que seja, que autorize uma criatura de Deus a matar-se. Pensei bem e decidi 
que nunca me devia tornar culpado de semelhante pecado.
- Ah! Pensastes! - disse a prisioneira, sentando-se na poltrona com um sorriso de desdm. - E eu tambm pensei.
- O qu?
- Que no tinha nada a dizer a um homem que no cumpria a sua palavra.
-  meu Deus! - murmurou Felton.
- Podeis retirar-vos - disse Milady -, eu no falarei.
- Eis a faca! - disse Felton, tirando do bolso a arma que, conforme prometera, tinha trazido mas que hesitava em entregar  prisioneira.
- Vejamos - disse Milady.
- Para qu?
- Palavra de honra que vos entrego a faca imediatamente; podereis pous-la nesta mesa e ficar entre ela e eu.
Felton estendeu a arma a Milady, que lhe examinou atentamente a tmpera e que lhe experimentou a ponta com o dedo.
- Bom - disse ela, devolvendo a faca ao jovem oficial -, esta  mesmo de ao; sois um amigo fiel, Felton.
Felton pegou na arma e pousou-a na mesa, como acabava de combinar com a prisioneira.
Milady seguiu-o com o olhar e fez um gesto de satisfao.
- Agora - disse ela -, escutai-me.
A recomendao era intil: o jovem oficial estava de p diante dela,  espera das suas palavras para as devorar.
- Felton - disse Milady com uma solenidade cheia de melancolia -, Felton, se vossa irm, a filha de vosso pai, vos dissesse: "Ainda jovem, bastante bela para a desgraa, 
fizeram-me cair numa armadilha, eu resisti; multiplicaram as ciladas, as violncias  minha volta, eu resisti; blasfemaram contra a religio que sirvo, contra o 
Deus que adoro, porque eu chamava em meu socorro esse Deus e essa religio, eu resisti; ento prodigalizaram-me os ultrages e, como no podiam perder a minha alma, 
quiseram dominar para sempre o meu corpo; enfim..."
- Enfim - disse Felton -, enfim, que fizeram?
- Enfim, uma noite, resolveram paralisar essa resistncia que no podiam vencer; uma noite, deitaram-me na gua um narctico poderoso; mal acabei de comer senti-me 
cair a pouco e pouco num torpor desconhecido. Embora no desconfiasse, assaltou-me um receio vago e tentei lutar contra o sono; levantei-me, quis correr  janela, 
pedir socorro, mas as minhas pernas recusaram-se a andar; parecia-me que o tecto baixava sobre a minha cabea e me esmagava sob o seu peso; estendi os braos, tentei 
falar, s consegui emitir uns sons inarticulados; um torpor irresistvel tomava conta de mim, agarrei-me a uma poltrona, sentindo que ia cair, mas em breve esse 
apoio foi insuficiente para os meus braos dbeis, ca sobre um joelho, depois sobre os dois; quis gritar,

117


mas tinha a lngua gelada; Deus certamente no me viu nem ouviu, e escorreguei no soalho, vtima dum sono semelhante  morte.
"No me lembro de nada do que se passou durante esse sono, nem do tempo que durou; a nica coisa que recordo  que acordei deitada num quarto redondo, mobilado luxuosamente 
e cuja claridade provinha unicamente duma abertura no tecto. De resto, nenhuma porta parecia dar entrada para o quarto; dir-se-ia uma magnfica priso.
"Levei muito tempo at conseguir dar conta do lugar em que me achava e de todos os pormenores que refiro, o meu esprito parecia lutar em vo para sacudir as pesadas 
trevas do sono de que no me conseguia arrancar; tinha percepes vagas dum espao percorrido, do andamento dum carro, dum sonho horrvel em que as minhas foras 
se teriam esgotado; mas tudo isso era to sombrio e to indistinto para o meu pensamento que esses acontecimentos pareciam pertencer a uma vida que no era a minha 
e que, contudo, estava confundida com a minha por uma fantstica dualidade.
"Durante algum tempo o estado em que me achava pareceu-me to estranho que julguei que estava a sonhar. Levantei-me cambaleante, a minha roupa estava junto de mim, 
em cima duma cadeira: no me lembrava nem de me ter despido nem de me ter deitado. Ento, a pouco e pouco, a realidade apresentou-se-me, cheia de pudicos terrores: 
j no estava na casa em que morava e, a julgar pela luz do sol, j tinham decorrido dois teros do dia! Fora na vspera  noite em que eu adormecera; o meu sono 
durara, portanto, quase vinte e quatro horas. Que se passara durante esse longo sono?
"Vesti-me o mais depressa que pude. Todos os meus movimentos lentos e entorpecidos provavam que a influncia do narctico ainda no se tinha dissipado inteiramente. 
De resto, aquele quarto estava mobilado para receber uma mulher, e a mais garrida de todas s teria que formular um desejo e, passeando o olhar pelo quarto, veria 
este desejo realizado
"Certamente eu no era a primeira cativa que se vira encerrada naquela esplndida priso; mas, compreendeis, Felton, quanto mais bela era a priso mais eu me assustava.
"Sim, era uma priso; foi em vo que tentei sair. Sondei todas as paredes a fim de descobrir uma porta, em toda a parte as paredes produziam um som pleno e surdo.
"Dei talvez vinte vezes a volta quele quarto,  procura duma sada qualquer; no havia nenhuma: ca numa poltrona, vencida pela fadiga e pelo terror.
"Entretanto a noite caa rapidamente, e, com a noite, aumentavam os meus terrores: no sabia se devia ficar onde me tinha sentado; parecia-me que estava rodeada 
de perigos desconhecidos, nos quais ia cair a cada passo. Embora no tivesse comido nada desde a vspera, os meus receios no me deixavam ter fome.

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"Nenhum rudo exterior, que me permitisse medir o tempo, chega at mim; presumi apenas que podiam ser sete ou oito horas da noite, pois estvamos no ms de Outubro 
e era noite cerrada.
"De repente, o rangido duma porta girando sobre os seus gonzos fez-me sobressaltar; um globo de fogo apareceu por cima da abertura envidraada do tecto, lanando 
uma luz viva no meu quarto, e eu notei, aterrada, que um homem estava de p a poucos passos de mim.
"Uma mesa para dois, com um jantar servido, tinha-se erguido como por magia no meio do quarto.
"Esse homem era o que me perseguia h um ano, que tinha jurado a minha desonra, e que, com as primeiras palavras que lhe saram da boca, me fez compreender que o 
fizera na noite anterior.
- O infame! - murmurou Felton.
- Oh! Sim, o infame! - exclamou Milady, vendo o interesse que o jovem oficial, cuja alma parecia suspensa dos seus lbios, dedicava  estranha narrativa. - Oh! Sim, 
o infame! Julgara que lhe bastara ter-me vencido durante o sono para que estivesse tudo dito; vinha, esperando que eu aceitaria a minha vergonha, pois a minha vergonha 
estava consumada; vinha oferecer-me a sua fortuna em troca do meu amor.
"Derramei sobre aquele homem tudo quanto o corao duma mulher pode conter de supremo desprezo e de palavras desdenhosas; certamente que estava habituado a semelhantes 
censuras, pois escutou-me calmo, sorridente, de braos cruzados, depois, quando julgou que eu tinha dito tudo, avanou para mim, eu saltei para a mesa, peguei numa 
faca e encostei-a ao peito.
"- Mais um passo - disse-lhe eu - e, alm da minha desonra, tereis ainda de vos censurardes da minha morte.
"Com certeza havia no meu olhar, na minha voz, em toda a minha pessoa, a verdade do gesto, da atitude e do tom que d a convico s almas mais perversas, porque 
ele parou.
"- A vossa morte! - disse-me ele. - Oh! No, sois uma amante muito encantadora para que eu consinta em perder-vos dessa maneira, depois de ter tido a felicidade 
de possuir-vos apenas uma vez. Adeus, minha linda! Esperarei, para vir visitar-vos, que estejais mais bem disposta.
"Com estas palavras assobiou; o globo que iluminava o meu quarto subiu e desapareceu; encontrei-me novamente s escuras. O mesmo rudo duma porta a abrir-se e a 
fechar-se reproduziu-se passado um instante, o globo chamejante tornou a descer e eu fiquei s.
"Esse momento foi horrvel; se ainda tivesse dvidas sobre a minha desgraa, essas dvidas tinham-se desvanecido numa realidade desesperante: estava em poder dum 
homem que no s detestava mas tambm desprezava; dum homem capaz de tudo, e que j me dera uma prova fatal daquilo que podia ousar.
- Mas, ento, quem era esse homem? - perguntou Felton.
- Passei a noite numa cadeira, estremecendo ao menor rudo, pois, cerca da meia-noite, o candeeiro apagara-se e eu tinha ficado s escuras.

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Mas a noite passou-se sem nova tentativa do meu perseguidor; veio o dia: a mesa desaparecera, mas eu ainda tinha a faca na mo.
"Aquela faca era toda a minha esperana.
"Estava derreada de fadiga; a insnia queimava-me os olhos, no ousava dormir um instante; o dia tranquilizou-me, atirei-me para cima da cama sem largar a faca libertadora, 
que escondi debaixo da almofada.
"Quando acordei, estava posta outra mesa.
"Desta vez, apesar dos meus terrores, apesar das minhas angstias, sentia uma fome devoradora; havia quarenta e oito horas que no comia; comi po e fruta, depois, 
lembrando-me do narctico misturado com a gua que tinha bebido, no toquei na que estava em cima da mesa e fui encher o copo a uma fonte de mrmore embutida na 
parede, por cima do toucador.
"Porm, apesar dessa precauo, ainda permaneci algum tempo numa horrvel angstia; mas desta vez os meus receios eram infundados, passei o dia sem sentir nada daquilo 
que temia.
"Tinha tido a precauo de esvaziar metade da garrafa, para que no se apercebessem da minha desconfiana.
"Veio a noite e, com ela, a escurido; contudo, por muito profunda que fosse, os meus olhos comeavam a habituar-se; vi, no meio das trevas, a mesa penetrar no tecto; 
passado um quarto de hora, tornou a aparecer com o meu jantar e, instantes depois, graas ao mesmo candeeiro, o meu quarto tornou a iluminar-se.
"Estava resolvida a comer apenas alimentos em que fosse impossvel misturar algum sonfero: dois ovos e fruta constituiriam a minha refeio; depois, fui encher 
um copo  minha fonte protectora, e bebi.
"Ao beber os primeiros goles, pareceu-me que j no tinha o mesmo gosto que de manh; tive uma breve suspeita e parei, mas j tinha bebido meio copo.
"Atirei o resto fora, horrorizada, e esperei, com a testa coberta de suor que o pavor me causara.
"Com certeza, alguma testemunha invisvel me vira beber gua da fonte e aproveitara-se da minha prpria confiana para melhor garantir a minha perdio to friamente 
resolvida, to cruelmente levada a cabo.
"Ainda no tinha passado meia hora quando se produziram os mesmos sintomas; mas, como desta vez eu s bebera meio copo de gua, lutei durante mais tempo e, em vez 
de adormecer completamente, ca num estado de sonolncia que me deixava o sentimento de tudo o que se passava  minha volta mas que me tirava a fora para me defender 
ou para fugir.
"Arrastei-me para a minha cama,  procura da nica defesa que me restava, a minha faca salvadora, mas no consegui chegar  cabeceira: ca de joelhos, fincando as 
mos numa das colunas dos ps da cama, ento compreendi que estava perdida.
Felton empalideceu terrivelmente e um arrepio convulsivo percorreu-lhe o corpo todo.

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- E o mais horrvel - continuou Milady com a sua voz alterada como se ainda sentisse a mesma angstia que naquele momento terrvel -  que, daquela vez, eu tinha 
conscincia do perigo que me ameaava;  que a minha alma, posso diz-lo, estava vigilante no meu corpo adormecido;  que eu via,  que eu ouvia;  verdade que tudo 
aquilo era como um sonho, mas isso ainda o tornava mais assustador.
"Vi o candeeiro subir e deixar-me a pouco e pouco no escuro; depois ouvi o ranger da porta que j conhecia to bem, embora esta porta s se tivesse aberto duas vezes.
"Senti instintivamente que algum se aproximava de mim; dizem que o desgraado perdido nos desertos da Amrica sente assim a aproximao da serpente.
"Quis fazer um esforo, tentei gritar; com uma incrvel energia da vontade, consegui levantar-me, mas para imediatamente tornar a cair... e cair nos braos do meu 
perseguidor.
- Dizei-me quem era esse homem - pediu o jovem oficial.
Milady viu com um s olhar todo o sofrimento que inspirava a Felton, pesando cada pormenor da sua narrativa; mas no lhe queria poupar nenhuma tortura. Quanto mais 
profundamente lhe esmagasse o corao, mais seguramente ele a vingaria. Continuou, portanto, como se no tivesse ouvido a sua exclamao, ou como se pensasse que 
ainda no tinha chegado o momento de responder.
- Mas, desta vez, j no era uma espcie de cadver inerte, sem nenhum sentimento, que o infame tinha diante dele. J vos disse: embora sem conseguir recuperar o 
exerccio completo das minhas faculdades, restava-me o sentimento do meu perigo: lutei, pois, com todas as minhas foras e por certo opus, embora muito fraca, uma 
longa resistncia, porque o ouvi exclamar:
"- Estas miserveis puritanas! J sabia que cansavam os seus carrascos, mas julgava que eram menos fortes contra os seus sedutores.
"Ai de mim! Aquela resistncia desesperada no podia durar muito, senti que as foras me faltavam e, desta vez, no foi do meu sono que o cobarde se aproveitou, 
mas do meu desmaio.
Felton escutava, emitindo apenas um rugido surdo, mas o suor escorria-lhe da testa de mrmore e a mo, escondida dentro da casaca, rasgava-lhe o peito.
- Quando recuperei os sentidos, o primeiro movimento que fiz foi para procurar debaixo da almofada a faca que no tinha conseguido alcanar; se no tinha servido 
para a defesa, ao menos podia servir para a expiao.
"Mas ao pegar na faca, Felton, tive uma ideia terrvel. Jurei dizer-vos tudo e vou dizer-vos tudo; prometi-vos a verdade e vou diz-la, ainda que seja a minha perdio.
- Tiveste a ideia de vos vingardes desse homem, no foi? - exclamou Felton.
- Sim! - disse Milady. - No era uma ideia crist, eu sei; talvez fosse esse eterno inimigo da nossa alma, esse leo

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que ruge incessantemente  nossa volta que a soprasse ao meu esprito. Enfim, que hei-de dizer-vos, Felton? - continuou Milady no tom da mulher que se acusa dum 
crime. - Tive essa ideia, que certamente nunca mais me abandonou.  o castigo desse pensamento homicida que hoje trago comigo.
- Continuai, continuai - disse Felton -, tenho pressa de vos ver chegar  vingana.
- Oh! Resolvi que ela teria lugar o mais cedo possvel, no duvidava de que ele no viesse na noite seguinte. Durante o dia no tinha nada a temer.
"Portanto, quando chegou a hora do almoo, no hesitei em comer e beber; estava resolvida a fingir que jantava, mas a no comer nada, portanto tinha de combater 
o jejum da noite com o alimento da manh.
"Porm, escondi um copo de gua do almoo, pois a sede foi o que mais me custara quando passei quarenta e oito horas sem beber nem comer.
"O dia passou-se sem exercer em mim outra influncia alm de fortalecer-me na resoluo que havia tomado, mas tive o cuidado de no deixar que o meu rosto trasse 
o pensamento do meu corao, pois no tinha dvidas de que me observavam; vrias vezes cheguei a sentir um sorriso nos lbios. Felton, no ouso dizer-vos a ideia 
que me fazia sorrir, causar-vos-ia horror...
- Continuai, continuai - disse Felton -, bem vedes que escuto e que tenho pressa de chegar.
- Veio a noite, realizaram-se os acontecimentos habituais; durante a escurido, como de costume, serviram-me o jantar, depois o candeeiro acendeu-se e eu sentei-me 
 mesa.
"Comi apenas fruta; fingi que me servia da gua da garrafa, mas s bebi a que tinha conservado no copo; de resto, a substituio foi feita com suficiente habilidade 
para que os meus espies, se  que os tinha, no tivessem nenhuma suspeita.
"Depois do jantar, dei as mesmas mostras de torpor que na vspera, mas, desta vez, como se sucumbisse  fadiga ou me familiarizasse com o perigo, arrastei-me para 
a cama e fingi que adormecia.
"Desta vez, tinha encontrado a minha faca debaixo da almofada e, fingindo que dormia, a minha mo apertava convulsivamente o cabo da faca.
"Decorreram duas horas sem que se passasse nada de novo; desta vez,  meu Deus!, quem mo diria na vspera? Comeava a recear que ele no viesse.
"Enfim, vi o candeeiro subir lentamente e desaparecer nas profundezas do tecto; o meu quarto encheu-se de trevas; mas fiz um esforo para penetrar a escurido com 
o olhar.
"Passaram-se cerca de dez minutos. O nico rudo que eu ouvia eram as palpitaes do meu corao.
"Implorei ao cu que ele viesse.
"Por fim, ouvi o to conhecido rudo da porta a abrir-se e a fechar-se; ouvi, apesar da espessura do tapete,

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um passo que fazia ranger o soalho; vi, apesar do escuro, uma sombra que se aproximava da minha cama.
- Apressai-vos, apressai-vos! - disse Felton. - No vedes que cada uma das vossas palavras me queima como chumbo derretido?
- Ento - continuou Milady -, chamei a mim todas as minhas foras, lembrei-me de que o momento da vingana, ou melhor, da justia, tinha soado; considerei-me uma 
nova Judite; encolhi-me, com a faca na mo e, quando o vi junto de mim, estendendo os braos  procura da sua vtima, ento, com o derradeiro grito da dor e do desespero 
feri-o em pleno peito.
"O miservel tinha previsto tudo; o seu peito estava coberto de uma cota de malha; a faca embotou-se.
"- Ah! Ah! - exclamou ele, agarrando-me o brao e arrancando-me a arma que to mal me havia servido. - Atentais contra a minha vida, minha linda puritana! Mas isso 
 mais que dio,  ingratido! V, v, acalmai-vos, minha linda menina! Julguei que estveis mais boazinha. Eu no sou desses tiranos que conservam as mulheres  
fora: no me amais, eu j suspeitava disso com a minha habitual fatuidade, agora estou convencido. Amanh estareis livre.
"Eu s desejava uma coisa: que ele me matasse.
"- Tende cuidado! - disse-lhe eu. - Pois a minha liberdade  a vossa desonra.
"Sim, pois mal sair daqui contarei tudo, contarei a violncia que usastes contra mim, contarei o meu cativeiro. Denunciarei este palcio de infmia; vs ocupais 
uma posio muito alta Milorde, mas podeis tremer! Acima de vs est o rei, acima do rei est Deus.
"Por muito senhor de si que parecesse, o meu perseguidor deixou escapar um movimento de clera. Eu no podia ver-lhe a expresso do rosto, mas sentira tremer-lhe 
o brao, sobre o qual estava pousada a minha mo.
"-  Ento no saireis daqui - disse ele.
"- Bom, bom! - exclamei eu. - Ento o lugar do meu suplcio ser tambm o do meu tmulo. Bom! Morrerei aqui e vereis se um fantasma que acusa no  ainda mais terrvel 
que um vivo que ameaa!
"- No vos deixaro nenhuma arma.
"- H uma que o desespero ps ao alcance de toda a criatura que tenha a coragem de se servir dela. Deixar-me-ei morrer de fome.
"- Ora - disse o miservel -, no vale mais a paz do que semelhante guerra? Eu devolvo-vos a liberdade neste instante, proclamo-vos virtuosa, chamo-vos a Lucrcia 
de Inglaterra.
"- E eu digo que vs sois o Sextus, denuncio-vos aos homens como j vos denunciei a Deus; e se for preciso que, como Lucrcia, eu assine a minha acusao com o meu 
sangue, assin-la-ei.
"- Ah! Ah! - disse o meu inimigo ironicamente. - Isso  outra coisa. Apre! Afinal, estais bem aqui, nada vos faltar e, se vos deixardes morrer de fome, a culpa 
ser vossa.
"Com estas palavras, retirou-se; eu ouvi abrir e fechar a porta e fiquei abalada, menos na minha dor, confesso,

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que na vergonhha de no me ter vingado.
"Ele manteve a palavra. Todo o dia, toda a noite seguintes se passaram sem que o voltasse a ver. Mas eu tambm mantive a palavra e no comi nem bebi; como lhe dissera, 
estava resolvida a morrer de fome. "Passei o dia e a noite a rezar, pois esperava que Deus me perdoasse o meu suicdio.
"Na segunda noite a porta abriu-se; eu estava deitada no cho, comeava a perder as foras.
"Ao ouvir rudo, firmei-me numa das mos.
"- Ora bem! - disse-me ele com uma voz que soava aos meus ouvidos duma maneira muito terrvel para que eu no a reconhecesse. - Ora bem! J estais mais boazinha, 
e pagais a vossa liberdade com uma s promessa de silncio? Vede, eu sou magnnimo - acrescentou - e, embora no goste dos puritanos, fao-lhes justia, e tambm 
s puritanas quando so bonitas. V, fazei-me um juramento sobre a cruz, no vos peo mais nada.
"- Sobre a cruz! - exclamei eu, reerguendo-me, pois, ao ouvir aquela voz odiada, recobrara as foras. - Sobre a cruz! Juro que nenhuma promessa, nenhuma ameaa, 
nenhuma tortura me fechar a boca; sobre a cruz! juro denunciar-vos em toda a parte como um assassino, como um ladro da honra, como um cobarde; sobre a cruz! juro, 
se jamais conseguir sair daqui, pedir vingana a todo o gnero humano.
"- Tende cuidado! - disse a voz num tom de ameaa que eu ainda no tinha ouvido. - Eu tenho um meio supremo, que s empregarei em ltima instncia, de vos fechar 
a boca ou pelo menos de impedir que acreditem numa s palavra do que disserdes.
"Reuni as minhas foras para responder com uma gargalhada.
"Ele viu que dali em diante seria uma guerra eterna entre ns, uma guerra mortal.
"- Escutai - disse ele -, dou-vos ainda o resto desta noite e o dia de amanh; reflecti: prometei calar-vos; sereis rodeada de riqueza, de considerao e at de 
honrarias; ameaai falar e condeno-vos  infmia.
"- Vs! - exclamei eu. - Vs!
"-  infmia eterna, inextinguvel.
"- Vs! - repeti eu. - Oh! Digo-vos, Felton, que julgava que ele estava louco!
"- Sim, eu! - disse ele.
"- Ah! Deixai-me - disse-lhe eu -, sa, se no quereis ver-me rachar a cabea na parede!
"- Est bem - respondeu -, como quiserdes, at amanh  noite!
"- At amanh  noite - respondi, deixando-me cair e mordendo o tapete de raiva..."
Felton apoiava-se num mvel e Milady via com uma alegria demonaca que talvez lhe faltassem as foras antes do fim da narrativa.

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      LVII - UM MEIO DE TRAGDIA CLSSICA


      Aps um momento de silncio que Milady empregou a observar o rapaz que a escutava, ela continuou a sua narrativa:
- Havia quase trs dias que no comia nem bebia, sofria atrozes torturas, por veses passavam por mim como que umas nuvens que me oprimiam a fronte, que me velavam 
os olhos: era o delrio.
Veio a noite; estava to fraca que a cada instante desmaiava e cada vez que desmaiava agradecia a Deus, pois julgava que ia morrer.
"No meio de um destes desmaios ouvi abrir a porta; o terror fez-me vir a mim.
"O meu perseguidor entrou, seguido de um homem mascarado; ele prprio estava mascarado, mas eu reconheci-lhe o passo, reconheci-lhe aquele ar imponente que o inferno 
deu  sua pessoa para mal da humanidade.
"- Ora bem! - disse-me ele. - Estais decidida a fazer-me o juramento que vos pedi?
"- Vs o dissestes: os puritanos s tm uma palavra, j ouvistes a minha, perseguir-vos na terra at ao tribunal dos homens, no Cu at ao tribunal de Deus!
"- Ento persistis?
"- Juro diante de Deus que me est a ouvir: tomarei o mundo inteiro como testemunha do vosso crime, at encontrar um vingador.
"- Sois uma prostituta - disse ele com voz trovejante - e sofrereis o suplcio das prostitutas! Marcada aos olhos do mundo que invocais, tentai provar-lhe que no 
sois nem culpada nem louca!
"Depois, dirigindo-se ao homem que o acompanhava:
"- Carrasco - disse ele -, cumpre o teu dever.
- Oh! O seu nome, o seu nome! - exclamou Felton. - Dizei-me o
seu nome!
- Ento, apesar dos meus gritos, apesar da minha resistncia, pois comeava a compreender que se tratava de algo pior que a morte, o carrasco agarrou-me, derrubou-me, 
dominou-me com os braos e, sufocada pelos soluos, quase inconsciente, invocando Deus que no me escutava, soltei de repente um horrvel grito de dor e de vergonha: 
um ferro ao rubro, o ferro do carrasco, tinha-se imprimido no meu ombro.
Felton soltou um rugido.
- Vede - disse Milady, erguendo-se ento com a majestade duma rainha -, vede, Felton, como inventaram um novo martrio para a jovem pura e, contudo, vtima da brutalidade 
dum celerado. Aprendei a conhecer o corao dos homens e, doravante, no sejais tanto o instrumento das suas injustas vinganas.
Com um gesto rpido, Milady abriu o vestido, rasgou a cambraia que lhe cobria o regao e, vermelha de clera fingida e de falsa vergonha, mostrou ao jovem a marca 
inapagvel que desonrava aquele ombro to belo.

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- Mas - exclamou Felton - vejo uma flor-de-lis!
- Eis justamente a infmia - respondeu Milady. - A marca da Inglaterra!... Era preciso provar que tribunal ma tinha imposto, e eu apelaria publicamente para todos 
os tribunais do reino; mas a marca da Frana... Oh! Por ela eu era realmente marcada.
Era de mais para Felton.
Plido, imvel, esmagado por esta revelao pavorosa, ofuscado pela beleza sobre-humana daquela mulher que se descobria diante dele com um impudor que lhe parecia 
sublime, acabou por cair de joelhos perante ela como faziam os primeiros cristos diante das mrtires puras e santas que a perseguio dos imperadores entregava 
no circo  lubricidade da populaa. A marca desapareceu, s ficou a beleza.
- Perdo, perdo! - exclamou Felton. - Oh! Perdo! Milady leu nos seus olhos: amor, amor.
- Perdo de qu? - perguntou.
- Perdo por me ter aliado aos vossos perseguidores. Milady estendeu-lhe a mo.
- To bela, to jovem! - exclamou Felton, cobrindo-lhe a mo de beijos.
Milady deixou cair sobre ele um daqueles olhares que dum escravo fazem um rei.
Felton era puritano: largou a mo da mulher para lhe beijar os ps.
J no a amava; adorava-a.
Quando esta crise passou, quando Milady pareceu ter recobrado o sangue-frio, que nunca tinha perdido, quando Felton viu fechar-se sob o vu da castidade esses tesouros 
de amor que lhe escondiam to bem apenas para o fazerem desej-los mais ardentemente:
- Ah! Agora - disse ele -, s tenho que pedir-vos uma coisa.  o nome do vosso verdadeiro carrasco, pois para mim s h um, o outro era o instrumento, mais nada.
- O qu, irmo? - exclamou Milady. - Ainda tenho de dizer como se chama, no adivinhastes?
- O qu? - disse Felton. - Ele!... Outra vez!... Sempre ele!... O qu? O verdadeiro culpado...
- O verdadeiro culpado - disse Milady -  o saqueador da Inglaterra, o perseguidor dos crentes autnticos, o cobarde ladro da honra de tantas mulheres, aquele que, 
por um capricho do seu corao corrupto, vai fazer derramar tanto sangue a dois reinos, que hoje protege os protestantes e amanh tra-los-...
- Buckingham! Ento  Buckingham! - exclamou Felton, desesperado.
Milady escondeu o rosto nas mos, como se no pudesse suportar a vergonha que este nome lhe causava.
- Buckingham, o carrasco desta anglica criatura!

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- exclamou Felton -, E tu no o fulminaste, meu Deus! E tu deixaste-o nobre, honrado, poderoso para a perdio de todos ns!
- Deus abandona quem se abandona a si mesmo - disse Milady.
- Mas ele quer atrair sobre a sua cabea o castigo reservado aos malditos! - continuou Felton com exaltao crescente. - Quer que a vingana humana preceda a justia 
celeste!
- Os homens tm medo dele e poupam-no.
- Oh! Eu - disse Felton - No tenho medo e no o pouparei!... Milady sentiu a sua alma banhada de uma alegria infernal.
- Mas como  que lorde de Winter, o meu protector, o meu pai - perguntou Felton - est envolvido em tudo isto?
- Escutai, Felton - recomeou Milady - pois ao lado dos homens cobardes e desprezveis ainda h naturezas grandes e generosas. Eu tinha um noivo, um homem que eu 
amava; um corao como o vosso, Felton, um homem como vs. Fui ter com ele e contei-lhe tudo; ele conhecia-me e no duvidou nem por um instante. Era um grande senhor, 
era um homem igual a Buckingham em todos os aspectos. No disse nada, apenas cingiu a espada, embrulhou-se na capa e dirigiu-se a Buckingham Palace.
- Sim, sim - disse Felton -, compreendo; embora com esses homens no seja a espada que se deva usar mas o punhal.
- Buckingham partira na vspera, enviado a Espanha como embaixador, onde ia pedir a mo da infanta para o rei Carlos I, que nessa altura ainda era apenas prncipe 
de Gales. O meu noivo voltou.
"- Escutai - disse-me ele -, o homem partiu e, por conseguinte, para j escapa  minha vingana mas, entretanto, unamo-nos como j devamos estar unidos, e depois 
confiai em lorde de Winter para garantir a sua honra e a de sua mulher.
- Lorde de Winter! - exclamou Felton.
- Sim - disse Milady -, lorde de Winter e agora deveis compreender tudo, no ? Buckingham ficou ausente mais de um ano. Oito dias antes de chegar, lorde de Winter 
morreu subitamente, deixando-me a sua nica herdeira. Donde vinha este golpe? Deus, que tudo sabe, deve saber, eu no acuso ningum...
- Oh, que abismo! Que abismo! - exclamou Felton.
- Lorde de Winter morrera sem contar nada ao irmo. O terrvel segredo devia ser oculto de todos, at rebentar como um raio na cabea do culpado. O vosso protector 
vira com desgosto o casamento do irmo mais velho com uma jovem sem fortuna. Senti que no podia esperar nenhum apoio dum homem enganado nas suas esperanas de herdeiro. 
Fui para a Frana, resolvida a passar ali o resto dos meus dias. Mas toda a minha fortuna est em Inglaterra; quando a guerra fechou as comunicaes, faltou-me tudo, 
ento tive de voltar, e h seis dias cheguei a Portsmouth.
- E ento? - disse Felton.
- Ento, Buckingham deve ter sabido do meu regresso, falou a lorde de Winter, j prevenido contra mim, e disse-lhe que a cunhada era uma prostituta, uma mulher marcada.

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A voz pura e nobre do meu marido j c no estava para me defender. Lorde de Winter acreditou em tudo o que lhe diziam, tanto mais que tinha interesse em acreditar. 
Mandou-me prender, conduziu-me aqui, entregou-me vossa guarda. J sabeis o resto: depois de amanh vai banir-me, deportar-me; depois de amanh relega-me para o 
meio dos infames. Oh! A trama foi bem urdida, o conluio  hbil e a minha honra no sobreviver. Bem vedes que  preciso que eu morra, Felton; Felton, dai-me essa 
faca!
E, ao dizer estas palavras, como se todas as suas foras se tivessem esgotado, Milady deixou-se cair, lnguida e dbil, nos braos do jovem oficial que, brio de 
amor, de clera e de volpias desconhecidas, a recebeu com arrebatamento, a abraou, estremecendo com o hlito daquela boca to bela, perdido com o contacto daquele 
seio to palpitante.
- No, no - disse ele -, no. Vivers honrada e pura, vivers para triunfar sobre os teus inimigos.
Milady afastou-o lentamente com a mo, atraindo-o com o olhar; mas, por sua vez, Felton apoderou-se dela, implorando-lhe como a uma divindade.
- Oh! A morte, a morte! - disse ela, velando a voz e as plpebras.
- Oh! A morte em vez da vergonha; Felton, meu irmo, meu amigo, eu te conjuro!
- No - exclamou Felton -, vivers e sers vingada!
- Felton, eu dou azar a tudo o que me rodeia! Felton, abandona-me! Felton, deixa-me morrer!
- Pois bem, morreremos juntos! - exclamou ele, apoiando os lbios nos da prisioneira.
Ouviram-se pancadas na porta; desta vez Milady afastou-se realmente.
- Escuta - disse ela -, ouviram-nos. Vem gente! Estamos perdidos!
- No - disse Felton -,  apenas a sentinela a avisar-me da chegada de uma ronda.
- Ento correi  porta e abri vs mesmo.
Felton obedeceu; esta mulher j era todo o seu pensamento, toda a sua alma.
Viu-se diante dum sargento que comandava uma patrulha de vigilncia.
- Ento, que h? - perguntou o jovem tenente.
- Tnheis-me dito que abrisse a porta se ouvisse gritar, por socorro - disse o soldado -, mas esquecestes-vos de me dar a chave; eu ouvi-vos gritar sem compreender 
o que dizeis, quis abrir a porta, estava fechada por dentro, e ento chamei o sargento.
- E aqui estou - disse o sargento.
Felton, alucinado, quase louco, estava sem voz. Milady compreendeu que era ela que tinha de tomar conta da situao, correu  mesa e pegou na faca que Felton ali 
pousara:
- E com que direito me quereis impedir de morrer? - disse ela.

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- Deus do Cu! - exclamou Felton, vendo brilhar a faca na sua mo.
Neste momento ouviu-se no corredor uma gargalhada irnica. O baro, atrado pelo barulho, de roupo, a espada debaixo do brao, estava de p no limiar da porta.
- Ah! Ah! - disse ele. - Eis-nos no ltimo acto da tragdia; estais a ver, Felton, a dama seguiu todas as fases que eu tinha indicado, mas ficai descansado que o 
sangue no correr.
Milady compreendeu que estava perdida se no desse a Felton uma prova imediata e terrvel da sua coragem.
- Estais enganado, Milorde, o sangue correr, e que este sangue possa cair sobre os que o fazem correr!
Felton deu um grito e precipitou-se sobre ela; era tarde de mais, Milady tinha-se ferido.
Mas felizmente, ou melhor, habilmente, a faca tinha encontrado a vara de ferro que naquela poca defendia como uma couraa o peito das mulheres; escorregara, rasgando 
o vestido, e penetrara obliquamente entre a carne e as costelas.
Mas, num segundo, o vestido de Milady ficou manchado de sangue.
Milady cara para trs e parecia desmaiada.
Felton arrancou a faca.
- Vede, Milorde - disse ele com ar sombrio -, eis uma mulher que se matou sob a minha guarda!
- Descansai, Felton - disse lorde de Winter -, ela no est morta, os demnios no morrem assim to facilmente, descansai e ide esperar-me nos meus aposentos.
- Mas, Milorde...
- Ide, ordeno-vos.
Felton obedeceu a esta ordem do seu superior, mas, ao sair, meteu a faca no peito.
Quanto a lorde de Winter, contentou-se em chamar a mulher que servia Milady e, quando esta veio, recomendou-lhe a prisioneira, que continuava desmaiada, e deixou-a 
sozinha com ela.
Contudo, como apesar das suspeitas, o ferimento podia ser grave, enviou nesse mesmo instante um homem a buscar um mdico.


      LVIII - EVASO


      Como lorde de Winter pensara, o ferimento de Milady no era grave e, logo que se achou sozinha com a mulher que o baro mandara chamar e que se apressava a 
despi-la, ela abriu os olhos.
Contudo, tinha de jogar com a fraqueza e a doura,

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o que no era difcil para uma actriz como Milady; assim, a pobre mulher foi completamente iludida pela prisioneira que, apesar das suas instncias, teimou em velar 
toda a noite.
Mas a presena desta mulher impedia Milady de pensar.
No havia dvidas, Felton estava convencido, Felton estava nas suas mos; se aparecesse ao jovem um anjo para acusar Milady, ele tom-lo-ia certamente, na disposio 
em que estava, por um enviado do demnio.
Milady sorria a este pensamento, pois dali em diante Felton era a sua nica esperana, o seu nico meio de salvao.
Mas lorde de Winter podia ter desconfiado, agora o prprio Felton podia ser vigiado.
Por volta das quatro da manh chegou o mdico; mas a ferida j se tinha fechado e o mdico no pde medir-lhe nem a direco nem a profundidade, apenas reconheceu 
pelo pulso da enferma que o caso no era grave.
De manh, Milady, alegando que no dormira de noite e que precisava de repouso, mandou embora a mulher que velava junto dela.
Tinha uma esperana, que Felton viesse  hora do almoo, mas Felton no veio.
Ter-se-iam realizado os seus receios? Felton, suspeitado pelo baro, iria faltar-lhe no momento decisivo? S tinha um dia: lorde de Winter anunciara-lhe o seu embarque 
para o dia 23, e tinham chegado  manh do dia 22.
Contudo, ainda esperou com muita pacincia at  hora do jantar.
Embora no tivesse comido de manh, o jantar foi trazido  hora habitual; Milady apercebeu-se ento, assustada, de que o uniforme dos soldados que a guardavam tinha 
mudado.
Ento, atreveu-se a perguntar o que era feito de Felton. Responderam-lhe que Felton tinha montado a cavalo h uma hora e tinha partido.
Perguntou se o baro continuava no castelo; o soldado respondeu-lhe que sim e que tinham ordens de o prevenir se a prisioneira lhe quisesse falar.
Milady respondeu que por enquanto estava muito fraca, e que o seu nico desejo era ficar s.
O soldado saiu, deixando o jantar servido.
Felton tinha sido afastado, os soldados da marinha tinham sido substitudos, portanto desconfiavam de Felton.
Era o nico golpe para a prisioneira.
Quando ficou s, ela levantou-se; a cama onde estava por prudncia e para que a julgassem gravemente ferida queimava-a como um braseiro. Lanou um olhar  porta; 
o baro mandara pregar uma tbua na abertura; devia recear que ela ainda conseguisse, atravs de algum meio diablico, seduzir os guardas atravs daquela abertura.
Milady sorriu de alegria; podia entregar-se aos seus mpetos sem que a observassem: percorria o quarto com a agitao duma louca furiosa ou duma leoa fechada numa 
gaiola de ferro. Por certo que, se tivesse ficado com a faca, desta vez no teria pensado em matar-se, mas em matar o baro.
s seis horas, lorde de Winter entrou; estava armado at aos dentes. Este homem, no qual at ento Milady s vira um gentleman bastante ingnuo, tornara-se um admirvel 
carcereiro: parecia prever tudo, tudo adivinhar, tudo prevenir.
Um s olhar lanado a Milady disse-lhe tudo o que se passava na sua alma.
- Sim - disse ela -, ainda no ser hoje que me matareis; no tendes mais armas e, de resto, estou de sobreaviso.
- Tnheis comeado a perverter o meu pobre Felton: ele j sofria a vossa infernal influncia, mas eu quero salv-lo, nunca mais vos ver, est tudo acabado. Juntai 
as vossas roupas, amanh partireis. Eu tinha fixado o vosso embarque para o dia 24, mas pensei que quanto mais depressa melhor. Amanh ao meio-dia terei a ordem 
do vosso exlio, assinada por Buckingham. Se disserdes uma palavra seja a quem for antes de estardes no navio, o meu sargento mete-vos uma bala nos miolos, tem ordens 
para o fazer; se, no navio, disserdes uma palavra seja a quem for antes que o capito vo-lo permita, o capito manda-vos lanar  gua, est combinado. At  vista, 
por hoje nada mais tenho a dizer-vos. Amanh voltarei a ver-vos para me despedir de vs!
E com estas palavras o baro saiu.
Milady escutara toda esta tirada ameaadora com um sorriso de desdm nos lbios, mas com o corao cheio de raiva.
Serviram o jantar; Milady sentiu que precisava de foras, no sabia o que poderia passar-se durante aquela noite que se aproximava ameaadora, pois grandes nuvens 
rolavam no cu e relmpagos longnquos anunciavam tempestade.
A tempestade rebentou por volta das dez da noite: Milady sentia uma certa consolao ao ver a natureza partilhar a desordem do seu corao: a tempestade rosnava 
no ar como a clera do seu pensamento; parecia-lhe que, ao passar, as rajadas de vento a despenteavam como s rvores cujos ramos curvavam e cujas folhas arrancava; 
gritava como o furaco e a sua voz perdia-se na grande voz da natureza que, tambm ela, parecia gemer e desesperar-se.
De repente ouviu bater numa vidraa e,  luz dum relmpago, viu o rosto dum homem aparecer por trs das grades.
Correu  janela e abriu-a.
- Felton! - exclamou. - Estou salva!
- Sim! - disse Felton. - Mas silncio, silncio! Preciso de tempo para limar as vossas grades. Cuidado eles no nos vejam atravs da abertura da porta.
- Oh!  uma prova de que o Senhor est do nosso lado, Felton - disse Milady -, eles fecharam a abertura com uma tbua.
- Est bem, Deus enlouqueceu-os! - disse Felton.
- Mas que devo fazer? - perguntou Milady.

130 - 131


- Nada, nada; fechai apenas a janela. Deitai-vos, ou pelo menos metei-vos vestida na cama; quando eu acabar, bato nas grades, podereis vs seguir-me?
- Oh, sim!
- O vosso ferimento?
- Di-me mas no me impede de andar.
- Nesse caso, estejai pronta ao primeiro sinal.
Milady fechou a janela, apagou o candeeiro e, como Felton lhe recomendara, foi deitar-se na cama. No meio dos queixumes da trovoada, ouvia a lima ranger nas grades, 
e  luz de cada relmpago via a sombra de Felton atravs das vidraas.
Passou uma hora sem respirar, ofegante, com a testa perlada de suor e o corao oprimido por uma angstia pavorosa a cada movimento que ouvia no corredor.
H horas que duram um ano.
Ao cabo de uma hora, Felton tornou a bater.
Milady saltou da cama e foi abrir. Duas grades a menos formavam uma abertura pela qual um homem podia passar.
- Estais pronta? - perguntou Felton.
- Sim. Devo levar alguma coisa?
- Ouro, se tiverdes.
- Sim, felizmente deixaram-me o que tinha.
- Tanto melhor, pois gastei tudo o que tinha para fretar um barco.
- Aqui tendes - disse Milady, pondo um saco cheio de ouro nas mos de Felton.
Felton pegou no saco e atirou-o para o cho.
- Agora - disse ele -, quereis vir?
- Aqui estou.
Milady subiu para cima da poltrona e passou a parte superior do corpo atravs da janela; viu o jovem oficial suspenso sobre o abismo numa escada de corda.
Pela primeira vez um movimento de terror lembrou-lhe que era uma mulher.
O vazio apavorava-a.
- Eu tinha desconfiado disto - disse Felton.
- No  nada, no  nada - disse Milady -, descerei de olhos fechados.
- Tendes confiana em mim? - perguntou Felton.
- Ainda me perguntais?
- Juntai as mos; cruzai-as, est bem.
Felton amarrou-lhe os pulsos com um leno, depois, por cima do leno, com uma corda.
- Que fazeis? - perguntou Milady, surpreendida.
- Passai os braos  volta do meu pescoo e no tenhais medo de nada.
- Mas eu vou fazer-vos perder o equilbrio, e esmagar-nos-emos os dois.

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- Ficai sossegada, eu sou marinheiro.
No havia um segundo a perder; Milady passou os braos  volta do pescoo de Felton e deixou-se deslizar para fora da janela.
Felton comeou a descer os degraus lentamente, um a um. Apesar do peso dos dois corpos, a fora da tempestade baloiava-os no ar.
De repente Felton parou.
- Que h? - perguntou Milady.
- Silncio - disse Felton. - Oio passos.
- Fomos descobertos!
Durante alguns instantes fez-se silncio.
- No - disse Felton -, no  nada.
- Mas, enfim, que rudo  este?
-  a patrulha que vai passar no caminho da ronda.
- Onde  o caminho da ronda?
-  mesmo por baixo de ns.
- Vai descobrir-nos.
- No, se no houver relmpagos.
- Vai embater na parte de baixo da escada.
- Felizmente faltam-lhe seis ps.
- C esto eles, meu Deus!
- Silncio!
Ficaram os dois suspensos, imveis e sem respirao, a vinte ps do solo; entretanto, os soldados passavam l em baixo, a rir e a conversar.
Houve um momento terrvel para os fugitivos.
A patrulha passou; ouviu-se o som dos passos que se afastava e o murmrio das vozes que ia enfraquecendo.
- Agora - disse Felton - estamos salvos. Milady deu um suspiro e desmaiou.
Felton continuou a descer. Quando chegou ao fim da escada e deixou de sentir um apoio para os ps, agarrou-se com as mos; por fim, ao chegar ao ltimo degrau, deixou-se 
ficar pendurado nos pulsos e tocou no cho. Baixou-se, apanhou o saco de ouro e agarrou-o com os dentes.
Depois tomou Milady nos braos, e afastou-se vivamente para o lado oposto da patrulha. Em breve deixou o caminho da ronda, desceu atravs dos rochedos e, ao chegar 
 beira-mar, assobiou.
Respondeu-lhe um sinal igual e, cinco minutos depois, ele viu aparecer um barco com quatro homens.
O barco aproximou-se da costa o mais que pde, mas como o fundo era baixo no conseguiu tocar em terra; Felton meteu-se na gua at  cintura, no querendo confiar 
a ningum o seu precioso fardo.
Felizmente a tempestade comeava a acalmar-se e, contudo, o mar ainda estava agitado; o barquinho saltava sobre as vagas como uma casca de noz.
- Para o sloop - disse Felton -, e remai depressa.
Os quatro homens puseram-se a remar, mas o mar estava muito agitado e os remos produziam pouco efeito.
Contudo, afastavam-se do castelo; era o principal.

133


A noite era profundamente tenebrosa e, do barco, j era quase impossvel distinguir a costa, portanto, da costa, tambm no se podia distinguir o barco.
Um ponto negro baloiava no mar.
Era o sloop.
Enquanto o barco avanava a toda a fora dos seus quatro remadores, Felton desatava a corda e depois o leno que amarrava as mos de Milady.
Depois, tendo-lhe desamarrado as mos, apanhou gua do mar e atirou-lha  cara.
Milady suspirou e abriu os olhos.
- Onde estou? - disse ela.
- Salva - respondeu o jovem oficial.
- Oh, salva, salva! - exclamou ela. - Sim, eis o cu, eis o mar! O ar que respiro  o ar da liberdade. Ah!... Obrigada, Felton, obrigada!
O jovem apertou-a nos braos.
- Mas que tenho nas mos? - perguntou Milady. - Parece que me partiram os pulsos num tomilho.
Com efeito, Milady ergueu os braos; tinha os pulsos doridos.
- Infelizmente! - disse Felton, contemplando aquelas belas mos e abanando docemente a cabea.
- Oh! No  nada, no  nada! - exclamou Milady. - Agora me lembro.
Milady olhou em redor.
- Est ali - disse Felton, empurrando o saco do ouro com o p. Aproximavam-se do sloop. O marinheiro de quarto chamou a barcaa e esta respondeu.
- Que embarcao  esta? - perguntou Milady.
-  a embarcao que fretei para vs.
- Onde vai conduzir-me?
- Onde quiserdes, desde que me deixeis em Portsmouth.
- Que tendes a fazer em Portsmouth?
- Cumprir as ordens de lorde de Winter - respondeu Felton com um sorriso sombrio.
- Que ordens? - perguntou Milady.
- Ento no compreendeis? - disse Felton.
- No. Explicai-vos, por favor.
- Como desconfiava de mim, quis guardar-vos pessoalmente e mandou-me no seu lugar levar a ordem da vossa deportao a Buckingham, para que este a assinasse.
- Mas, se desconfiava de vs, como vos confiou essa ordem?
- E eu devia saber o que levava?
- Est certo. E ides a Portsmouth?
- No tenho tempo a perder; amanh  23 e Buckingham parte amanh com a frota.
- Parte amanh para onde?
- Para La Rochelle.


134


- No deve partir! - exclamou Milady, esquecendo a sua habitual presena de esprito.
- Sossegai - respondeu Felton -, no partir.
Milady estremeceu de alegria, acabava de ler no mais fundo do corao do rapaz: estava l escrita a morte de Buckingham com todas as letras.
- Felton... - disse ela -, sois grande como Judas Macabeu! Se morrerdes, morro convosco.  tudo o que vos posso dizer.
- Silncio! - disse Felton. - Chegmos. Com efeito, tocavam o sloop.
Felton subiu a escada primeiro e deu a mo a Milady, enquanto os marinheiros a sustinham, pois o mar ainda estava muito agitado. Passado um instante estavam no convs.
- Capito - disse Felton -, eis a pessoa de que vos falei e que deveis conduzir a Frana s e salva.
- Mediante mil pistolas - disse o capito.
- Dei-vos quinhentas.
- Est certo - disse o capito.
- E aqui esto as outras quinhentas - disse Milady levando a mo ao saco do ouro.
- No - disse o capito -, eu s tenho uma palavra e j a dei a este jovem; s devo receber as outras quinhentas pistolas ao chegar a Bolonha.
- E chegaremos?
- Sos e salvos - disse o capito -, ou eu no me chame Jack Buttler.
- Muito bem! - disse Milady. - Se mantiverdes a vossa palavra, no vos darei quinhentas, mas mil pistolas.
- Ento hurra para vs, linda dama - gritou o capito -, e que Deus me possa enviar muitos passageiros como Vossa Senhoria!
- Entretanto - disse Felton -, conduzi-nos  pequena baa de Chichester, antes de Portsmouth; sabeis que est combinado conduzir-nos a esse local.
O capito respondeu conduzindo a manobra necessria e, por volta das sete da manh, a pequena embarcao lanava a ncora na baa designada.
Durante a travessia, Felton contara tudo a Milady; como, em vez de ir a Londres, fretara a pequena embarcao, como voltara, como escalara a muralha, cravando grampos 
nos interstcios das pedras  medida que subia, e como, por fim, ao chegar s grades, prendera a corda. Milady sabia o resto.
Por seu lado, Milady procurou encorajar Felton no seu projecto; mas, ao dizer as primeiras palavras, viu que o jovem fantico mais precisava de ser moderado do que 
encorajado.
Combinaram que Milady esperaria Felton at s dez horas; se s dez horas ele no tivesse regressado, Milady partiria.
Ento, supondo que estivesse livre, iria ter com ela em Frana, no convento das Carmelitas de Bthune.

      135


      LIX - O QUE SE PASSOU EM PORTSMOUTH A
      23 DE AGOSTO DE 1628



      Felton despediu-se de Milady como um irmo que vai fazer um simples passeio e se despede da irm, beijando-lhe a mo.
Todo ele parecia no seu estado de calma habitual, apenas um lampejo inusual brilhava nos seus olhos, semelhante a um reflexo de febre; a sua testa estava ainda mais 
plida do que de costume; os seus dentes estavam cerrados e a sua palavra tinha uma entoao breve e sacudida que indicava que algo de sombrio se agitava dentro 
dele.
Enquanto esteve na barcaa que o conduziu a terra, manteve o rosto virado para Milady, que, em p no convs, o seguia com o olhar. No tinham medo de ser seguidos: 
nunca entravam no quarto de Milady antes das nove horas, e para ir do castelo a Londres eram precisas trs horas.
Felton ps o p em terra, subiu a pequena crista que conduzia ao cimo da falsia, saudou Milady pela ltima vez e dirigiu-se para a cidade.
Passados cem passos, como o terreno descia, j no conseguia ver mais que o mastro do sloop.
Correu imediatamente na direco de Portsmouth, cujas torres e casas via desenharem-se diante dele, a cerca de meia milha, na bruma matinal.
Ao largo de Portsmouth o mar estava coberto de navios cujos mastros faziam lembrar uma floresta de choupos despidos no Inverno, baloiando ao vento.
Felton, na sua marcha rpida, passava em revista as acusaes verdadeiras ou falsas que dez anos de meditaes ascticas e uma longa estadia no meio dos puritanos 
lhe haviam fornecido contra o favorito de Jaime VI e de Carlos I.
Quando comparava os crimes pblicos deste ministro, crimes estrondosos, crimes europeus, se assim se podia dizer, com os crimes privados e desconhecidos de que Milady 
o acusara, Felton achava que o mais culpado dos dois homens que existiam em Buckingham era aquele cuja vida o pblico no conhecia.  que o seu amor to estranho, 
novo e ardente o fazia ver as acusaes infames e imaginrias de lady de Winter como se vem atravs duma lupa, no estado de monstros assustadores, uns tomos na 
realidade imperceptveis, ao p duma formiga.
A rapidez da sua corrida ainda mais lhe inflamava o sangue; pensar que deixava para trs, exposta a uma vingana terrvel, a mulher que amava, ou melhor que adorava 
como uma santa, a emoo passada, a presente fadiga, tudo exaltava ainda mais a sua alma acima dos sentimentos humanos.
Entrou em Portsmouth cerca das oito da manh; toda a populao estava a p; o tambor rufava nas ruas e no porto;

136


as tropas de embarque desciam para o mar.
Felton chegou ao palcio do Almirantado, coberto de p e de suor; o seu rosto, habitualmente to plido, estava prpura de calor e de clera. A sentinela quis repeli-lo, 
mas Felton chamou o chefe do posto e, tirando do bolso a carta de que era portador:
- Mensagem da parte de lorde de Winter - disse ele.
Ao nome de lorde de Winter, que sabiam ser um dos mais ntimos de Sua Graa, o chefe do posto deu ordem para deixar passar Felton que, de resto, tambm envergava 
o uniforme de oficial de marinha.
Felton correu ao palcio.
No momento em que entrava no vestbulo, um homem tambm entrava, coberto de p, esbaforido, deixando  porta um cavalo de posta que, ao chegar, caiu de joelhos.
Felton e ele dirigiram-se ao mesmo tempo a Patrick, o criado de confiana do duque. Felton citou o baro de Winter, o desconhecido no quis citar ningum e afirmou 
que s ao duque se poderia dar a conhecer. Os dois insistiam para passarem um  frente do outro.
Patrick, que sabia que lorde de Winter tinha assuntos de servio e relaes de amizade com o duque, deu a preferncia ao que vinha em seu nome. O outro teve de esperar, 
e no foi difcil ver como amaldioava este atraso.
O criado fez Felton atravessar a grande sala em que esperavam os deputados de La Rochelle conduzidos pelo prncipe de Soubise, e introduziu-o num gabinete em que 
Buckingham, sado do banho, se vestia, concedendo como sempre uma ateno extraordinria a esta operao.
- O tenente Felton - disse Patrick -, da parte de lorde de Winter.
- Da parte de lorde de Winter! - repetiu Buckingham. - mandai entrar.
Felton entrou. Neste momento, Buckingham atirava para cima dum canap um rico roupo bordado a ouro, para vestir um gibo de veludo azul todo bordado com prolas.
- Por que no veio o baro pessoalmente? - perguntou Buckingham. - Esperava-o esta manh.
- Encarregou-me de dizer a Vossa Graa - respondeu Felton - que lamentava muito no ter essa honra, mas que era impedido pela guarda que tem de fazer ao castelo.
- Sim, sim - disse Buckingham -, j sei, tem uma prisioneira.
-  justamente acerca dessa prisioneira que eu queria falar a Vossa Graa - replicou Felton.
- Muito bem! Falai.
- O que tenho a dizer-vos s pode ser ouvido por vs, Milorde.
- Deixai-nos, Patrick - disse Buckingham -, mas ficai perto da sineta; daqui a pouco chamo-vos.
Patrick saiu.
- Estamos ss, senhor - disse Buckingham -, falai.
- Milorde - disse Felton -, o baro de Winter escreveu-vos no outro dia pedindo-vos que assinsseis uma ordem de embarque relativa a uma mulher chamada Charlotte 
Backson.

137


- Sim, senhor, e eu respondi-lhe que me trouxesse ou que me enviasse essa ordem e que a assinaria.
- Aqui a tendes, Milorde.
- Dai-ma - disse o duque.
E, tirando-a das mos de Felton, passou rapidamente os olhos pelo papel. Ento, vendo que era o que lhe tinham anunciado, pousou-o na mesa, pegou numa pena e preparou-se 
para assinar.
- Perdo, Milorde - disse Felton, detendo o duque -, mas Vossa Graa sabe que o nome Charlotte Backson no  o verdadeiro nome dessa jovem.
- Sei, sim senhor - respondeu o duque, mergulhando a pena no tinteiro.
- Ento Vossa Graa conhece o seu verdadeiro nome? - perguntou Felton com voz breve.
- Conheo.
O duque aproximou a pena do papel.
- E mesmo conhecendo o verdadeiro nome - continuou Felton Monsenhor assinar?
- Sem dvida - disse Buckingham - e at duas vezes.
- No posso crer - continuou Felton com uma voz que se tornava cada vez mais breve e sacudida -, que Sua Graa saiba que se trata de lady de Winter...
- Sei perfeitamente, embora me admire que vs tambm saibais.
- E Vossa Graa assinar essa ordem sem remorsos?
Buckingham fitou o rapaz com altivez.
- Ora esta, senhor! Sabeis - disse-lhe -, que me fazeis estranhas perguntas e que no me custa responder?
- Respondei, Monsenhor - disse Felton -, a situao talvez seja mais grave do que pensais.
Buckingham pensou que o jovem, vindo da parte de lorde de Winter, falava certamente em seu nome, e tornou-se mais brando.
- Sem remorso algum - disse ele -, e o baro sabe to bem como eu que milady de Winter  uma grande culpada, e que limitar a sua pena  deportao  quase fazer-lhe 
um favor.
O duque pousou a pena em cima do papel.
- No assinareis essa ordem, Milorde! - disse Felton, dando um passo em direco ao duque.
- No assinarei esta ordem! - disse Buckingham. - E por que no?
- Porque careis em vs e fareis justia a Milady.
- Far-lhe-o justia enviando-a para Tyburn - disse Buckingham -, Milady  uma infame.
- Monsenhor, Milady  um anjo, vs bem sabeis, e eu peo a sua liberdade.

138


- Ora esta! - exclamou Buckingham. - Estais louco para me falardes assim?
- Milorde, desculpai-me! Falo como posso; contenho-me. Contudo, Milorde, pensai no que ides fazer e no ultrapasseis as medidas!
- Como?... Que Deus me perdoe! - exclamou Buckingham -, mas creio que ele me ameaa!
- No, Milorde, ainda peo e digo-vos: basta uma gota de gua para fazer derramar uma taa cheia, uma falta ligeira pode chamar o castigo sobre a cabea poupada 
apesar de tantos crimes.
- Sr. Felton - disse Buckingham -, ides sair daqui e apresentar-vos imediatamente na priso.
- Ides escutar-me at ao fim, Milorde. Seduzistes essa jovem, que ultrajastes e maculastes; reparai os crimes que cometestes contra ela, deixai-a partir em liberdade 
e eu no exigirei mais nada de vs.
- No exigireis? - disse Buckingham, fitando Felton com espanto e martelando cada uma das slabas das palavras que acabava de pronunciar.
- Milorde - continuou Felton, exaltando-se  medida que falava -, Milorde, tomai cautela, toda a Inglaterra est cansada das vossas iniquidades; Milorde, vs abusastes 
do poder rgio que quase usurpastes; Milorde, causais horror aos homens e a Deus; Deus h-de castigar-vos mais tarde, eu castigar-vos-ei hoje.
- Ah! Isto  de mais! - gritou Buckingham, dando um passo para a porta.
Felton barrou-lhe a passagem
- Peo-vos humildemente - disse ele -, assinai a ordem de libertao de Lady de Winter; pensai que  a mulher que vs desonrastes.
- Retirai-vos, senhor - disse Buckingham -, ou chamo Patrick e mando-vos prender.
- No chamareis - disse Felton, interpondo-se entre o duque e a sineta colocada em cima duma consola com incrustraes de prata. - Tomai cautela, Milorde, eis-vos 
nas mos de Deus.
- Nas mos do diabo, quereis dizer! - exclamou Buckingham, erguendo a voz para chamar a ateno, sem contudo chamar directamente.
- Assinai, Milorde, assinai a Liberdade de lady de Winter - disse Felton, estendendo ao duque um papel.
-  fora! Troais de mim? Patrick!
- Assinai, Milorde!
- Jamais!
- Jamais!
- A mim! - gritou o duque e ao mesmo tempo saltou para a sua espada.
Mas Felton no lhe deu tempo para puxar por ela; tinha j aberta e escondida no gibo a faca com que Milady se ferira; com um salto, ps-se em cima do duque.

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Neste momento Patrick entrava na sala a gritar:
- Milorde, uma carta de Frana!
- De Frana! - exclamou Buckingham, esquecendo tudo e pensando na pessoa que lhe enviava aquela carta.
Felton aproveitou o momento e enterrou-lhe a faca at ao cabo na ilharga.
- Ah, traidor! - gritou Buckingham. - Mataste-me...
- Assassnio! - gritou Patrick.
Felton olhou em redor para fugir e, vendo a porta livre, correu ao quarto contguo, que era o quarto onde esperavam, como dissemos, os deputados de La Rochelle, 
atravessou-o a correr e precipitou-se em direco  escada; mas, no primeiro degrau, encontrou lorde de Winter que, vendo-o plido, alucinado, lvido, manchado de 
sangue na mo e no rosto, se lanou ao pescoo dele, exclamando:
- Eu sabia, eu tinha adivinhado e cheguei um minuto mais tarde! Oh, como sou infeliz!
Felton no ofereceu resistncia; lorde de Winter entregou-o aos guardas, que o conduziram, aguardando novas ordens, a um pequeno terrao sobranceiro ao mar, e correu 
ao gabinete de Buckingham.
Ao ouvir o grito do duque e o apelo de Patrick, o homem que Felton encontrara na antecmara precipitou-se no gabinete.
Encontrou o duque deitado num sof, apertando a ferida com a mo crispada.
- La Porte - disse o duque com voz agonizante -, La Porte, vens da sua parte?
- Sim, Monsenhor - respondeu o fiel servidor de Ana de ustria -, mas talvez tarde de mais.
- Silncio, La Porte! Poderiam ouvir-vos; Patrick, no deixes entrar ningum. Oh! No saberei o que ela manda dizer-me! Meu Deus, estou a morrer!
E o duque desmaiou.
Contudo, lorde de Winter, os deputados, os chefes da expedio, os oficiais da casa de Buckingham tinham irrompido no quarto; por toda a parte se ouviam gritos de 
desespero. A notcia que enchia o palcio de queixumes e gemidos em breve se estendeu por toda a parte e se espalhou na cidade.
Um tiro de canho anunciou que acabava de passar-se algo de novo e inesperado.
Lorde de Winter arrancava os cabelos.
- Um minuto mais tarde! - exclamava. - Um minuto mais tarde! Oh, meu Deus, meu Deus, que desgraa!
Com efeito, tinham vindo dizer-lhe s sete da manh que uma escada de corda flutuava numa das janelas do castelo; imediatamente correra ao quarto de Milady, encontrara-o 
vazio, com a janela aberta e as grades serradas, lembrara-se da recomendao verbal que d'Artagnan lhe transmitira atravs do seu mensageiro, receando pelo duque, 
e, correndo  cavalaria,

140


sem perder tempo mandando selar o cavalo, saltara para cima do primeiro que vira, correra a toda a brida e, saltando do cavalo no ptio, subira precipitadamente 
a escada e, no primeiro degrau, como j dissemos, encontrara Felton.
Todavia, o duque no estava morto: veio a si, reabriu os olhos, e a esperana voltou a brilhar em todos os coraes.
- Meus senhores - disse ele -, deixai-me s com Patrick e La Porte.
- Ah! Sois vs, De Winter! Enviastes-me esta manh um doido singular, vede o estado em que me ps!
- Oh! Milorde! - exclamou o baro. - Nunca me consolarei.
- E fareis mal, meu caro De Winter - disse Buckingham e, estendendo-lhe a mo -, no conheo nenhum homem que merea que outro homem passe a vida a lament-lo; 
mas, por favor, deixa-nos.
O baro saiu a soluar.
No gabinete s ficaram o duque ferido, La Porte e Patrick.
Procuravam um mdico, que no conseguiam encontrar.
- Vivereis, Milorde, vivereis - repetia, de joelhos diante do sof do duque, o mensageiro de Ana de ustria.
- Que escrevia ela? - disse fracamente Buckingham, cheio de sangue e dominando dores atrozes para falar da sua amada. - Que me escrevia ela? L-me a sua carta.
- Oh, Milorde! - exclamou La Porte.
- Obedece, La Porte; no vs que no tenho tempo a perder?
La Porte rasgou o selo e ps o pergaminho sob os olhos do duque; mas foi em vo que Buckingham tentou distinguir a letra.
- L - disse ele -, l que eu j no vejo. L! Pois talvez em breve eu j no oua e morrerei sem saber o que ela me escreve.
La Porte deixou de levantar dificuldades e leu:


Milorde,

Porque, desde que me conheo, sofri por vs e para vs, rogo-vos, se o meu repouso vos causa cuidados que interrompais os grandes armamentos que fazeis contra a 
Frana e que cessais uma guerra de que se diz em voz alta que a religio  a causa visvel, e em voz baixa que o amor que me dedicais  a causa oculta. Essa guerra 
pode no s causar grandes catstrofes  Frana e  Inglaterra mas tambm a vs, Milorde, desgraas de que eu jamais me consolaria.
Velai pela vossa vida, que est ameaada e que me ser querida a partir do momento em que eu deixar de ser obrigada a ver em vs um inimigo. Vossa afeioada,

ANA.


Buckingham chamou a si toda a vida que lhe restava para escutar esta leitura; depois, quando terminou, como se tivesse encontrado na carta um amargo desapontamento:
- No tendes mais nada a dizer-me de viva voz, La Porte? - perguntou.

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- Sim, Monsenhor. A rainha encarregara-me de velar por vs, pois fora avisada de que vos queriam assassinar.
- E  tudo,  tudo? - perguntou Buckingham, com impacincia.
- Encarregara-me ainda de vos dizer que continuava a amar-vos.
- Ah! - exclamou Buckingham. - Deus seja louvado! Nesse caso a minha morte no ser para ela a morte dum estranho!...
La Porte desatou a chorar.
- Patrick - disse o duque -, trazei-me o cofre onde estavam as agulhetas de diamantes.
Patrick trouxe o objecto que lhe pediam, e La Porte reconheceu-o por ter pertencido  rainha.
- Agora o saquinho de cetim branco com as suas iniciais bordadas a prolas.
Mais uma vez Patrick obedeceu.
- Tomai, La Porte - disse Buckingham -, eis as nicas provas da sua afeio que tenho, este cofre de prata e estas cartas. Entregai-as a Sua Majestade e, como ltima 
lembrana... - procurou em redor algum objecto precioso - ... juntareis...
- Continuou a procurar, mas o seu olhar enevoado pela morte s encontrou a faca cada das mos de Felton, ainda quente do sangue vermelho espalhado na lmina.
- Juntareis esta faca - disse o duque, apertando a mo de La Porte. Ainda pde meter o saquinho no fundo do cofre de prata, deixou cair dentro deste a faca, fazendo 
sinal a La Porte que j no podia falar; depois, numa derradeira convulso que desta vez j no tinha foras para combater, escorregou do sof para o cho.
Patrick deu um grande grito.
Buckingham quis sorrir pela ltima vez, mas a morte parou-lhe o pensamento, que ficou gravado na sua fronte como um derradeiro beijo de amor.
Neste momento chegou o mdico do duque, desorientado; j estava a bordo do navio almirante, onde fora preciso ir busc-lo.
Aproximou-se do duque, pegou-lhe na mo, conservou-a um instante na sua e deixou-a cair.
- Tudo  intil - disse -, est morto.
- Morto! Morto! - exclamou Patrick.
A este grito toda a multido entrou na sala e por toda a parte foi a consternao e o tumulto.
Assim que lorde de Winter viu Buckingham morto, correu a Felton que os soldados continuavam a guardar no terrao do palcio.
- Miservel! - disse ele ao jovem que, desde a morte de Buckingham, recuperara a calma e o sangue-frio que nunca mais o abandonariam. - Miservel! Que fizeste?
- Vinguei-me - disse ele.
- Tu! - disse o baro. - Diz antes que serviste de instrumento a essa mulher maldita; mas juro-te que este crime ser o seu ltimo crime.
- No sei o que quereis dizer - respondeu tranquilamente Felton -, e ignoro de quem falais, Milorde; matei o Sr. de Buckingham porque vos recusou duas vezes a vs 
mesmo nomear-me capito; puni-o pela sua injustia e nada mais.
De Winter, estupefacto, olhava as pessoas que amarravam Felton, e no sabia o que pensar daquela insensibilidade.
Contudo uma nica coisa escurecia a fronte pura de Felton. A cada rudo que ouvia, o ingnuo puritano julgava reconhecer os passos e a voz de Milady, vindo atirar-se 
aos seus braos para se acusar e se perder com ele.
De sbito estremeceu, o seu olhar fixou-se num ponto do mar que o terrao onde se achava dominava inteiramente; com o olhar de guia do marinheiro reconhecera, onde 
outro s veria uma gaivota a baloiar nas ondas, a vela do sloop que se dirigia para as costas da Frana.
Ps-se plido, levou a mo ao peito onde o seu corao rebentava e compreendeu toda a traio.
- Um ltimo favor, Milorde - disse ele ao baro.
- O qu? - perguntou este.
- Que horas so?
O baro tirou o relgio.
- Nove horas menos dez - disse ele.
Milady antecipara a partida uma hora e meia; assim que ouvira o tiro de canho que anunciava o fatal acontecimento, dera ordem de iar a ncora.
A embarcao vogava sob um cu azul a grande distncia da costa.
- Deus assim o quis - disse Felton com a resignao do fantico, mas sem poder desprender os olhos do esquife a bordo do qual julgava certamente distinguir o branco 
fantasma daquela a quem a sua vida ia ser sacrificada.
De Winter seguiu o seu olhar, interrogou o seu sofrimento e adivinhou tudo.
- Que sejas punido primeiro s, miservel - disse lorde de Winter a Felton, que se deixava arrastar com os olhos postos no mar -, mas juro-te pela memria de meu 
irmo que eu tanto amava que a tua cmplice no est salva.
Felton baixou a cabea sem pronunciar uma palavra. Quanto a De Winter, desceu rapidamente a escada e dirigiu-se ao porto.

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      LX - EM FRANA


      O primeiro temor do rei de Inglaterra, Carlos I, ao saber desta morte, foi que uma notcia to terrvel desencorajasse os rocheleses; tentou, diz Richelieu 
nas suas memrias, esconder-lhes o facto enquanto foi possvel, mandando fechar os portos do reino, e mandando que tivessem o maior cuidado em no deixar sair nenhum 
barco at que a armada que Buckingham preparava tivesse partido, encarregando-se pessoalmente de tomar conta da partida,  falta de Buckingham.
Levou at a severidade desta ordem ao ponto de reter em Inglaterra o embaixador da Dinamarca, que se demitira, e o embaixador ordinrio da Holanda que devia conduzir 
ao porto de Flessingue os navios da ndia que Carlos I mandara restituir s Provncias Unidas.
Mas, como s se lembrou de dar esta ordem cinco horas depois do acontecimento, ou seja, s duas da tarde, dois navios j tinham sado do porto: um levando, como 
sabemos, Milady, a qual j desconfiava do acontecimento e se certificou ao ver o pavilho negro arvorado no mastro do navio almirante.
Quanto ao segundo navio, diremos mais tarde quem transportava e como partiu.
De resto, entretanto, no se passou nada de novo no acampamento de La Rochelle; apenas o rei, que se aborrecia bastante, mas talvez um pouco mais no acampamento 
do que noutros stios, resolveu ir incgnito passar as festas de So Lus em Saint-Germain e pediu ao cardeal que lhe mandasse preparar uma escolta de vinte mosqueteiros 
apenas. O cardeal, por vezes contagiado pelo tdio do rei, concedeu com o maior prazer esta folga ao seu rgio tenente, o qual prometeu regressar por volta do dia 
15 de Setembro.
O Sr. de Trville, prevenido por Sua Eminncia, fez as malas e, como sabia do vivo desejo e at da necessidade imperiosa que os seus amigos tinham de voltar a Paris, 
embora sem saber porqu, designou-os para fazerem parte da escolta.
Os quatro jovens souberam da notcia um quarto de hora depois do Sr. de Trville, pois foram os primeiros a quem este a comunicou. Foi ento que d'Artagnan apreciou 
o favor que o cardeal lhe fizera, tornando-o finalmente mosqueteiro; sem esta circunstncia, seria obrigado a ficar no acampamento enquanto os seus companheiros 
partiam.
Veremos mais tarde que a causa desta impacincia de ir a Paris era o perigo que a Sr.a Bonacieux devia correr, encontrando-se no convento de Bthune com Milady, 
a sua inimiga mortal. Assim, como dissemos, Aramis escrevera imediatamente a Marie Michon, a roupeira de Tours que tinha to boas relaes que conseguiu que a rainha 
desse autorizao  Sr.a Bonacieux para sair do convento e retirar-se quer na Lorena quer na Blgica.

144


A resposta no se fizera esperar e, oito ou dez dias depois, Aramis recebera a seguinte carta:


Meu caro primo,

Eis a autorizao da minha irm para retirar a nossa criadinha do convento de Bthune, cujos ares vos parecem prejudiciais  sua sade. Minha irm envia-vos esta 
autorizao com grande prazer, pois estima muito a jovem a quem espera ser til mais tarde.

Um abrao.

MARIE MICHON.


Com esta carta vinha uma autorizao redigida nos seguintes termos:


A superiora do convento de Bthune entregar nas mos da pessoa que lhe trouxer este bilhete a novia que entrara para o seu convento sob a minha recomendao e 
proteco.

Louvre, 10 de Agosto de 1628.

ANA.


Compreende-se como estas relaes de parentesco entre Aramis e uma roupeira que tratava a rainha por irm tinham alegrado os jovens; mas Aramis, depois de ter corado 
duas ou trs vezes at  raiz dos cabelos com os gracejos de Porthos, pedira aos amigos que no voltassem a falar no assunto, declarando que se lhe dissessem mais 
uma palavra, deixaria de usar a prima como intermediria naquele gnero de questes.
Portanto, os quatro mosqueteiros nunca mais falaram de Marie Michon. De resto, eles sabiam o que queriam: a ordem de tirar a Sr.a de Bonacieux do convento das Carmelitas 
de Bthune.  verdade que esta ordem no lhes servia de grande coisa enquanto estivessem no acampamento de La Rochelle, ou seja, na outra extremidade da Frana; 
portanto, d'Artagnan ia pedir uma folga ao Sr. de Trville, confiando-lhe muito simplesmente a importncia da sua partida, quando lhe foi transmitida a notcia, 
bem como aos seus trs companheiros, de que o rei ia partir para Paris com uma escolta de vinte mosqueteiros, e que eles faziam parte da escolta.
Grande foi a alegria. Enviaram os criados  frente com as bagagens e partiram no dia 16 de manh.
O cardeal conduziu Sua Majestade de Surgres a Mauz e ali o rei e o seu ministro despediram-se um do outro com grandes demonstraes de amizade.
Contudo o rei, que procurava uma distraco e caminhava o mais depressa possvel pois desejava chegar a Paris no dia 23, parava de vez em quando para se dedicar 
a um passatempo

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chamado voler la pie, cujo interesse lhe fora inspirado em tempos por De Luynes e pelo qual o rei conservava sempre uma grande predileco. Quando isso acontecia, 
dezasseis dos vinte mosqueteiros regozijavam-se com a diverso mas quatro resmungavam o mais que podiam. D'Artagnan sobretudo sentia sempre os ouvidos a zumbir, 
o que Porthos explicava assim:
- Uma grande dama ensinou-me que isso quer dizer que esto a falar em vs.
Enfim a escolta atravessou Paris no dia 23  noite; o rei agradeceu ao Sr. de Trville e permitiu-lhe que distribusse algumas folgas de quatro dias, desde que nenhum 
dos favorecidos comparecesse num lugar pblico, sob pena de irem parar  Bastilha.
Como se pode calcular, as primeiras quatro folgas foram concedidas aos nossos quatro amigos. Mais ainda, Athos obteve do Sr. de Trville seis dias em vez de quatro 
e fez acrescentar duas noites a estes quatro dias, pois partiram no dia 24 s cinco da tarde e, ainda por boa vontade, o Sr. de Trville prolongou a folga at ao 
dia 25 de manh.
- Eh, meu Deus - dizia d'Artagnan que, como sabemos, nunca desconfiava de nada -, parece-me que nos embaraamos muito com uma coisa bastante simples: daqui a dois 
dias, dando cabo de dois ou trs cavalos (pouco importa, eu tenho dinheiro), estou em Bthune, entrego a carta da rainha  superiora, e levo o querido tesouro que 
vou buscar, no para a Lorena nem para a Blgica, mas para Paris, onde ficar melhor escondido, sobretudo enquanto o Sr. Cardeal estiver em La Rochelle. Depois, 
quando regressarmos da campanha, pois bem!, meio por proteco de sua prima, meio por causa do que fizemos pessoalmente por ela, obteremos da rainha o que queremos. 
Ficai pois aqui, no vos canseis inutilmente; eu e Planchet somos suficientes para uma expedio to simples.
Athos respondeu-lhe tranquilamente:
- Ns tambm temos dinheiro, pois eu ainda no bebi o resto do diamante, e Porthos e Aramis no o comeram todo. Portanto, damos cabo de quatro cavalos como damos 
cabo de um. Mas pensai, d'Artagnan - acrescentou com uma voz to sombria que causou um arrepio ao rapaz -, pensai que Bthune  uma cidade onde o cardeal marcou 
encontro com uma mulher que, onde quer que v, semeia a desgraa. Se s tivsseis que lidar com quatro homens, d'Artagnan, eu deixava-vos ir sozinho; mas tendes 
que enfrentar essa mulher, vamos os quatro e Deus queira que, com os nossos quatro criados, sejamos suficientes!
- Assustais-me, Athos - exclamou d'Artagnan -, que temeis?
- Tudo! - respondeu Athos.
D'Artagnan examinou os rostos dos seus companheiros que, como o de Athos, tinham estampada uma profunda inquietao, e continuaram o seu caminho a galope, mas sem 
acrescentarem uma nica palavra.
No dia 25  noite, ao entrarem em Arras e quando d'Artagnan acabava de apear-se na estalagem de Herse d'Or para beber um copo de vinho, um cavaleiro saiu do ptio 
da posta, onde acabava de trocar de montada, tomando a galope e com um cavalo fresco a estrada para Paris.

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No momento em que saa do porto para a rua, o vento abriu a capa que o envolvia, embora fosse no ms de Agosto, e tirou-lhe o chapu, que o viajante segurou com 
a mo no momento em que j no o tinha na cabea, enterrando-o  pressa.
D'Artagnan, que tinha os olhos pregados no homem, ps-se muito plido e deixou cair o copo.
- Que tendes, senhor? - disse Planchet. - Oh! Acorrei, senhores, o meu amo sente-se mal!
Os trs amigos acorreram e encontraram d'Artagnan que, em vez de se sentir mal, corria ao seu cavalo. Detiveram-no  porta.
- Ento! Onde vais assim? - gritou-lhe Athos.
-  ele! - exclamou d'Artagnan plido de clera e com a testa coberta de suor. -  ele! Deixai-me alcan-lo!
- Mas ele quem? - perguntou Athos.
- Aquele homem.
- Qual homem?
- Aquele homem maldito, o meu gnio mau, que vi sempre que alguma desgraa me ameaava; aquele que acompanhava a horrvel mulher quando a vi pela primeira vez, aquele 
que eu procurava quando provoquei Athos, aquele que vi na manh do dia em que a Sr.a Bonacieux fora raptada! O homem de Meung, enfim! Eu vi-o,  ele! Reconheci-o 
quando o vento lhe entreabriu a capa.
- Diabo! - disse Athos, sonhador.
- A cavalo, meus senhores, a cavalo. Vamos persegui-lo e apanh-lo-emos.
- Meu caro - disse Aramis -, lembrai-vos de que ele vai na direco oposta  nossa, que tem um cavalo fresco e que os nossos cavalos esto fatigados, que por conseguinte 
daremos cabo dos nossos cavalos sem termos sequer a hiptese de o alcanar.
- Eh, senhor! - exclamou um moo de estrebaria correndo atrs do desconhecido. - Eh, senhor! Caiu-vos um papel da capa! Eh, senhor! Eh!
- Meu amigo - disse d'Artagnan -, meia pistola por esse papel!
- Apre, senhor, com todo o prazer! Aqui o tendes!
O moo de estrebaria, satisfeito com o seu dia, entrou no ptio da estalagem; d'Artagnan desdobrou o papel.
- Ento? - perguntaram os seus amigos, rodeando-o.
- S uma palavra! - disse d'Artagnan.
- Sim - disse Aramis -, mas  o nome duma cidade ,ou duma aldeia.
- "Armentires" - leu Porthos. - Armentires, no conheo!
- E este nome duma aldeia ou duma cidade foi escrito pelo seu punho! - exclamou Athos.
- V, v, guardemos cuidadosamente este papel - disse d'Artagnan -, talvez eu no tenha perdido a minha ltima pistola. A cavalo, meus amigos, a cavalo!
E os quatro amigos lanaram-se a galope na estrada de Bthune.

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      LXI - O CONVENTO DAS CARMELITAS DE BTHUNE


      Os grandes criminosos tm uma espcie de predestinao que lhes permite superar todos os obstculos, que lhes permite escapar a todos os perigos, at ao momento 
que a Providncia, cansada, marcou como o escolho da sua mpia fortuna.
Milady era assim; passou atravs dos cruzadores das duas naes e chegou a Bolonha sem nenhum acidente.
Ao desembarcar em Portsmouth, Milady era uma inglesa que as perseguies da Frana expulsavam de La Rochelle; ao desembarcar em Bolonha, aps dois dias de travessia, 
fez-se passar por uma francesa que os ingleses inquietavam em Portsmouth, devido ao dio que haviam concebido contra a Frana.
De resto, Milady tinha o mais eficaz dos passaportes: a sua beleza, o seu ar importante e a generosidade com que distribua as pistolas. Libertando-se das formalidades 
da praxe graas a um sorriso afvel e s maneiras galantes dum velho governador do porto, que lhe beijou a mo, s ficou em Bolonha o tempo necessrio para enviar 
uma carta concebida nos seguintes termos:


A sua Eminncia Monsenhor Cardeal de Richelieu, no seu acampamento diante de La Rochelle.

Monsenhor, que Vossa Eminncia fique descansada; Sua Graa, o duque de Buckingham, no partir para Frana. Bolonha, 25  noite.

MILADY DE + + +.

P. S. - Segundo o desejo de Vossa Eminncia dirijo-me ao convento das Carmelitas de Bthune onde aguardarei as suas ordens.


Efectivamente, na mesma noite, Milady ps-se a caminho; a noite surpreendeu-a; parou e pernoitou numa estalagem; depois, no dia seguinte s cinco horas da manh, 
partiu e, trs horas depois, entrou em Bthune.
Pediu que lhe indicassem o convento das Carmelitas, onde imediatamente entrou.
A superiora veio ao seu encontro; Milady mostrou-lhe a ordem do cardeal, e a abadessa mandou que lhe dessem um quarto e que lhe servissem o almoo.
Todo o passado j se tinha esvanecido para esta mulher que, de olhos postos no futuro, s via a fortuna que lhe reservava o cardeal, a quem servira com tanto sucesso 
e sem que o seu nome se envolvesse naquele caso sangrento.

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As paixes sempre renovadas que a consumiam davam  sua vida a aparncia dessas nuvens que voam no cu, reflectindo ora o azul, ora o fogo, ora o negro-opaco da 
tempestade, e que s deixam na terra, como vestgios, a devastao e a morte.
Depois do almoo, a abadessa veio visit-la; h poucas distraces no claustro, e a bondosa superiora tinha pressa de conhecer a sua nova hspede.
Milady queria agradar  superiora; ora, isto era fcil para esta mulher realmente superior; tentou ser amvel, foi encantadora e seduziu a superiora com a sua conversa 
to variada e com os seus encantos.
A abadessa, que pertencia  nobreza, apreciava sobretudo as histrias da corte, que to raramente chegam s extremidades do reino e que, sobretudo, tm tanta dificuldade 
em transpor os muros dos conventos, no limiar dos quais vm expirar os rumores do mundo.
Milady, pelo contrrio, estava muito ao corrente de todas as intrigas aristocrticas, no meio das quais vivera constantemente durante cinco ou seis anos, e portanto 
ps-se a entreter a boa da abadessa com prticas mundanas da corte de Frana, misturadas com as devoes excessivas do rei, fez-lhe a crnica escandalosa dos senhores 
e das damas da corte, que a abadessa conhecia perfeitamente de nome, tocou ao de leve os amores da rainha e de Buckingham, falando muito para ouvir falar um pouco.
Mas a abadessa contentou-se em falar e sorrir, sem responder. Contudo, como Milady via que este gnero de histrias a divertia bastante, continuou, mas fez a conversa 
incidir no cardeal.
Porm estava muito embaraada, no sabia se a abadessa era pelo rei ou pelo cardeal; manteve-se num meio termo prudente, mas a abadessa, por seu lado, manteve-se 
numa reserva ainda mais prudente, contentando-se em inclinar profundamente a cabea sempre que a viajante pronunciava o nome de Sua Eminncia.
Milady comeava a crer que ia aborrecer-se muito naquele convento e, portanto, resolveu arriscar qualquer coisa para saber com que podia contar. Querendo ver at 
onde ia a discrio da abadessa, comeou a dizer mal do cardeal, primeiro de maneira muito dissimulada e depois muito circunstanciada, contando os amores do ministro 
com M.me d'Aiguillon, com Marion de Lorme e outras mulheres galantes.
A abadessa escutou com mais ateno, animou-se pouco a pouco e sorriu.
- Bom - disse Milady -, ela interessa-se pela minha conversa; se  cardinalista, pelo menos no  fantica.
Passou ento s perseguies exercidas pelo cardeal sobre os seus inimigos. A abadessa contentou-se em persignar-se, sem aprovar nem desaprovar.
Isto confirmou a opinio de Milady de que a religiosa era mais a favor do rei que do cardeal. Milady continuou, forando cada vez mais o tom.

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- Sou muito ignorante de todos esses assuntos - disse por fim a abadessa -, mas por muito afastadas que estejamos da corte e dos interesses do mundo em que estamos, 
temos exemplos muito tristes daquilo que contais, e uma das nossas hspedes sofreu muito com as vinganas e as perseguies do Sr. Cardeal.
- Uma das vossas hspedes - disse Milady -, oh, meu Deus! Coitada, tenho muita pena.
- E tendes razo, pois  de ter pena: priso, ameaas, maus tratos, tudo sofreu. Mas, afinal - continuou a abadessa -, O Sr. Cardeal talvez tivesse motivos plausveis 
para agir assim e, embora ela parea um anjo, no se deve julgar as pessoas pela cara.
"Bom", disse Milady para consigo, "quem sabe! Talvez v descobrir alguma coisa por aqui, estou com sorte."
E tentou dar ao rosto uma expresso de perfeita candura.
- Infelizmente - disse Milady -, bem sei. Diz-se que no devemos crer nas fisionomias, mas, se no acreditamos na mais bela obra do Senhor, ento no que havemos 
de acreditar? Eu talvez me engane toda a vida, mas hei-de fiar-me sempre numa pessoa cujo rosto me inspire simpatia.
- Serieis, pois, tentada a crer - disse a abadessa - que essa jovem est inocente?
- O Sr. Cardeal no castiga apenas os crimes - disse ela. - H certas virtudes que persegue mais severamente que certas proezas.
- Permiti-me, minha senhora, exprimir a minha surpresa - disse a abadessa.
- E que vos surpreende? - disse ingenuamente Milady.
- A vossa linguagem.
- Que vos espanta nesta linguagem? - perguntou Milady sorrindo.
- Sois amiga do cardeal, pois  ele que vos envia, e contudo...
- E contudo digo mal dele - disse Milady, concluindo o pensamento da superiora.
- Pelo menos no dizeis bem.
-  que no sou sua amiga - disse ela suspirando -, mas sua vtima.
- Mas a carta atravs da qual ele vos recomenda...
-  uma ordem para que eu me mantenha numa espcie de priso da qual algum dos seus satlites me vir tirar.
- Mas por que no fugistes?
- Para onde iria? Julgais que existe algum lugar na terra que o cardeal no possa alcanar, se quiser dar-se ao trabalho de estender a mo? Se eu fosse um homem, 
ainda seria possvel, mas uma mulher... Que h-de uma mulher fazer? Acaso a jovem hspede que aqui tendes tentou fugir?
-  certo que no, mas o seu caso  outro, creio que algum amor a retm em Frana.
- Ento - disse Milady com um suspiro -, se ela ama, no  infeliz de todo.

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- Sendo assim - disse a abadessa, contemplando Milady com crescente interesse -, tenho diante de mim mais uma perseguida?
- Infelizmente - respondeu Milady.
A abadessa fitou Milady por um instante, com inquietao, como se lhe ocorresse um novo pensamento.
- No sois inimiga da nossa santa f? - disse ela, balbuciando.
- Eu - exclamou Milady -, eu protestante! Oh, no! Deus, que nos est a ouvir,  testemunha de que eu sou, pelo contrrio, uma catlica fervorosa.
- Ento, minha senhora - disse a abadessa, sorrindo -, ficai descansada; a casa em que vos encontrais no ser uma priso muito dura e faremos o que for preciso 
para vos fazer estimar o cativeiro. Mais ainda, encontrareis aqui essa jovem que deve ser perseguida por causa dalguma intriga da corte;  amvel e graciosa.
- Como se chama?
- Foi-me recomendada por uma pessoa de posio muito elevada sob o nome de Ketty. No procurei saber o outro nome.
- Ketty! - exclamou Milady. - O qu! Tendes a certeza?...
- Que se chama assim? Sim, minha senhora. Acaso a conheceis? Milady sorriu a si mesma e  ideia de que a jovem podia ser a sua
antiga camareira. A lembrana da jovem misturava-se com uma lembrana de clera e um desejo de vingana agitara os traos de Milady, que de resto logo retomara a 
expresso calma e benevolente que esta mulher de cem rostos lhe fizera perder momentaneamente.
- E quando poderei ver essa jovem dama, pela qual j sinto uma grande simpatia? - perguntou Milady.
- Esta noite - disse a abadessa -, ou mesmo durante o dia. Mas viajais h quatro dias, vs mesma me disseste; esta manh levantaste-vos s cinco horas, deveis precisar 
de repouso. Deitai-vos e dormi.  hora do jantar acordar-vos-emos.
Embora Milady pudesse passar perfeitamente sem dormir, por causa de todas as excitaes que uma nova aventura causava no corao vido de intrigas, no deixou de 
aceitar a oferta da superiora; durante doze ou quinze dias passara por tantas emoes diversas que, se o seu corpo de ferro ainda podia aguentar o cansao, a sua 
alma precisava de repouso.
Por conseguinte, despediu-se da abadessa e deitou-se, docemente embalada pelas ideias de vingana s quais aliara naturalmente o nome de Ketty. Recordava a promessa 
ilimitada que o cardeal lhe fizera, se realizasse a sua empresa. Realizara-a e, portanto, poderia vingar-se de d'Artagnan.
S uma coisa assustava Milady: a lembrana do marido, o conde de La Fere, que julgara morto ou pelo menos expatriado, e que reencontrava em Athos, o melhor amigo 
de d'Artagnan.
Mas tambm, se era amigo de d'Artagnan, devia t-lo ajudado em todas as manobras com as quais a rainha fizera fracassar os projectos de Sua Eminncia; se era amigo 
de d'Artagnan,

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era inimigo do cardeal; e ela conseguiria envolv-lo na sua vingana, nas pregas da qual contava sufocar o jovem mosqueteiro.
Todas estas esperanas eram doces pensamentos para Milady; assim, embalada por elas, depressa adormeceu.
Despertou-a uma voz doce aos ps da cama. Milady abriu os olhos e viu a abadessa acompanhada duma jovem de cabelos loiros, tez delicada, que fixava nela um olhar 
cheio duma benevolente curiosidade.
O rosto desta jovem era totalmente desconhecido para ela; as duas examinaram-se com uma ateno escrupulosa, trocando os cumprimentos habituais; as duas eram bastante 
belas, mas de uma beleza totalmente diferente. Contudo Milady sorriu, reconhecendo que levava a palma  jovem quanto  altivez e s maneiras aristocrticas.  verdade 
que o hbito de novia que a jovem envergava no era muito vantajoso para uma luta desse gnero.
A abadessa apresentou-as uma  outra; depois, cumprida esta formalidade, como os seus deveres a chamavam  igreja, deixou as duas jovens sozinhas.
Vendo que Milady estava deitada, a novia quis seguir a superiora, mas Milady reteve-a.
- Como, minha senhora - disse-lhe ela -, mal vos vi e j quereis privar-me da vossa presena, com a qual confesso que contava um pouco para o tempo que tenho de 
passar aqui?
- No, minha senhora - respondeu a novia -, apenas receava que o momento fosse mal escolhido. Dormeis e estais cansada.
- Muito bem - disse Milady. - Que podem desejar as pessoas que dormem? Um despertar agradvel. Foi o que me proporcionastes; deixai-me goz-lo  minha vontade.
E, pegando-lhe na mo, puxou-a para a poltrona que estava junto da cama.
A novia sentou-se.
- Meu Deus! - disse ela. - Como sou infeliz! H seis meses que estou aqui, sem a mnima distraco, vs chegais, a vossa presena ia ser uma companhia encantadora 
para mim, e eis que muito provavelmente vou deixar o convento dum momento para o outro!
- Como! - disse Milady. - Sais em breve?
- Assim o espero, pelo menos - disse a novia com uma expresso de alegria que no procurava disfarar.
- Creio que sofrestes por causa do cardeal - disse Milady -, seria mais um motivo de simpatia entre ns.
- Ento o que a nossa boa me me disse  verdade? Tambm sois vtima do malvado do cardeal.
- Chiu! - disse Milady. - Mesmo aqui no falemos nele dessa maneira; todas as minhas desgraas foram causadas por eu ter dito mais ou menos o que acabais de dizer 
diante duma mulher que tinha por amiga e que me traiu. Vs tambm sois vtima duma traio?
- No - disse a novia -, mas da minha dedicao a uma mulher que amava, pela qual teria dado e ainda daria a vida.

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- E que vos abandonou!
- Fui suficientemente injusta para crer que sim, mas h dois ou trs dias tive a prova do contrrio, e dou graas a Deus; muito me custaria crer que ela me tinha 
esquecido. Mas vs, minha senhora - continuou a novia -, parece-me que sois livre e que, se quissseis, podereis fugir.
- Para onde ir, sem amigos, sem dinheiro, numa parte da Frana que no conheo, onde nunca vim?...
- Oh! - exclamou a novia. - Tereis amigos onde quer que vos mostreis, pareceis to boa e sois to bela!
- E contudo - replicou Milady, adoando o seu sorriso de modo a dar-lhe uma expresso anglica -, estou s e perseguida.
- Escutai - disse a novia -,  preciso ter esperana; h sempre um momento em que o bem que fizemos defende a nossa causa diante de Deus. e talvez seja uma sorte 
para vs, por muito humilde e destituda de poder que eu seja, o facto de me terdes encontrado, pois, se eu sair daqui, ora bem, terei alguns amigos poderosos que, 
depois de ter batalhado por minha causa, tambm podero batalhar por vossa causa.
- Oh! Quando vos disse que estava s - disse Milady, esperando levar a novia a falar, falando de si mesma -, no quer dizer que tambm no tenha alguns conhecimentos 
elevados, mas estes conhecimentos tambm tremem diante do cardeal, a prpria rainha no ousa defender ningum contra o terrvel ministro; tenho provas de que Sua 
Majestade, apesar do seu excelente corao, foi obrigada mais do que uma vez a abandonar  clera de Sua Eminncia as pessoas que a tinham servido.
- Crede, minha senhora, que pode parecer que a rainha abandonou essas pessoas, mas no se deve acreditar nas aparncias: quanto mais perseguidas so, mais a rainha 
pensa nelas, e muitas vezes, no momento em que menos esperam, tm a prova duma boa lembrana.
- Ai de mim! - disse Milady. - Eu creio, a rainha  to boa.
- Oh! Ento conheceis a bela e nobre rainha, para falardes dela assim! - exclamou a novia com entusiasmo.
- Quer dizer - replicou Milady, encurralada -, a ela, pessoalmente, no tenho a honra de conhecer, mas conheo muitos dos seus amigos mais ntimos. Conheo o Sr. 
de Putange, conheci em Inglaterra o Sr. Dujart e conheo o Sr. de Trville.
- O Sr. de Trville! - exclamou a novia. - Conheceis o Sr. de Trville!
- Sim, perfeitamente. Muito bem at.
- O capito dos mosqueteiros do rei?
- O capito dos mosqueteiros do rei.
- Oh! Mas ides ver que daqui a pouco seremos velhas conhecidas, quase amigas. Se conheceis o Sr. de Trville, deveis ter ido a sua casa.
- Muitas vezes - disse Milady que, tendo entrado neste caminho e vendo que a mentira era bem sucedida queria lev-la at ao fim.
- Em sua casa deveis ter visto alguns dos seus mosqueteiros.

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- Todos os que costuma receber - respondeu Milady, para quem a conversa comeava a apresentar um interesse real.
- Dizei-me o nome dalguns dos que conheceis e vereis que so meus amigos.
- Mas - disse Milady embaraada -, conheo o Sr. de Louvigny, o Sr. de Courtivron, o Sr. de Frussac.
A novia deixou-a falar, depois vendo que se calava:
- No conheceis - disse ela - um gentil-homem chamado Athos?
Milady ps-se to plida como os lenis da cama em que estava deitada e, por muito senhora de si que fosse, no conseguiu deixar de dar um grito, agarrando a mo 
da sua interlocutora e devorando-a com os olhos.
- O qu! Que tendes? Oh, meu Deus! - perguntou a pobre mulher. - Terei dito alguma coisa que vos ferisse?
- No, mas esse nome impressionou-me porque eu tambm conheci esse gentil-homem e parece-me estranho encontrar algum que o conhea bem.
- Oh, sim! Muito bem, muito bem! No s a ele mas tambm aos seus amigos, os Srs. Porthos e Aramis!
- Realmente! Tambm os conheo! - exclamou Milady, sentindo o frio penetrar-lhe no corao.
- Muito bem! Se os conheceis, deveis saber que so bons e francos companheiros; por que no vos dirigis a eles, se precisais de apoio?
- Quer dizer - balbuciou Milady -, no estou realmente ligada a nenhum deles; conheo-os por ter ouvido falar muito neles a um dos seus amigos, o Sr. d'Artagnan.
- Conheceis o Sr. d'Artagnan! - exclamou a novia por sua vez, agarrando na mo de Milady e devorando-a com os olhos.
Depois, notando a estranha expresso do olhar de Milady:
- Perdo, minha senhora, a que ttulo o conheceis?
- Mas - respondeu Milady embaraada - a ttulo de amigo.
- Enganais-me, minha senhora - disse a novia -, fostes sua amante.
- Vs  que fostes! - exclamou por sua vez Milady.
- Eu! - disse a novia.
- Sim, vs; agora conheo-vos: sois a Sr.a Bonacieux.
A jovem recuou, cheia de surpresa e de terror.
- Oh! No negueis! Respondei - continuou Milady.
- Pois muito bem,  verdade! Eu amo-o - disse a novia. - Somos rivais?
O rosto de Milady iluminou-se com um fogo to selvagem que, em qualquer outra circunstncia, a Sr.a Bonacieux teria fugido de pavor; porm estava entregue ao seu 
cime.
- Dizei ento, minha senhora - continuou a Sr.a Bonacieux com uma energia de que parecia incapaz -, fostes ou sois sua amante?
- Oh, no! - exclamou Milady com uma entoao que no admitia dvidas. - Nunca, nunca!
- Acredito - disse a Sr.a Bonacieux -, mas ento por que tivestes essa exclamao?
- O qu? No compreendeis! - disse Milady, que j se tinha recomposto e que recuperara a sua presena de esprito.
- Como hei-de compreender? No sei de nada.
- No compreendeis que, sendo seu amigo, o Sr. d'Artagnan me fizera sua confidente?
- Realmente!
- No compreendeis que sei tudo, o vosso rapto da casinha de Saint-Germain, o seu desespero, o desespero dos seus amigos, as suas buscas inteis desde esse momento! 
E como no havia de me admirar quando, sem estar espera, me encontro diante de vs, de vs de quem tantas vezes falmos, de vs a quem ele ama de todo o corao, 
de vs a quem me fez amar antes de vos conhecer? Ah! Cara Constance, ento encontro-vos, finalmente conheo-vos!
E Milady estendeu os braos  Sr.a Bonacieux que, convencida com aquilo que ela lhe acabava de dizer, s viu nesta mulher, que pouco antes julgara a sua rival, uma 
amiga sincera e dedicada.
- Oh! Perdoai-me, perdoai-me! - exclamou ela, encostando-se no ombro da outra. - Eu amo-o tanto!
As duas mulheres permaneceram um instante abraadas. Por certo que, se as foras de Milady fossem iguais ao seu dio, a Sr.a Bonacieux teria sado morta deste abrao. 
Mas, no a podendo sufocar, Milady sorriu-lhe.
-  minha cara!  minha rica! - disse Milady. - Como estou feliz de vos ver! Deixai-me contemplar-vos. - E, dizendo estas palavras devorava-a efectivamente com o 
olhar. - Sim, sois vs. Ah! Reconheo-vos por aquilo que ele me disse, reconheo-vos perfeitamente.
A pobre rapariga no podia desconfiar daquilo que se passava de horrivelmente cruel por trs das muralhas daquela fronte pura, por trs daqueles olhos to brilhantes 
onde s lia interesse e compaixo.
- Ento sabeis o que eu sofri - disse a Sr.a Bonacieux -, pois ele disse-vos o que sofria; mas sofrer por causa dele  uma felicidade.
Milady repetiu maquinalmente:
- Sim,  uma felicidade. Pensava noutra coisa.
- E depois - continuou a Sr.a Bonacieux -, o meu suplcio est a chegar ao fim; amanh, talvez esta noite, voltarei a v-lo, e ento o passado no mais existir.
- Esta noite? Amanh? - exclamou Milady, que estas palavras tinham tirado da sua divagao. - Que quereis dizer" Esperais alguma notcia dele?
- Espero-o a ele mesmo.
- Ele mesmo; d'Artagnan, aqui!
- Ele mesmo.

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- Mas  impossvel! Ele est no cerco de La Rochelle com o cardeal e s voltar a Paris depois da cidade ser tomada.
-  o que pensais, mas haver alguma coisa impossvel para o meu d'Artagnan, o nobre e leal gentil-homem?
- Oh! No posso crer!
- Pois bem, ento lede! - disse a pobre jovem cheia de orgulho e de alegria, apresentando uma carta a Milady.
-  a letra da Sr.a de Chevreuse! - pensou Milady. - Ah! Eu tinha a certeza de que eles tinham contactos deste gnero!
E leu avidamente as seguintes linhas:


Minha querida filha, estai preparada; o nosso amigo ir ver-vos em breve, e ser para arrancar-vos da priso onde a vossa segurana exigia que estivsseis escondida: 
preparai-vos, pois, para a partida e nunca percais as esperanas em ns.
O nosso encantador gasco acaba de se mostrar bravo e fiel como sempre, dizei-lhe que uma pessoa lhe est muito reconhecida pelo aviso que lhe fez.


- Sim, sim - disse Milady -, a carta  preciosa. Sabeis que aviso  esse?
- No. Penso apenas que deve ter prevenido a rainha de alguma nova maquinao do cardeal.
- Sim, deve ser isso - disse Milady, entregando a carta  Sr.a Bonacieux e reclinando pensativamente a cabea.
Neste momento ouviu-se o galopar dum cavalo.
- Oh! - exclamou a Sr.a Bonacieux, correndo  janela. - Ser j ele?
Milady ficara na cama, petrificada pela surpresa; aconteciam-lhe de repente tantas coisas que pela primeira vez no sabia o que pensar.
- Ele, ele! - murmurou. - Ser ele?
E ficou na cama, com os olhos fixos.
- No, infelizmente! - disse a Sr.a Bonacieux. -  um homem que no conheo, mas que parece vir para aqui; sim, ele abranda, pra na porta e toca a sineta.
Milady saltou da cama.
- Tendes a certeza de que no  ele? - perguntou.
- Sim, a certeza absoluta!
- Talvez tenhais visto mal.
- Oh! Ainda que s visse a pluma do seu chapu, a ponta da sua capa reconhec-lo-ia!
Milady continuava a vestir-se.
- No importa! Esse homem vem para aqui, dizeis vs?
- Sim, entrou.
-  por vossa ou por minha causa.
- Oh, meu Deus! Como pareceis agitada!

156


- Sim, confesso, no tenho a mesma confiana que vs; temo tudo da parte do cardeal.
- Chiu! - disse a Sr.a Bonacieux. - Vem a gente! Efectivamente a porta abriu-se e a superiora entrou.
- Sois vs que vindes de Bolonha? - perguntou ela a Milady.
- Sim, sou eu - respondeu esta e, tentando recuperar o seu sangue-frio. - Quem pergunta por mim?
- Um homem que no quer dizer como se chama e que vem da parte do cardeal.
- E quer falar comigo? - perguntou Milady.
- Que quer falar com uma senhora que vem de Bolonha.
- Ento mandai-o entrar, por favor, minha senhora.
- Oh, meu Deus! Meu Deus! - disse a Sr.a Bonacieux. - Ser alguma m notcia?
- Receio que sim.
- Deixo-vos com esse estranho mas, se me permitirdes, voltarei assim que ele se for embora.
- Ora essa! Com certeza.
A superiora e a Sr.a Bonacieux saram.
Milady ficou sozinha, com os olhos pregados na porta; passado um instante, ouviu-se o som dumas esporas a ecoarem nas escadas, depois os passos aproximaram-se, a 
porta abriu-se e apareceu um homem.
Milady deu um grito de alegria: este homem era o conde de Rochefort, a alma danada de Sua Eminncia.


      LXII - DUAS VARIEDADES DE DEMNIOS



      - Ah! - exclamaram ao mesmo tempo Rochefort e Milady. - Sois vs!
- Sim, sou eu.
- E vindes de?... - perguntou Milady.
- De La Rochelle. E vs?
- De Inglaterra.
- Buckingham?
- Morto ou gravemente ferido; quando parti sem ter conseguido obter nada, um fantico acabava de assassin-lo.
- Ah! - exclamou Rochefort com um sorriso. - Eis um acaso muito feliz e que vai satisfazer Sua Eminncia! J o prevenistes?
- Escrevi-lhe de Bolonha. Mas por que estais aqui?
- Sua Eminncia, que estava inquieto, mandou-me ao vosso encontro.
- Cheguei s ontem.

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- E que fizestes desde ontem?
- No perdi tempo.
- Oh! Eu imagino.
- Sabeis quem encontrei aqui? -No.
- Adivinhai.
- Como havia eu de adivinhar?...
- Aquela jovem que a rainha tirou da priso.
- A amante do pequeno d'Artagnan?
- Sim, a Sr.a Bonacieux, cujo paradeiro o cardeal ignorava.
- Muito bem! - disse Rochefort. - Eis um acaso to feliz como o outro; o Sr. Cardeal  de facto um homem privilegiado!
- Compreendeis o meu espanto - continuou Milady - quando me encontrei cara a cara com essa mulher?
- Conhece-vos? -No.
- Ento considera-vos como uma estranha? Milady sorriu.
- Sou a sua melhor amiga!
- Palavra de honra - disse Rochefort -, s vs, minha cara condessa,  que conseguis fazer esses milagres!
- E em boa hora, cavaleiro - replicou Milady -, pois sabeis o que se passa?
-No.
- Vm busc-la amanh ou depois de amanh com uma ordem da rainha.
- De facto? E quem?
- D'Artagnan e os seus amigos.
- Na verdade ho-de fazer tantas que seremos obrigados a mand-los para a Bastilha.
- Por que no o fizeram ainda?
- Que quereis? Porque o Sr. Cardeal tem um fraco por esses homens que eu no compreendo.
- Ai sim?
- Sim.
- Muito bem! Dizei-lhe o seguinte, Rochefort: dizei-lhe que a nossa conversa na estalagem do Colombier-Rouge foi escutada por esses quatro homens; dizei-lhe que, 
depois de se ter ido embora, um deles subiu e arrancou-me pela violncia o salvo-conduto que ele me tinha dado; dizei-lhe que tinham mandado prevenir lorde de Winter 
da minha passagem pela Inglaterra; que, ainda desta vez, por pouco no fizeram fracassar a minha misso, como fizeram fracassar a das agulhetas; dizei-lhe que, desses 
quatro homens, s dois so de temer, d'Artagnan e Athos; dizei-lhe que o terceiro, Aramis,  amante da Sr.a de Chevreuse:  preciso deix-lo viver, conhecemos o 
seu segredo e ele pode ser til; quanto ao quarto, Porthos,  um tolo, um presumido e um ingnuo, no vale a pena preocupar-se com ele.
- Mas a estas horas esses quatro homens devem estar no cerco de La Rochelle.
- Eu tambm pensava que sim, mas uma carta que a Sr.a Bonacieux recebeu da Sr.a de Chevreuse, e que teve a imprudncia de me comunicar, leva-me a crer que, pelo 
contrrio, esses quatro homens vm a caminho para a tirarem daqui.
- Diabo! Que fazer?
- Que vos disse o cardeal a meu respeito?
- Que recebesse os vossos recados escritos ou verbais, que regressasse pela posta e que, quando souber o que fizestes, resolver o que deveis fazer.
- Nesse caso devo ficar aqui? - perguntou Milady.
- Aqui ou nos arredores.
- No podeis levar-me convosco?
- No, a ordem  formal; perto do acampamento podereis ser reconhecida e, compreendeis, a vossa presena comprometeria Sua Eminncia, sobretudo depois do que acaba 
de se passar. Contudo, dizei-me desde j onde aguardareis notcias do cardeal, para que eu saiba sempre onde vos encontrar.
- Escutai,  provvel que eu no possa ficar aqui?
- Porqu?
- Esqueceis que os meus inimigos podem chegar dum momento para o outro.
-  verdade, mas ento essa mulherzinha vai escapar a Sua Eminncia?
- Ora! - disse Milady com um sorriso que era s dela. - Esqueceis que sou a sua melhor amiga.
- Ah,  verdade! Ento posso dizer ao cardeal, acerca dessa mulher...
- Que fique descansado.
- Nada mais?
- Ele saber o que isso quer dizer?
- Adivinhar. E agora, que devo eu fazer?
- Partir agora mesmo; parece-me que as notcias que levais merecem a diligncia.
- A minha sege partiu-se  entrada de Lillers.
- Muito bem!
- Como?
- Sim, eu preciso da vossa sege - disse a condessa.
- Ento como poderei partir?
- A toda a brida.
- Falais bem. So cento e oitenta lguas.
- Que  isso?
- Est bem. E depois?
- Depois, ao passar em Lillers mandais-me a sege, dando ordem ao vosso criado para se pr  minha disposio.
- Bom.

158 - 159


- Deveis ter alguma ordem do cardeal, convosco, no?
- Tenho uma carta de plenos poderes.
- Mostrai-a  abadessa e dizei que viro buscar-me hoje ou amanh e que eu terei que seguir a pessoa que se apresentar em vosso nome.
- Muito bem!
- No vos esqueceis de me tratar com dureza quando falardes de mim  abadessa.
- Para qu?
- Eu sou uma vtima do cardeal. Tenho de inspirar confiana  pobre Sr.a Bonacieux.
- Tendes razo. Agora quereis fazer-me um relatrio de tudo o que se passou?
- Mas eu j vos contei os acontecimentos; vs tendes boa memria, repeti o que vos disse. Um papel  coisa que se perde.
- Tendes razo, Mas tenho de saber onde hei-de encontrar-vos para no ter de percorrer os arredores em vo.
- Est bem. Esperai.
- Quereis um mapa?
- Oh! Eu conheo perfeitamente a regio.
- Vs? Quando foi que c viestes?
- Fui criada aqui.
- Realmente?
- Estais a ver que sempre serve de alguma coisa ter sido criada nalgum stio.
- Ento onde me ireis esperar?
- Deixai-me reflectir um instante. Ah! J sei, em Armentires.
- Que  isso?
-  uma cidadezinha na margem do Lys;  s atravessar o rio, e estou no estrangeiro.
- Muito bem. Mas fica combinado que s atravessareis o rio em caso de perigo.
- Combinado.
- E, nesse caso, como saberei onde estais?
- No precisais do vosso lacaio?. -No.
-  de confiana?
- De toda a confiana.
- Concedei-mo; ningum o conhece, deixo-o no lugar de onde sair e ele conduz-vos ao lugar onde estou.
- E dizeis que ireis esperar-me em Armentires?
- Em Armentires - respondeu Milady.
- Escrevei-me esse nome num pedao de papel, pois tenho medo de me esquecer. O nome duma cidade no  comprometedor, pois no?
- Quem sabe? No importa - disse Milady, escrevendo o nome numa folha de papel -, eu comprometo-me.
- Bom - disse Rochefort tirando o papel das mos de Milady, dobrando-o e metendo-o dentro do chapu.

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- Alis, ficai descansada, vou fazer como as crianas e, no caso de perder este papel, repetir o nome ao longo do caminho. Agora  tudo?
- Creio que sim.
- Vejamos: Buckingham morto ou gravemente ferido; a vossa conversa com o cardeal ouvida pelos quatro mosqueteiros; lorde de Winter prevenido da vossa chegada a Portsmouth; 
d'Artagnan e Athos na Bastilha; Aramis  amante da Sr.a de Chevreuse; Porthos  um presumido; encontrada a Sr.a Bonacieux; enviar-vos a minha sege o mais depressa 
possvel; pr o meu lacaio  vossa disposio; fazer de vs uma vtima do cardeal, para que a abadessa no suspeite de nada; Armentires na margem do Lys.  isto?
- Tendes de facto uma memria prodigiosa, meu caro cavaleiro. A propsito, acrescentai uma coisa...
- O qu?
- Vi uns bosques muito bonitos que devem confinar com o jardim do convento; dizei que me  permitido passear nesses bosques. Quem sabe? Talvez precise de sair pela 
porta das traseiras.
- Pensais em tudo.
- E vs esqueceis uma coisa...
- O qu?
- Perguntar-me se preciso de dinheiro.
-  verdade. Quanto quereis?
- Todo o ouro que tiverdes.
- Tenho cerca de quinhentas pistolas.
- E eu outras tantas; com mil pistolas faz-se frente a tudo. Esvaziai os bolsos.
- Aqui tendes, condessa.
- Bom, meu caro conde! E quando partis?
- Daqui a uma hora. S o tempo de comer qualquer coisa e de mandar buscar um cavalo de posta.
- Perfeitamente. Adeus, cavaleiro!
- Adeus, condessa!
- Cumprimentos ao cardeal - disse Milady.
- Cumprimentos a Satans - replicou Rochefort. Milady e Rochefort trocaram um sorriso e separaram-se. Passada uma hora Rochefort partiu a galope; cinco horas depois
passava em Arras.
Os nossos leitores j sabem como ele fora reconhecido por d'Artagnan e como este facto, inspirando receios aos quatro mosqueteiros, dera uma nova actividade  sua 
viagem.
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      LXIII - UMA GOTA DE GUA


      Assim que Rochefort saiu, a Sr.a Bonacieux entrou. Encontrou Milady sorridente.
- Ento - disse a jovem -, o que receveis aconteceu; esta noite ou amanh o cardeal manda-vos buscar?
- Quem vos disse, minha filha? - perguntou Milady.
- Ouvi da boca do prprio mensageiro.
- Vinde-vos sentar aqui junto de mim - disse Milady.
- Aqui me tendes.
- Esperai que me certifique de que ningum nos escuta.
- Para qu todas essas precaues?
- Ides ver.
Milady levantou-se, foi at  porta, abriu-a, espreitou o corredor e voltou a sentar-se perto da Sr.a Bonacieux.
- Ento - disse ela - ele fez bem o seu papel. - Quem?
- Aquele que se apresentou  abadessa como o enviado do cardeal.
- Ento era um papel?
- Sim, minha filha.
- Esse homem no ...
- Esse homem - disse Milady, baixando a voz -  o meu irmo.
- Vosso irmo! - exclamou a Sr.a Bonacieux.
- Muito bem! S vs sabeis o meu segredo, minha filha; se o confiardes seja a quem for, estou perdida, e vs tambm, talvez.
- Oh, meu Deus!
- Escutai, eis o que se passa: meu irmo, que vinha socorrer-me e tirar-me daqui  viva fora se fosse preciso, encontrou o emissrio do cardeal que me vinha buscar; 
seguiu-o. Ao chegar a um local solitrio e afastado, empunhou a espada e intimou o mensageiro a entregar-lhe os papis de que era portador; o mensageiro quis defender-se 
e meu irmo matou-o.
- Oh! - exclamou a Sr.a Bonacieux, estremecendo.
- Era a nica maneira. Ento meu irmo quis substituir a fora pela astcia: pegou nos papis, apresentou-se aqui como o prprio emissrio do cardeal e, daqui a 
uma hora ou duas, um carro deve vir buscar-me da parte de Sua Eminncia.
- Compreendo,  vosso irmo que vos manda esse carro.
- Justamente, mas ainda no  tudo. Essa carta que recebestes e que julgveis ser da Sr.a de Chevreuse...
- Sim. - falsa.
- Como?
- Sim, falsa.  uma armadilha para no oferecerdes resistncia quando vierem buscar-vos.
- Mas  d'Artagnan que vir.
- Desenganai-vos, d'Artagnan e os seus amigos esto retidos no cerco de La Rochelle.
- Como sabeis?
- Meu irmo encontrou emissrios do cardeal disfarados de mosqueteiros. Mandar-vos-iam chamar  porta, far-se-iam passar por amigos, raptar-vos-iam e levar-vos-iam 
para Paris.
- Oh, meu Deus! No sei o que pensar no meio deste caos de iniquidades. Sinto que se isto durasse - continuou a Sr.a Bonacieux, levando as mos ao rosto -, enlouquecia.
- Esperai...
- O qu?
- Ouo o passo dum cavalo,  o de meu irmo que parte. Quero dizer-lhe um ltimo adeus, vinde c.
Milady abriu a janela e fez sinal  Sr.a Bonacieux que fosse ter com ela. A jovem foi.
Rochefort passava a galope.
- Adeus, irmo! - exclamou Milady.
O cavaleiro ergueu a cabea, viu as duas mulheres e, continuando a correr, fez a Milady um sinal amigvel com a mo.
- Bom Georges! - disse ela, fechando a janela com uma expresso cheia de afectao e de melancolia.
E foi sentar-se no seu lugar como se estivesse mergulhada em reflexes muito pessoais.
- Cara senhora! - disse a Sr.a Bonacieux. - perdoai-me interromper-vos! Mas que me aconselhais a fazer? Meu Deus! Vs tendes mais experincia que eu, falai que vos 
escuto.
- Primeiro - disse Milady -, pode ser que eu esteja enganada e que d'Artagnan e os seus amigos venham realmente em vosso socorro.
- Oh! Isso seria bom de mais! - exclamou a Sr.a Bonacieux. - E eu no tenho essa sorte!
- Ento, compreendeis, seria simplesmente uma questo de tempo, uma espcie de corrida para ver quem chegaria primeiro. Se forem os vossos amigos, estais salva; 
se forem os satlites do cardeal estais perdida.
- Oh, sim, sim! Perdida sem d nem misericrdia! Que fazer? Que fazer?
- Haveria uma forma muito simples, muito natural...
- Qual?
- Seria esperar, escondida nas proximidades, certificando-vos assim da identidade dos homens que vos vm buscar.
- Mas onde esperar?
- Oh! Isso no  problema; eu mesma paro e escondo-me a poucas lguas daqui,  espera de meu irmo. Ora bem, levo-vos comigo, escondemo-nos e esperamos juntas.

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- Mas no me deixaro sair, sou quase uma prisioneira.
- Como crem que parto por ordem do cardeal, no pensaro que tereis muita pressa de me seguir.
- E ento?
- Ento, o carro est  porta, dizeis-me adeus, subis para cima do estribo para me abraar uma ltima vez; o criado de meu irmo, que vem buscar-me, est prevenido, 
faz um sinal ao postilho e partimos a galope.
- Mas d'Artagnan, se d'Artagnan vier?
- No saberemos disso?
- Como?
- Nada mais fcil. Enviamos a Bthune o criado de meu irmo, no qual, como j vos disse, podemos confiar; ele disfara-se e instala-se numa casa diante do convento: 
se forem os emissrios do cardeal, no se mexe; se for o Sr. d'Artagnan e os seus amigos, leva-os ao lugar onde ns estamos.
- Ele conhece-os?
-  claro, pois viu o Sr. d'Artagnan em minha casa!
- Oh! Sim, sim, tendes razo. Portanto, tudo corre bem. Mas no nos afastemos daqui.
- A sete ou oito lguas quando muito, ficamos na fronteira, por exemplo, e ao primeiro alerta samos de Frana.
- E daqui at l que fazer?
- Esperar.
- E se eles chegarem?
- O carro de meu irmo chegar antes deles.
- Se eu estiver longe de vs quando vos vierem buscar, se estiver a jantar ou a cear, por exemplo?
- Fazei uma coisa. - O qu?
- Dizei  vossa bondosa superiora que, para nos separarmos o menos possvel, lhe pedis permisso para partilhar as minhas refeies.
- E ela permitir?
- Que inconveniente h nisso?
- Oh, muito bem! Desse modo no nos separamos nem por um instante.
- Ento descei e ide fazer-lhe o vosso pedido! Sinto a cabea pesada, vou dar uma volta pelo jardim.
- Ide, e onde vos encontrarei?
- Neste stio, daqui a uma hora.
- Neste stio, daqui a uma hora. Oh! Como sois boa e como vos agradeo!
- Como no haveria eu de me interessar por vs? Ainda que no fsseis boa e encantadora, sois amiga de um dos meus melhores amigos!
- Caro d'Artagnan! Oh! Como ele vos agradecer!
- Espero bem que sim. V! Est tudo combinado, desamos.

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- Ides para o jardim?
- Vou.
- Segui este corredor, h umas escadinhas que conduzem ao jardim.
- Muito bem. Obrigada.
E as duas mulheres separaram-se, trocando um sorriso encantador.
Milady dissera a verdade, sentia a cabea pesada pois os seus projectos desordenados entrechocavam-se l dentro como num caos. Precisava de estar s para pr em 
ordem os seus pensamentos. Via vagamente o futuro, mas precisava de um pouco de silncio e de calma para dar a todas as suas ideias, ainda confusas, uma forma distinta, 
um plano definido.
O mais urgente era raptar a Sr.a Bonacieux, p-la em lugar seguro e ali, se fosse preciso, fazer dela um refm. Milady comeava a recear o resultado daquele terrvel 
duelo em que os seus amigos punham tanta perseverana como ela punha obstinao.
De resto sentia, como quem pressente uma tempestade, que este resultado estava prximo e que no podia deixar de ser terrvel.
O principal para ela, como dissemos, era ter a Sr.a Bonacieux na mo. A Sr.a Bonacieux era a vida de d'Artagnan; era mais que a sua vida, era a vida da mulher que 
amava; era, em caso de pouca sorte, a maneira de lidar e de obter com certeza boas condies.
Ora, este ponto estava decidido: a Sr.a Bonacieux segui-la-ia sem desconfiar; uma vez escondida com ela em Armentires, seria fcil fazer-lhe crer que d'Artagnan 
no viera a Bthune. Dali a quinze dias, quando muito, Rochefort estaria de volta; durante estes quinze dias pensaria no que devia fazer para se vingar dos quatro 
amigos. No se aborreceria, graas a Deus, porque teria o mais doce dos passatempos que os acontecimentos podiam conceder a uma mulher do seu carcter: uma boa vingana 
a aperfeioar.
Enquanto divagava, lanava os olhos em redor e classificava mentalmente a topologia do jardim. Milady era como um bom general que prev a vitria e a derrota, e 
que, segundo as probabilidades da batalha, est pronto para marchar em frente ou bater em retirada.
Passada uma hora, ouviu uma voz doce a cham-la; era a voz da Sr.a Bonacieux. A abadessa consentira tudo, naturalmente, e para comear, iam cear juntas.
Ao chegar ao ptio, ouviram o rudo dum carro que parava  porta.
- Ouvis? - disse ela.
- Sim,  um carro.
-  o carro que meu irmo nos envia.
- Oh, meu Deus!
- Ento? Coragem!
Bateram  porta do convento, Milady no se tinha enganado.
- Subi ao vosso quarto - disse ela  Sr.a Bonacieux -, deveis ter algumas jias que quereis levar.
- Tenho cartas - disse ela.

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- Muito bem, ide busc-las e vinde ter ao meu quarto; cearemos  pressa; talvez viajemos durante parte da noite, temos de ganhar foras.
- Deus do Cu! - disse a Sr.a Bonacieux, levando a mo ao peito. - Sufoco, no consigo andar.
- Coragem, v, coragem! Pensai que daqui a um quarto de hora estais salva e pensai no que ides fazer,  por ele que o fazeis.
- Oh, sim! Tudo por ele. Vs devolvestes-me a coragem com uma simples palavra. Ide, que j vou ter convosco.
Milady subiu rapidamente para os seus aposentos, onde encontrou o lacaio e lhe deu as suas instrues.
- Devia esperar  porta; se por acaso os mosqueteiros aparecessem, o carro partia a galope, dava a volta ao convento e ia esperar Milady numa aldeia situada do outro 
lado do bosque. Nesse caso, Milady atravessava o jardim e alcanava a aldeia a p; j dissemos que Milady conhecia muito bem esta parte da Frana.
Se os mosqueteiros no aparecessem, as coisas seriam conforme combinado: a Sr.a Bonacieux subia para o carro a fim de lhe dizer adeus, e Milady raptava a Sr.a Bonacieux.
A Sr.a Bonacieux entrou e, para lhe desvanecer as suspeitas, se  que ela tinha alguma, Milady repetiu diante do lacaio a ltima parte das suas instrues.
Milady fez algumas perguntas sobre o carro: era uma sege atrelada a trs cavalos e conduzida por um cocheiro; o lacaio de Rochefort devia preced-la como correio.
Milady no tinha razes para recear que a Sr.a Bonacieux desconfiasse; a pobre mulher era muito pura para suspeitar de semelhante perfdia noutra mulher; de resto, 
o nome da condessa de Winter, que ouvira a abadessa pronunciar, era inteiramente desconhecido para ela, e at ignorava que uma mulher tivesse tido tanta culpa nas 
desgraas da sua vida.
- Vedes - disse Milady quando o lacaio saiu -, est tudo pronto. A abadessa no desconfia de nada e cr que me vm buscar da parte do cardeal. Este homem vai dar 
as ltimas ordens; comei qualquer coisa, bebei um dedo de vinho e vamos.
- Sim - disse maquinalmente a Sr.a Bonacieux -, sim, vamos. Milady fez-lhe sinal para se juntar ao p dela, serviu-lhe um copinho
de vinho de Espanha e um pedao de frango.
- Vede - disse ela - se tudo no  a nosso favor: escurece, ao nascer do dia teremos chegado ao nosso esconderijo e ningum poder suspeitar do lugar onde estamos. 
V, coragem, comei alguma coisa.
A Sr.a Bonacieux comeu maquinalmente uns pedaos e molhou os lbios no copo.
- Vamos, vamos - disse Milady, levando o seu copo aos lbios -, fazei como eu.
Mas no momento em que levava o copo  boca, a sua mo ficou suspensa, acabava de ouvir na estrada o rudo distante dum galope que se
ia aproximando, depois, quase ao mesmo tempo, pareceu-lhe ouvir cavalos a relinchar.
Este rudo arrancou-a da sua alegria como o som da tempestade acorda no meio dum sonho bonito; empalideceu e correu  janela, enquanto a Sr.a Bonacieux, erguendo-se 
toda a tremer, se apoiava na cadeira para no cair.
Ainda no se via nada, s se ouvia o galope que se ia aproximando cada vez mais.
- Oh, meu Deus! - disse a Sr.a Bonacieux. - Que rudo  este?
-  o dos nossos amigos ou dos nossos inimigos - disse Milady com o seu sangue-frio terrvel. - Ficai onde estais, que eu vou dizer-vos.
A Sr.a Bonacieux ficou em p, muda, imvel e plida como uma esttua.
O rudo tornava-se mais forte, os cavalos no podiam estar a mais de cento e cinquenta passos; se ainda no se viam era porque a estrada formava um cotovelo. Porm, 
o rudo tornava-se to distinto que se poderiam contar os cavalos pelo som sacudido das suas ferraduras.
Milady olhava com toda a ateno, s tinha a claridade suficiente para poder reconhecer quem vinha.
De repente, na curva do caminho, viu reluzir uns chapus com gales e flutuar umas plumas; contou dois, depois cinco, depois oito cavaleiros; um deles ia bastante 
 frente dos outros.
Milady soltou um rugido abafado. No que vinha  frente reconheceu d'Artagnan.
- Oh, meu Deus! Meu Deus! - exclamou a Sr.a Bonacieux. - Ento o que h?
-  o uniforme dos guardas do Sr. Cardeal. No temos um instante a perder! - exclamou Milady. - Fujamos, fujamos!
- Sim, sim, fujamos - repetiu a Sr.a Bonacieux, mas sem poder dar um passo, pregada no lugar em que estava pelo terror.
Ouviram-se passar os cavaleiros por baixo da janela.
- Vinde! Vinde! - exclamava Milady, tentando arrastar a jovem pelo brao. - Graas ao jardim ainda podemos fugir, eu tenho a chave. Mas apressemo-nos, daqui a cinco 
minutos seria demasiado tarde.
A Sr.a Bonacieux tentou andar, deu dois passos e caiu de joelhos. Milady tentou levant-la e lev-la, mas no conseguiu. Neste momento ouviu-se o carro que, ao ver 
os mosqueteiros, partia a galope. Depois ecoaram trs ou quatro tiros.
- Mais uma vez, quereis vir? - exclamou Milady.
- Oh, meu Deus, meu Deus! Bem vedes que no tenho foras; bem vedes que no posso andar, fugi sozinha.
- Fugir sozinha! Deixar-vos aqui! No, no, nunca! - exclamou Milady.
De repente, um claro lvido jorrou dos seus olhos; dando um salto, desvairada, Milady correu  mesa, deitou para dentro do copo da Sr.a Bonacieux o contedo do 
engaste dum anel que abriu com singular prontido.

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Era um p vermelho que imediatamente se diluiu.
Depois, pegando no copo com mo firme:
- Bebei - disse ela -, este vinho dar-vos- foras, bebei.
E aproximou o copo dos lbios da jovem, que o bebeu maquinalmente.
- Ah! No era assim que me queria vingar - disse Milady, pousando o copo na mesa com um sorriso infernal. - Mas, apre!, faz-se o que se pode.
E precipitou-se para fora do quarto.
A Sr.a Bonacieux viu-a fugir sem a poder seguir; parecia uma dessas pessoas que sonham que as esto a perseguir e que tentam andar, mas em vo.
Passaram-se alguns minutos, ouvia-se um barulho horrvel  porta; a Sr.a Bonacieux esperava ver reaparecer Milady a todo o instante, mas ela no reaparecia.
Por fim ouviu ranger os portes abrindo-se, o rudo das botas ecoou nas escadas; ouvia-se um grande murmrio de vozes que se iam aproximando e no meio das quais 
lhe parecia ouvir o seu nome.
De repente deu um grito de alegria e correu  porta; reconhecera a voz de d'Artagnan.
- D'Artagnan! D'Artagnan! - exclamou ela. - Sois vs? Por aqui, por aqui.
- Constance! Constance! - repetiu o mancebo. - Onde estais? Meu Deus!
No mesmo momento, a porta da cela cedeu ao embate; vrios homens precipitaram-se no quarto; a Sr.a Bonacieux estava cada numa poltrona sem poder fazer um movimento.
D'Artagnan atirou uma pistola ainda fumegante que trazia na mo e caiu de joelhos diante da sua amante; Athos enfiou a pistola no cinto, Porthos e Aramis, que empunhavam 
as suas espadas meteram-nas nas respectivas bainhas.
- Oh, d'Artagnan! Meu bem-amado d'Artagnan! Finalmente vieste, no me tinhas enganado, s mesmo tu!
- Sim, sim, Constance! Estamos juntos!
- Oh! Ela bem dizia que tu no vinhas, mas eu esperava; no quis fugir. Oh! Como fiz bem, como estou feliz!
Ao ouvir a palavra ela, d'Artagnan, que se sentara tranquilamente, levantou-se de sopeto.
- Ela quem? - perguntou d'Artagnan.
- A minha companheira, aquela que por amizade me queria subtrair aos meus perseguidores; aquela que, tomando-vos pelos guardas do cardeal, acaba de fugir.
- A vossa companheira! - exclamou d'Artagnan, pondo-se mais plido que o vu branco da sua amante -, mas que companheira?

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- Aquela cujo carro estava  porta, uma mulher que se diz vossa amiga, d'Artagnan, uma mulher a quem contastes tudo.
- O seu nome, o seu nome! - exclamou d'Artagnan. - Meu Deus! Ento no sabeis o seu nome?
- Sim, pronunciaram-no  minha frente. Esperai... Mas  estranho... Oh, meu Deus! Estou confusa, j no sei.
- A mim, meus amigos, a mim! Ela tem as mos geladas! - exclamou d'Artagnan -, sente-se mal. Deus do Cu! Ela perde os sentidos!
Enquanto Porthos chamava por socorro o mais alto que podia, Aramis correu mesa para pegar num copo de gua, mas parou ao ver a horrvel alterao do rosto de Athos 
que, de p diante da mesa, com os cabelos eriados, os olhos gelados de estupefaco, olhava para um dos copos e parecia entregue  mais horrvel dvida.
- Oh! - dizia Athos. - Oh, no!  impossvel! Deus no permitiria semelhante crime.
- gua, gua! - gritava d'Artagnan. - gua!
-  pobre mulher, pobre mulher! - murmurava Athos com voz alterada.
A Sr.a Bonacieux abriu os olhos sob os beijos de d'Artagnan.
- Volta a si! - exclamou o jovem. - Oh, meu Deus! Meu Deus! Eu te dou graas!
- Minha senhora - disse Athos -, minha senhora, por amor de Deus! De quem  este copo vazio?
-  meu, senhor... - respondeu a jovem com uma voz agonizante.
- E quem vos serviu vinho neste copo?
- Foi ela.
- Ela quem?
- Ah, j me lembro - disse a Sr.a Bonacieux -, a condessa de Winter...
Os quatro amigos deram um nico grito, mas o grito de Athos dominou os outros todos.
Neste momento o rosto da Sr.a Bonacieux ps-se lvido, uma dor surda abateu-a e caiu ofegante nos braos de Porthos e Aramis.
D'Artagnan agarrou as mos de Athos com uma angstia difcil de descrever.
- O qu? - disse ele. - Tu crs... A sua voz extinguiu-se num soluo.
- Creio tudo - disse Athos, mordendo os lbios at fazer sangue.
- D'Artagnan, d'Artagnan! - exclamou a Sr.a Bonacieux. - Onde ests? No me deixes, bem vs que vou morrer.
D'Artagnan largou as mos de Athos, que ainda segurava com as suas mos crispadas, e correu para junto dela.
O seu rosto to belo estava muito perturbado, os seus olhos vtreos j no tinham expresso, um tremor convulsivo agitou-lhe o corpo, o suor escorria-lhe da testa.
- Por amor de Deus! Ide chamar algum; Porthos, Aramis, pedi socorro!

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-  intil - disse Athos -, intil, para o veneno dela no h contraveneno.
- Sim, sim, socorro, socorro! - murmurou a Sr.a Bonacieux. - Socorro!
Depois, reunindo as suas foras, pegou na cabea do jovem, contemplou-o por um instante como se toda a sua alma lhe tivesse passado para os olhos e, com um grito 
soluante, apoiou os lbios nos seus lbios.
- Constance! Constance! - exclamou d'Artagnan.
Um suspiro escapou-se da boca da Sr.a Bonacieux, aflorando a de d'Artagnan: era a sua alma to casta e to amorvel que subia ao Cu.
D'Artagnan apertava um cadver nos braos.
O jovem deu um grito e caiu ao lado da sua amante, to plido e to gelado como ela.
Porthos chorou, Aramis levantou o punho para o cu, Athos fez o sinal da cruz.
Neste momento um homem apareceu  porta, quase to plido como os que estavam no quarto, olhou em volta e viu a Sr.a Bonacieux morta e d'Artagnan inanimado.
Aparecia no preciso instante de estupefaco que segue as grandes catstrofes.
- No me tinha enganado - disse ele -, aqui est o Sr. d'Artagnan, e vs sois os seus trs amigos, Srs. Athos, Porthos e Aramis.
Aqueles cujos nomes acabavam de ser pronunciados olhavam admirados para este estranho, a todos parecia que o reconheciam.
- Meus senhores - prosseguiu o recm-chegado -, estais como eu  procura duma mulher que - acrescentou com um sorriso terrvel -, deve ter passado por aqui, pois 
vejo um cadver!
Os trs amigos ficaram mudos; aquela voz e aquele rosto lembravam-lhes um homem que j tinham visto, mas no conseguiam lembrar-se em que circunstncias.
Os trs amigos deram um grito de surpresa.
Athos levantou-se e estendeu-lhe a mo.
- Sede bem-vindo, Milorde - disse ele -, sois dos nossos.
- bem vindo, Milorde - disse ele -, sois dos nossos.
- Parti cinco horas depois dela, de Portsmouth - disse lorde de Winter -, cheguei a Bolonha trs horas depois dela, em Saint-Omer, no a encontrei por vinte minutos; 
enfim, em Lillers perdi-lhe o rasto. Ia a galope; reconheci o Sr. d'Artagnan. Chamei-vos mas no me respondestes; quis seguir-vos, mas o meu cavalo estava muito 
cansado para ir to depressa como os vossos. E, contudo, parece que, apesar da diligncia que fizestes, chegastes tarde de mais!
-  como vedes - disse Athos, mostrando a lorde de Winter a Sr.a Bonacieux morta e d'Artagnan, que Porthos e Aramis tentavam reanimar.
- Esto os dois mortos? - perguntou friamente lorde de Winter.

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- Felizmente no - respondeu Athos -, o Sr. d'Artagnan est apenas desmaiado.
- Ah, tanto melhor! - disse lorde de Winter.
Com efeito, neste momento, d'Artagnan abriu os olhos.
Arrancou-se dos braos de Porthos e de Aramis e atirou-se como um louco sobre o corpo da sua amante.
Athos levantou-se, dirigiu-se ao seu amigo lenta e solenemente, abraou-o com ternura e, como este soluava, disse-lhe com a sua voz nobre e persuasiva:
- Amigo, s um homem: as mulheres choram os mortos, os homens
vingam-nos!
- Oh, sim - disse d'Artagnan. - Sim! Se  para a vingar, estou
pronto a seguir-te!
Athos aproveitou este momento de fora que a esperana da vingana dava ao seu pobre amigo para fazer sinal a Porthos e Aramis que fossem buscar a superiora.
Os dois amigos encontraram-na no corredor, ainda muito perturbada com tantos acontecimentos; chamou algumas religiosas que, contra todos os hbitos monsticos, se 
viram na presena de cinco homens.
- Minha senhora - disse Athos, dando o brao a d'Artagnan -, deixamos aos vossos piedosos cuidados o corpo desta pobre mulher. Ela foi um anjo na terra antes de 
ser um anjo no Cu. Tratai-a como uma das vossas irms, um dia voltaremos para rezar junto da sua sepultura.
D'Artagnan escondeu o rosto no peito de Athos e desatou a soluar.
- Chora - disse Athos -, chora, corao cheio de amor, de juventude e de vida! Ai de mim, quem me dera poder chorar como tu!
E arrastou o amigo, afectuoso como um pai, consolador como um padre, grande como o homem que sofreu muito.
Os cinco, seguidos pelos seus criados, segurando as rdeas dos seus cavalos, avanaram para a cidade de Bthune, cujos arredores se avistavam, e pararam diante da 
primeira estalagem que encontraram.
- Mas - disse d'Artagnan - no perseguimos essa mulher?
- Mais tarde - disse Athos -, tenho medidas a tomar.
- Vai escapar-nos - continuou o jovem -, vai escapar-nos, Athos, e a culpa ser tua.
- Eu respondo por ela - disse Athos.
D'Artagnan tinha tanta confiana na palavra do amigo que baixou a cabea e entrou na estalagem sem responder.
Porthos e Aramis entreolhavam-se, no compreendendo a segurana
de Athos.
Lorde de Winter julgava que ele falava assim para suavizar a dor de
d'Artagnan.
- Agora, meus senhores - disse Athos, depois de se certificar de que havia cinco quartos desocupados na estalagem -, retiremo-nos cada um para o seu quarto; d'Artagnan 
precisa de estar s para chorar e vs para dormir. Eu encarrego-me de tudo, ficai sossegados.

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- Contudo, parece-me - disse lorde de Winter - que, se h alguma medida a tomar contra a condessa,  coisa que me diz respeito: ela  minha cunhada.
- E a mim tambm - disse Athos -,  minha mulher. D'Artagnan estremeceu, compreendendo que Athos estava seguro
da sua vingana, pois revelava aquele segredo; Porthos e Aramis olharam um para o outro, empalidecendo. Lorde de Winter pensou que Athos estava doido.
- Retirai-vos - disse Athos - e deixai-me agir. Bem vedes que a coisa  comigo, na minha qualidade de marido. Apenas, d'Artagnan, se no o perdestes, entregai-me 
o papel que caiu do chapu daquele homem e que tinha escrito o nome da cidade...
- Ah! - disse d'Artagnan. - Compreendo. O nome escrito pelo seu punho...
- Ests a ver - disse Athos -, h um Deus no Cu!


      LXIV O HOMEM DA CAPA VERMELHA


      O desespero de Athos dera lugar a uma dor concentrada, que tornava ainda mais lcidas as brilhantes faculdades de esprito deste homem.
Todo entregue a um nico pensamento, a promessa que fizera e a responsabilidade que assumira, foi o ltimo a retirar-se para o seu quarto, pediu ao estalajadeiro 
que lhe arranjasse um mapa da provncia, debruou-se sobre ele, interrogou as linhas traadas, verificou que quatro caminhos diferentes iam de Bthune a Armentires, 
e mandou chamar os criados.
Planchet, Grimaud, Mosqueton e Bazin apresentaram-se e receberam as ordens claras, pontuais e graves de Athos.
Deviam partir ao nascer do Sol, no dia seguinte, e dirigir-se a Armentires, cada um por uma estrada diferente. Planchet, o mais inteligente dos quatro, devia seguir 
a estrada em que desaparecera o carro sobre o qual os quatro amigos tinham atirado e que, como deveis estar lembrados, era acompanhado pelo criado de Rochefort.
Athos comeou a pr os criados em aco porque, desde que estes homens estavam ao seu servio e ao servio dos seus amigos reconhecera em cada um deles qualidades 
diferentes e essenciais.
Depois, criados que interrogam inspiram menos desconfiana que os seus amos e encontram mais simpatia nas pessoas a quem se dirigem.

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Enfim, Milady conhecia os amos mas no conhecia os criados; e, pelo contrrio, os criados conheciam perfeitamente Milady.
Os quatro deviam reunir-se no dia seguinte, s onze horas, no local indicado; se tivessem descoberto o esconderijo de Milady, trs ficariam de guarda e o quarto 
voltaria a Bthune para prevenir Athos e servir de guia aos quatro amigos.
Tomadas estas disposies, os criados retiraram-se por sua vez. Ento, Athos levantou-se da cadeira, cingiu a espada, embrulhou-se na capa e saiu da estalagem; eram 
aproximadamente dez horas. s dez da noite, como se sabe, as ruas so pouco frequentadas na provncia. Contudo, Athos procurava visivelmente uma pessoa a quem pudesse 
fazer uma pergunta. Por fim encontrou um transeunte atrasado, aproximou-se dele e disse-lhe umas palavras; o homem a quem se dirigia recuou aterrado, mas respondeu 
s palavras do mosqueteiro com uma indicao. Athos ofereceu-lhe meia pistola para que o acompanhasse, mas o homem recusou.
Athos embrenhou-se na rua indicada mas, ao chegar a um cruzamento, tornou a parar, nitidamente embaraado. Mas, como mais que qualquer outro lugar, o cruzamento 
oferecia-lhe a possibilidade de encontrar algum, parou ali. Com efeito, passado um instante, passou um guarda nocturno. Athos repetiu-lhe a mesma pergunta que j 
fizera  primeira pessoa que encontrara, o guarda nocturno revelou o mesmo terror, recusou-se por sua vez a acompanhar Athos e mostrou-lhe o caminho a seguir.
Athos caminhou na direco indicada e alcanou o bairro situado na extremidade da cidade oposta quela por onde ele e os seus companheiros tinham entrado. Ali, pareceu 
de novo inquieto e embaraado e parou pela terceira vez.
Felizmente passou um mendigo que se aproximou de Athos para lhe pedir esmola. Athos props-lhe um escudo para o acompanhar. O mendigo hesitou um instante mas ao 
ver a moeda que brilhava no escuro, decidiu-se e foi  frente de Athos.
Ao chegar  esquina, mostrou-lhe ao longe uma casinha isolada, solitria e triste; Athos aproximou-se enquanto o mendigo, que recebera o seu salrio, se afastava 
a sete ps.
Athos deu a volta  casa, antes de distinguir a porta no meio da cor avermelhada da casa; nenhuma luz aparecia atravs das frinchas dos postigos, nenhum rudo permitia 
supor que a casa fosse habitada, era sombria e muda como um tmulo.
Trs vezes Athos bateu sem obter resposta. Mas,  terceira, aproximaram-se passos, por fim a porta entreabriu-se e um homem alto, plido, de cabelos e barba negros 
apareceu.
Athos e ele trocaram umas palavras em voz baixa, depois o homem de estatura elevada fez sinal ao mosqueteiro para entrar. Athos aproveitou imediatamente a permisso 
e a porta fechou-se atrs dele.
O homem que Athos viera buscar to longe e que encontrara a tanto custo f-lo entrar no seu laboratrio, onde estava ocupado a segurar com arames os ossos soltos 
dum esqueleto.

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Todo o corpo j estava reajustado, s a cabea estava pousada numa mesa.
Todo o resto do mobilirio indicava que o dono da casa se ocupava de cincias naturais: havia frascos cheios de serpentes, etiquetados segundo as espcies: lagartos 
ressequidos brilhavam como esmeraldas lapidadas em grandes molduras de madeira escura; enfim, molhos de ervas bravias, odorferas e sem dvida dotadas de virtudes 
desconhecidas no homem comum, estavam pendurados no tecto e desciam nos cantos da sala.
De resto, no havia famlia nem criados; o homem de estatura elevada morava sozinho naquela casa.
Athos lanou um olhar frio e indiferente a todos os objectos que acabmos de descrever e, a convite do homem que vinha procurar, sentou-se junto dele.
Athos explicou-lhe o motivo da sua visita e o servio que lhe reclamava mas, assim que exps o seu pedido, o desconhecido, que ficara de p diante do mosqueteiro, 
recuou de terror e recusou. Ento Athos tirou do bolso um papelinho em que estavam escritas duas linhas acompanhadas de uma assinatura e de um selo e apresentou-o 
quele que to prematuramente dava estes sinais de repugnncia. O homem alto leu estas duas linhas, viu a assinatura, reconheceu o selo e imediatamente se inclinou, 
em sinal de que j no tinha nenhuma objeco a fazer e que estava pronto para obedecer.
Era o que Athos queria; levantou-se, cumprimentou, saiu, tomou o caminho por que viera, entrou na estalagem e fechou-se no quarto.
Ao nascer do dia, d'Artagnan entrou no quarto dele e perguntou-lhe o que ia fazer.
- Esperar - respondeu Athos.
Passados instantes, a superiora do convento mandou prevenir os mosqueteiros de que o enterro da vtima de Milady seria ao meio-dia. Quanto  envenenadora, no tinham 
tido notcias; devia ter fugido pelo jardim, pois tinham reconhecido as suas pegadas no jardim e tinham encontrado a porta fechada; quanto  chave, desaparecera.
 hora indicada, lorde de Winter e os seus amigos dirigiram-se ao convento: os sinos repicavam, a capela estava aberta, a grade do coro fechada. No meio do coro, 
o corpo da vtima, com o seu hbito de novia, estava exposto. De cada lado do coro e por detrs das grades que davam para o convento, estava toda a comunidade das 
Carmelitas, escutando dali o ofcio religioso e juntando o seu canto com o canto dos sacerdotes, sem ver os profanos e sem ser vista por eles.
 porta da capela, d'Artagnan sentiu que tornava a perder a coragem, virou-se  procura de Athos, mas este tinha desaparecido.
Fiel  sua misso de vingana, Athos mandara que o conduzissem ao jardim onde, na areia, seguindo os passos ligeiros daquela mulher que deixara um rasto de sangue 
por toda a parte onde passara, avanou at  porta que dava para o bosque, mandou abri-la e embrenhou-se na floresta.

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Ento todas as suas suspeitas se confirmaram: o caminho em que o carro desaparecera contornava a floresta. Athos seguiu o caminho durante algum tempo com os olhos 
postos no cho; ligeiras manchas de sangue, provenientes dum ferimento causado no homem que acompanhava o carro como correio ou num dos cavalos, marcavam o caminho. 
Cerca de trs quartos de lgua mais adiante, a cinquenta passos de Festubert, uma mancha de sangue maior aparecia; o solo tinha sido espezinhado pelos cavalos. Entre 
a floresta e este local denunciador, um pouco atrs da terra remexida, encontravam-se as mesmas pegadas que no jardim; o carro tinha parado.
Neste lugar, Milady sara do bosque e entrara no carro.
Satisfeito com esta descoberta que confirmava todas as suas suspeitas, Athos voltou  estalagem e encontrou Planchet, que o esperava impacientemente.
Era como Athos previra.
Planchet seguira a estrada, como Athos notara as manchas, como Athos reconhecera o lugar onde os cavalos tinham parado, mas fora um pouco mais longe que Athos, de 
modo que, na aldeia de Festubert, enquanto tomava um copo numa estalagem, e sem precisar de fazer perguntas, soubera que na vspera, s oito e meia da noite, um 
homem ferido, que acompanhava uma dama que viajava numa sege da posta, fora obrigado a parar, no podendo ir mais longe. O acidente fora atribudo a uns ladres 
que teriam detido a sege no bosque. O homem ficara na aldeia, a mulher trocara de cavalos e prosseguira o seu caminho.
Planchet ps-se  procura do postilho que conduzira a sege e encontrou-o. Conduzira a dama at Fromelles, e de Fromelles ela partira para Armentires. Planchet 
tomou um atalho, e s sete da manh estava em Armentires.
S havia uma estalagem, que era a da Posta. Planchet apresentou-se como um criado  procura de emprego. Conversara dez minutos com a gente da estalagem e soube que 
uma mulher s chegara s onze da noite, pedira um quarto, mandara chamar o estalajadeiro e dissera-lhe que pretendia ficar algum tempo naquela regio.
Planchet no precisava de saber mais nada. Correu ao lugar marcado, encontrou os trs lacaios no seu posto, p-los de sentinela a todas as portas da estalagem e 
veio ter com Athos, que acabava de receber as informaes de Planchet quando os seus amigos entraram.
Todos os rostos estavam sombrios e crispados, at o doce rosto de Aramis.
- Que fazer? - perguntou d'Artagnan.
- Esperar - respondeu Athos.
Cada um deles se retirou para o seu quarto.
s oito da noite, Athos deu ordem para selar os cavalos e mandou prevenir lorde de Winter e os seus amigos que deviam preparar-se para a expedio.
Num instante os cinco estavam prontos. Cada um examinou e preparou as suas armas. Athos desceu  frente e encontrou d'Artagnan j a cavalo e impaciente.

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- Pacincia - disse Athos -, ainda falta uma pessoa.
Os quatro cavaleiros olharam em volta admirados pois, por mais que pensassem, no sabiam quem era a pessoa que podia faltar.
Neste momento Planchet trouxe o cavalo de Athos e o mosqueteiro saltou com ligeireza para a sela.
- Esperai-me que j volto - disse ele. E partiu a galope.
Passado um quarto de hora voltou, acompanhado por um homem mascarado e embrulhado numa grande capa vermelha.
Lorde de Winter e os trs mosqueteiros interrogaram-se com o olhar. Nenhum deles pde informar os outros, pois todos ignoravam quem era aquele homem. Contudo, pensaram 
que devia ser assim, pois fora Athos que o ordenara.
s nove horas, guiado por Planchet, o pequeno cortejo ps-se a caminho, tomando a estrada que o carro seguira.
Que triste aspecto tinham estes homens correndo em silncio e mergulhados nos seus pensamentos, soturnos como o desespero, sombrios como o castigo.


      LXV - O JULGAMENTO


      Era uma noite tempestuosa e sombria, grandes nuvens corriam no cu, velando a claridade das estrelas; a lua s devia despontar  meia-noite.
Por vezes,  luz dum relmpago que brilhava no horizonte, via-se a estrada que se desenrolava branca e solitria; depois, quando o relmpago desaparecia, tudo voltava 
s trevas.
A cada instante, Athos convidava d'Artagnan, sempre  cabea do grupo, a voltar para o seu lugar, que passado um instante tornava a abandonar; s tinha um pensamento, 
avanar, e avanava.
Atravessaram em silncio a aldeia de Festubert, onde ficara o criado ferido, depois ladearam o bosque de Richebourg; ao chegarem a Herlies, Planchet, que continuava 
a dirigir a coluna, virou  esquerda.
Vrias vezes, tanto lorde de Winter como Porthos e Aramis tinham tentado dirigir a palavra ao homem da capa vermelha, mas a cada pergunta este inclinara-se sem responder. 
Ento os viajantes compreenderam que havia alguma razo para que o desconhecido conservasse o silncio e tinham deixado de lhe dirigir a palavra.
De resto a tempestade crescia, os relmpagos sucediam-se rapidamente, o trovo comeava a rosnar, e o vento, precursor do furaco, assobiava na plancie, agitando 
as plumas dos cavaleiros.
O cortejo ps-se a galope.
Um pouco alm de Fromelles, a trovoada rebentou; desdobraram as capas, ainda faltavam trs lguas, percorreram-nas sob torrentes de chuva.
D'Artagnan tirara o chapu e no se cobrira com a capa; gostava de sentir escorrer a gua na testa escaldante e no corpo agitado por arrepios de febre.
No momento em que o grupo passara por Goskal e ia chegar  posta, um homem, abrigado debaixo duma rvore, afastou-se do tronco com o qual ficara confundido no escuro 
e avanou at ao meio da estrada, pondo um dedo nos lbios.
Athos reconheceu Grimaud.
- Que h? - exclamou d'Artagnan. - Teria ela deixado Armentires?
Grimaud fez um sinal afirmativo com a cabea. D'Artagnan rangeu os dentes.
- Silncio, d'Artagnan! - disse Athos. - Fui eu que me encarreguei de tudo, e portanto sou eu que interrogo Grimaud.
- Onde est ela? - perguntou Athos. Grimaud estendeu a mo na direco do Lys.
- Longe daqui? - perguntou Athos.
Grimaud apresentou a Athos o indicador dobrado.
- S? - perguntou Athos. Grimaud fez que sim.
- Meus senhores - disse Athos -, est sozinha a meia lgua daqui na direco do rio.
- Est bem - disse d'Artagnan. - Conduz-nos, Grimaud.
Grimaud meteu-se atravs dos campos e serviu de guia ao cortejo. Cerca de quinhentos passos mais  frente encontraram um regato,
que atravessaram a vau.
 luz dum relmpago, viram a aldeia de Erquinghem.
-  ali? - perguntou d'Artagnan. Grimaud abanou a cabea em sinal de negao.
- Silncio! - disse Athos.
E o grupo continuou o seu caminho.
Outro relmpago brilhou; Grimaud estendeu o brao e,  luz azulada da serpente de fogo, distinguiram uma casinha isolada, na margem do rio, a cem passos do barco. 
Uma janela estava iluminada.
- C estamos - disse Athos.
Neste momento, um homem deitado no fosso ergueu-se; era Mosqueton, que apontou para a janela iluminada.
- Est ali - disse ele.
- E Bazin? - perguntou Athos.
- Enquanto eu guardava a floresta, ele guardava a porta.

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Athos apeou-se do cavalo e entregou as rdeas a Grimaud, e avanou para a janela, depois de ter feito sinal ao resto do grupo para ir para o lado da porta.
A casinha era rodeada por uma sebe de dois ou trs ps de altura. Athos transps a sebe, chegou  janela sem postigos mas com as cortinas bem corridas.
Subiu o rebordo de pedra de modo a ficar com os olhos acima das cortinas.
 luz dum candeeiro, viu uma mulher embrulhada numa capa escura sentada num banquinho, perto dum lume quase apagado; tinha os cotovelos pousados numa mesa tosca 
e apoiava a cabea nas mos brancas como o marfim.
No se podia distinguir o seu rosto, mas um sorriso sinistro passou nos lbios de Athos; no havia engano, era aquela que procurava.
Neste momento um cavalo relinchou; Milady ergueu a cabea, viu, colado  vidraa, o rosto plido de Athos e deu um grito.
Athos compreendeu que tinha sido reconhecido, empurrou a janela com o joelho e a mo, a janela cedeu e os vidros partiram-se.
E Athos, qual o espectro da vingana, saltou para dentro do quarto.
Milady correu para a porta e abriu-a; ainda mais plido e ameaador que Athos, d'Artagnan estava  soleira.
Milady recuou dando um grito. D'Artagnan, julgando que ela tinha maneira de fugir e receando que lhes escapasse tirou a pistola do cinto, mas Athos ergueu a mo.
- Pe a arma no lugar, d'Artagnan - disse ele. - Importa que esta mulher seja julgada e no assassinada. Espera mais um instante, d'Artagnan, e ficars satisfeito. 
Entrai, meus senhores.
D'Artagnan obedeceu, pois Athos tinha a voz solene e o gesto poderoso dum juiz enviado pelo prprio Deus. Assim, atrs de d'Artagnan, entraram Porthos, Aramis, lorde 
de Winter e o homem da capa vermelha.
Os quatro criados guardavam a porta e a janela.
Milady tinha cado na cadeira com as mos estendidas, como para esconjurar esta terrvel apario; ao ver o cunhado, deu um grito terrvel.
- Quem procurais? - exclamou Milady.
- Procuramos - disse Athos - Charlotte Backson, que primeiro se chamou condessa de La Fere, depois lady de Winter, baronesa de Scheffield.
- Sou eu, sou eu! - murmurou ela no auge do terror. - Que quereis de mim?
- Queremos julgar-vos pelos vossos crimes - disse Athos. - Podereis defender-vos, justificar-vos se podeis. Sr. d'Artagnan, acusai primeiro.
D'Artagnan avanou.
- Diante de Deus e dos homens - disse ele -, acuso esta mulher de ter assassinado Constance Bonacieux, falecida ontem  noite.
Virou-se para Porthos e Aramis.

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- Ns confirmamos - disseram com um nico movimento os dois mosqueteiros.
D'Artagnan continuou:
- Diante de Deus e dos homens, acuso esta mulher de me ter querido envenenar a mim prprio, com o vinho que me enviara de Villeroy, acompanhado de uma carta falsa, 
como se o vinho proviesse dos meus amigos; Deus salvou-me, mas no meu lugar morreu um homem chamado Brisemont.
- Confirmamos - disseram em unssono Porthos e Aramis.
- Diante de Deus e dos homens, acuso esta mulher de me ter levado a assassinar o baro de Wardes; e, como no est aqui ningum para confirmar esta acusao, eu 
confirmo. Tenho dito.
E d'Artagnan foi para o outro canto da sala com Porthos e Aramis.
- Vs, Milorde! - disse Athos.
O baro aproximou-se por sua vez.
- Diante de Deus e dos homens - disse ele -, acuso esta mulher de ter mandado assassinar o duque de Buckingham.
- O duque de Buckingham assassinado? - disseram com um grito todos os assistentes.
- Sim - disse o baro -, assassinado! graas  carta de advertncia que me tnheis escrito, eu mandara prender esta mulher e confiara a sua guarda a um leal servidor; 
ela corrompeu esse homem, ps-lhe o punhal na mo, f-lo matar o duque, e talvez neste momento Felton esteja a pagar com a prpria vida o crime desta fria.
Um arrepio correu entre os juzes ao ouvirem a revelao dos crimes ainda desconhecidos.
- No  tudo - continuou lorde de Winter. - Meu irmo, que vos fez sua herdeira, morreu em trs horas duma estranha doena que deixa manchas lvidas por todo o corpo. 
Minha irm, como morreu vosso marido?
- Que horror! - exclamaram Porthos e Aramis.
- Assassina de Buckingham, assassina de Felton, assassina de meu irmo, peo justia contra vs e declaro que, se no a fizerem, eu a farei.
E lorde de Winter foi pr-se ao lado de d'Artagnan, cedendo o lugar
a outro acusador.
Milady enterrou o rosto nas mos e tentou esclarecer as suas ideias confundidas por uma vertigem mortal.
-  a minha vez - disse Athos, tambm a tremer como o leo treme ao ver a serpente -,  a minha vez. Eu casei-me com esta mulher quando ela era uma jovem, casei-me 
com ela contra a vontade da minha famlia inteira; dei-lhe o que tinha, dei-lhe o meu nome; e um dia apercebi-me de que esta mulher estava marcada com uma flor-de-lis 
no ombro esquerdo.
- Oh! - disse Milady, erguendo-se. - Desafio-vos a encontrar o tribunal que pronunciou essa sentena infame contra mim.

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Desafio-vos a encontrar aquele que a executou.
- Silncio - disse uma voz. - Sou eu que respondo!
E o homem da capa vermelha aproximou-se por sua vez.
- Quem  este homem? Quem  este homem? - exclamou Milady, sufocada de terror; os seus cabelos soltaram-se e eriaram-se na cabea lvida como se estivessem vivos.
Todos os olhares se voltaram para este homem, pois era desconhecido para todos, excepto para Athos.
Mesmo assim, Athos fitava-o com tanta estupefaco como os outros, pois ignorava como  que ele podia estar implicado no horrvel drama que nesse momento se desenrolava.
Depois de se ter aproximado de Milady, com passo lento e solene, de modo que s a mesa o separasse dela, o desconhecido tirou a mscara.
Milady fitou durante algum tempo com um terror crescente este rosto plido, emoldurado por cabelos e suas negros, cuja nica expresso era uma impassibilidade 
glacial, depois de repente:
- Oh, no, no! - disse ela, levantando-se e recuando at  parede. - No, no!  uma apario infernal! No  ele! A mim, a mim! - exclamou com voz rouca, virando-se 
para a parede como se pudesse abrir uma passagem com as mos.
- Mas quem sois vs? - exclamaram todas as testemunhas desta cena.
- Perguntai a esta mulher - disse o homem da capa vermelha -, pois, como vedes, ela reconheceu-me.
- O carrasco de Lille, o carrasco de Lille! - exclamou Milady, entre gue a um terror insane e fincando as mos na parede para no cair.
Toda a gente se afastou, e o homem da capa vermelha ficou s no meio da sala.
- Oh, piedade, piedade! Perdo! - exclamou a miservel, caindo de joelhos.
O desconhecido deixou o silncio restabelecer-se.
- Eu bem dizia que ela me tinha reconhecido! - tornou ele. - Sim, sou o carrasco de Lille, e eis a minha histria.
Todos os olhos estavam pregados neste homem, cujas palavras eram aguardadas com vida ansiedade.
- Esta jovem dama era antigamente uma rapariga to bela como hoje. Era religiosa no convento das Beneditinas de Templemar. Um jovem padre de corao simples e crdulo 
oficiava na igreja desse convento; ela resolveu seduzi-lo. Teria seduzido um santo.
"Os votos de ambos eram sagrados, irrevogveis; a sua ligao no podia durar muito sem os perder. Ela conseguiu convenc-lo a abando narem aquela terra, mas, para 
isso, para fugirem juntos, para alcanarem outra parte da Frana onde pudessem viver tranquilos por serem desconhecidos, era preciso dinheiro; nem um nem o outro 
tinham dinheiro. O padre roubou os vasos sagrados e vendeu-os; mas, quando se preparavam para fugir juntos, foram presos.

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"Oito dias depois, ela tinha seduzido o filho do carcereiro e tinha fugido. O jovem padre foi condenado a dez anos de priso e a ser marcado. Eu era o carrasco da 
cidade de Lille, como diz esta mulher. Fui obrigado a marcar o culpado, e o culpado, meus senhores, era meu irmo!
"Ento jurei que essa mulher que o tinha perdido, que era mais do que a sua cmplice pois tinha-o levado ao crime, ao menos partilharia o seu castigo. Suspeitei 
do lugar onde estava escondida, persegui-a, encontrei-a, amarrei-a e imprimi-lhe a mesma marca que tinha imprimido a meu irmo.
"Um dia depois de eu regressar a Lille, meu irmo conseguiu escapar-se por sua vez, e eu fui acusado de cumplicidade e condenado a ficar na cadeia no lugar dele 
enquanto no se constitusse prisioneiro. Meu pobre irmo ignorava esta sentena; tinha alcanado aquela mulher e tinham fugido juntos para o Berry, onde ele obtivera 
uma pequena parquia. A mulher passava por ser sua irm.
"O senhor das terras em que estava situada a igreja viu esta pretensa irm e enamorou-se dela a ponto de lhe propor casamento. Ento ela trocou o homem que tinha 
perdido por aquele que devia perder e tornou-se condessa de La Fere...
Todos os olhos se voltaram para Athos, pois era esse o seu verdadeiro nome, e ele fez sinal que tudo o que o carrasco tinha dito era verdade.
- Ento - continuou este -, louco, desesperado, decidindo desembaraar-se duma existncia  qual ela tinha roubado tudo, honra e felicidade, meu pobre irmo voltou 
a Lille e, ao saber da sentena que me condenara no lugar dele, constituiu-se prisioneiro e enforcou-se no respiradouro da sua cela.
"De resto, h que fazer-lhes justia, os que me tinham condenado cumpriram a sua palavra. Assim que constataram a identidade do cadver, devolveram-me a liberdade.
"Eis o crime de que eu a acuso, eis a razo por que a marquei.
- Sr. d'Artagnan - disse Athos -, qual  a pena que reclamais para esta mulher?
- A pena de morte - respondeu d'Artagnan.
- Milorde de Winter - continuou Athos -, qual  a pena que reclamais para esta mulher?
- A pena de morte - retorquiu lorde de Winter.
- Senhores Porthos e Aramis - continuou Athos -, vs que sois os seus juzes, que pena aplicais a esta mulher?
- A pena de morte - responderam com voz surda os dois mosqueteiros.
Milady soltou um grito horrvel e deu alguns passos na direco dos seus juzes, arrastando-se de joelhos. Athos estendeu a mo para ela.
- Anne de Breuil, condessa de La Fere, milady de Winter - disse ele -, os vossos crimes cansaram os homens na Terra e Deus no Cu. Se sabeis alguma orao, dizei-a, 
pois fostes condenada e ides morrer.
Ao ouvir estas palavras que no lhe permitiam nenhuma esperana, Milady ergueu-se o mais que pde, quis falar,

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mas no teve foras; sentiu que uma mo poderosa e implacvel a agarrava pelos cabelos e a arrastava to irrevogavelmente como a fatalidade arrasta o homem, nem 
sequer tentou oferecer resistncia, e saiu da choupana.
Lorde de Winter, d'Artagnan, Athos, Porthos e Aramis saram atrs dela. Os criados seguiram os seus amos, e a sala ficou solitria com a sua janela partida, a sua 
porta aberta e o seu candeeiro enegrecido que ardia tristemente em cima da mesa.


      LXVI - A EXECUO


      Era quase meia-noite; a Lua, afilada em minguante e ensanguentada pelos ltimos vestgios da tempestade, despontava atrs da pequena cidade de Armentires, 
que destacava na sua claridade lvida a silhueta escura das suas casas e o esqueleto do seu alto campanrio recortado a contra luz.  frente, o Lys rolava as suas 
guas semelhantes a um rio de estanho fundido, enquanto na outra margem se via a massa negra das rvores perfilar-se num cu tempestuoso invadido por grandes nuvens 
acobreadas que formavam uma espcie de crepsculo no seio da noite.  esquerda erguia-se um velho moinho abandonado, de asas imveis, nas runas do qual uma coruja 
fazia ouvir o seu grito agudo, peridico e montono. Aqui e ali na plancie,  direita e  esquerda do caminho que o lgubre cortejo seguia, surgiam algumas rvores 
baixas e entroncadas que pareciam anes disformes acocorados  espreita dos homens quela hora sinistra.
De tempos a tempos, um grande relmpago rasgava o horizonte de ponta a ponta, serpenteava por sobre a massa negra das rvores e vinha cortar o cu e a gua em duas 
partes como uma horrvel cimitarra. Nem uma aragem passava na atmosfera pesada. Um silncio de morte esmagava toda a natureza; o solo estava hmido e escorregadio 
por causa da chuva que acabava de cair, e as ervas reanimadas emanavam o seu odor com mais energia.
Dois criados seguravam o brao de Milady e arrastavam-na; o carrasco ia atrs, lorde de Winter, d'Artagnan, Athos, Porthos e Aramis caminhavam atrs do carrasco.
Planchet e Bazin eram os ltimos da fila.
Os dois criados conduziam Milady para o rio. Ia muda mas os seus olhos falavam com a sua inexprimvel eloquncia, suplicando a cada um que fitava.
Como ia alguns passos  frente, disse aos criados:

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- Mil pistolas para cada um se protegerdes a minha fuga. Mas, se me entregardes aos vossos amos, tenho aqui perto uns vingadores que vos faro pagar cara a minha 
morte.
Grimaud hesitava. Mousqueton estava todo a tremer.
Athos, que ouvira a voz de Milady, aproximou-se rapidamente, e lorde de Winter fez o mesmo.
- Mandai embora estes criados - disse ele -, ela falou-lhes e j no so seguros.
Chamaram Planchet e Bazin, que tomaram o lugar de Grimaud e de Mousqueton.
Ao chegarem  beira d'gua, o carrasco aproximou-se de Milady e amarrou-lhe os ps e as mos.
Ento ela rasgou o silncio para gritar:
- Sois uns cobardes, sois uns miserveis assassinos. Juntais-vos dez para degolar uma mulher. Tomai cautela, se no for socorrida, serei vingada.
- Vs no sois uma mulher - disse friamente Athos -, no pertenceis espcie humana, sois um demnio que escapou do inferno e que ns vamos devolver ao stio donde 
veio.
- Ah, senhores virtuosos! - disse Milady. - Prestai ateno, pois aquele que tocar num cabelo da minha cabea ser por sua vez um assassino.
- O carrasco pode matar sem ser um assassino, minha senhora - disse o homem da capa vermelha, batendo na sua espada. -  o ltimo juiz e nada mais: Nachrichter, 
como dizem os nossos vizinhos alemes.
E, como a amarrava enquanto dizia estas palavras, Milady deu dois ou trs gritos selvticos, que produziram um efeito sombrio e estranho, voando na noite e perdendo-se 
nas profundezas do bosque.
- Mas se eu sou culpada, se cometi os crimes de que me acusais - gritava Milady -, conduzi-me diante dum tribunal; vs no sois juizes para me condenar.
- Eu tinha-vos proposto Tyburn - disse lorde de Winter -, por que no quisestes?
- Porque no quero morrer! - exclamou Milady, debatendo-se. - Porque sou muito nova para morrer!
- A mulher que envenenastes em Bthune era ainda mais jovem que vs, minha senhora, e contudo est morta - disse d'Artagnan.
- Entrarei para um convento, far-me-ei religiosa - disse Milady.
- Estveis num convento - disse o carrasco -, e sastes para perder meu irmo.
Milady deu um grito de pavor e caiu de joelhos. O carrasco levantou-a e quis lev-la para o barco.
- Oh, meu Deus! - exclamou ela. - Meu Deus! Ides afogar-me! Estes gritos tinham algo de to dilacerante que d'Artagnan, que a
princpio era o mais encarniado na perseguio de Milady, se foi sentar em cima dum tronco e inclinou a cabea, tapando os ouvidos com as mos. Porm, apesar disso, 
ainda ouvia ameaar e gritar.
D'Artagnan era o mais novo de todos e faltou-lhe a coragem.

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- Oh, no posso ver este horrvel espectculo! No posso consentir que esta mulher morra assim!
Milady ouvira estas palavras e agarrara-se a uma luzinha de esperana.
- D'Artagnan, d'Artagnan! - gritou ela. - Lembra-te de que eu te amei!
O rapaz levantou-se e deu um passo na direco dela. Mas, bruscamente, Athos tirou a espada e atravessou-se no caminho.
- Se fizerdes mais um passo, d'Artagnan - disse ele -, cruzaremos as espadas.
D'Artagnan caiu de joelhos e orou.
- Vamos - continuou Athos -, cumpre o teu dever, carrasco.
- De bom grado, Monsenhor - disse o carrasco -, pois, se  certo que sou um bom catlico, creio firmemente que sou justo ao cumprir a minha misso com esta mulher.
- Est bem.
Athos deu um passo na direco de Milady.
- Eu perdoo-vos - disse ele - o mal que me fizestes; perdoo-vos o meu futuro desfeito, o meu amor maculado e a minha salvao comprometida para sempre pelo desespero 
em que me lanastes. Morrei em paz.
Lorde de Winter avanou por sua vez.
- Perdoo-vos - disse ele - o envenenamento de meu irmo, o assassnio de Sua Graa lorde Buckingham; perdoo-vos a morte do pobre Felton, perdoo-vos as vossas tentativas 
com a minha pessoa. Morrei em paz.
- E eu - disse d'Artagnan -, perdoai-me, minha senhora, por ter provocado a vossa clera com uma astcia indigna dum gentil-homem; e, em troca, eu vos perdoo o assassnio 
da minha pobre amiga e as vossas vinganas cruis para mim, perdoo-vos e choro por vs. Morrei em paz.
- I am lost! - murmurou em ingls Milady. - I must die.
Ento levantou-se sozinha, lanou em seu redor um daqueles olhares
claros que pareciam brotar dum olho de chamas. No viu nada. Escutou e no ouviu nada.  sua volta s tinha inimigos.
- Onde vou morrer? - perguntou.
- Na outra margem - respondeu o carrasco.
Ento f-la entrar no barco e, quando ia pr o p l dentro, Athos entregou-lhe uma quantia de dinheiro.
- Eis o preo da execuo - disse ele -, e que se veja que agimos como juzes.
- Est bem - disse o carrasco -, e que agora, por sua vez, esta mulher saiba que no fao o meu ofcio, mas cumpro o meu dever.
E atirou o dinheiro para o rio.
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O barco afastou-se para a margem esquerda do Lys, levando a culpada e o executor; todos os outros ficaram na margem direita, onde tinham cado de joelhos.
O barco deslizava lentamente ao longo da corda, sob o reflexo duma nuvem plida que naquele momento passava sobre a gua.
Viram-no chegar  outra margem; os personagens desenhavam-se a negro no horizonte avermelhado.
Durante o trajecto, Milady conseguira soltar a corda que lhe amarrava os ps; ao chegar  outra margem, saltou ligeira e desatou a fugir.
Mas o solo estava hmido; ao chegar ao alto do talude, escorregou e
caiu.
Teve certamente uma ideia supersticiosa; compreendeu que o Cu lhe recusava o seu socorro e ficou na atitude em que estava, de cabea inclinada e mos juntas.
Ento, da margem, viram o carrasco erguer lentamente os braos; um raio de luar reflectiu-se na lmina da sua larga espada; os dois braos caram; ouviu-se o assobio 
da cimitarra e o grito da vtima, depois uma massa truncada abateu-se sob o golpe.
Ento o carrasco soltou a sua capa vermelha e estendeu-a no cho, deitou o corpo em cima da capa e atirou a cabea para o lado do corpo, atou as quatro pontas e 
voltou ao barco.
Ao chegar ao meio do Lys, parou o barco e suspendeu o seu fardo sobre o rio:
- Deixai passar a justia de Deus! - gritou bem alto.
E deixou cair o cadver no fundo da gua, que se fechou sobre ele.


Trs dias depois os quatro mosqueteiros voltaram a Paris; estavam nos limites da sua folga, e na mesma noite foram fazer a sua visita habitual ao Sr. de Trville.
- Ento, meus senhores - perguntou-lhes o bravo capito -, divertistes-vos muito na vossa excurso?
- Prodigiosamente - respondeu Athos, cerrando os dentes.


      LXVII - CONCLUSO


      No dia 6 do ms seguinte, o rei, mantendo a promessa que fizera ao cardeal de deixar Paris e voltar a La Rochelle, saiu da capital, ainda aturdido com a notcia 
que ali se acabava de espalhar do recente assassnio de Buckingham.
Embora prevenida de que o homem que tanto amara corria perigo, a rainha, quando lhe anunciaram esta morte, no quis acreditar; chegou at a gritar imprudentemente:
-  falso! Ele acaba de me escrever.

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Mas, no dia seguinte, teve de acreditar na fatal notcia; La Porte, retido em Inglaterra como toda a gente por ordem do rei Carlos I, chegou com o ltimo e fnebre 
presente que Buckingham enviava  rainha.
Grande fora a alegria do rei; no se deu ao trabalho de a dissimular e at a exibiu diante da rainha. Como todos os coraes fracos, Lus XIII era pouco generoso.
Mas, em breve, o rei ficou sombrio e indisposto; a sua fronte no era das que se desanuviam por muito tempo; sentia que, ao voltar ao acampamento, ia retomar a sua 
escravido, e contudo voltava.
O cardeal era para ele a serpente fascinante e ele era a ave que esvoaa de ramo em ramo sem conseguir escapar-lhe.
Assim, o regresso a La Rochelle era profundamente triste. Os nossos quatro amigos, sobretudo, eram um motivo de espanto para os seus camaradas; viajavam juntos, 
lado a lado, de olhar sombrio e cabea baixa. S Athos erguia de vez em quando a ampla fronte; um lampejo brilhava-lhe nos olhos, um sorriso amargo passava-lhe pelos 
lbios, depois, como os seus camaradas, voltava a mergulhar nas suas divagaes.
Logo que a escolta chegou a uma cidade e que conduziram o rei s suas acomodaes, os quatro amigos retiravam-se ou para os seus aposentos ou para alguma taberna 
afastada, onde no jogavam nem bebiam; apenas falavam em voz baixa, verificando com ateno se ningum os escutava.
Um dia em que o rei fizera uma paragem na estrada para "voler la pie" e que os quatro amigos, como de costume, em vez de seguirem a caada, tinham parado numa taberna 
na estrada,-um homem, vindo de La Rochelle a toda a brida, parou  porta para tomar um copo de vinho e mergulhou o olhar no interior da sala onde os quatro mosqueteiros 
estavam sentados a uma mesa.
- Ol, Sr. d'Artagnan! - disse ele. - No sois vs que vejo ali?
D'Artagnan ergueu a cabea e deu um grito de alegria. Este homem,
a quem chamava o seu fantasma, era o seu desconhecido de Meung, da Rua dos Fossoyeurs e de Arras.
D'Artagnan puxou da espada e correu  porta.
Mas agora, em vez de fugir, o desconhecido apeou-se do cavalo e avanou ao encontro de d'Artagnan.
- Ah, senhor! - disse o rapaz. - Finalmente vos encontro; desta vez no me escapareis.
- Tambm no tenho essa inteno, senhor, pois desta vez andava  vossa procura. Em nome do rei, estais preso e tendes de entregar-me a vossa espada, senhor, sem 
resistncia. Aviso-vos que est em jogo a vossa vida.
- Quem sois vs? - perguntou d'Artagnan, baixando a espada mas sem a entregar.
- Sou o cavaleiro de Rochefort - respondeu o desconhecido -, escudeiro do Sr. Cardeal de Richelieu, e tenho ordens de vos levar a Sua Eminncia.

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- Ns vamos ter com Sua Eminncia, Sr. Cavaleiro - disse Athos, avanando -, e vs aceitareis a palavra do Sr. d'Artagnan, que vai direito a La Rochelle.
- Devo p-lo nas mos dos guardas que o conduziro ao acampamento.
- Ns servimos-lhe de guardas, senhor, palavra de gentil-homens. Mas tambm, palavra de gentil-homens - acrescentou Athos, franzindo o sobrolho -, o Sr. d'Artagnan 
no nos deixar.
O cavaleiro de Rochefort olhou para trs e viu que Porthos e Aramis se tinham colocado entre ele e a porta; compreendeu que estava  inteira disposio dos quatro 
homens.
- Meus senhores - disse ele -, se o Sr. d'Artagnan quiser entregar-me a sua espada e juntar a sua palavra  vossa, contentar-me-ei com a vossa palavra de que conduzireis 
o Sr. d'Artagnan ao quartel do Sr. Cardeal.
- Dou-vos a minha palavra, senhor - disse d'Artagnan -, e aqui tendes a minha espada.
- Ainda bem - acrescentou Rochefort -, pois tenho de prosseguir
viagem.
- Se  para ir ter com Milady - disse friamente Athos -, no vale a pena, pois no a encontrareis.
- Que lhe aconteceu? - perguntou vivamente Rochefort.
- Voltai ao acampamento e sabereis.
Rochefort ficou pensativo por um instante, depois, como estava apenas a meio dia de Surgres, onde o cardeal devia vir ao encontro do rei, resolveu seguir o conselho 
de Athos e regressar com eles.
Alis, este regresso oferecia-lhe uma vantagem: vigiar pessoalmente o seu prisioneiro.
Puseram-se a caminho.
No dia seguinte, s trs da tarde, chegaram a Surgres. O cardeal esperava Lus XIII. O ministro e o rei trocaram cumprimentos afectuosos, congratularam-se pelo 
feliz acaso que livrara a Frana do inimigo encarniado que amotinava a Europa contra ela. Depois, o cardeal, que fora prevenido por Rochefort de que d'Artagnan 
tinha sido preso, e que tinha pressa de voltar a v-lo, despediu-se do rei, convidando-o para ir visitar no dia seguinte as obras do dique, que estavam concludas.
Ao voltar  noite ao seu quartel da ponte de La Pierre, o cardeal encontrou de p,  porta da casa que habitava, d'Artagnan sem espada e os trs mosqueteiros armados.
Desta vez, como se sentia forte, fitou-os severamente e fez sinal a d'Artagnan que o seguisse.
D'Artagnan obedeceu.
- Ns esperamos-te, d'Artagnan - disse Athos para o cardeal ouvir.
Sua Eminncia franziu o sobrolho, parou um instante, depois continuou a andar sem pronunciar uma palavra.

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D'Artagnan entrou atrs do cardeal, e Rochefort atrs de d'Artagnan; a porta ficou guardada.
Sua Eminncia dirigiu-se ao quarto que lhe servia de gabinete, e fez sinal a Rochefort que mandasse entrar o jovem mosqueteiro.
Rochefort obedeceu e retirou-se.
D'Artagnan ficou s diante do cardeal; era a sua segunda entrevista com Richelieu, e mais tarde confessou que estava convencido de que seria a ltima.
Richelieu ficou de p, encostado  lareira, separado de d'Artagnan por uma mesa.
- Senhor - disse o cardeal -, fostes preso por minha ordem.
- Assim me disseram, Monsenhor.
- Sabeis porqu?
- No, Monsenhor, pois a nica coisa pela qual poderia ser preso ainda  desconhecida para Sua Eminncia.
Richelieu olhou fixamente para o rapaz.
- Oh! Oh! - disse ele. - Que quer isto dizer?
- Se Monsenhor se dignar dizer-me primeiro os crimes que me imputam, depois lhe direi os factos que realizei.
- Imputam-vos crimes que fizeram cair cabeas mais altas que a vossa, senhor! - disse o cardeal.
- Quais, senhor? - disse d'Artagnan com uma calma que admirou o prprio cardeal.
- Imputam-vos o facto de vos terdes correspondido com os inimigos do reino, de terdes surpreendido os segredos do Estado, de terdes tentado fazer abortar os planos 
do vosso general.
- E quem me imputa, Monsenhor? - disse d'Artagnan, que desconfiava que a acusao fora feita por Milady. - Uma mulher marcada pela justia do pas, uma mulher que 
se casou com um homem em Frana e com outro na Inglaterra, uma mulher que envenenou o segundo marido e que me tentou envenenar a mim prprio!
- Que dizeis, senhor? - exclamou o cardeal espantado. - E que mulher  essa?
- Milady de Winter - respondeu d'Artagnan. - Sim, Milady de Winter, cujos crimes Sua Eminncia ignorava certamente quando ela conquistou a sua confiana.
- Senhor - disse o cardeal -, se Milady cometeu os crimes que dizeis, ser castigada.
- J foi, Monsenhor.
- E quem a castigou?
- Ns.
- Est na priso?
- Est morta.
- Morta! - repetiu o cardeal, que no podia acreditar no que ouvia. - Morta! Dissestes que estava morta?
- Tentou matar-me trs vezes e eu perdoei-lhe; mas matou a mulher que eu amava. Ento, os meus amigos e eu apanhmo-la, julgmo-la e condenmo-la.
Ento d'Artagnan contou o envenenamento da Sr.a Bonacieux no convento das Carmelitas de Bthune, o julgamento da casa isolada e a execuo nas margens do Lys.
Um arrepio percorreu o corpo do cardeal, que contudo no se arrepiava facilmente.
Mas de repente, como se sofresse a influncia dum pensamento mudo, a fisionomia do cardeal, at ento sombria, desanuviou-se a pouco e pouco e chegou  mais perfeita 
serenidade.
- Ento - disse ele com uma voz cuja doura contrastava com a severidade das suas palavras -, vs constituste-vos juzes sem pensar que os que no tm a misso 
de punir e punem so assassinos!
- Monsenhor, juro-vos que nem por um instante tive a inteno de me defender de vs. Suportarei o castigo que Vossa Eminncia me quiser infligir. No tenho grande 
apego  vida para recear da morte.
- Sim, eu sei, sois um homem de coragem, senhor - disse o cardeal com voz quase afectuosa. - Posso, pois, dizer-vos desde j que sereis julgado e at condenado.
- Um outro poderia responder a Vossa Eminncia que tem o seu perdo no bolso; eu contento-me em dizer: Ordenai, Monsenhor, estou pronto.
- O vosso perdo? - disse Richelieu surpreendido.
- Sim, Monsenhor - disse d'Artagnan.
- E assinado por quem? Pelo rei?
E o cardeal pronunciou estas palavras com uma singular expresso de desprezo.
- No, por Vossa Eminncia.
- Por mim? Estais louco, senhor?
- Monsenhor certamente reconhecer a sua letra.
E d'Artagnan apresentou ao cardeal o precioso papel que Athos arrancara a Milady e que dera a d'Artagnan para lhe servir de salvaguarda.
Sua Eminncia pegou no papel e leu com voz lenta e martelando as
slabas:


Foi por minha ordem e para bem do Estado que o portador desta carta fez o que fez.
No acampamento diante de La Rochelle, 5 de Agosto de 1628.

RICHELIEU.


Depois de ler estas duas linhas, o cardeal mergulhou numa divagao profunda, mas no entregou o papel a d'Artagnan.
"Medita no gnero de suplcio que me matar", pensou d'Artagnan. "Pois bem! Palavra que ver como morre um gentil-homem!"
O jovem mosqueteiro estava muito disposto a morrer heroicamente.

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Richelieu continuava a pensar, enrolando e desenrolando o papel nas mos. Por fim ergueu a cabea, ps o seu olhar de guia nesta fisionomia leal, aberta, inteligente, 
leu naquele rosto sulcado de lgrimas todos os sofrimentos que suportara desde h um ms e pensou pela terceira ou quarta vez como aquela criana de vinte e um anos 
tinha futuro e que recursos a sua actividade, a sua coragem e o seu esprito podiam oferecer a um bom senhor.
Por outro lado, os crimes, o poder, o gnio infernal de Milady mais de uma vez o tinham apavorado. Sentia como que uma alegria secreta por se ter desembaraado para 
sempre daquele cmplice to perigoso.
Rasgou lentamente o papel que to generosamente lhe tinha entregado d'Artagnan.
- Estou perdido - pensou d'Artagnan.
E inclinou-se profundamente diante do cardeal como quem diz: "Faa-se a vossa vontade, senhor!"
O cardeal aproximou-se da mesa e, sem se sentar, escreveu umas palavras num pergaminho que j tinha dois teros preenchidos e imprimiu-lhe o seu selo.
"Isto  a minha condenao", disse d'Artagnan, "ele poupa-me a maada da Bastilha e as demoras dum julgamento.  muito amvel da parte dele."
- Aqui tendes, senhor - disse o cardeal ao jovem -, recebi de vs uma assinatura em branco e dou-vos outra. Falta-lhe o nome; vs mesmo o escrevereis.
D'Artagnan, hesitante, pegou no papel e lanou-lhe os olhos. Era uma tenncia nos mosqueteiros. D'Artagnan caiu aos ps do cardeal.
- Monsenhor - disse ele -, a minha vida est nas vossas mos, podeis dispor dela daqui em diante, mas no mereo o favor que me concedeis. Tenho trs amigos mais 
merecedores e mais dignos...
- Sois um valente rapaz, d'Artagnan - interrompeu o cardeal, dando-lhe uma palmadinha no ombro, encantado por ter vencido aquela natureza rebelde. - Fazei dessa 
carta o que quiserdes. Lembrai-vos apenas que, embora o nome esteja em branco,  a vs que eu a dou.
- Nunca esquecerei - respondeu d'Artagnan -, Vossa Eminncia pode estar certa.
O cardeal voltou-se e disse em voz alta:
- Rochefort!
O cavaleiro, que devia estar atrs da porta, entrou logo.
- Rochefort - disse o cardeal -, vedes o Sr. d'Artagnan; recebo-o entre os meus amigos, portanto abracem-se e portem-se bem se tm amor  vida.
Rochefort e d'Artagnan abraaram-se, mas o cardeal observava-os vigilante.
Saram ao mesmo tempo.
- Voltaremos a ver-nos, no , senhor?
- Quando quiserdes - disse d'Artagnan.


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- H-de surgir ocasio - respondeu Rochefort.
- Ha? - perguntou Richelieu, abrindo a porta.
Os dois homens sorriram, apertaram a mo um ao outro e cumprimentaram Sua Eminncia.
- Comevamos a ficar impacientes - disse Athos.
- C estou eu, meus amigos! - respondeu d'Artagnan. - No s livre mas tambm em favor!
- Que histria  essa?
- At logo  noite.
Com efeito, nessa mesma noite, d'Artagnan foi aos aposentos de Athos, que encontrou a esvaziar uma garrafa de vinho de Espanha, ocupao a que se dedicava religiosamente 
todas as noites.
Contou-lhe o que se passara entre o cardeal e ele e, tirando a carta do bolso:
- Aqui tendes, meu caro Athos - disse -, naturalmente  vossa. Athos sorriu com o seu sorriso doce e encantador.
- Amigo - disse ele -, para Athos  de mais; para o conde de La Fere  muito pouco. Guardai essa carta, que  vossa. Infelizmente, meu Deus, custou-vos muito caro!
D'Artagnan saiu do quarto de Athos e entrou no de Porthos. Encontrou-o envergando uma magnfica casaca, coberta de esplndidos bordados, e mirando-se num espelho.
- Ah, ah! - disse Porthos. - Sois vs, caro amigo. Que tal me fica esta roupa?
- Muito bem - disse d'Artagnan -, mas eu venho propor-vos uma casaca que ainda vos ficar melhor.
- Qual? - perguntou Porthos.
- A de tenente dos mosqueteiros.
D'Artagnan contou a Porthos a sua entrevista com o cardeal e, tirando a carta do bolso:
- Aqui tendes, meu caro - disse -, escrevei o vosso nome e sede bom chefe para mim.
Porthos passou os olhos pela carta e devolveu-a a d'Artagnan, para seu grande espanto.
- Sim - disse ele -, seria uma grande lisonja para mim, mas no tenho muito tempo para gozar esse favor. Durante a nossa expedio a Bthune, o marido da minha duquesa 
morreu, de modo que, como o cofre do defunto me estende os braos, caso-me com a viva. Vede, estava a provar a casaca para o casamento; ficai com a tenncia, meu 
caro.
E entregou a carta a d'Artagnan.
O rapaz entrou no quarto de Aramis.
Encontrou-o ajoelhado diante dum oratrio, com a fronte apoiada num livro de Horas aberto.
Contou-lhe a sua entrevista com o cardeal e tirando pela terceira vez a carta do bolso:

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- Vs, nosso amigo, nossa luz, nosso protector invisvel - disse ele -, aceitai esta carta; vs mereceste-la mais do que ningum pela vossa sabedoria e os vossos 
conselhos sempre seguidos de resultados to felizes.
- Infelizmente, meu caro - disse Aramis -, as nossas ltimas aventuras desgostaram-me muito da vida de espadachim. Desta vez tomei uma deciso irrevogvel: depois 
do cerco, entro para os Lazaristas. Guardai essa carta, d'Artagnan, o ofcio das armas convm-vos, sereis um bravo e aventuroso capito.
D'Artagnan, com os olhos hmidos de gratido e brilhantes de alegria, voltou ao quarto de Athos, que encontrou ainda sentado  mesa a mirar o seu ltimo copo de 
MJaga  luz dum candeeiro.
- Pois bem - disse ele -, eles tambm recusaram.
-  que, caro amigo, ningum era mais digno que vs.
Pegou numa pena, escreveu o nome de d'Artagnan na carta e entregou-lha.
- No terei mais amigos - disse o jovem. - Mais nada, s recordaes amargas...
E deixou cair a cabea nas mos, enquanto duas lgrimas lhe corriam pela cara abaixo.
- Sois jovem - respondeu Athos -, e as vossas recordaes amargas tm tempo de se transformar em doces recordaes.

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      EPLOGO


      La Rochelle, privada do socorro da frota inglesa e da diviso prometida por Buckingham, rendeu-se aps um ano de cerco. A 28 de Outubro de 1628, assinou-se 
a capitulao.
O rei entrou em Paris a 23 de Dezembro do mesmo ano. Receberam-no triunfalmente como se acabasse de vencer o inimigo e no uns franceses. Entrou pelo bairro de Saint-Jacques 
sob arcadas de verdura.
D'Artagnan tomou posse do seu cargo. Porthos abandonou o servio e casou-se, no ano seguinte, com a Sr.a Coquenard; o to cobiado cofre continha oitocentas mil 
libras.
Mosqueton recebeu uma magnfica libr e tambm a satisfao, que toda a vida ambicionara, de montar atrs duma carruagem dourada.
Aramis, aps uma viagem na Lorena, desapareceu de repente e deixou de escrever aos amigos. Soube-se mais tarde, por intermdio da Sr.a de Chevreuse, que o disse 
a dois ou trs dos seus amantes, que tomara o hbito num convento de Nancy.
Bazin fez-se frade laico.
Athos ficou mosqueteiro sob as ordens de d'Artagnan at 1633, data em que, depois duma viagem que fez em Touraine, tambm deixou o servio alegando que acabava de 
receber uma pequena herana em Roussillon.
Grimaud seguiu Athos.
D'Artagnan bateu-se trs vezes com Rochefort e trs vezes o feriu.
-  quarta  provvel que vos mate - disse-lhe ele, estendendo-lhe a mo para o ajudar a levantar-se.
- Portanto, o melhor para vs e para mim  ficarmos por aqui - respondeu o ferido.
- Apre! Sou mais vosso amigo que pensais, pois desde o primeiro encontro que, dizendo uma palavra ao cardeal, teria podido mandar cortar-vos a cabea.
Desta vez abraaram-se, mas de boa vontade e sem segundos pensamentos.
Planchet obteve de Rochefort o posto de sargento da guarda.
O Sr. Bonacieux vivia muito sossegado, sem saber o que acontecera  mulher e no se preocupando muito com isso.

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Um dia teve a imprudncia de chamar a ateno do cardeal; o cardeal respondeu-lhe que ia providenciar que dali em diante nunca lhe faltasse nada.
Com efeito, no dia seguinte, o Sr. Bonacieux saiu s sete horas da noite para ir ao Louvre e nunca mais apareceu na Rua dos Fossoyeurs; a opinio dos que pareciam 
mais informados foi que estava alojado nalgum castelo real  custa de sua generosa Eminncia.


Fim da Obra

A saga dos nossos amigos, d'Artagnan, Athos, Porthos e Aramis, continua em Vinte Anos Depois, de Alexandre Dumas.


                        NOTAS SOBRE O HOMEM E SOBRE A OBRA

      
                  CRONOLOGIA


1802 - 24 de Julho (5 Termidor, ano X): Nascimento em Villers-Cotterts de Alexandre Dumas, filho do general de diviso Alexandre Dumas-Davy de la Pailleterie e 
de lisabeth Labouret. O general republicano Alexandre Dumas, nascido em 1762, em So Domingos, era filho natural de Antoine-Alexandre Davy, marqus de la Pailleterie 
(1710-1786) e de uma negra, Marie-Zzette Dumas, falecida em 1772. - O romancista Alexandre Dumas tinha uma irm mais velha, Marie-Alexandrine (1793-1881), que casou 
com um funcionrio das Finanas, Joseph-Marie-Victor Le Tellier.

1806 - 26 de Fevereiro: Falecimento em Villers-Cotterts do general Dumas, com 44 anos de idade. A sua viva no beneficiou de nenhuma penso, mas obteve um depsito 
de tabaco em 1816.

1811 - Alexandre Dumas matricula-se na escola de Villers-Cotterts, dirigida pelo padre Grgoire.

1812 -  admitido como praticante pelo Dr. Mennesson, notrio em Villers-Cotterts.

1818 - Conhece Adle Dalvin, modista, que ser a sua primeira amante, e estabelece amizade com Adolphe Ribbing de Leuven (1800-1884), filho de um regicida sueco 
que fora amante de Mme de Stael.

1820 - Dumas e Leuven escrevem em colaborao vrias peas de teatro. - Dumas aprende italiano e alemo.

1822 - Dumas troca o cartrio do Dr. Mennesson pelo do Dr. Lefvre, notrio em Crpy-en-Valois, donde ser despedido no mesmo ano. - Em Novembro, de passagem por 
Paris com Leuven, conhece o actor Talma.

1823 - Desejoso de ganhar a vida, Dumas parte para Paris  procura de um emprego.  admitido como escrevente nos escritrios do duque de Orlees por recomendao 
do seu primo Deviolaine, conservador das florestas do duque, e do general Foy, deputado pelo Aisne, com o vencimento anual de 1200 francos. - Um dos seus colegas, 
Hippolyte Lassagne, que escreve para os jornais e compe vaudevilles, introdu-lo na vida literria. Dumas l Walter Scott, Schiller, Byron, Lamartine e numerosas 
memrias histricas.

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- Abril: aluga um quarto no nmero 1 da Praa dos Italianos (depois Praa Boieldieu) e no tarda a tornar-se amante de Marie-Catherine Labay, roupeira (1793-1868), 
sua vizinha de patamar.

1824 - 1 de Janeiro: o vencimento anual de Dumas  elevado para 1500 francos. - 27 de Julho: Catherine Labay d  luz um filho, Alexandre, que Dumas reconhecer 
em 7 de Maro de 1831. - Por volta do fim do ano, Dumas deixa a Praa dos Italianos e instala-se com a me na Rua do Faubourg Saint-Denis, nmero 53.

1825 - 22 de Setembro: primeira representao em Ambigu de La
Chasse et l'amour, vaudeville em um acto de P.-J. Rousseau, Adolphe (de Leuven) e Davy (Alexandre Dumas). - Dezembro: Dumas manda imprimir a sua lgie sur Ia mort 
du general Foy (falecido em 28 de Novembro).

1826 - Publica vrios poemas na revista La Psych e em volume intitulado Nouvelles contemporaines. - 21 de Novembro: primeira representao na Porta Saint-Martin 
de La Noce et l'enterrement, vaudeville em trs actos de Davy (Alexandre Dumas), Lassagne e Gustave (Vulpian). xito.

1827 - 1 de Janeiro: o vencimento anual de Dumas  elevado para 1800 francos. - Dumas escreve tragdias (Les Gracques, Fresque) e assiste s representaes de uma 
companhia inglesa vinda a Paris interpretar as peas de Shakespeare com os actores Kean e Harriet Smithson. - Em 12 de Setembro torna-se amante de Mlanie Waldor, 
em solteira Villenave (1796-1872), de uma famlia de escritores, e ela prpria escritora.

1828 - Abril: graas ao apoio de Charles Nodier, Dumas  recebido por Taylor, comissrio do rei na Comdia Francesa, e l-lhe uma tragdia, Christine. A pea  aceite 
pela comisso de leitura, mas a encenao  adiada. - Dumas escreve ento, em poucas semanas, Henri III et s cour. - Leituras em casa de Mlanie Waldor e depois 
na Comdia Francesa (17 de Setembro). A pea  aceite, mas o autor tem aborrecimentos com os seus chefes de servio e, devido s suas frequentes ausncias, o seu 
vencimento  suspenso. - Recomendado por Branger, obtm do banqueiro Laffitte um emprstimo de 3000 francos e deixa de comparecer na sua repartio sem no entanto 
se demitir. - Tem nova amante, a actriz Virginie Bourbier.

1829 - 11 de Fevereiro: Comdia Francesa, estreia de Henri III et scour. xito estrondoso. Trs dias antes a me do autor teve um ataque de apoplexia. - Dumas  
nomeado bibliotecrio-adjunto do duque de Orlees (vencimento anual, 1200 francos). - Publica poemas em La Pasych, refaz Christine, compe Antony e instala-se na 
Rua da Universit, nmero 25. A me, que est paraltica, mora ento na Rua Madame, nmero 7, no longe de Mlanie Waldor, domiciliada no nmero 11.

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1830 - 25 de Fevereiro: Dumas assiste  estreia do drama de Hugo, Hernani. - 30 de Maro: Odon, estreia de Christine ou Stockholm, Fontainebleau et Home. - Maio: 
Dumas torna-se amante da actriz Bell Kresbsamer ("Mlanie"). - 29-31 de Julho: durante as jornadas revolucionrias vai a Soissons e toma posse da fbrica da plvora 
em nome do governo provisrio. - Agosto: La Fayette encarrega-o de uma misso de informao na Bretanha e na Vendeia. O relatrio que, no seu regresso, Dumas far 
chegar s mos do rei Lus Filipe ser acolhido muito friamente. - Novembro: fim da ligao com Mlanie Waldor.

1831 - 10 de Janeiro: Odon, estreia deNapolon Bonaparte. Fracasso. - 15 de Fevereiro: Dumas apresenta ao rei a demisso de bibliotecrio e manifesta certas ambies 
polticas. - 5 de Maro: Bell Krebsamer d  luz uma filha, Marie-Alexandrine, que Dumas reconhece; reconhece na mesma altura seu filho Alexandre, cuja tutela assume 
a partir da. - 3 de Maio: Porta Saint-Martin, estreia de Antony, com Marie Dorval e Bocage. Triunfo. - Dumas mora na Rua Saint-Lazare, nmero 42. - 20 de Outubro: 
Odon, estreia de Charles VII chez ss grands vs-saux. - 10 de Dezembro: Porta Saint-Martin, estreia de Richard Darlington (colab.: P. Goubaux e J. F. Beudin). 
- Dumas publica Rcits historiques na Revue des Deux-Mondes (a sua colaborao na revista prosseguir at 1836).

1832 - 6 de Fevereiro: Sala Ventadour, estreia de Teresa, com Ida Ferrier, a nova amante de Dumas. - 4 de Abril: Comdia Francesa, estreia do Mar de la veuve (colab.: 
Anicet-Bourgeois e Durieu). - No Carnaval, Dumas d um baile de mscaras (vrias centenas de convidados). - 29 de Maio: Porta Saint-Martin, estreia de La Tour de 
Nesle (colab.: Frdric Gaillardet. Houve contestaes, processos e duelo por causa desta colaborao. Gaillard reconheceu, em 1861, a parte preponderante de Dumas). 
Enorme xito. - 5-6 de Junho: Dumas participa em uniforme de guarda nacional nas violentas manifestaes republicanas organizadas aquando do funeral do general Lamarque. 
- 21 de Julho: parte para a Sua. - 28 de Agosto: Porta Saint-Martin, estreia do Fils de Vmigre (colab.: Anicet-Bourgeois). Fiasco. - 3 de Setembro: mesmo teatro, 
estreia de Prnet-Leclerc,  de Anicet-Bourgeois e Lockroy, segundo um texto de Dumas. - Setembro: Dumas encontra-se com Chateaubriand em Lucerna e com a rainha 
Hortnsia em Arenenberg. - Outubro: regresso a Paris.

1833 - Instala-se na Rua Bleu, nmero 30 (mais tarde Rua Bleue). - Publica: Gaule et France. - Escreve La Vende et Madame, publicado sob o nome do general Dermoncourt. 
- Novembro: Granier de Cassagnac ataca vivamente Dumas no Journal des Dbats. - 28 de Dezembro: Porta Saint-Martin, estreia de Angle, com Ida Ferrier e Bell Krebsamer.

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1834 - Dumas publica as suas primeiras Impressions de voyage (en Suisse), completadas em 1837. Outros relatos de viagem sero publicados, escalonados, durante toda 
a sua vida. - 28 de Abril: Thiers, ministro do Interior, probe a reposio de Antony na Comdia Francesa. Dumas obtm indemnizao por perdas e danos depois de 
mover um processo no Tribunal do Comrcio. - 2 de Junho: Porta Saint-Martin, estreia de Catherine Howard. - Outubro: Dumas empreende uma viagem ao Meio-Dia da Frana.


1835 - Parte para Itlia com Ida Ferrier. - Publica: Souvenirs d'Antony e Isabel de Bavire. - 21 de Maio: Porta Saint-Martin, estreia de Cromwell et Charles II, 
por Cordelier-Delanoue (Dumas colaborou nesta pea).

1836 - 30 de Abril: Porta Saint-Martin, estreia de Don Juan de Marana. - 31 de Agosto: Varits, estreia de Kean, com Frdrick Lemaltre. Grande xito. - Dezembro: 
Dumas passa algum tempo em Compigne, em casa do duque de Orlees, filho mais velho do rei. - De 1836 a 1844 colabora na Revue de Paris.

1837 - 2 de Julho:  nomeado cavaleiro da Legio de Honra. - 31 de Outubro: pera Cmica, estreia de Piquillo (colab.: Grard de Nerval). - 26 de Dezembro: Comdia 
Francesa, estreia de Caligula, com Ida Ferrier. Fiasco.

1838 -Dumas publica os seus primeiros romances: 1.? Le Capitaine Paul (colab.: Adrien Dauzats), inserto primeiro em L Sicle; - 2." La Salle d'armes (Pauline e 
Pascal Bruno). - 1 de Agosto: morte da me. - Nos ltimos dias de Agosto, Dumas parte para Bruxelas, donde se dirige para a Alemanha. Em Francoforte encontra Grard 
de Nerval e visita com ele a Rennia. - 8 de Outubro: Teatro do Panteo, estreia de Paul Jones. - Dezembro: Nerval apresenta Auguste Maquet a Dumas.

1839 - 14 de Janeiro: Renascena, estreia de Bathilde, pea de Maquet, remodelada por Dumas. - 2 de Abril: Comdia Francesa, estreia de Mademoiselle de Belle-Isle, 
com Mlle Mars. xito. - 10 de Abril: Renascena, estreia de L'Alchimiste (colab.: G. de Nerval). Fiasco. - 16 de Abril: Porta Saint-Martin, estreia de Lo Burckart, 
drama de nerval em que Dumas colaborou. - Dumas publica: Nouvelles Impressions de voyage: Quinze jours au Sinai (segundo os apontamentos de Dauzats); Act; Jacques 
Ortis (traduzido do italiano); La Comtesse de Salisbury; Crimes clebres, srie de 8 volumes concluda em 1841 (colab.: Arnould, Fournier, Fiorentino e Mallefille). 
- Instala-se na Rua de Rivoli, nmero 22.

1840 - Publica: Napolon; Othon Varcher, Les Stuarts; Mattre Adam le Calabrais: Aventures de John Davys (segundo um texto ingls); Le Maitre d'armes. - 5 de Fevereiro: 
casa com Ida Ferrier. - Junho: instala-se em Florena com a mulher.

1841 - Publica: Praxde; Nouvelles Impressions de voyage (Midi de la France); Excursions sur les bords du Rhin; Une anne  Florence. Inicia a pedido do duque de 
Orlees uma Histoire des rgiments de l'arme franaise, e publica a do 23. Reg. de Infantaria (publicar-se-o posteriormente as histrias do 2. e do 24. Reg.) 
(Colab.: Adrien Pascal). - 1 de Junho: Comdia Francesa, estreia de Un mariage sous Louis XV.


1842 - Publica: Jehanne Ia pucelle; Le Speronare; Le Capitaine Arena; Aventures de Lyderic; Le Chevalier d'Harmental (colab.: Maquet), inserto primeiro em Le Sicle. 
- 24 de Fevereiro: Comdia Francesa, estreia de Lorenzino (mesmo tema que Lorenzaccio, de Alfred de Musset, publicado em 1834). Junho: em cruzeiro com o prncipe 
Napoleo, visita a Crsega, a ilha de Elba e a ilha de Monte-Cristo. Volta a Florena em Julho. - 3 de Agosto: assiste ao funeral do duque de Orlees. - Setembro: 
reinstala-se em Paris e deixa Ida Ferrier em Florena. - 2 de Dezembro: nas Variedades, estreia de Halifax (colab.: de Ennery).

1843 - Publica: Le Corricolo (Impressions de voyage), inserto primeiro
em Le Sicle; La Villa Palmieri (Impressions de voyage); Un alchimiste au XIX sicle (Henry de Ruolz); Filies, Lorettes et Courtisanes; Albine, Georges; Ascanio 
(colab.: Paul Meurice), inserto primeiro em Le Sicle; Sylvandire (colab.: Maquet). - 9 de Maro: Variedades, estreia do Mariage au tambour, pea de Leuven e Brunswick, 
segundo Alexandre Dumas. - Junho: Dumas encontra Rachel em Marselha. Pede emprestadas  Biblioteca Municipal as Mmoires de d'Artagnan. - 25 de Julho: Comdia Francesa, 
estreia das Demoiselles de Saint-Cyr (colab.: Leuven e Brunswick). Polmica com Janin. - 18 de Novembro: Porta Saint-Martin, estreia de Louise Bernard (mesma colab.:). 
- 30 de Dezembro: Odon, estreia do Laird de Dumbicky (mesma colab.). - Dumas instala-se em Saint-Germain-en-Laye, mas conserva um domiclio em Paris, na Rua Richelieu, 
nmero 109.

1844 - Publica: Louis XIV et son sicle; Les Trois Mousquetaires (colab.: Maquet. Dumas assina sozinho. Assina sempre sozinho os seus romances, qualquer que seja 
a parte do colaborador), inserto primeiro em Le Sicle, de 14 de Maro a 14 de Julho; Fernande (colab.: Hip. Auger); Amaury (colab.: Meurice), inserto primeiro em 
La Presse; Ccile; Une famille corse; Gabriel Lambert; Simples Lettres sur l'art dramatique. - 15 de Outubro: Dumas e a mulher decidem separar-se; Ida instala-se 
em Florena com um fidalgo italiano, o prncipe de Villafranca. - Dumas comprou um terreno perto de Saint-Germain, a fim de l mandar construir a "Villa Monte-Cristo". 
Em Paris reside na Rua da Chausse d'Antin, nmero 45.


1845 - Publica: Vingt ans aprs (colab.: Maquet), inserto primeiro em Le Sicle, de 21 de Janeiro a 2 de Agosto; Le Comte de Monte-Cristo (colab.: Maquet), inserto 
primeiro no Journal des Dbats; continuada em Le Sicle, a publicao terminaria em 1846; La Reine Margot (colab.: Maquet), inserto primeiro em La Presse; Une filie 
du Rgent (colab.: Maquet), inserto primeiro em le Commerce; Les Medeis; La Guerre des femmes (colab.: Maquet); Histoire d'un casse-noisette; La Bouillie de la 
comtesse Berthe (obra para crianas); Le Chevalier de Maison-Rouge (colab.: Maquet); inserto primeiro em La Dmocratie pacifique, a publicao terminar em 1846; 
Herminie. - Fevereiro: Eug-ne de Mirecourt publica o seu panfleto Fabrique de romans, Maison Alexandre Dumas et compagnie. Protesto de Dumas junto da Sociedade 
dos Escritores (17 de Fevereiro) e queixa em tribunal. - 15 de Maro: Variedades, estreia do Garde forestier, pea de Leuven e Brunswick em que Dumas colaborou. 
- 29 de Abril: mesmo teatro, estreia de Un conte de fe, dos mesmos autores. - 16 de Maio: Dumas obtm a condenao de Mirecourt numa pena correccional. - 7 de Junho: 
Palais-Royal, estreia de Sylvandire, pea de Leuven e Vanderbuch em que Dumas colaborou. - 4 de Julho: Dumas assina com Troupenas e Masset um contrato de reedio 
das suas obras (contrato confirmado por Michel Lvy). - 27 de Outubro: Ambigu, estreia dos Mousquetaires (colab.: Maquet). - Dumas instala-se na Rua Joubert, nmero 
10.
1846 - Publica: A Dama de Monsoreau (colab.: Maquet), inserto primeiro em Le Constitutionnel; Le Btard de Maulon (colab.: Maquet), inserto primeiro em Le Commerce; 
Les Deux Diane (colab. Meurice), acabado em 1847; Mmoires d'un mdecin, Joseph Balsano (colab.: Maquet); inserto primeiro em La Presse, a publicao terminar em 
1848. - 14 de Maro: Dumas obtm o privilgio de fundar um teatro e cria, em associao com Hippolyte Holstein, uma sociedade de explorao que deu origem ao Teatro 
Histrico. - 1 de Abril: Comdia Francesa, estreia de Une filie du Rgent (colab.: Maquet). - Setembro: Salvandy, ministro da Instruo Pblica, prope a Dumas fazer 
uma viagem  Arglia com a misso de escrever um livro dedicado a esse pas, tornado colnia francesa. - 3 de Outubro: partida de Dumas em companhia do filho, de 
Maquet, de Desbarolles, de Eugne Giraud e de Louis Boulanger. - 11-12 de Outubro: em Madrid, os viajantes assistem ao casamento do duque de Mont-pensier com a infanta 
Maria Lusa. - 18 de Novembro: em Cdis embarcam em le Vloce, fragata da Marinha posta  sua disposio pelo Governo. Visitam sucessivamente: Tnger, Tetuo, Melinha, 
Oro, Argel, Blida, Miliana, Philippeville, Constantina e Tunes.

1847 - 3 de Janeiro: os viajantes deixam Argel a bordo de VOrnoque com destino a Toulon. - 15 de Janeiro: Dumas chega a Paris. - 10 de Fevereiro: interpelao na 
Cmara dos Deputados acerca das despesas excessivas que teria ocasionado a viagem de Dumas  Arglia. - 19 de Fevereiro: a pedido de La Presse e do Constitutionnel, 
o tribunal cvel condena Dumas por atraso na entrega dos seus folhetins. - 20 de Fevereiro: abertura do Teatro Histrico com La Reine Margot (colab.: Maquet). Beatrix 
Person (1828-1884), a nova amante de Dumas, participa na pea. - 11 de Junho: mesmo teatro, estreia de Intrigue et Amour (segundo Schiller). - 27 de Julho: inaugurao 
da "Villa Monte-Cristo", em Marly (600 convidados). - 3 de Agosto: Teatro Histrico, estreia do Chevalier de Maison-Rouge (colab.: Maquet). - 2 de Dezembro: no Journal 
des Dbats, carta de Dumas a Odilon Barrot, afirmando a sua posio reformista. - 16 de Dezembro: Teatro Histrico, estreia de Hamlet (colab.: Meurice).
- Durante o ano, Dumas publica: Les Quarante-cinq (colab.: Maquet), inserto primeiro em Le Constitutionnel, terminado em 1848; Impressions de voyage. De Paris  
Cadix, inserto primeiro em La Presse, terminado em 1848.


1848 - Publica: Le Vicomte de Bragelonne (colab.: Maquet); inserta primeiro em Le Sicle, a publicao terminaria em 1850; Le Vloce, ou Tanger, Alger et Tunis, 
concludo em 1851. - Dumas tem uma ligao com a actriz Celeste Scrivaneck (1823-1910). - 3-4 de Fevereiro: Teatro Histrico, estreia em duas noites de Monte-Cristo 
(colab.: Maquet) - 10 de Fevereiro: o Tribunal Cvel do Sena decreta a separao de bens do casal Dumas; Ida Ferrier obtm uma penso de 6000 francos e o reembolso 
do seu dote (120.000 francos). - No mesmo dia, Dumas assina um contrato com Maquet: 1. Este cede todos os seus direitos sobre os romances escritos com Dumas, mediantes 
145.200 francos pagveis em onze anos; 2. Dumas e Maquet faro representar trs peas por ano no Teatro Histrico, durante o mesmo perodo. - A "Villa Monte-Cristo", 
posta  venda,  vendida por 30.100 francos. - 22-24 de Fevereiro: Dumas, comandante da Guarda Nacional, participa nas manifestaes que levam  queda da monarquia. 
- 1 de Maro: publica o primeiro nmero da revista Le Mois (que se publicar at Fevereiro de 1850). - Abril: Dumas candidata-se a deputado por Seine-et-Oise e por 
Pointe--Pitre, mas no eleito (seria candidato pelo Yonne sem mais xito). - 20 de Maio: lana La France nouvelle, quotidiano literrio que se publicar at 24 
de Junho. - 25 de Maio: Teatro Histrico, estreia de La Maratre, drama de Balzac, que  um fracasso. - Junho: Dumas publica um memorial poltico: Rvlations sur 
l'arrestation d'mile Thomas, respeitante ao encerramento dos Ateliers nationaux. - 14 de Outubro: Teatro Histrico, estreia de Catilina (colab.: Maquet).

1849 - Publica: Les Mille et un fantmes (colab.: Paul Bocage), obra em parte retirada de Les Mariages du pre Olifus; La Rgence; Louis XV; Le Collier de la reine 
(colab. Maquet), inserto primeiro em La Presse e concludo em 1850. - 17 de Fevereiro: Teatro Histrico, estreia de La Jeunesse des mousquetaires (colab.: Maquet). 
- 18 de Maio: morte de Marie Dorval; Dumas consegue arranjar o dinheiro necessrio para o funeral. - 26 de Julho: Teatro Histrico, estreia do Chevalier d'Harmental 
(colab.: Maquet). - 1 de Outubro: mesmo teatro, estreia de La Guerre des femmes (colab.: Maquet). - 22 de Novembro: mesmo teatro, estreia do Comte Hermann (segundo 
um tema comprado a um certo Lefebvre). xito. - Dezembro: H. Hostein, director do Teatro Histrico, demite-se. - Em 15, no Ginsio, estreia do Cachemire vert (colab.: 
Eug. Nus). - Dumas publica as Mmoires de Talma. - Reside na Rua Richer, nmero 43; no ano seguinte muda-se para a Avenida Frochot, nmero 27.


1850 - Publica: La Femme au collier de velours (colab.: Paul Lacroix); La Tulipe noire (colab.: Maquet); Louis XVI, concludo em 1851; La Trou de l'enfer; Dieu dispose, 
concludo em 1851; La Colombe. - 30 de Maro: 1. Teatro Histrico, estreia de Urbain Grandier (colab.: Maquet); Isabelle Constant (1834-1900), nova amante de Dumas, 
participa na pea; 2. G Gat, estreia do Vingt-quatre fvrer (segundo Z. Werner, 1810). - Abril: Dumas prope ao Governo reunir sob a sua direco trs teatros 
(Ambigu, Porta Saint-Martin e Teatro Histrico); a proposta no  aceite. - 1 de Junho: Teatro Histrico, estreia de Pauline, drama de E. Grang e X. de Montpin 
em que Dumas colaborou. - 1 de Agosto: mesmo teatro, estreia dos Frres Corses, dos mesmos autores, e de La Chasse au chastre. - Dumas tem uma ligao com Anne Baur, 
que dar  luz no ano seguinte um filho (Henry Baur), considerado filho natural de Dumas. - 16 de Outubro: encerramento do Teatro Histrico. - Dezembro: reclamao 
de Maquet, que no  pago h vrios meses; cessa toda a colaborao com ele; diversas obras feitas em comum sero no entanto publicadas no decurso dos anos seguintes. 
- Em 20 de Dezembro, falncia do Teatro Histrico.


1851 - Dumas publica: Le Drame de Quatre-vingt-treize; Ange Pitou (colab.: Maquet), inserto primeiro em La Presse; Olympe de Clves (colab.: Maquet), concludo em 
1852. - l de Abril: Ambigu, estreia do Comte de Morcef (3 parte de Monte-Cristo - colab.: Maquet). - 21 de Abril: Teatro Nacional (antigo Circo), estreia de La 
Barrire de Clichy. - 8 de Maio: Ambigu, estreia de Ville-fort (4 parte de Monte-Cristo - colab.: Maquet). - 7 de Dezembro: depois do golpe de Estado, perseguido 
pelos credores, Dumas parte para Bruxelas; instala-se no Bulevar de Waterloo, nmero 73. - 16 de Dezembro: La Presse comea a publicao das suas Mmoires. - 20 
de Dezembro: Ambigu, estreia do Vampire (colab.: Maquet).

1852 - Publica: Un Gil Blas en Californie (escrito com base nas narrativas de um emigrante); Les Drames de la mer; Conscience; Le Dernier ri (vie de Louis-Philippe); 
La Comtesse de Charny, concludo em 1855;

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La Maison de Savoie (editado em Turim; os tomos II, III e IV sero publicados em 1854-1856); Mes Mmoires (os 14 primeiros vol.; concludo em 1854). - 5 de Janeiro: 
em Paris, venda do mobilirio de Alexandre Dumas por ordem da justia. - 20 de Janeiro: Dumas "escritor, declarado comerciante por acrdo do Tribunal da Relao 
de Paris", apresenta o seu balano por intermdio de Claude-A. Chramy; decretada a falncia. - 2 de Fevereiro: Vaudeville, estreia de La Dame aux camlias, pea 
de Dumas filho. Grande xito. - 1 de Abril: Porta Saint-Martin, estreia de Benvenuto Cellini (colab.: Meurice. - Dumas no assina para evitar a apreenso dos seus 
direitos de autor). - Julho: Dumas acompanha a Anturpia V. Hugo, que parte para Jersey. - Em Bruxelas, Dumas contrata Nol Parfait como secretrio.

1853 - Publica: Isaac Laquedem; Le Pasteur d'Ashbourne; Ingnue (colab.: Maquet), concludo em 1855. - Maio: obtm a sua concordata. - Outubro: regressado a Paris, 
Dumas hospeda-se no Hotel Louveis. Funda um jornal dirio, Le Mousquetaire, cujo primeiro nmero  posto  venda em 12 de Novembro. Sede do jornal: Rua Laffitte, 
nmero 1, em instalaes cedidas pelo restaurante da Maison d'Or. Dumas ocupa um alojamento no prdio (Le Mousquetaire publicar-se- regularmente at 1857).


1854 - Publica: La Jeunesse de Pierrot; El Salteador; Une vie artiste (Mlingue); Catherine Blum; Saphir; Vie et aventures de La princesse de Mnaco (colab.: condessa 
Dash); Souvenirs de 1830 a 1842, concludo em 1855; Les Mohicans de Paris (colab.: Paul Bocage), concludo em 1855. - 13 de Janeiro: Comdia Francesa, estreia de 
Romulus (extrado de um romance alemo - colab.: O. Feuillet e P. Bocage). - 20 de Janeiro: Vaudeville de Bruxelas, estreia de La Jeunesse de Louis XIV. - 22 de 
Maio: Vaudeville de Paris, estreia da Marbrier (colab.: Brunswick e Paul Bocage). - Outubro: Dumas instala-se num palacete particular, na Rua de Amsterdam, nmero 
77, domiclio que conservar at 1861. - 4 de Novembro: Odon, estreia de La Conscience (segundo a obra de Iffland). Michel Lvy move um processo a Dumas pretendendo 
que Lockroy colaborou em La Conscience e reclamando direitos em virtude de um contrato de 1846. A sentena, proferida em 1855, -lhe desfavorvel. - Dumas abre uma 
subscrio para mandar reparar o tmulo de Balzac; a viva de Balzac, ofendida, apresenta queixa. -Considerando-se lesado pelo jornal Le Sicle e subsequentemente 
pelo editor Michel Lvy. Dumas decide submeter o diferendo aos tribunais; obtm uma sentena em 1 de Dezembro.

1855 - Publica: La Dernire anne de Marie Dorval; Salvator, sequncia dos Mohicans de Paris (colab.: P. Bocage), concludo em 1858; Marie Giovanni, Journal de voyage 
d'une Parisienne; Le Capitaine Richard; Les Grands hommes en robe de chambre: Csor - Henr IV - Louis XIII et Richelieu.

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- Continua em demanda com Michel Lvy; troca de papel selado durante todo o ano. - Em Maio est em Bruxelas.

1856 - Publica: Madame du Deffand (Mmoires d'une aveugle}, concludo em 1857; Plerinage de Hadji-abdel Hamid Bey (reimpresso sob o ttulo: L'Arabie heureuse), 
concludo em 1857; Mmoires d'un jeune cadet (traduzido do ingls por V. Perceval). - 5 de Janeiro: Porta Saint-Martin, estreia de l'Orestie. - 4 de maio: casamento 
da filha de Alexandre Dumas, Marie, com Olinde Petel (separar-se-o em 1861). - Julho: Dumas percorre, em companhia de Paul Bocage, o itinerrio seguido por Luis 
XVI aquando da sua fuga at Varennes. - 15 de Novembro: Teatro Imperial do Circo, estreia de La Tour Saint-Jacques-la-Boucherie (colab.: X. de Montpin). - 15 de 
Dezembro: Ginsio, estreia do Verrou de La reine.

1857 - Publica: L'Homme aux contes; Les Compagnons dejhu; Charles le Tmraire; Le Meneur de loups; Causeries; La Dame de Volupt (comtesse de Verme). - 7 de Fevereiro: 
ltimo nmero do dirio Le Mousquetaire. - Na Primavera, breve estada de Dumas em Inglaterra; assiste s corridas de Epsom. - Tendo sabido que Dumas obteve pagamentos 
importantes de Michel Lvy, Maquet recorre aos tribunais para fazer valer os seus direitos. - 20 de Abril: Dumas funda Le Monte-Cristo, semanrio que se publicar 
at Maio de 1860. - 18 de Junho: Ginsio, estreia de L'Invitation  La valse (colab.: P. Bocage). - 2 de Julho: Gaite, estreia dos Compagnons de Jhu, pea assinada 
por Ch. Gabet.


1858 - Dumas publica: La Route de Varennes (a obra deu origem a um processo em 1864); Histoire de mes betes; Le Chasseur de Sauvagine (por G. de Cherville; Dumas 
indica no prefcio que a obra no  sua); Ainsi soit-il! (reeditado sob o ttulo de Madame de Chamblayl; Black; Les Louves de Machecoul; L'Horoscope. - 3 de Fevereiro: 
processo de Maquet contra Dumas: Maquet v indeferido o seu pedido relativo  assinatura dos romances; obtm 25% dos direitos de autor. - 25 de Maro: Teatro de 
Marselha, estreia dos Forestiers. - Junho: Dumas inicia uma viagem  Rssia a convite do conde Kuchelev-Bezborodko; acompanha-o o pintor Moynet. - 16-19 de Junho: 
Berlim, Estetino. - 19 de Junho: em Paris, no Ginsio, estreia de L'Honneur est satisfait. - 22 de Junho-3 de Agosto: Dumas permanece em Sampetersburgo, no Palcio 
Bezborodko. - 4 de Agosto-18 de Setembro: estada em Moscovo. - 20 de Setembro-1 de Outubro: em Jelpatievo, em casa do seu amigo Narychkine. - Outubro-Dezembro: de 
barco no Volga (Caz, Astrac), depois, de Tarantasse, para o Cucaso (Quislar, Bacu); paragem em Tiflis.

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- 1859 - Janeiro: Tiflis. - 1 de Fevereiro: embarque em Poti, no mar Negro. - 16 de Fevereiro: Trebizonda, embarque em Le Sully. - Maro: chegada a Marselha. - Em 
11, Ida Ferrier morre em Gnnova. - 2 de Abril: oferecem a Dumas, para comemorar o seu regresso a Paris, um banquete no Restaurante de France, na Praa da Madeleine. 
- Durante a viagem, Dumas publicou: Jane; Ammalat-Beg; Mmoires d'un policeman; Histoire d'un cabanon et d'un chalt; Les Baleiniers (obra do Dr. Maynard); De Paris 
 Astrakan (impresses de viagem na Rssia), inserto a partir de Junho de 1858 em Le Monte-Cristo (a edio definitiva foi publicada em 1865); Le Caucase. - No seu 
regresso, Dumas rompe com Isabelle Constant. Ligao com a actriz milie Cordier (1840-1906).

1860 - Publica: La Maison de glace (adaptao de um texto russo); Jacquot-sans-oreilles (adaptao de um conto russo); Une aventure d'amour; Le Pre La Ruine (colab.: 
G. de Cherville); La Vie au dsert (obra de Gordon Cumming); Moullah-Nour; Mmoires de Garibaldi (traduzido do italiano); Le Pre Gigogne; La Marquise d'Escoman. 
- 4 de Fevereiro: pera Cmica, estreia do Roman d'Elvire (colab.: Leuven, msica de Ambroise Thomas). - Abril: Dumas parte para Itlia com milie Cordier (permanecer 
na pennsula at 1864, com excepo de algumas breves vindas a Frana). - 10 de Maio: ltimo nmero do Monte-Cristo. - 4 de Junho: Vaudeville, estreia de L'Envers 
d'une conspiration (colab.: Lockroy). - Dumas vai a Marselha para negociar uma compra de armas destinadas a Garibaldi. - 12 de Junho: Porta Saint-Martin, estreia 
do Gentilhome de La montagne (colab.: Lockroy). - 7 de Setembro: Dumas entra em Npoles com Garibaldi, que o nomeia director das Belas-Artes. Esta nomeao provoca 
invejas locais. - 11 de Novembro: funda l'Independente, jornal bilingue franco-italiano, impresso primeiro em Palermo e depois em Npoles (publica-se at 1864). 
- 19 de Novembro: Ambigu, estreia de La Dame de Monsoreau (colab.: Maquet). - 24 de Dezembro: em Paris, milie Cordier d  luz uma filha, Micalla-Clelia-Josefa-lisabeth, 
que Dumas se recusa a reconhecer. O padrinho e a madrinha foram Garibaldi, alis ausente, e Celeste Mogador, condessa de Chabrillan.


1861 - Dumas publica: Les Garibaldiens, rvolution de Sicile et de Naples; Une nuit  Florence sons Alexandre de Medeis; Les Morts vont vite; Bric  brac. - Fevereiro: 
milie Cordier chega a Npoles com a filha. - 22 de Maro: Teatro do Circo, estreia do Prisonnier de La Bastille (pea extrada do Vicomte de Bragelonne). - 10 de 
Julho: o tribunal concede a Maquet 50% dos direitos de autor sobre Le Prisonnier de La Bastille.

1862 - Dumas publica: La Boule de neige; La Princesse Flora; Sultanetta; Les Confessions de la marquise (continuao e fim das Mmories d'une aveugle); I Borboni 
di Napoli (texto italiano editado em Npoles e concludo em 1864).

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- Em 1 de Janeiro comeou a nova srie do Monte-Cristo, semanrio, que se publicar at 10 de Outubro.

1863 - Dumas continua em Itlia, mas a situao de Garibaldi
deteriorou-se parcialmente. - Em 22 de Junho as obras de Alexandre Dumas so postas no Index por deciso da Santa S. - Michel Lvy publica a edio definitiva do 
Thtre complet de Alexandre Dumas, que compreender 15 volumes (concludo em 1874).

1864 - Dumas publica: La San Felice (Emma Lyonna), concludo em 1865. - Abril: Regressa a Paris acompanhado da sua nova amante, Fanny Gordosa, cantora italiana. 
Rompimento com milie Cordier. Instalao na Rua Richelieu, nmero 112. - Dumas passa o Vero em Saint-Gratine, na "Vila Cotinat" ( nesta residncia que termina 
La San Felice). - 20 de Agosto: Gaite, estreia dos Mohicans de Paris (pea proibida pela censura, mas representada graas  autorizao do imperador). - Outubro: 
Dumas instala-se na Rua Saint-Lazare, nmero 70. - Rompimento com Fanny Gordosa.

1865 - Publica: Un pays inconnu (segundo os apontamentos da viagem ao Brasil de Middleton-Payne); Souvenirs d'une favorite (lady Hamilton); Boutsrims. - Fevereiro-Maro: 
faz em Paris duas conferncias sobre Delacroix. - 6 de Maio: contrato definitivo com Michel Lvy para a edio das OEuvres completes (incluindo as edies ilustradas 
e o teatro; o direito de autor  fixado em 10%, com um adiantamento de 40.000 francos. - Lvy edita as obras de Dumas desde 1847). - 28 de Maio: leva  cena no Grande 
Teatro Parisiense Les Gardes forestiers (cf. 25 de Maro de 1858) e depois organiza com a mesma pea uma digresso em Seine-et-Oise, Seine-et-Marne, Oise e Aisne; 
acompanha a companhia. - Setembro: colabora no jornal Les Nouvelles (fundado por J. Noriac). - Trabalha numa traduo em verso de Romeo etJuliette (colab.: Meurice) 
e num drama extrado do romance Olympe de Clves.


1866 - Janeiro: instala-se com sua filha Marie no Bulevar Malesherbes, nmero 107 (onde residir at  morte). - 24-25 de Fevereiro: faz em Lille duas conferncias 
autobiogrficas. - Publica uma monografia intitulada: Projet d'un nouveau thtre historique. A mes bons amis des fauborgs (impresso em Lille em Fevereiro). - 16 
de Maro: Ambigu, estreia de Gabriel Lambert (colab.: A. de Jallais). - Junho: estada em Npoles e Florena, - Julho: estada na Alemanha e na ustria (Dumas visita 
o campo de batalha de Sadowa). - 18 de Novembro: primeiro nmero da nova srie do semanrio Le Mousquetaire, que sucede ao jornal Les Nouvelles, e em que Dumas publicar 
Le Comte de Aforei (romance inacabado).

1867 - Publica: Les Hommes de fer; Les Blancs et les bleus (continuao dos Compagnons de Jhu), concludo em 1868.

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- Tem uma ligao com a actriz americana Adah Isaacs Menken (nascida cerca de 1835), sua ltima amante. Deixa-se fotografar com a jovem nos joelhos (a fotografia 
circulou imediatamente). - 25 de Abril: ltimo nmero do Mousquetaire.

1868 - Publica: La Terreur prussienne; Souvenirs dramatiques; Parisiens et provinciaux; Carotine de Brunswick, reine d'Angleterre, s vie, son procs, s mort. - 
4 de Fevereiro: lana novo jornal, Dartagnan, que se publica trs vezes por semana at 4 de Julho. 4 de Junho: Sala Ventadour, estreia de Madame de Chamblay.
- 5 de Julho: primeiro nmero do Thtre-Journal, semanrio.
- Durante o Vero, Dumas faz uma digresso de conferncias na Normandia; aquando da sua passagem pelo Havre encontra milie Cordier (tornada M.me Edwards) e sua 
filha Micaella. - 10 de Agosto: Adah Menken morre em Bougival. - 23 de Setembro: Teatro Beaumarchais, reposio de Gabriel le faussaire (novo ttulo de Gabriel Lambert). 
- 22 de Outubro: morre em Neuilly, Catherine Labay, me de Alexandre Dumas filho.

1869 - 10 de Maro: Chtelet, estreia de Les Blancs et les bleus. 11 de Maro: ltimo nmero de Thtre-Journal. - Durante o Vero, Dumas instala-se na Bretanha 
(Roscoff) e trabalha num dicionrio de cozinha. Em 6 de Dezembro escreve a Lemerre propondo-lhe a obra e fixa as suas condies.

1870 - Na Primavera, Dumas instala-se no Meio-dia. - Julho: encontra-se em Marselha aquando da declarao de guerra e parte imediatamente para Paris. - Setembro: 
depois de um acidente vascular que o deixa semiparaltico, vai para Puys, perto de Dieppe, para casa do filho, onde sua filha Marie se lhe juntar. - Em 5 de Dezembro, 
Alexandre Dumas morre s dez horas da noite.

1871-1873- Publicao de obras pstumas: L'Ile de feu; Le Docteur mystrieux; La Filie du Marquis; Le Prince des voleurs; Robin Hood le Proscrit; Grand Dictionnaire 
de cuisine, etc.


Nota.


 - A presente cronologia deve muito ao trabalho de Gilbert Sigaux, que a colocou no frontispcio da sua edio dos Trois Mousquetaires.

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      INTRODUO


      De acordo com um dos seus bigrafos, Jacques Suffel, antes de se tornar um colosso popular, de cabeleira prateada e coletes espampanantes atravessados por 
enormes correntes, o filho do general Alexandre Dumas foi um adolescente magro e sonhador, que se estreou discretamente.
Quando fez 20 anos deixou a capital do seu canto natal para ir procurar fortuna em Paris. Os seus estudos tinham sido muito medocres, mas graas  fama do pai, 
que comandara o exrcito dos Alpes durante a Revoluo, e graas tambm  sua bela letra, conseguiu arranjar emprego em casa do duque de Orlees, futuro rei Lus 
Filipe. No tinha porm nenhuma inclinao para o ofcio de manga-de-alpaca e o seu ordenado de cem francos por ms parecia-lhe magro. Mesmo naquele tempo - isto 
passava-se em 1823- semelhante importncia no permitia fantasias. Na sua mansarda da Praa dos Italianos o rapaz passou muitas noites sem dormir, absorto no trabalho.
Desejos furiosos fervilhavam-lhe nas veias onde corria o sangue negro da av, misturado com o sangue azul do av, o marqus Davy de La PaUletere. Como todo o bom 
romntico, sofreu cruelmente com a sua pobreza. Considerava-se poeta e compunha versos a que no faltava chama.
Recuperava coragem junto da sua vizinha Catherine Labay, a roupeirazinha que em 1824 se tornaria me de Alexandre Dumas filho. E tinha excelentes camaradas, entre 
os quais um sueco a quem no faltavam recursos, Adolphe Hibbing de Leuven, e um colega de repartio, Hippolyte Lassagne, ambos apaixonados, como ele, pela poesia 
e pelo teatro.
No tardou que na chancelaria do duque de Orlees se afirmasse que o desleixado Dumas negligenciava o servio em proveito de ensaios literrios. No publicara poemas, 
no fizera representar vaudevilles? Os seus chefes perseguem-no, ameaam-no. O seu lugar de supranumerrio, que assegura a sua subsistncia e a da me, parece comprometido. 
E j comea o perodo das dvidas.
Mas em 11 de Fevereiro de 1829 um drama histrico, Henri III et s cour, triunfa na Comdia Francesa. O autor  o jovem Alexandre Dumas, ainda na vspera um desconhecido: 
 para ele a glria e a fortuna.

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Revela-se ento o verdadeiro Dumas, com a sua actividade assombrosa, as suas mltiplas ambies, a sua louca prodigalidade, e escoar-se-o quarenta anos numa espcie 
de turbilho fantstico. Mas no bastar ao dramaturgo expedito reinar em vrios teatros, insuflar a Bocage e a Frdrick Lematre as almas de Antony e de Buridan, 
oferecer a Marie Dorval e a Mademoiselle Mars papis sensacionais. O historiador de Gaule et France sonha com outras tribunas e preconiza a Repblica, Viram-no nas 
barricadas em Julho de 1830, e v-lo-o de novo em 1832, aquando do funeral tumultuoso do general Lamarque. Entretanto, desempenhar uma misso na Vendeia legitimista. 
A poltica tent-lo- sempre.
Quer porm saborear primeiro profundamente todas as alegrias da vida. Dumas  faustoso e os milhes escorrem-lhe das mos  medida que os ganha. Vive  grande, possui 
carruagem, mantm mesa franca. Viaja: Sua, Alemanha, Itlia, Espanha, frica. Quanto s suas amantes, desfilam como numa farndola. Se casou com uma delas, a actriz 
Ida Ferrer, foi sem dvida por engano, pois essa unio, realizada em 1840, no durou muito.
Os seus primeiros heris, Saint-Mgrin, Antony, Yakub, evocavam a sua juventude romntica; mas o seu olho azul no tardar a descobrir figuras mais truculentas: 
Monte-Cristo, Cagliostro e os famosos mosqueteiros, Athos, Porthos, Aramis e o imortal d'Artagnan.
A partir de 1839 as peas de teatro, os romances, as narrativas histricas, as "impresses de viagem" suceder-se-o a velocidade vertiginosa: Dumas fornecer todos 
os anos aos seus editores mais original do que conseguiria com a sua pena um copista rpido que trabalhasse dez horas por dia.
Os numerosos recursos a obras doutros autores (alguns chamam-lhes plgios) e as compilaes no bastam para explicar tal milagre. Dumas teve colaboradores activos, 
foi, segundo Thodore de Banville, o Pax dos Maqueta sem nome. Um panfletrio famlico, Eugne de Miercourt, denunciou semelhante "indstria" numa brochura que 
deu brado.  certo que por mais de uma vez o folhetim assinado por Dumas e redigido vertiginosamente foi obra de um cmplice; mas Dumas no fazia caso dos protestos 
que se erguiam de vez em quando, pois s ele conhecia a arte de acrescentar aos esboos que lhe preparavam os primores de estilo e os realces de ouro.
Quer em folhetins, quer em volumes, os seus romances conheceram desde a sua publicao uma fama sem precedentes, e quando em 1844 os nmeros do jornal Le Sicle 
espalharam atravs da Frana e do mundo as aventuras de Os Trs Mosqueteiros o nome de Alexandre Dumas atingiu os pncaros da popularidade.
Claro que as ocupaes do famoso contista nem sempre lhe permitiam trabalhar com muito cuidado. Armando-se umas vezes em diplomata outras em cozinheiro, concedia 
a si mesmo muitas escapadelas: ei-lo, por exemplo, flanando no Reno em companhia de Grard de Nerval; ou a bordo de um navio de guerra,

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visitando as costas da Arglia. No se limitava a conviver com os artistas e os escritores, os Delacroix, os Victor Hugos. Sem nunca ter sido um dandy, como o seu 
confrade Eugne Sue, apreciava em alto grau a companhia dos grandes deste mundo, a dos prncipes russos e dos marqueses italianos. Dumas guardava rancor a Lus Filipe 
(censurava-lhe muito seriamente a sua economia), mas foi ntimo dos seus filhos: Orledes, Aumale, Montpensier. Partia em cruzeiro com o prncipe Napoleo e era convidado 
da rainha de Espanha.

De ano para ano a sua maneira de viver tornava-se mais onerosa. Rodeado de amigos, de colaboradores, de mulheres, de parasitas, se almoava no Caf de Paris jantava 
no Tortoni. Quis ter a sua casa e mandou construir sem olhar a despesas, nas colinas de Marly, essa "Villa Monte-Cristo" que ainda existe. Quis ter o seu teatro 
e mandou edificar no Bulevar do Templo, nos terrenos do Palcio Foulon, o Teatro Histrico.
Infelizmente, a Revoluo de 1848 causaria profundo abalo nos negcios do grande prdigo. A Repblica, com que sonhara durante tanto tempo, no lhe foi favorvel. 
Candidato a deputado por diversos crculos, em todos foi mal sucedido. Para cobrir o dfice do Teatro Histrico teve de deixar vender em leilo a "Vila Monte Cristo", 
seis meses apenas depois da sua inaugurao... e apesar disso no conseguiu salvar o infeliz teatro. Perseguido pelos credores, Dumas tomou pois o partido de deixar 
a Frana no dia seguinte ao do golpe de Estado de 2 de Dezembro.
Instalado em Bruxelas, continuou a publicar em cadncia acelerada: quarenta volumes em 1852, trinta em 1853, a fbrica de Dumas trabalhava dia e noite, e contam-se, 
entre as produes desse perodo, obras de muito interesse, especialmente as suas Memrias.
No teatro o animador d porm indcios de falta de flego. O filho substitui-o e leva  cena, em 1852, A Dama das Camlias. O xito  prodigioso: sob as luzes da 
ribalta o nome Dumas continuou portanto a brilhar ainda durante muito tempo.
De regresso a Frana, aquele que de futuro ser tratado por Dumas pai funda um jornal intitulado Le Mousquetaire, ttulo que mais tarde substituiu pelo de Le Monte-Cristo 
e finalmente pelo de Dartagnan. Impvido, publica em 1854 mais de quarenta volumes; mais de trinta em 1855. Mas arrasta desde ento consigo, como outrora Balzac, 
um pesado fardo de dvidas. As citaes dos oficiais de diligncias multiplicam-se na sua correspondncia. Auguste Maquet, seu antigo colaborador, no se mostra 
menos encarniado em persegui-lo em justia, e ele, pelo seu lado, defende-se com certa rudeza. Consegue at atacar,  assim que em 1856 obrigar o seu editor, Michel 
Lvy, a pagar-lhe cerca de 200.000 francos de direitos de autor atrasados. Mas isso ser pouco para cobrir o seu passivo, que em 1 de Janeiro de 1862 ultrapassar 
624.000 francos (ou seja perto de trs milhes de novos francos). Apesar das mensalidades que Michel Lvy lhe pagar at  sua morte (e que diminuiriam muito alis 
nos ltimos anos}, Dumas morreu na penria.
Em 1858, abandonando Paris e os seus aborrecimentos,

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o escritor empreende atravs da Rssia e do Cucaso uma viagem que durar mais de um ano. Mal acabou de chegar, tentou-o nova aventura: Garibaldi preparava ento 
a sua expedio  Siclia e Dumas correu a pr-se ao seu servio. Depois da ocupao da Npoles, o heri da unidade italiana nomeou o romancista conservador dos 
museus napolitanos.

Dumas fez ainda outras viagens, percorreu a ustria e a Bomia. At ao fim da vida montou peas e publicou romances. Citamos entre estes A San Felice (1864), um 
dos mais atraentes, e esse proftico Terror Prussiano, publicado em 1868, apenas dois anos antes da sua morte. Paralelamente  lista das suas obras, a lista das 
suas amantes continuou a alongar-se at ao fim. A provocante imagem de Adah Menken, a bailarina americana que por volta de 1867 se deixou fotografar nos seus braos, 
subsiste como prova derradeira e simblica da vida amorosa de Alexandre Dumas.
Assim decorreu, entre xitos e demandas judiciais, o destino desse atleta que durante muito tempo pde dizer, como o seu heri Monte-Cristo: "Deus no me pode recusar 
nada!" e que s deixou de trabalhar quando a morte o venceu.
Numa carta aberta dirigida em 1864 a Napoleo III, Alexandre Dumas no hesitava em dar a seu respeito uma opinio de conjunto em que o orgulho se aliava a verdadeira 
perspiccia: "Havia em 1830 e ainda h hoje trs homens  frente da literatura francesa. Esses trs homens so Victor Hugo, Lamartine e eu... Escrevi e publiquei 
mil e duzentos volumes... Traduzidos em todas as lnguas, foram to longe quanto o vapor os pde levar. Embora seja o menos digno dos trs, os meus livros tornaram-me 
nas cinco partes do mundo o mais popular dos trs... porque um um pensador, o outro um sonhador e eu no passo de um divulgador."
H sem dvida partes mortas na massa enorme dos seus escritos, mas tambm h coisas belssimas. A histria do drama romntico reserva a Dumas um lugar de primeiro 
plano: Henrique III, Cristina, Antony, A Torre de Nesle, Kean, Mademoiselle de Belle-Isle, so xitos incontestveis que marcaram uma poca. Da obra em prosa seria 
fcil salientar muitas pginas admirveis, extradas principalmente das Impresses de Viagem e das Memrias. Quanto aos romances, Dumas escreveu, evidentemente, 
demasiados (no seria mais exacto dizer que assinou demasiados?): multiplicou desmedidamente os folhetins e as suas ideias mais felizes atolaram-se na torrente de 
uma redaco apressada.
A sua criao mais vigorosa, Os Trs Mosqueteiros, compreendia oito volumes na edio original. A continuao - Vinte Anos Depois -, ainda muito agradvel, rica 
em quadros coloridos e em personagens bem desenhadas, teve dez volumes. Um pblico cada vez mais numeroso, sedento de leitura (nesses tempos distantes sem cinema 
nem televiso), exigia constantemente

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novas histrias, exigia a continuao das aventuras de d'Artagnan. Le Sicle pagava trs francos por linha (francos-ouro), mas Dumas tinha sempre falta de dinheiro. 
Foi em tais condies que escreveu O Visconde de Bragelonne, que no teve menos de vinte e seis volumes e que, apesar de possuir bons episdios,  uma obra com frequncia 
fastidiosa. Assim, pouco a pouco, o contista deixou as suas produes degradarem-se, as quais acabaram por ter todos os defeitos que deram ao romance-folhetim a 
sua m reputao, embora merecessem de incio ser includas na nobre famlia do romance histrico.



Romance histrico... Os Trs Mosqueteiros pertencem com efeito a esse gnero literrio que Walter Scott ps em moda por volta de 1820, com composies que decorriam 
em ambientes medievais.
Dumas teceu as suas fices sobre uma trama do sculo XVII, misturando personagens reais das mais altamente colocadas com personagens imaginrias. As primeiras tm 
naturalmente comportamentos fantasistas. Quanto s outras, ocupam posies e desempenham papis que na realidade couberam a seres absolutamente diferentes. Mas isso 
no atrapalhava de modo algum o nosso autor, a sua inspirao endiabrada faz agir e falar Lus XIII e Richelieu, Ana de ustria e Buckingham, aparecer o chanceler 
Sguier, a duquesa de Chevreuse, um Rochefort, um Trville, um La Porte, um Cavois, reviver toda uma poca em que se sucedem as aventuras dos seus heris, d'Artagnan, 
os mosqueteiros e essa fascinante Milady,  volta da qual a aco se ata e desata com inegvel poder dramtico. O homem de teatro que primeiro foi Dumas utiliza 
aqui a sua cincia do dilogo e a sua arte de preparar os efeitos que lhe proporcionaram no palco to belos xitos. Geraes de leitores foram subjugadas por Os 
Trs Mosqueteiros, narrativa brilhante, cheia de movimento, de cor e de esprito. Hoje, passado mais de um sculo, o livro ainda conserva a sua frescura.
Quer isto dizer que no tem defeitos? Os seus mais sinceros admiradores, os mais autorizados, reconhecem as imperfeies de pormenor que revela uma leitura um pouco 
atenta.
No se deve porm esquecer que Alexandre Dumas escreveu um romance e no pretendeu fazer obra de historiador.
O tema fora-lhe inspirado pelas pseudo-Memrias de Mr. d'Artagnan, obra do polgrafo Courtilz de Sandraz (1647-1712). Esse livro, publicado em 1700,  uma teia de 
anedotas completamente forjadas com que Courtilz enriqueceu a biografia de uma personagem que realmente existiu. Juntamente com d'Artagnan, Dumas encontrou a os 
nomes dos seus principais heris: Athos, Porthos, Aramis, Trville e at Milady. Noutro apcrifo devido igualmente a Courtilz de Sandraz - Memrias de M. L. C. D. 
R. (Mr. le Comte de Rochefort) -, editado em 1687. Dumas colheu alguns factos complementares, especialmente a ideia da marca infamante que Milady tem no ombro.
Claro que para dar  sua narrativa a cor local indispensvel

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e o tom da poca, o autor de Os Trs Mosqueteiros teve de recorrer constantemente aos memorialistas autnticos do sculo XVII: Madame de Motte-ville, o cardeal de 
Retz. La Rochefoucauld (que forneceu a historieta das agulhetas de diamantes), La Porte, Gourville, Brienne, Tallemant des Raux, a duquesa de Montpensier, etc.
Dumas utilizou todos esses materiais com um brio incomparvel.
Parece igualmente que, para escrever o seu romance, Dumas se socorreu de obras mais recentes: o Richelieu evocado por Alfred de Vigny em Cinq-Mars e o Lus XIII 
descrito por Victor Hugo em Marion Delor-me podem muito bem ter sugerido alguns traos do Richelieu e do Lus XIII de Os Trs Mosqueteiros.

Quanto a d'Artagnan e aos seus trs amigos, Athos, Porthos e Aramis, o autor soube caracteriz-los, torn-los tipos e figuras verdadeiramente originais. A verdade 
empalidece junto da fico; contudo, o que se sabe acerca dos homens que serviram de modelo ao romancista no  destitudo de interesse.
Charles de Batz-Castelmore, conhecido por d'Artagnan (nome herdado da me), nasceu cerca de 1615, em Castelmore, no Barn. Comeou por servir na companhia de guardas 
comandada por Franois de Essarts e participou na campanha do Rossilho. Protegido por Mazarino durante a Fronda, fez a campanha da Flandres sob o comando de Turenne, 
foi nomeado em 1657 tenente dos mosqueteiros do rei e promovido a capito dez anos mais tarde. Foi ele que procedeu  priso de Fouquet (1661) e  de Lauzun (1671). 
Governador de Lille em 1672, foi morto, sob o comando de Vauban, no cerco de Maestricht, em 25 de Junho de 1673. Em 1659 casou com Charlotte-Anne de Chancely, que 
lhe deu dois filhos, mas separou-se da mulher em 1665. Em Vinte Anos depois e em O Visconde de Bragelonne, acompanha-se a sua carreira de soldado at ao seu fim 
glorioso. O romancista supe que d'Artagnan acabava de saber da sua nomeao de marechal de Frana quando tombou debaixo do fogo do inimigo.
Somos menos ricos de informaes biogrficas acerca dos trs irmos de armas de d'Artagnan. Athos devia o seu nome  aldeola do Barn onde nascera em 1615: chamava-se 
mais exactamente Armand de Sillgue d'Athos d'Autevielle. Protegido por Trville, de quem era sobrinho, alistou-se muito novo no regimento dos mosqueteiros e morreu 
prematuramente em 1643. O ttulo de conde de La Fere e as aventuras que Dumas lhe atribui so inteiramente imaginrios. Porthos, cujo verdadeiro nome era Isaac de 
Portou, nascera em Pau em 1617. Primeiro guarda do rei sob o comando de Essarts, torna-se mosqueteiro em 1643. A data da sua morte  desconhecida. Finalmente, Aramis 
foi identificado com um certo Henri d'Aramitz que casou em 16 de Fevereiro de 1654 com Jeanne de Barn-Bonasse, que lhe deu quatro filhos. Sabe-se que era tambm 
sobrinho do Sr. de Trville;  por esse motivo que se torna mosqueteiro, tal como o fora seu pai, Charles d'Aramitz. Dumas atribui a Aramis uma vocao religiosa: 
em Bragelonne far dele um bispo e at um geral dos Jesutas.

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A par dos protagonistas, livremente criados segundo a histria ou a lenda, h em Os Trs Mosqueteiros uma multido de personagens secundrias de uma veracidade impressionante: 
cortesos, soldados, religiosos, estalajadeiros, criados... enfim,  todo um povo que nos  mostrado nesse quadro fervilhante de vida. As figuras femininas salientam-se 
com brilho: Ana de ustria s aparecer em primeiro plano em Vinte Anos Depois, mas o seu orgulho e a sua melancolia j so evocados aqui com mo de mestre. A comovente 
Sr.a Bonacieux e a riqussima Sr.a Coquenard so criaes excelentes, no entanto excedidas por Milady, a perigosa aventureira, sucessivamente designada por Charlotte 
Backson, Anne de Breuil condessa de La Fere, condessa de Winter e finalmente Lady Clarick. Milady tem alguns pontos de semelhana com uma certa Lady Carlisle, citada 
nas Memrias de La Rochefoucauld. Ningum censurar ao escritor os seus aproveitamentos, uma vez que, inspirando-se numa personalidade sem relevo, soube animar um 
ser de carne e osso.

Foi verosimilmente no ms de Junho de 1843 que Alexandre Dumas travou conhecimento com as suas personagens.
Estando ento em Marselha, pedira ao seu amigo Joseph Mry, bibliotecrio da biblioteca municipal, que lhe emprestasse alguns volumes para documentar um livro que 
preparava acerca de Lus XIV.
Entre as obras que lhe confiou Mry encontravam-se as Memrias de Mr. d'Artagnan. Dumas leu-as e ficou encantado: tinha ali o tema de Os Trs Mosqueteiros. O seu 
interesse pela narrativa de Courtilz de Sandraz foi to grande que nunca mais restituiu o volume  biblioteca de Marselha.
Descobrira um bom tema, mas o romance estava por fazer. Ora as suas obrigaes naquele ano de 1843, j bastante adiantado, deixavam-lhe pouco tempo livre: tinha 
trs peas em ensaios em trs teatros diferentes e cinco ou seis livros na forja.
Para se desempenhar destas mltiplas tarefas, Dumas recorria, como j dissemos, a colaboraes.  realizao de Os Trs Mosqueteiros associou Auguste Maquet.
Qual foi a parte de Maquet na composio do romance? Tocamos num problema que originou interminveis querelas e que ainda hoje  controverso. Recordemos os seus 
dados essenciais.
Auguste Maquet, nascido em 1813, tinha cerca de dez anos menos do que Alexandre Dumas. Professor de Histria no Colgio Carlos Magno, trocou o ensino pela literatura. 
A sua situao era pouco prspera quando em 1838 Gerard de Nerval o apresentou a Dumas, ento em plena glria.
Obscuro e pobre, Maquet entrou ao servio do "ilustre autor de Antony" e compilou para ele estudiosamente.

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Os seus conhecimentos histricos encontraram ento o seu emprego1. Fez mais e adquiriu pouco a pouco o hbito de preparar a primeira redaco do folhetim, que Dumas 
} retocava depois e punha em condies de seguir para a tipografia.
Os dois homens entendiam-se muito bem: graas a Dumas, Maquet ganhava largamente a vida; graas a Maquet, Dumas via o seu trabalho facilitado.
Esta colaborao, que durou perto de dez anos, ficou assinalada pela realizao de uma quinzena de romances (dos mais notveis da obra de Dumas) e de uma dezena 
de peas de teatro. Dumas caminhava de xito em xito, desafiando os colegas invejosos que criticavam os seus mtodos de trabalho. E Maquet proclamava que estava 
contentssimo com a sua sorte.
Vieram os tempos difceis, a revoluo, o dfice. De sbito, Dumas j no consegue honrar os seus compromissos. Maquet zangou-se e decidiu escrever por sua prpria 
conta.
Depois de dez anos de trabalho em comum, aprendera a produzir no estilo de Dumas quase to bem como o prprio Dumas. Escreveu sozinho dois ou trs romances que o 
pblico acolheu favoravelmente. Da  concluso de ser ele o verdadeiro autor dos livros escritos com Dumas ia apenas um passo. Em 1857, Maquet dirigiu-se aos tribunais 
para obter que o seu nome figurasse ao lado do do chefe de equipa nas obras em que participara. Os juizes rejeitaram semelhante pretenso e limitaram-se a conceder 
ao queixoso um quarto dos direitos de autor.

Tinham fundamento as reclamaes tardias de Maquet? Dumas - ser necessrio enunciar semelhante evidncia? - era perfeitamente capaz de escrever os seus livros sozinho. 
Quando lemos as produes da sua juventude, as suas Impresses de Viagem na Sua, por exemplo, publicadas em 1833 e de que ningum lhe disputa a paternidade, ficamos 
impressionados pela leveza do estilo, simples e natural, que corre como gua cristalina. Logo desde as primeiras pginas ficamos sob o encanto do narrador; a histria 
do bife de urso ou as confidncias de Balmat-Mont-Blanc deliciaram os assinantes da Revue des Deux-Mondes, que saboreavam o prazer de um "dilogo espirituoso e sempre 
animado", de uma "narrativa que corre sem cessar e sabe transpor os obstculos sem nunca fraquejar" (Sainte-Beuvet.
Por mais paradoxal que isso possa parecer, Dumas desconfiava das colaboraes: "Esse gnero de trabalho reduz a arte s propores do ofcio", escreve em 1837. Todavia, 
tanto por fraqueza como por necessidade teve quase toda a sua vida de recorrer a auxiliares. As suas enormes necessidades obrigavam-no a trabalhar depressa e a produzir 
muito. Maquet permite-lhe ganhar tempo, o que era fundamental para um homem constantemente envolvido em mil e uma coisas.


*1. Pode-se no entanto duvidar que esses conhecimentos fossem muito superiores aos de Dumas. No  singular que o antigo professor de Histria tenha deixado passar 
diversos anacronismos?

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O papel de Maquet foi pois importante; mas sustentar que ultrapassou o de um esboador hbil seria, em nosso entender, exagerar.
Conforme observa Jacques Suffel, separado de Maquet, Dumas escreve as suas Memrias, e foi descrevendo a sua prpria pessoa que melhor mostrou at que ponto a alma 
dos d'Artagnans e dos Monte-Cristos se confundia com a sua.
 sempre difcil penetrar no mistrio da criao literria, e com Alexandre Dumas as dificuldades so maiores do que com outros.
Obra singular esta de Os Trs Mosqueteiros: inspirada em textos de diversas origens, marcada por vrias mos, mesmo assim d provas de uma robustez, de uma elegncia 
e de uma harmonia extraordinrias.  bem a tal obra, tanto como ao Jocelyn, de Lamartine, que se aplica o dito de Musset: "H nela gnio, muito talento e alguma 
simplicidade."

A que se deve finalmente o seu prestgio? Galhardia, relmpagos de armas refulgentes, generosidade natural de heris simpticos, episdios trgicos alternando com 
cenas de comdia e por vezes com duetos de amor de uma delicadeza requintada. Acrescentemos o gosto natural de Alexandre Dumas pela nobreza de sentimentos, pela 
grandeza: "Dumas agarra-se  tradio de grandeza", escreve Henri Clouard, "com uma dignidade que, sendo em tudo prpria dele, o aproxima de forma bastante inesperada 
de Stendhal atravs de um culto intermitente da energia de que Stendhal foi buscar a Itlia as figuras e os feitos e que Dumas encontra mais simplesmente em Frana..."
As razes desse poder de seduo explicou-as subtilmente por seu turno Andr Maurois: "A popularidade duradoura e universal de Os Trs Mosqueteiros", escreve, "mostra 
que Dumas, exprimindo ingenuamente atravs dos seus heris a sua prpria natureza, correspondia a uma necessidade de aco, fora e generosidade que  de todos os 
tempos e de todos os pases. A tcnica era to bem adaptada ao gnero que continua a ser a de todos aqueles que a experimentam."
A tcnica, Dumas possuiu-a decerto magistralmente. Mas a vitalidade e a chama ntima que animam quase todas as pginas do livro conservam o seu segredo.
 o caso de todas as obras-primas.

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SUMRIO BIBLIOGRFICO


I - EDIES PRINCIPAIS

Les Trois Mousquetaires, por Alexandre Dumas. Paris, Baudry, 1844.
8 vol. in-8.? - Edio original. Les Trois Mousquetaires, por Alexandre Dumas. Paris, Michel Lvy, 1846, in-8. Alexandre Dumas. Les Trois Mousquetaires. Introduo, 
bibliografia e
notas de Charles Samaran. Paris, Garnier, 1956.1  voL, in-18. Dumas. Les Trois Mousquetaires. Vingt ans aprs. Edio apresentada e anotada por Gilbert Sigaux. Paris, 
N.R.F. (Biblioteca da Pleiade),  1962, 1 vol., in-16.


II - OBRAS BIOGRFICAS E CRTICAS

Henri d'Almeras. Alexandre Dumas et les Trois Mousquetaires. Paris, 1929.
Henri Clouard. Alexandre Dumas. Paris, 1955. L. - Henry Lecomte. Alexandre Dumas, s vie intime. Paris, 1903. Andr Maurois. Les Trois Dumas. Paris, 1957. Eugne 
de Mirecourt. Fabrique de romans, Maison Alexandre Dumas
& Cie. Paris, 1845.
Hippolyte Parigot. Alexandre Dumas pre. Paris, 1902. Charles Samaran. D'Artagnan, capitaine des mousquetaires du ri.
Histoire vridique d'un hros de roman. Paris, 1912. Gustave Simon. Histoire d'une collaboration: Alexandre Dumas e
Auguste Maquet. Paris, 1919.


III - TEATRO

Alexandre Dumas extraiu trs peas de teatro da histria de d'Artagnan e dos mosqueteiros:

1. Les Mousquetaires, drama em cinco actos e doze quadros, precedido de VAuberge de Bthune, prlogo, por Alexandre Dumas e Auguste Maquet, representado pela primeira 
vez em Paris,

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no Teatro de l'Ambigu-Comique, em 27 de Outubro de 1845 (obra inspirada principalmente em Vingt ans aprs).


2. La Jeunesse des Mousquetaires, drama em cinco actos e catorze quadros, com prlogo e eplogo, por Alexandre Dumas (o nome de Maquet figura apenas no cartaz), 
representado pela primeira vez em Paris, no Teatro Histrico, em 17 de Fevereiro de 1849 (obra inspirada principalmente em Les Trois Mousquetaires).

3. Le Prisonnier de la Bastille, fin des Mousquetaires, drama em cinco actos e nove quadros por Alexandre Dumas, representado pela primeira vez em Paris, no Teatro 
Imperial do Circo, em 22 de Maro de 1861. (Maquet obteve por via judicial 50% dos direitos de autor sobre esta obra, inspirada principalmente em Le Vicomte au Bragelonne).


Coleco Livros de Bolso Europa-Amrica 

1 - Esteiros, Soeiro Pereira Gomes
2 - O Msico Cego, Vladimiro Korolenko
3 - Frei Lus de Sousa, Almeida Garrett
4 - A Oeste nada de Novo, Erich Maria Remarque
5 - A Misso, Ferreira de Castro
6 - Mar Morto, Jorge Amado
7 - A Um Deus Desconhecido, John Steinbeck
8 - O Valente Soldado Chveik, Jaroslav Hasek
9 - A Cidade do Sossego e O Capote, Nicolau Gogol
10 - O Monte dos Ventos Uivantes. Emily Bronte
11 - Gaibus, Alves Redol
12 - Cartas do Meu Moinho, Alphonse Daudet
13 - O Mdico e o Monstro, R. L. Stevenson
14 - O Homem e o Rio, William Faulkner
15 - Sementes de Violncia, Evan Hunter
16 - O Retrato de Ricardina, Camilo Castelo Branco
17 - Seres da Provncia, Jlio Dinis
18 - As Desencantadas, Pierre Loti
19 - Domingo  tarde, Fernando Namora
20 - Germinal, Emlio Zola
21 - Manh Submersa, Virglio Ferreira
22 - Bel-Ami, Guy de Maupassant
23 - Morreram pela Ptria, Mikail Cholokov
24 - O Prncipe, Nicolau Maquiavel
25 - As Mos Sujas, Jean-Paul Sartre
26 - Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett
27 - O Eleito, Thomas Mann
28 - O Grande Meaulnes, Alain-Fournier
29 - O Pregador, Erskine Caldwell
30 - Polikuchka, Leo Tolstoi
31 - Gente de Hems, August Strindberg
32 - Filha de Labo, Toms da Fonseca
33 - Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, Alexandre Solienitsin
34 - A Ciociara, Alberto Moravia
35 - Os Homens e os Outros, Elio Vittorini
36 - O Fogo e as Cinzas, Manuel da Fonseca
37 - Albergue Nocturno, Mximo Gorki
38 - Revolta na "Bounty", Sir John Barrow
39 - Recordaes da Casa dos Mortos, Fdor Dostoievski
40 - O Autmato, Alberto Moravia
41 - Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher, Stefan Zweig
42 - Morte Dum Caixeiro - Viajante, Arthur Miller
43 - A Rua do Gato Que Pesca, Yolanda Fldes
44 - Os Fidalgos da Casa Mourisca, Jlio Dinis
45 - A Ponte, Manfred Gregor
46 - A Noite Roxa, Urbano Tavares Rodrigues
47 - Melodia Interrompida, Boris Pasternak
48 - Nan, Emlio Zola
49 - Utopia, Thomas More
50 - Engrenagem, Soeiro Pereira Gomes
51 - A Religiosa, Diderot
32 - Noites Brancas, Fdor Dostoievski
53 - O Baro e Outros Contos, Branquinho da Fonseca
54 - Z, Vassilis Vassilikos
55 - Os Autos das Barcas, Gil Vicente
56 - Os Sequestrados de Altona, Jean-Paul Sartre
57 - Iracema, Jos de Alencar
58 - A Morgadinha dos Canaviais, Jlio Dinis
59 - Tartarin nos Alpes, Alphonse Daudet
60 - O Bailio de Lea, Arnaldo Gama
61 - Elogio da Loucura, Erasmo
62 - O Chapu de trs Bicos, Pedro Antnio de Alarcn
63 - Cndido, Voltaire
64 - A Mulher de Trinta Anos, Honor de Balzac
65 - Os Cavalos tambm Se Abatem, Horace McCoy
66 - O Lobo do Mar, Jack London
67 - A Casa de Bernarda Alba, Federico Garca Lorca
68 - O Satricon, Petrnio
69 - A Filha do Regicida, Camilo Castelo Branco
70 - Guerra e Paz (vol. I), Leo Tolstoi
71 - Guerra e Paz (vol. II), Leo Tolstoi
72 - O Denunciante, Liam O Flaherty
73 - A Me, Mximo Gorki
74 - Uma Vida, Guy de Maupassant
75 - Helena, Machado de Assis
76 - Escola de Mulheres e Dom Joo, Molire
77 - Antema, Camilo Castelo Branco
78 - O Sol de Cobre, Andr Kedros.
79 - Pescador de Islndia, Pierre Loti
80 - A Cela da Morte, Caryl Chessman
81 - Memrias Dum Sargento de Milcias, Manuel Antnio de
Almeida
82 - Um Heri do Nosso Tempo, Lermontov 
83 - Spartacus, Howard Fast
84 - A Arte de Amar, Ovdio
85 - O Sonho, Emlio Zola
86 - Contos, Hans Christian Andersen
87 - As Viagens de Gulliver, Jonathan Swift
88 - O Deserto do Amor, Franois Mauriac
89 - O Apelo da Selva, Jack London
90 - Cartas Portuguesas, Soror Mariana Alcoforado
91 - Duelo ao Sol, Niven Busch
92 - Paulo e Virgnia, Bernardin de Saint-Pierre
93 - As Pupilas do Senhor Reitor, Jlio Dinis
94 - Tarass Bulbo, Nicolau Gogol
95 - O Contrato Social, Jean-Jacques Rousseau
96 - O Po da Mentira, Horace McCoy
97 - Lolita, Vladimir Nabokov
98 - Noivas de Ningum, Henry de Montherlant
99 - Quo Vadis? Henryk Sienkicwicz
100 - Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, Alves Redol
101 - A Lei, Roger Vailland
102 - O Exorcista, William Peter Blatty
103 - Os Conquistadores, Andr Malraux
104 - Tristo e Isolda
105 - Kama Sutra, Vatsyayana
106 - Sonetos, Cames
107 - A Princesa de Clves, Madame de La Fayette
108 - Robinson Cruso, Daniel Defoe
109 - Stiras Sociais, Gil Vicente
110 - O Drama de Joo Barois, Roger Martin du Gard
111 - O N de Vboras, Franois Mauriac
112 - A Estepe. Tchekhov
113 - O Gavio Louco, Jean Carrire
114 - A Metamorfose, Franz Kafka

115 - Orgulho e Preconceito, Jane Austen
116 - Piedade para as Mulheres, Henry de Montherlant
117 - O Guarani, Jos de Alencar
118 - A Repblica, Plato
119 - O Barbeiro de Sevilha, Beaumarchais
120 - Grandes Esperanas, Charles Dickens
121 - O Amor do Soldado, Jorge Amado
122 - Menina e Moa, Bernardim Ribeiro
123 - A Letra Escarlate, Nathaniel Hawthorne
124 - A Grande Muralha da China, Franz Kafka
125 - Uma Noite em Lisboa, Erich Maria Remarque
126 - A Pequena Fadette. George Sand
127 - O Macaco Louco, A. S. Gyrgyi
128 - As Bodas de Fgaro, Beaumarchais
129 - O Jardim Perfumado, Xeque Nefzaui
130 - O Demnio do Bem, Henry de Montherlant
131 - Dez Dias Que Abalaram o Mundo, John Reed
132 - Cem Anos de Solido, Gabriel Garca Mrquez
133 - A Nusea, Jean-Paul Sartre
134 - A Ponte do Rio Kwai, Pierre Boule
135 - As "Jias" Indiscretas, Diderot
136 - Os Deuses Tm Sede, Anatole France
137 - O Processo, Franz Kafka
138 - Este  o Bom Governo de Portugal, Toms Pinto Brando
139 - Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse,
               Vicente Blasco Ibanez
140 - Discurso sobre a Origem e Fundamentos da Desigualdade
               entre os Homens,
               Jean-Jacques Rousseau
141 - Vinho e Po, Ignazio Silone
142 - O Bisturi, Horace MeCoy
143 - As Aventuras de Huckleberry Finn, Mark Twain
144 - A Filha do Arcediago, Camilo Castelo Branco
145 - As Leprosas, Henry de Montherlant
146 - Histria de Uma Revoluo, Ferno Lopes
147 - Chamado do Mar, James Amado
148 - O Arco de Sant Ana, Almeida Garrett
149 - Discurso do Mtodo, Descartes
150 - A Montanha Morta da Vida, Michel Bernanos
151 - Fanny Hil - Memrias Duma Prostituta, John Cleland
152 - A Prola, John Steinbeck
153 - O Anticristo, Friedrich Nietzsche
154 - Uma Famlia Inglesa, Jlio Dinis
155 - Amor Numa Rua Escura, Irwin Shaw
156 - A Besta Humana, Emlio Zola
157 - O Obelisco Negro, Erich Maria Remarque
158 - Tratado da Poltica, Aristteles
159 - A Cabana, Vicente Blasco Ibnez
160 - Amrica, Franz Kafka
161 - Mulherezinhas, Louisa May Alcott
162 - Alice no Pas das Maravilhas, Lewis Carroll
163 - A Dama das Camlias, Alexandre Dumas-Filho
164 - A Face da Justia, Caryl Chessman
165 - Romeu e Julieta, Shakespeare
166 - Esplendores e Misrias das Cortess - I, Balzac
167 - Esplendores e Misrias das Cortess - II, Balzac
168 - O Banquete, Plato
169 - Tempo para Amar e Tempo para Morrer, Erich Maria
Remarque
170 - A Famlia Beliamy, John Hawkcsworth
171 - A Famlia Bellamy - II. Segredos de Famlia, John
Hawkesworth
172 - A Famlia Bellamy - III. Os Novos Tempos, Mollie
Hardwick
173 - A Famlia Bellamy - IV. A Guerra para Acabar com as
Guerras, Mollie 
 Harck
174 - A Famlia Bellamy - V. A Dana Continua, Michael
Hardwick
175 - A Famlia Bellamy - VI, Fins e Princpios, Michael
Hardwick
176 - A Ilha dos Pinguins, Anatole France
177 - A Escrava Isaura, Bernardo Guimares
178 - Morte em Veneza, Thomas Mann
179 - Assim Falou Zaratustra, Friedrich Nietzsche
180 - Pensamentos, Pascal
181 - Alice do Outro Lado do Espelho, Lewis Carroll
182 - O Dia Cinzento e Outros Contos, Mrio Dionsio
183 - O Moinho  Beira do Rio - I, George Eliot
184 - O Moinho  Beira do Rio - II, George Eliot
185 - Bela de Dia, Joseph Kessel
186 - Alcoro - Parte I
187 - Alcoro - Parte II
188 - A Vida Amorosa de Moll Flanders, Daniel Defoe
189 - Lord Jim, Joseph Conrad
190 - De Angola  Contracosta - I, Hermenegildo Capelo e
Roberto Ivens
191 -. De Angola  Contracosta - II, Hermenegildo Capelo e
Roberto Ivens
192 - O Canto e as Armas, Manuel Alegre
193 - O Castelo, Franz Kafka
194 - As Aventuras de tom Sawyer, Mark Twain
195 - Os Infortnios da Virtude, Marqus de Sade
196 - Madame Bovary, Gustave Flaubert
197 - O Inferno, Dante Alighieri
198 - Aventuras de Pinquio, Collodi
199 - West Side Story ("Amor sem Barreiras), Irving Situlman,
200 - Praa da Cano, Manuel Alegre
201 - A Ingnua Libertina, Colette
202 - Ana Karenina - I, Leo Tolstoi
203 - Ana Karenina - II, Leo Tolstoi
204 20.000 Lguas Submarinas, Jlio Verne
205 - Os Carros do Inferno, Sven Hassel
206 - A Vagabunda, Colette
207 - Dois Anos de Frias, Jlio Verne
208 - O Zero e o Infinito, Arthur Koestler
209 - Moby Dick - A Baleia Branca - I, Herman Melville
210 - Moby Dick - A Baleia Branca - II, Herman Melville
211 - Dona Brbara, Rmulo Gallegos
212 - O Macaco Nu, Desmond Morris
213 - Catecismo Positivista, Augusto Comte
214 - Avieiros. Alves Redol
215 - Viagem ao Centro da Terra, Jlio Verne
216 - Como Eu Atravessei a frica - I, Serpa Pinto
217 - Como Eu Atravessei a frica - II, Serpa Pinto
218 - A Queda Dum Anjo, Camilo Castelo Branco
219 - A Cidade e as Serras, Ea de Queirs
220 - O Natal do Sr. Scrooge e Os Sinos de Ano Novo,
               Charles Dickens
221 - Lendas e Narrativas, Alexandre Herculano
222 - O Mandarim, Ea de Queirs
223 - Cinco Semanas em Balo, Jlio Verne
224 - Contos, Ea de Queirs
225 - A Ilustre Casa de Ramires, Ea de Queirs
226 - Doze Casamentos Felizes,, Camilo Castelo Branco
227 - Os Lusadas, Lus de Cames
228 - Os Canhes de Navarone, Alistair MacLean
229 - Os Maias, Ea de Queirs
230 - Histrias Extraordinrias - I, Edgar Allan Poe
231 - Novelas do Minho - I, Camilo Castelo Branco
232 - Lendas e Narrativas - II, Alexandre Herculano
233 - A ilha misteriosa - I. Os Nufragos do Ar, Jlio Verne
234 - As Minas de Salomo (de Rider Haggard), Ea de Queirs
235 - Eurico, o Presbtero, Alexandre Herculano
236 - O ltimo Dia Dum Condenado, Vtor Hugo
237 - O Livro de Cesrio Verde
238 - O Pas das Uvas, Fialho de Almeida
239 - A Honra Perdida de Katharina Blum, Heinrich Boll
240 - Corao, Cabea e Estmago. Camilo Castelo Branco
241 - Folhas Cadas, Almeida Garrett
242 - A ilha Misteriosa - II. O Abandonado, Jlio Verne
243 - O Crime do Padre Amaro, Ea de Queirs
244 - Os Meus Amores, Trindade Coelho
245 - Contra Mar e Vento, Teixeira de Sousa
246 - Mes e Filhas - I, Evan Hunter
247 - A Velhice do Padre Eterno, Guerra Junqueiro
248 - A Relquia, Ea de Queirs
249 - A Brasileira de Prazins, Camilo Castelo Branco
250 - Mes e Filhas - II, Evan Hunter
251 - O Primo Baslio, Ea de Queirs
252 - Amor de Perdio, Camilo Castelo Branco
253 - S, Antnio Nobre
254 - A Ilha Misteriosa - III. O Segredo da Ilha, Jlio Verne
255 - Dilogos III, Plato
256 - A Correspondncia de Fradique Mendes, Ea de Queirs
257 - A Harpa do Crente, Alexandre Herculano
258 - Eusbio Macrio, Camilo Castelo Branco
259 - At  Eternidade - I, James Jones
260 - Odisseia, Homero
261 - O Conde de Abranhos, Ea de Queirs
262 - A Corja, Camilo Castelo Branco
263 - At  Eternidade - II, James Jones
264 - O Bobo, Alexandre Herculano
265 - Campo de Flores - I, Joo de Deus
266 - Novelas do Minho - II, Camilo Castelo Branco
267 - O Regimento da Morte, Sven Hassel
268 - O Raio Verde, Jlio Verne,
269 - Os Pescadores, Raul Brando
270 - A Cartuxa de Parma - I, Stendhal
271 - Contos Populares Portugueses, Antologia
272 - Dicionrio de Milagres, Ea de Queirs
273 - A Cartuxa de Parma - II, Stendhal
274 - O ltimo Voo da Arca de No, Chas Carner
275 - Histria Trgico-Martima - I, Bernardo Gomes de Brito
276 - A Tulipa Negra, Alexandre Dumas
277 - A Felicidade no Se Compra, Hans Hellmut Kirst
278 - Histria Trgico-Martima - II, Bernardo Gomes Brito
279 - Histrias Extraordinrias - II, Edgar Allan Poe
280 - Robur, o Conquistador, Jlio Verne
281 - Alves & C., Ea de Queirs
282 - Deus Dorme em Masria. Hans Hellmut Kirst
283 - Campo de Flores - II, Joo de Deus
284 - Sonetos, Florbela Espanca
285 - Uma Vez no Basta, Jacqueline Susann
286 - Amor de Salvao, Camilo Castelo Branco
287 - In illo Tempore, Trindade Coelho
288 - Os Possessos - I, Dostoievski
289 - Os Possessos - II, Dostoievski
290 - Os Possessos - III, Dostoievski
291 - A Capital, Ea de Queirs
292 - A Mulher Fatal, Camilo Castelo Branco
293 - O Senhor do Mundo, Jlio Verne
294 - As Viagens de Marco Plo
295 - O Conde de Monte-Cristo - I, Alexandre Dumas
296 - A Freira no Subterrneo, Camilo Castelo Branco
297 - O Conde de Monte-Cristo - II, Alexandre Dumas
298 - Um Conto de Duas Cidades, Charles Dickens
299 - Sonetos Completos, Antero de Quental
300 - O Monge de Cister - I, Alexandre Herculano
301 - Ensaio sobre o Princpio da Populao, Thomas R. Malthus
302 - Oliver Twst, Charles Dickens
303 - O Livro (A Bblia)
304 - Sensibilidade e Bom Senso, Jane Austen
305 - Noites de Lamego, Camilo Castelo Branco
306 - A Ilada, Homero
307 - A Volta ao Mundo em 80 Dias, Jlio Verne
308 - O Monge de Cister - II, Alexandre Herculano
309 - Decmeron - I, Giovanni Boccaccio
310 - A Eneida, Virglio
311 - Verdes Anos, Colette
312 - Hamlet, Shakespeare
313 - Portugal Contemporneo - I, Oliveira Martins
314 - O Amante de Lady Chatterley, D. H. Lawrence
315 - Histria de Portugal - I, Oliveira Martins
316 - O Conde de Monte-Cristo - III, Alexandre Dumas
317 - Os Upanishades
318 - Portugal Contemporneo - II, Oliveira Martins
319 - Miguel Strogoff (1 parte), Jlio Verne
320 - Decmeron - II, Giovani Bocaccio
321 - Os Sos e os Loucos, - I, James Jones
322 - Miguel Strogoff (2.a parte), Jlio Verne
323 - Histria de Portugal - II, Oliveira Martins
324 - A Tragdia da Rua das Flores, Ea de Queirs
325 - Os Sos e os Loucos - II, James Jones
326 - Mistrios de Lisboa - I, Camilo Castelo Branco
327 - Os Analectos, Confcio
328 - Sonetos, Bocage
329 - Mistrios de Lisboa - II, Camilo Castelo Branco
330 - Da Guerra. Carl von Clausewitz
331 - Vidas Secas, Graciliano Ramos
332 - Mistrios de Lisboa - III, Camilo Castelo Branco
333 - Histria da Origem e Estabelecimento da Inquisio
               em Portugal - I,
               Alexandre Herculano
334 - Destroos de Guerra - I, James Jone
335 - Histria da Origem e Estabelecimento da Inquisio
               em Portugal - II,
               Alexandre Herculano
336 - So Bernardo, Graciliano Ramos
337 - Destroos de Guerra - II, James Jones
338 - Uma Cidade Flutuante, Jlio Verne
339 - Histria da Origem e Estabelecimento da Inquisio
               em Portugal - III,
               Alexandre Herculano
340 - Ilhu de Contenda, Teixeira de Sousa
341 - Os Simples, Guerra Junqueiro
342 - Livro Negro de Padre Dinis - I, Camilo Castelo Branco
343 - Morte aos Franceses, C. S. Forester
344 - Livro Negro de Padre Dinis - II, Camilo Castelo Branco
345 - Memrias do Crcere - I, Graciliano Ramos
346 - Contos Irnicos, Heinrich Boll
347 - Contos, Fialho de Almeida
348 - Peregrinao - I, Ferno Mendes Pinto
349 - Peregrinao - II, Ferno Mendes Pinto
350 - Memrias do Crcere - II, Graciliano Ramos
351 - Barranco de Cegos, Alves Redol
352 - O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha - I,
               Cervantes
353 - O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha - II,    
          Cervantes
354 - Capites da Areia, Jorge Amado
355 - Os Miserveis - I, Vtor Hugo
356 - Os Miserveis - II, Vtor Hugo
357 - O Canto do Carrasco - I, Norman Mailer
358 - Memrias do Crcere - I, Camilo Castelo Branco
359 - O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha - III,   
          Cervantes
360 - Memrias do Crcere - II, Camilo Castelo Branco
361 - Os Miserveis - III, Vtor Hugo
362 - Adeus, Califrnia, Alistair MacLean
363 - Os Miserveis - IV, Vtor Hugo,
364 - Os Miserveis - V, Vtor Hugo
365 - Psicologia das Multides, Gustave Le Bon
366 - O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha - IV,    
     Cervantes
367 - A Arte da Guerra, Sun Tzu
368 - Viagens e Aventuras do Capito Hatteras - I, Jlio Verne
369 - O Canto do Carrasco - II, Norman Mailer
370 - Exlio Perturbado, Urbano Tavares Rodrigues
371 - A Mantilha de Beatriz, Pinheiro Chagas
372 - Viagens e Aventuras do Capito Hatteras - II, Jlio
Verne
373 - Amar e Matar, Jean Genet
374 - Eli ou Romance Numa Cabea, Joo Gaspar Simes.
375 - Contos ou Histrias dos Templos Idos, Charles Perrault
376 - Filhos e Amantes - I, D. H. Lawrence
377 - ltimas Pginas, Ea de Queirs
378 - Ventos de Guerra - I, Herman Wouk
379 - Co Velho entre Flores, Baptista Bastos
380 - Rei Lear, Shakespeare
381 - Filhos e Amantes - II, D. H. Lawrence
382 - Ventos de Guerra II, Herman Wouk
383 - As Mil e Uma Noites - I
384 - As Mil e Uma Noites - II
385 - O Canho, C. S. Forester
386 - Tcnica do Golpe de Estado, Curzio Malaparte
387 Histria da Civilizao Ibrica, Oliveira Martins
388 - As Mil e Uma Noites - III
389 - Aplogos, Adivinhaes e Epigramas, Bocage
390 - Caets, Graciliano Ramos
391 - Contos, Jos Rgio
392 - As Mil e Uma Noites - IV
393 - Cancioneiro Alegre de Poetas Portugueses e Brasileiros
               I, Camilo Castelo Branco
394 - Blow Up e Outras Histrias, Julio Cortzar
395 - Fbulas, Curvo Semedo
396 - As Mil e Uma Noites - V
397 - Cancioneiro Alegre de Poetas Portugueses e Brasileiros -
               II, Camilo Castelo Branco
398 - Os Trs Mosqueteiros I, Alexandre Dumas
399 - Um Perigoso Entardecer, James Jones
400 - As Mil e Uma Noites - VI
401 - Os Trs Mosqueteiros - II, Alexandre Dumas
402 - Kaputt, Curzio Malaparte
403 - Dilogos IV - Sofsta - Poltica - Filebo - Timeu -   
          Crtias, Plato
404 - Ptria, Guerra Junqueiro
405 - Rio da Morte, Alistair MacLean 
406 Em busca do Tempo Perdido I, Do Lado de Swann, Marcel
Proust
407 - Os Trs Mosqueteiros - III, Alexandre Dumas


Data da Digitalizao


Amadora, Junho de 2003
